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As manifestações culturais negras, ao longo da época colonial, foram vistas com desconfiança pelas autoridades que regiam a América portuguesa. Em algumas circunstâncias, como vimos no item 4, aquelas manifestações eram permitidas e em outras reprimidas, porém, a despeito das condições impostas a elas, a cultura negra se fazia presente e notória na sociedade colonial. Buscamos, ao longo deste trabalho, entender tal permanência.

Ao final, chegamos a seguinte compreensão: a cultura negra permaneceu porque foi re-inventada pelos atores de ascendência africana na diáspora, portanto, ao nos referirmos a esta cultura, não estamos querendo dizer que a mesma passou intacta por todas as variações históricas que envolveram as populações africanas que foram submetidas ao tráfico ao longo do século XVIII. Pelo contrário, à luz do entendimento de que são as condições históricas que fazem com que os sujeitos dêem respostas às situações sociais a que estão expostos,1 nossa investigação levou-nos (mais do que procurar sobrevivências culturais negras) a uma percepção das condições históricas que permitiram a construção de novas identidades culturais e sociais negras, no espaço da Capitania de Pernambuco.

Identificamos e apresentamos nos capítulos deste trabalho, alguns elementos da trama social que contribuíram para a formação destas condições históricas. Entre eles destacamos a elite proprietária, os grupos subalternos, e as Irmandades de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos nas vilas de Recife, Goiana e Olinda, no século XVIII, e as relações que se estabeleceram a partir deles.

As demandas das elites locais de Recife, Olinda e Goiana, representadas nas Câmaras municipais daquelas cidades, quando não se relacionavam com questões relativas à economia – trabalhadores, comércio, preços e miséria - voltavam-se contra, na segunda metade do século XVIII, a política monopolista da Companhia Geral de Pernambuco e Paraíba, como vimos no item 2. Estas elites valiam-se do trabalho de pessoas que integravam os grupos subalternos, com o objetivo de manterem a sua condição econômica e social privilegiada.

Nos grupos subalternos da Capitania de Pernambuco, que procuramos caracterizar nos itens 2 e 3, apontamos a presença de negros - escravizados ou não, crioulos ou “nacionais”. A presença deles em Pernambuco contribuiu para a formação de redes de dominação entre a elite e os grupos subalternos. Entretanto, entre os integrantes dos grupos subalternos, inseridos em Irmandades religiosas, também se constituíram redes, só que de solidariedade

1 SOARES, Mariza de Carvalho. Devotos da Cor: identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de

(ao buscar cobrir as falhas do sistema na assistência aos pobres) 2, de reciprocidade e, em uma instância, também de dominação (com a marginalização e privação de irmãos, no interior das irmandades).3 No caso de Recife, Goiana e Olinda, destacamos a Irmandade de Nossa

Senhora do Rosário, presente nestas três vilas citadas.

A perspectiva metodológica utilizada por nós, conduziu-nos a fazer algumas comparações entre estas Irmandades a fim de percebermos suas semelhanças e diferenças. A base destas comparações foram os regimentos, estatutos ou Compromissos daquelas Irmandades, formulados em 1782 (Recife), 1783 (Goiana) e 1786 (Olinda).

Apesar das importantes semelhanças encontradas entre os regimentos daquelas Irmandades, as diferenças nos processos de confirmação dos Compromissos, evidenciam que o trato que a coroa portuguesa dispensava a cada uma daquelas Confrarias, não era igual. Mesmo diante de regulamentação única acerca de como as Irmandades deveriam proceder para terem um Compromisso aprovado, o comportamento da coroa em relação aos três casos acima, não foi homogêneo. Entendemos que este comportamento do Estado metropolitano português apresentava esta variação, em função das circunstâncias de cada vila: o que cada uma delas significava para a política ultramarina portuguesa, ou as tensões e distensões presentes nelas na época da confirmação dos estatutos das Irmandades do Rosário na década de 80 do século XVIII.

O diálogo entre aquelas Irmandades com o espaço também foi percebido na comparação dos conteúdos dos Compromissos. Certos capítulos ou constituições dos Compromissos, como por exemplo – os que falavam do número de procuradores ou os que definiam qual seria a área de atuação dos andadores da Irmandade - apresentaram especificidades nas três Confrarias, justamente porque as características do espaço físico, político e social das vilas era uma das referências e tinham influência sobre os conteúdos dos estatutos confrariais.

A análise da presença do templo da Irmandade do Rosário em Recife, Goiana e Olinda, conduziu-nos a compreensão de que aqueles edifícios tornaram-se referência nas vilas. A Igreja do Rosário em Recife, Goiana e Olinda, na medida em que atenderam a outras demandas sociais, além das previstas pelos irmãos pretos (seus construtores) adequavam-se a outros interesses, num processo que se mostrou por vezes conflituoso, pois, para as Irmandades (suas proprietárias) os templos simbolizavam espaços mais que sagrados. Além

2 SCARANO, Julita. Devoção e Escravidão: a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos no Distrito

Diamantino no século XVIII, p. 94-95.

3 MAC CORD, Marcelo. O Rosário de D. Antônio: irmandades negras, alianças e conflitos na história social do

de abrigarem a imagem da “santa” protetora, também era local de enterramento e onde se realizavam as missas regulares da confraria, evidentemente, freqüentadas pelos vivos. Era, sobretudo, local de convivência entre os vivos, onde trocas simbólicas ou culturais aconteciam.

As manifestações religiosas e culturais, que se apresentavam nestas Irmandades, por exemplo, as missas, as procissões, os ritos fúnebres, as festas, as folias do Congo, as danças e músicas africanas (os batuques), tornaram-se oportunidades de se evidenciar socialmente as posições hierárquicas dos indivíduos ligados àquelas Irmandades, em uma espécie de pequeno teatro que representava no interior da confraria a um mecanismo da sociedade estamental, onde os crioulos forros e os indivíduos “nacionais” procedentes de Angola estariam no topo tanto da hierarquia da administração da Irmandade quanto do reinado do Congo, respectivamente. Expunham-se, desta forma, as novas identidades forjadas entre os negros. As manifestações superavam as barreiras da sociedade escravocrata, a partir dos próprios códigos disseminados pelas classes dominantes. O efeito disso é tão complexo quanto de difícil compreensão, porém, nos libera dos maniqueísmos duros para que verifiquemos as contradições do sistema que tanto poderiam opor membros das classes dominantes, como também membros dos grupos subalternos, ou posicionar do mesmo lado grupos dominantes e grupos subalternos, ainda que a dinâmica predominante na sociedade fosse à oposição entre senhores e escravos.

Está claro que da mesma forma que não se pode falar em classe dominante homogênea na América portuguesa, inclusive Pernambuco (se não, como compreender a oposição entre a “mascataria” e a “nobreza da terra” que discutimos no item 2), também não se pode homogeneizar os grupos subalternos e nem os negros inseridos neste grupo. Não havia uniformidade ou padrão nos comportamentos individuais dos negros. Contudo, sobre o comportamento coletivo em Irmandades, temos outra visão.

Nossa análise das Irmandades do Rosário em Recife, Goiana e Olinda, faz-nos afirmar que pelo menos um padrão se estabeleceu entre elas: tornaram-se espaços de representatividade negra no interior da ordem estabelecida. Atuando a seu modo como organizações legítimas, ou permitidas pela ordem vigente, promovendo expressões de culto e devoção a santos católicos. Por serem permitidas e abrigarem gente que na economia da América portuguesa não era o grupo que desfrutava das possíveis vantagens do sistema, pelo contrário, aproximavam-se dos subalternos.

Apesar disso foram espaços onde ora se requisitou alforria, ora autonomia administrativa, ora se buscou representação cultural e ora foi palco de disputas internas. Isso

indica que ser subalterno não significava ser inoperante ou conformado com o destino que lhe foi imposto. As Irmandades negras que estudamos aqui, mostraram que suas atividades também tinham um sentido de afirmação da vontade de seus membros, entretanto, sua atuação não pretendeu, pelo menos a partir da documentação vista por nós, promover uma mudança social tal, que pudesse elevar os seus membros a uma condição de fazer parte dos grupos dominantes, no século XVIII.

Mas, já que os grupos subalternos não eram homogêneos, e mesmo no interior dele havia, na América portuguesa uma hierarquia, diríamos que a atuação das Irmandades negras poderiam promover mudanças na vida de seus membros dentro desta estrutura, portanto, era uma atuação limitada, porém, importante e com desdobramentos para além da época que estudamos neste trabalho, sobretudo, no âmbito da cultura. As irmandades negras eram agentes de produção de cultura e campos que mediaram a formação de novas identidades na diáspora negra. Aliás, a identificação cultural seria o esteio para que os irmãos se sentissem pertencentes à comunidade e a fonte para que as irmandades negras atuassem de forma diversificada no espaço social.

Diferentemente do que tem ocorrido para o século XIX, analisar historicamente a cultura negra em Pernambuco no século XVIII é um caminho que ainda precisa ser percorrido com mais profundidade. Creditamos a dificuldade em se levar a diante estudos dessa natureza, em função da carência de fontes produzidas pelos próprios negros. Porém, entendemos que, como foi feito para estudos dessa natureza relativos ao século XIX, a utilização de fontes oficiais na busca do discurso contrário somado com diários de viajantes, representam um caminho para esta tarefa, que poderia revelar mais amplamente as cores e os movimentos das culturas das populações negras que se constituíram na história de Pernambuco no Setecentos.

Não foi possível, através deste estudo, respondermos a todas as perguntas a que nos propomos no início do projeto, e a outras que surgiram com o andamento da pesquisa. As lacunas deixadas poderão ser preenchidas a partir de novas pesquisas. Entre elas destacamos a necessidade de se precisar melhor as despesas realizadas pelas Irmandades que focalizamos, a fim de termos um panorama mais exato de como as Confrarias empregavam o seu dinheiro. Outro ponto que mereceria maiores esclarecimentos tem haver com a existência ou não de conflitos étnicos nas Irmandades do Rosário contempladas, assim como ver com mais precisão o papel feminino. No caso específico da Irmandade do Rosário de Olinda, pelo menos duas questões mereceriam mais atenção: a relação daquela Irmandade com os párocos e os significados da presença do hospício do hábito de São Pedro na igreja da Irmandade, em parte do século XVIII, conforme descrevemos preliminarmente no item 3.

LISTA DE DOCUMENTOS