- Assim é – redarguiu Sansão -, mas uma coisa é escrever como poeta e outra como historiador; o poeta pode contar ou cantar as coisas, não como foram, mas como deviam ser, e o historiador há de escrevê-las, não como deviam ser, mas como foram, sem acrescentar nem tirar à verdade mínima coisa (CERVANTES, 1960, p.537).
Foi Aristóteles, no capítulo IX de sua Poética, o primeiro a demarcar limites entre o historiador e o poeta. Aristóteles afirmou que não é em metrificar ou não que difere o poeta do historiador. Para ele a obra de Heródoto poderia ser metrificada e ainda assim seria história. Aristóteles preferiu enfatizar o princípio da verossimilhança: a diferença está em que um – o historiador – narra acontecimentos e o outro – o poeta – narra fatos que poderiam acontecer.
A compreensão do teórico é favorável ao poeta, que assim se aproxima do filósofo, por tratar do universal, enquanto o historiador dele se afasta, por limitar-se ao particular. Desse modo a poesia encerra mais filosofia e elevação do que história porque a filosofia encerra verdades gerais e a história relata fatos particulares. Essa valorização do poeta frente ao historiador, tendo como ponto terminal de excelência o filósofo, constitui clara refutação da tese platônica de não ser o poeta mais que um imitador de simulacros, que por isso mesmo
está muito distante da verdade. Aristóteles deixa claro que há, por parte do poeta, uma intencionalidade seletiva. Homero, por exemplo, quando narrou a Odisseia, não narrou tudo quanto aconteceu ao herói, mas compôs a Odisseia em torno de uma ação única, como a entendemos, e assim o fez também com a Ilíada.
A distinção entre o poeta e o historiador tem sido retomada ao longo do tempo por inúmeros estudiosos e teóricos da literatura. Segundo os irmãos Edmond e Jules Goncourt (1972), enfatizando a função documental, realista do romance, ele seria equivalente à da história21, e afirmaram que:
o romance depois de Balzac não tem mais nada em comum com aquilo que nossos pais entendiam como tal. O romance atual se faz com documentos narrados, ou extraídos da natureza, como a história se faz com documentos escritos. Historiadores são narradores do passado; os romancistas, narradores do presente (p.552).
Segundo essa interpretação, a história é um romance que foi e o romance é a história que poderia ter sido. Nesse sentido o historiador é preso aos documentos escritos e o romancista aos documentos narrados ou extraídos da natureza. Os irmãos Goncourt enfatizavam o contraste ‗passado versus presente‘, o que, de algum modo, parecia inviabilizar a fatura do romance histórico, já que este, por definição, estaria interessado no relato de acontecimentos pretéritos, campo reservado ao historiador.
Para Balzac, a história é, ou deveria ser, o que foi, ao passo que o romance deve ser (para) o mundo melhor. Quando compõe quadros da sociedade francesa nos quais as ações irrepreensíveis, as faltas, os crimes, dos mais leves aos mais graves, nele se encontra sempre o castigo divino ou humano. Daí lhe parecer que ―a história não tem por lei, como o romance, propender para o belo ideal‖ (BALZAC, 1955, p.18).
É preciso registrar que o historiador, necessariamente, nem sempre consegue a exata reconstituição do que foi. Balzac queria distinguir-se claramente dos historiadores, não só na atenção dedicada a um aspecto da vida por eles negligenciado: a história dos costumes. Pode- se perceber isso, claramente no prefácio Comédia Humana, de 1842. Ele afirma: ―atribuo aos fatos constantes, cotidianos, secretos ou patentes, aos atos da vida individual, às suas causas e aos seus princípios, a mesma importância que até agora os historiadores atribuíram aos acontecimentos da vida pública das nações‖ (BALZAC, 1955, p.19). Balzac queria se destacar dentre historiadores, especialmente com a prerrogativa que assumia que era a de ‗corrigir‘ a própria história.
21 Os irmãos Goncourt concebiam o romance como uma das formas de história. Para eles ‗os romances
Para Sandra Guardini Vasconcelos (2002), antes de Balzac, ainda no século XVIII, romancistas e teóricos já apontavam a superioridade moral do romance em contraposição ao valor edificante da história. Segundo ela, ―o romancista pode até cometer erros quanto aos detalhes factuais, mas pinta as pessoas como verdadeiramente são, ao passo que os historiadores, obrigados a aderir aos fatos, acabam discordando em matéria de interpretação, o que torna suas obras ficção‖ (p.93).
Segundo Luiz da Costa Lima (1984),
por sua forma narrativa, pelos conflitos personalizados de suas personagens, o romance está junto, não só da prosa diária, quanto da forma narrativa privilegiada desde fins do século XVIII: a forma da História. Por isso, ainda quando não pudesse disfarçar seu germe da fábula, o romance procura esquecer sua mancha originária, fazendo-se semelhante à história (p.111).
De fato, Baculard d´Arnaud, em seu discurso sobre o romance de 1745, a história era mais romanesca que o realista moderno, pois tratava de acontecimentos incomuns e não tinha, como este, utilidade moral. Evidente que a palavra romanesca é empregada para apontar o caráter espantoso dos acontecimentos, por oposição à natureza trivial dos fatos relatados no romance realista moderno.
Na citação que abre este capítulo podemos perceber a sutileza na distinção gradual entre ‗cantar‘ e ‗contar‘, ambos atribuições possíveis do poeta, que dispõe de ampla liberdade no trato da matéria sobre a qual discursa. Ele pode escolher entre manter-se ligado à verdade dos fatos – contar – ou afastar-se dela quando lhe convém – cantar –, somam-se também a essa dicotomia os aspectos de ‗como foram‘ e ‗como deveriam ter sido‘.
Quando continuamos a ler a passagem acima não é difícil ver que ‗Dom Quixote‘ é tolerante com a omissão de alguns fatos verdadeiros de sua história redundem em menosprezo do protagonista – no caso ele mesmo – desde que não mude nem altere o fundo verdadeiro da história. No mesmo trecho, encontramos ‗Sancho‘ representando a vertente defensora da rigorosa fidelidade aos fatos, independentemente de tratar-se de um poeta ou de um historiador. O Bacharel, que também aparece na passagem acima, revela-se, dos três, o que tem a consciência mais viva dos limites entre as duas práticas discursivas. É de se destacar também que tudo se passa no âmbito da ‗diegese‘, como opinião externada das personagens, criaturas de ficção, e não pelo narrador propriamente dito.
Amado Alonso (1942), sem afastar-se inteiramente dessa dicotomia – cantar e contar – vai mais longe a respeito da distinção entre o poeta e o historiador. Ele não julga impossível ―obter uma genial visualização de um material estritamente histórico em um romance‖ (p.11).
Para isso, ele deixa claro que o romancista histórico deve relacionar a reconstituição do passado, no que ele tem de arqueologia22 à história23 propriamente dita, ou seja, o movimento vivo que permite a apreensão de um sentido, de modo a tornar esta última a matéria-prima de que se valerá o poeta, no caso, o romancista.
Enfatiza-se também, nesse ponto, a natureza dialética, no sentido de superação, do processo de ficcionalização da matéria de extração histórica. É importante observar que a matéria do historiador são os acontecimentos passados, recolhidos e documentados pela erudição, aos quais ele dá uma forma, ―ao estruturá-los com um sentido‖ (Alonso, 1942, p.17), enquanto a matéria da poesia é já a história, a qual o poeta imprime uma forma peculiar, pondo nela um profundo sentido novo, para além do particular histórico alcançando – portanto, a universalidade de que falava Aristóteles.
Assim, podemos entender que há também uma possível distinção que consiste na perspectiva externa do historiador, que deseja explicar os acontecimentos ―observando-os criticamente de fora e costurando-os com um fio de compreensão intelectual, contrariamente ao poeta que deseja vivê-los por dentro‖ (Alonso, 1942, p.18). Tal compreensão também se apoia no entendimento de E. M. Foster (1969).
Segundo Foster, a oposição exterioridade versus interioridade realça a perspectiva do romancista – ficcionista ou poeta – de ser capaz de captar a interioridade das personagens, mesmo daquelas, de procedência histórica. Segundo Foster, o historiador trata das ações e do caráter dos homens apenas até onde lhe é possível deduzi-lo de suas ações. Isso porque só pode saber da sua existência quando ele se mostra à superfície. Para Foster a vida oculta é por definição velada e, quando se mostrar através de sinais exteriores, já não é mais oculta, já entra no domínio da ação. A função do romancista é revelar essa vida oculta em sua fonte: contar-nos mais sobre a Rainha Vitória do que se poderia saber e, desse modo, compor uma personagem que não é a Rainha Vitória da História. Foster segue dizendo que expressar esse lado da natureza humana é uma das principais funções do romance e acrescenta postulando que a ênfase posta pela história nas causas externas faz com ela seja dominada pela noção de fatalidade.
Estamos diante da dicotomia Aristotélica, portanto. Foster entende que todas essas considerações correspondem ao fato de caber ao historiador ―registrar‖ enquanto que ao romancista ―criar‖. Não é difícil entender, portanto, que há diferenças entre as pessoas na vida
22 Quer dizer, documental.
23 Sucessão e ações que em seu encadeamento formam uma figura móvel com unidade de sentido (ALONSO,
cotidiana e as pessoas nos livros, dado que no romance justamente por ser possível penetrar na interioridade das pessoas temos delas um conhecimento mais completo e menos restrito. Esse conhecimento pleno da personagem, além de ser marca da superioridade do romancista sobre o historiador, é também condição para sua realidade.
Não podemos deixar de registrar também que, nem sempre a diferença entre o poeta e o historiador é favorável ao poeta – como, por exemplo, defende Aristóteles. Para esses é preciso entender que a liberdade de invenção para o escritor romancista, entretanto, deve ser condicionada a um limite intransponível que é o da verdade histórica. O poeta pode e deve suprir as lacunas da história, mas nunca deve se afastar dela a ponto de tornar irreconhecíveis os fatos registrados e tidos consensualmente como sendo verdadeiros. Segundo eles, a função do romancista histórico é, assim, complementar a do historiador, não somente em termos cronológicos, mas também na tarefa de construir uma imagem verdadeira do passado. A. Pereira Ribeiro (1976), adota uma posição conservadora e entende o romancista histórico como:
um doublé de historiador e literato, que toma por tema de seu livro, um trecho da história de sua pátria, representando os fatos, não com a monotonia dos textos frios, como acontece com os livros didáticos, cheios de nomes e datas, mas, ao representar o fato histórico, coloca pitadas de sonho, condimentos de fantasia, traz um pouco de ficção para juntá-la a realidade fria dos fatos (p.20).
Para Ribeiro, por exemplo, todo esse acréscimo à monotonia dos textos frios deve ser feito sem, contudo, fugir à verdade histórica. Ele continua dizendo que as pitadas de sonho, os condimentos de fantasia e as palavras bonitas são a contribuição do romancista na feitura do prato digestível que deve ser o romance histórico. Ribeiro defende que o direito de o romancista suprir as falhas documentais, com o produto de sua fantasia, aconteça somente na falta de documentação idônea, porque, para ele, o romancista histórico enfeita o passado sem, contudo, negá-lo, pois a verdade histórica deve ser sempre a sua bússola e a sua diretriz.
Fernando Cunha (1972) registra que o romance histórico exige do escritor uma dupla qualidade: a de ficcionista e a do historiador, harmoniosamente dosadas, pois o primeiro sem a autoridade do pesquisador não dará a seu trabalho o indefectível valor documental e o segundo sem a sutileza do efabulador, sem a prática do manuseio das almas e de suas reações, pouco realizará de esteticamente válido. Mas, ―o romancista não pode violentar fatos historicamente básicos, nem deturpá-los para melhor atender a ação do romance ou a uma preferência pessoal, a não ser que sólidos motivos o tenham persuadido a restabelecer a verdade violada‖ (CUNHA, 1972, p.45).
Pelo que podemos ver, não se trata de contrapor o poeta ou ficcionista ao historiador. O que não se deve fazer é ressaltar no mesmo escritor ou na mesma obra, quando ele é romancista e quando ele é historiador. O que não pode faltar ao romance histórico é um dos seus efeitos principais que é o de nos dar uma representação verdadeira da história e se a verdade tiver sido violada, entretanto, o instrumental imaginativo do romancista deve ser acionado, mas somente para restaurá-la.
E como será possível crer na veracidade da reconstituição histórica se ela não se distingue, facilmente, da parte inventada? O que podemos dizer é que há, definitivamente, por parte do romancista histórico, essa intenção, uma vez que acende a curiosidade do leitor para o acontecimento histórico. Essa postura o fará querer conhecer mais tal acontecimento, mas não lhe fornece o instrumental necessário à correta discriminação do que deve ou não ser aceito como verdade.
Em um romance, por exemplo, não se pode fazer distinção entre personagens que provem da história e personagens que são inventadas, de modo que não é necessário qualquer esforço do romancista histórico para não estabelecer distinção entre personagens verdadeiras, no sentido de procederem da história, e inventadas, porque de certa forma, isso cabe unicamente ao leitor.
O problema da diferenciação entre o poeta e o historiador, levantado por Aristóteles, permanece não resolvido. Na verdade, poucos sustentariam uma distinção tão nítida quanto a que foi por ele estabelecida entre uma e outra prática discursiva. Não apenas pelo elemento comum, a ‗narrativa‘24
, que autorizou Aristóteles a propor a comparação, pois tanto o historiador quanto o poeta narram fatos e pela constatação de que ficção e história permutam entre si diversos processos discursivos e também pelas alterações qualitativas processadas no interior de cada uma delas25.
Destacamos também Linda Hutcheon (1991) quando ela registra que ―as leituras críticas atuais sobre o tema das relações da história com a literatura tem-se concentrado muito mais naquilo que as duas formas de escrita tem em comum do que em suas diferenças‖ (p.141). É importante registrar que todo o problema da diferenciação entre o poeta e o historiador decorre justamente dessa proximidade, de modo que a oscilação entre os polos da
24Ricoeur declara que toda a história escrita, necessariamente, assume algum tipo de forma narrativa (1997). 25 No âmbito da história, por exemplo, a relativização do conceito de verdade histórica, nascida, sobretudo, da
consciência cada vez maior de ser a escrita histórica uma construção cultural, contaminada, dependente do peso a ser atribuído às fontes, quase sempre interessada em uma versão em detrimento de outras. O outro ponto a se destacar é o alargamento desse conceito, qual seja, não mais apenas o fato político-econômico, mas o social, o cultural e até o mental. Veja a importância nos dias atuais da chamada ‗história oral‘, dos registros audiovisuais e da chegada da internet, por exemplo.
semelhança e da dessemelhança entre história e literatura denuncia, portanto, a complexidade da questão.
É importante dizer que a diferenciação proposta por Aristóteles tomava como representativa da atividade do poeta a epopeia e não o romance, inexistente na época – e menos ainda o romance ―histórico‖. A epopeia, conjugando matéria de extração histórica – terreno do real – e matéria de extração mítica – terreno do maravilhoso –, impunha ao protagonista, o herói, a tarefa de ultrapassar os limites do humano para merecer o reconhecimento de sua condição. Aconteceu, porém, que as transformações processadas no modelo épico ocidental26 em suas diversas faces resultaram em que o elemento histórico foi, progressivamente, sobrepujando o componente mítico. Para tanto, isso contribuiu acentuadamente para a proximidade temporal entre o poeta e a matéria narrada27.
Essa espécie de veto parcial ao mítico decorria da crescente familiaridade dos contemporâneos com a substância histórica da matéria narrada. A recorrência à sobrenaturalidade mítica ficava submetida às conveniências de um mínimo de rigor histórico e de adequação à censura religiosa quanto aos valores pagãos28. Desse contexto nasceriam as ‗canções de gesta‘ – em versos – e as ‗novelas de cavalaria‘ – em prosa. Tais modalidades de narrativas, de base predominantemente cristã, viriam a ser consideradas como precursoras – sucessoras das epopeias – do romance, tal como surge em fins do século XVIII e consolidam- se no decorrer do século XIX.
Encontramos no romance, portanto, uma riqueza e uma grande variedade de interesses, de situações, de personagens, de condições de vida e descrições épicas de acontecimentos. Contudo, o romance careceria da poesia do mundo primitivo que é a fonte da epopeia uma vez que ele, no sentido moderno da palavra, pressupõe, em geral, uma realidade prosaica29.
Romance e epopeia são, ambos, objetivações da literatura. Mesmo o condicionamento externo – os dados histórico-filosóficos – que se impõem à criação do escritor não apagam a admissão de uma procedência comum aos dois. Entretanto, por uma determinação histórica –
26 Epopeia latina, renascentista, neoclássica. 27
É o caso, na épica de Língua Portuguesa, de Camões e Os Lusíadas (1572) e, mais tarde, no Brasil, das tentativas épicas de Bento Teixeira (Prosopopeia,1601) e Basílio da Gama (O Uraguai, 1769). Nos casos aqui apontados, o poeta épico continuava a cantar feitos gloriosos do passado nacional de um povo, mas já não tão remotos nem deitados sobre as lendas que aceitassem, sem controvérsia, a excessiva mitificação das epopeias de Homero, por exemplo. Em Homero, o herói era afastado de sua condição humana e era aproximado dos deuses, e admitia sem incredulidade, a intervenção ostensiva dos próprios deuses nos conflitos dos homens.
28 Desse modo, à proximidade temporal do poeta em relação à matéria narrada somou-se o poderoso ingrediente
das restrições impostas pelo pensamento católico: o poeta cristão não deveria recorrer ao maravilhoso pagão.
29
Contrariamente à epopeia, que se liga a uma realidade poética, no sentido em que o tempo a que alude corresponde a uma época em que um povo se põe a acreditar e criar um mundo que lhe seja próprio, o romance supõe uma visão total do mundo e da vida, cuja matéria e conteúdo de aspectos diversos, se manifestam por ocasião de um acontecimento individual, que forma o centro do conjunto.
o romance surge em tempos de afirmação da sociedade burguesa30, quando o mundo de que falava o poeta da epopeia não mais pode existir. Como entendemos aqui, é como se o que foi a epopeia para os antigos, especialmente para os gregos, tem sido o romance para a sociedade burguesa.
Com Lukács, o romance é uma epopeia burguesa31, mas desprovida da antiga grandeza, uma vez que o poeta não pode mais ser o cantor de uma comunidade, já que a sociedade em que vive está dividida em classes que se antagonizam a partir de interesses divergentes. Diferentemente do herói da epopeia que nunca é propriamente um individuo, pois sempre foi característica essencial da epopeia o fato de o seu objetivo não ser um destino pessoal, mas o de toda uma comunidade, a trajetória do protagonista do romance não legitima as aspirações coletivas. Pelo contrário, a elas frequentemente se opõe, já que se trata de um indivíduo problemático, exemplar de um tipo de herói que está sempre em busca de sua plena realização individual.
Se é verdade estabelecida que tanto a epopeia quanto o romance pertencem ao gênero épico, uma diferença fundamental entre eles deve ser, porém, estabelecida: em princípio, do romance, na acepção moderna do termo, está banido o mito e, por extensão, o maravilhoso. A sua matéria narrada é restrita ao universo da experiência humana. Daí, tal demarcação contribuir para o aproveitamento da matéria de extração histórica já que esta é, em contraposição à matéria de extração mítica, o espaço específico de atuação do homem moderno.
Entretanto, o romance considerado histórico, por assim dizer, está fadado ao hibridismo, pois, como o romance é uma ficção, isto é, a matéria narrada resulta da livre invenção do escritor que delega a um narrador, normalmente em terceira pessoa, a responsabilidade pela mimese do real humano; como histórico escapa aos limites da ficcionalidade pura e se pretende documento – nele o leitor pode encontrar elementos verídicos como datas, nomes, eventos, lugares –, tomado de empréstimo à história. O conflito entre o que é histórico e o que é inventado é que tem tomado – e vai continuar tomando – conta de grandes discussões a respeito desse tipo de narrativa.
Entretanto, Georg Lukács tem uma posição clara a respeito do romance histórico e a