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Na docência, como em outras atividades laborais, há uma luta árdua em torno dos ho- rários, e os ritmos chamados de naturais vão se transformando, por razões tecnológicas e so- cioeconômicas. As atividades noturnas se multiplicam, como se o dia não fosse suficiente para realizar as tarefas; diminui a hora de descanso, em detrimento de um programa com a família; estende-se um final de semana inteiro trabalhando, para se liberar uma hora a menos durante a semana. De outra parte, a docência é um trabalho eivado de imprevistos, de riscos,

89 de incertezas e de tensões, porque se constitui, fundamentalmente, a partir de relações cotidi- anas, diárias, frequentes, diretas, entre sujeitos socioculturais distintos, inclusive do ponto de vista das temporalidades geracionais, conforme adverte Inês Teixeira (1998).

Essa forma como professoras e professores tentam lutar ao redor do relógio, para cumprir as suas atividades diárias, muitas vezes torna-se até mesmo desumana. Ademais, cumprir as métricas do tempo do relógio causa tensão, pois o cérebro e o corpo dos indivíduos estão o tempo inteiro se adaptando a novos ritmos (Henry LEFBVRE e Catherine REGULIER, 1992), entre outras razões para tal.

As professoras e professores pesquisadas/os trabalham em duas e até em três redes di- ferentes. Desdobram-se entre escolas públicas urbanas e do campo, das redes estadual e muni- cipal, bem como entre as escolas da rede particular de ensino. Contudo, concentram-se mais na rede pública e complementam suas jornadas na rede particular, conforme gráfico abaixo:

Gráfico 06: Os professoras/es em relação as redes de ensino onde atuam – por sexo

Em relação às jornadas de trabalho, constatamos que 67,6% das professoras e 62,8% dos professores assumem carga horária equivalente a 40 horas semanais, ou seja, mais da me- tade das/dos docentes pesquisadas/dos. De outra parte, verificamos também que, dentre as/os pesquisadas/os, os homens costumam ampliar a carga horária para 60 e até 80 horas mais que as mulheres, mesmo porque estas últimas assumem uma terceira e/ou quarta jornada de traba- lho em casa, responsabilizando-se pelo trabalho doméstico, dentre outras obrigações. Nesse processo de ampliação das jornadas, enquanto 24,6% das mulheres possuem carga horária de 60h semanais, 31,4% e 5,7% dos homens possuem jornadas de 60 e 80 horas semanais, res- pectivamente, conforme gráfico abaixo:

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Gráfico 07: Jornadas das/os professoras/es pesquisadas/os – por sexo

Em relação aos docentes que assumem jornadas de até 80 horas semanais, há uma es- tratégia mobilizada por eles. Segundo o professor Jonas, se faz necessário uma boa relação com o coordenador pedagógico ou outro profissional que organiza os horários de aula, pois o docente necessita da concentração de maior parte da carga horária em um dos turnos de traba- lho, ou seja, ocupa todos os tempos da semana mais um ou dois dias do segundo turno, sem intervalo18. Já sua inserção na escola privada se dá de duas formas: através da assunção de um turno de trabalho nos anos iniciais ou de uma determinada quantidade de aulas que podem ser em dias, turnos e horários alternados.

Em relação aos tempos dedicados ao trabalho docente e seus desdobramentos, a tabela abaixo ilustra o quanto eles são centrais e intensos na vida das professoras e professores pes- quisadas/os:

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Por exemplo, se o docente possui 40h na rede municipal, 28 horas dessas, obrigatoriamente, deve ser dedicada ao efetivo trabalho na sala de aula. Desse modo, o coordenador distribui cinco horas por dia em um só turno, somando assim 25 horas. As três horas de aula restantes são distribuídas em dois dias do segundo turno, junta- mente com as horas da reserva técnica, destinada às atividades extras. Com essa articulação, sobram três dias de um turno mais o terceiro turno inteiro para distribuição das próximas 40 horas na rede estadual e/ou particular.

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Tabela 02: Tempos dedicados ao trabalho escolar

Tempos dedicados ao trabalho escolar (segunda a sexta-feira)

Jornadas de Trabalho (horas semanais) 20h 40h 60h 80h Tempos dedicados ao efetivo trabalho em sala de aula 14h 28h 42h 56h Tempos liberados da carga horária semanal para realização

dos trabalhos da docência – Reserva técnica

06h 12h 18h 24h Tempos dedicados ao trabalho docente fora da escola, a-

lém da reserva técnica, em média

05h 15h 20h 10h Total de horas dedicadas à docência por semana, em média 25h 55h 80h 90h Total de horas dedicadas à docência por dia, em média 05h 11h 16h 18h

Além tempos dedicados ao trabalho escolar no decorrer da semana, há, também, os sá- bados19 letivos, especialmente nas redes municipal e estadual, para o cumprimento dos 200 dias letivos exigidos pela LDBEN 9394/96. Essa exigência, ao que se tem visto nos tempos cotidianos docentes, não tem proporcionado melhores resultados para educação, muito pelo contrário, a complementação dos 200 dias é realizada em sábados improdutivos, pois não há o comparecimento de discentes, enquanto professores e professoras ficam cumprindo horário na escola, muitas vezes realizando atividades não letivas, ou apenas para “cumprir tabela”, como explica a professora Lúcia (Mensagem pela internet, em 11 de maio de 2013). De outra parte, professores e professoras ficam imprensados entre os tempos na escola, da escola em casa e os tempos dos trabalhos da casa que não existe nenhuma possibilidade de outros afazeres ci- entíficos e culturais diferentes dos tempos de trabalho. Condição essa que também compro- mete a luta por melhores salários, condições de trabalho, pela qualidade da educação, dentre outras, pois já não há mais tempo para se reunir, para pensar a profissão, para fazer a assem- bleia, quando isso ocorre, é com a ameaça do “vai ter que pagar”. Desse modo, professoras e professores estão sempre a serviço da escola, quer seja em seu espaço de trabalho, seja em seu espaço privado, ora invadido e expropriado pelo trabalho.

Sendo assim, podemos inferir que poucos tempos sobram para o lazer e para as práti- cas culturais, porque professoras e professores trabalham muito na tentativa de ganhar mais, contudo, mesmo com a ampliação das jornadas, no intuito de aumentar os seus rendimentos mensais, muitas vezes transgredindo as normas trabalhistas, os limites do corpo, os salários

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A base utilizada para análise foi os calendários escolares do ano letivo 2013, das redes municipal e estadual de ensino, os exigiram o cumprimento de 20 sábados letivos. Desse modo, temos mensalmente, em média dois sábados letivos: 08 horas a mais por mês para as/os docentes que possuem jornada de 20h semanais, 16 horas para aqueles que possuem jornada de 40h e 24h para aqueles que possuem jornada de 60 e 80 horas. Supomos que as/os docentes que possuem cargas horárias entre 40 e 80 horas semanais cumprem os dispositivos referentes aos que possuem jornadas de 40 ou 60h porque ampliam suas cargas horárias na rede particular, nas quais, ge- ralmente, só trabalham no sábado eventualmente.

92 não chegam ao patamar necessário para suprir suas necessidades humanas, primeiro porque os indivíduos vivem subsumidos, de um lado pelo trabalho, de outro pelo consumo, mas tam- bém, porque os rendimentos continuam muito baixos, principalmente em relação a outras pro- fissões, como ilustra o gráfico a seguir:

Gráfico 08: Renda pessoal mensal das/os professoras/es – por sexo

Constatamos que a renda mensal das/dos docentes é muito baixa em relação as suas jornadas de trabalho. A maioria (60% dos homens e 52,3% das mulheres pesquisados/as) re- cebe o teto máximo de 04 salários mínimos mensais, o equivalente hoje a 2.912,00 (dois mil e novecentos e doze reais), seguida de outras/os que recebem entre até 07 salários mínimos, o equivalente hoje a 5.096,00 (cinco mil e noventa e seis reais) por mês.

A pesquisa também revelou que não há muita diferença entre a renda familiar e pesso- al, porque, geralmente, somente um dos adultos provedores possui trabalho assalariado, por isso assume toda a responsabilidade da família. De outra parte, 71,4 dos homens e 83% das mulheres informaram que a renda familiar advém exclusivamente da docência, conforme grá- fico a seguir:

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Gráfico 09: Origem da renda – por sexo

Mesmo assim, é muito significativo o percentual referente a pessoas que conseguem realizar outras atividades de renda, frente as suas excessivas jornadas de trabalho na escola, e no caso das mulheres, somadas às da casa. Nas próprias escolas, formam uma rede de comér- cio itinerante, vende-se e compra-se nas mãos umas das outras, uma estratégia inconsciente que fortalece, entre elas, o mercado de bijuteria, produtos de beleza, lingerie, dentre outros. Já os homens aproveitam para trabalhar no período de alta temporada, no trade turístico, e du- rante todo o ano, com aluguel e vendas de imóveis, em academias dentre outras atividades paralelas à docência.