Nesta seção, destaca-se o contexto em que os estudos de rede surgiram e algumas características desse tipo de estruturação de relações sociais.
Os estudos de rede têm amadurecido graças a trabalhos muito referenciados, como o do sociólogo espanhol Manuel Castells (1999), que, na obra intitulada de “A sociedade em rede” (original de 1996), foca as influências das tecnologias (em especial a internet) sobre a cultura e as formas de comunicação entre as pessoas. Além da comunicação, há que se ressaltar que os indivíduos envolvidos nos grupos podem agir de maneira coletiva no sentido da criação de redes, independentemente de diferenças concernentes a aspectos socioeconômicos e gênero, entre outras variáveis.
Rede, em resumo, é a associação, por meio de contatos entre si, de pessoas e organizações em torno de objetivos em comum. Sendo assim, pode se estabelecer com a intenção de conquistar
recursos e oportunidades que as pessoas não obteriam se agissem individualmente (CRUZ; QUANDT, 2007). Além dessa classificação geral, outros estudos têm buscado estabelecer tipologias que possibilitem melhor entendimento das formas que as redes podem assumir. Contudo um dos pontos essenciais que este estudo procura evidenciar é que a formação de redes se mostra extremamente relevante para que os indivíduos conquistem, com mais facilidade, “espaços” na sociedade, de modo a se fortalecerem diante do Estado como grupos sociopolíticos.
O aumento do uso das mídias e da internet possibilita a formação de uma grande rede que conecta os indivíduos, criando o que se denomina de “sociedade em rede”. Assim, o mundo se torna cada vez mais digital (CASTELLS, 1999). Isso se justifica, porque a informação é tão importante na sociedade atual que o consumo das mídias só é menor que a atividade do trabalho.
A rede constitui “um conjunto de participantes autônomos, unindo ideias e recursos em torno de valores e interesses compartilhados” (MARTELETO, 2001, p.72). Além dos benefícios sociais que se espera, há uma série de responsabilidades e necessidades de tomada de decisões, o que caracteriza claramente a rede como uma organização social. Há uma valorização das relações e dos elos informais nas redes em detrimento das estruturas hierárquicas, pois as ações dos indivíduos dependem dos espaços políticos nos quais se inserem e das socializações e mobilizações que empreendem.
Rede pode ser conceituada também como “o campo, presente em determinado momento, estruturado por vínculos entre indivíduos, grupos e organizações constituídos ao longo do tempo”. Além disso, “esses vínculos podem ter sido construídos intencionalmente, embora a sua maioria tenha origem em relações herdadas de outros contextos” (MARQUES, 1999, p.46). Portanto a rede pode ser definida segundo uma visão contextual e histórica, já que ocorre como uma construção por meio de vínculos intencionais entre os indivíduos.
Nas redes há uma necessidade da confiança mútua entre as pessoas para o estabelecimento das relações sociais, que se iniciam com o reconhecimento do outro, ou seja, com a “aptidão que um indivíduo desenvolve para perceber, detectar, localizar numa outra pessoa uma característica que não havia sido percebida antes (...)” (COSTA, 2005, p.243). Dessa forma, pode-se entender que a formação e estabelecimento de redes se dá com base na intenção de aliar-se a pessoas com as quais existe algum tipo de identificação, seja como semelhança, seja como forma de buscar alguma complementaridade pelo conhecimento do outro.
Ainda não existe uma Teoria de Redes, haja vista que o conceito pode ser utilizado para descrever muitas teorias sociais. Contudo Marteleto (2001) chama a atenção para a importância da análise do conjunto de relações que os indivíduos estabelecem nas suas interações, sendo essas a unidade de análise e não os atributos individuais, como idade, classe, sexo ou gênero.
De acordo com os elementos apresentados, considera-se a rede uma estrutura relacional criada e sustentada por vínculos e interações entre os indivíduos, apresentando uma dinâmica relacional fundamentada no intercâmbio de informações e no uso do capital social, bem como na presença de um contexto comunitário amparado por confiança, cooperação e solidariedade. Dessa forma, ao se buscarem análises de redes sociopolíticas, conforme se pretende neste estudo, agrega-se a essas caraterísticas a presença de coordenação política e o estabelecimento de laços associativos com indivíduos e organizações, com vistas à realização de ações políticas e ao empoderamento dos grupos sociais envolvidos.
As redes sociais podem ser formadas intencionalmente, como mostra Aguiar (2007a), ao dizer que o verbo to network indica, em tradução mais lógica para a língua portuguesa, certas ações, como “enredar”, “emaranhar-se”, “prender-se na rede”. Sendo assim, pessoas de mais capacidade de liderança podem formar redes, ao articular pessoas e interesses comuns, tanto agindo como indivíduos quanto atuando no papel de atores sociais em nome de organizações. Os vínculos frágeis se mostram relevantes para a veiculação de informações e para a construção de coordenação política, enquanto os vínculos fortes se mostram relevantes em relações mais verticalizadas e em contextos de coesão e comando (GRANOVETTER, 1973; MARQUES, 2007).
A Figura 1 permite melhor compreensão das relações entre os conceitos e os termos destacados na discussão apresentada.
Figura 1 – Formação de redes sociais e possibilidades de ações
Fonte: Elaborada pelo autor, 2015.
De acordo com a discussão realizada e a Figura 1, o capital social é apresentado como elemento essencial para a formação e o estabelecimento de redes sociais. Ele é que possibilita que os indivíduos se identifiquem, interajam, criem vínculos, estabeleçam redes e se organizem socialmente. A organização social é um elemento essencial, que torna possível uma série de ações que podem levar ao empoderamento dos indivíduos, como sujeitos, e também de seus grupos.
Portanto, para alcançar o desenvolvimento de redes, torna-se necessário empregar o capital social, que também é útil para permitir mais coesão e inclusão dos indivíduos em suas comunidades e associações, aumentar o empoderamento e a ação política, bem como amenizar ou cessar conflitos nos grupos. Esse capital tem a fonte na própria participação em
grupos, organizações ou associações, ao se criarem redes sociais. Além disso, é reforçado em detrimento do grau de confiança, da cooperação e da solidariedade entre membros de uma rede e é operacionalizado nas ações coletivas e cooperativas, que dependem do nível de participação dos indivíduos (PUTNAN, 2007).
Há que se esclarecer que a ideia de “redes” surgiu como metáfora, para representar organizações nas quais prevalecem a colaboração e a cooperação entre os segmentos envolvidos. Exemplos têm surgido nas últimas décadas, expondo diversas iniciativas de colaboração solidária e organizações formadas por redes de indivíduos com necessidades e/ou objetivos comuns, como Conselhos Participativos, Sistemas Locais de Troca (SLT), Sistemas Comunitários de Intercâmbio, Cooperativa Mista de Consumo, Produção e Trabalho; e Autogestão de Empresas pelos Trabalhadores (MACHADO E TIJIBOY, 2005). Dessa forma, as redes podem ser classificadas como plurais ou organizacionais. As plurais, também chamadas de multimodais, são as formadas por indivíduos ou atores sociais; as organizacionais ou interorganizacionais são aquelas nas quais os indivíduos interagem apenas em função da organização (AGUIAR, 2007a). No caso deste estudo, o foco encontra-se nas redes plurais.
Após breves esclarecimentos sobre o desenvolvimento do conceito de rede, faz-se necessário esclarecer os diferentes contextos e campos nos quais tem sido estudada