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O Romance Histórico representa a primeira grande obra escrita por Georg Lukács depois que suas concepções estéticas marxistas tomaram forma. Ele trabalhou essa obra durante todo o inverno de 1936-1937, em Moscou, onde teve de exilar-se por ter sido, na qualidade de antifascista, expulso de Berlim com o advento do poder hitlerista (TERTULIAN, 2008, p.166).

Para compreender o esquema dinâmico de O Romance Histórico, o modelo ideológico e estético em que se apoiam constantemente os raciocínios de Lukács, é preciso parar um pouco no estágio atingido por seu pensamento quando redigia o seu livro. A vida de Lukács é inseparável do drama da geração de intelectuais da qual fez parte na primeira metade do século XX: todos passaram pela revolução russa de 1917, pelo fascismo e por duas grandes guerras mundiais33.

As primeiras obras de Lukács, A Alma e as Formas (1911), A Teoria do Romance (1920) sofreram influência de uma sociologia da literatura ainda idealista. Mas, esse esteticismo da juventude foi transformado com sua adesão ao marxismo. Novas categorias então passam a entrar em voga a partir daí: as ideias das lutas de classes, a reificação e a dialética materialista passam a fazer parte dos caminhos trilhados pelo estudioso húngaro. O livro História e Consciência de Classe (1923) permanece sendo um dos maiores testemunhos do marxismo até os dias de hoje. Nele, Lukács queria entender como fazer para que as massas nos países ocidentais passassem da situação de meros reivindicadores de suas condições econômicas à busca de inversão do sistema. Eis, portanto, um dos motivos que levou Georg Lukács a escrever O Romance Histórico. De qualquer forma, foi preciso que Lukács se libertasse do messianismo utópico e do sectarismo político que tinham marcado os seus primeiros anos de aprendizagem para que ele adentrasse em algo concreto. O programa estético de Lukács não podia estar separado do conjunto de suas convicções políticas e ideológicas.

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Originalmente publicado em russo, em 1937, foi prontamente acolhido como obra prima por críticos satisfeitos em descobrir um marxista que tinha realmente lido toda a literatura do século XIX burguês (LICHTEIM, 1970).

33Konder (1980) dividiu a trajetória da Lukács em três períodos: o primeiro de 1918 a 1928, o segundo de 1929 a

O eixo fundamental de argumentação de Lukács é a ideia de totalidade, transposta diretamente da filosofia hegeliana para a teoria social marxista34. Contrariamente à filosofia positivista – segundo a qual os dados se explicam por si mesmos sem a necessidade de referir- se à interligação que os mantém unidos –, a herança hegeliana afirmava o caráter integrado dos dados que só ganham sentido quando referidos ao todo (FREDERICO, 1997).

A preocupação comum que atravessa as principais investidas de Lukács no campo filosófico é a relação entre a vida social e os seus reflexos no plano ideológico. Para ele, o advento do capitalismo não se fez acompanhar de uma ruptura com a ordem feudal, mas de acomodação com a antiga ordem e seus mecanismos de dominação antidemocráticos (FREDERICO, 1997). Concentrando-se na defesa apaixonada do Realismo – entendido como o único método apropriado para se obter uma representação artística correta – Lukács estuda o fenômeno artístico na ótica da teoria marxista do conhecimento35.

Para Lukács o dado visível é produto da atividade humana, tendo sido, portanto, produzido e carecendo, então, de explicação. Apenas a descrição do dado é ineficaz para compreendê-lo. É preciso negar a sua imediatez, ultrapassar a sua aparência, indo além de sua evidência empírica em direção às determinações de sua totalidade. Assim, na vida cotidiana os objetos à nossa volta despontam em sua insuspeitada evidência – em sua indiscutível imediatez – e por isso são tomados como se fossem, diretamente, a realidade.

Segundo a compreensão marxista da realidade, essa é a forma invertida através da qual os fenômenos se manifestam à nossa consciência. Não se podem ocultar os vestígios humanos na sociedade, permitindo a ilusão fantasmagórica dos fatos sociais como verdadeiros. Aquilo que vemos aparentemente na vida cotidiana, portanto, é representação caótica da realidade.

Nesse sentido, o homem comum olha para essa realidade invertida e captura o seu funcionamento aparente, preso a um sistema fechado, no qual as ‗mercadorias‘ – como diria

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Para Marx e Engels (1999), a literatura não pode ter pretensões a um desenvolvimento autônomo. De acordo com A ideologia Alemã, a constatação de que a ciência da História é Una tem para Marx e Engels uma consequência necessária: a Literatura deve ser tratada dentro de um vasto contexto histórico-metodológico único

– em oposição ao entendimento da arte autônoma. Para eles, a arte não estava acima das lutas sociais e políticas.

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Para se compreender essa ótica, é necessário entender o modo de pensar que se tornou senso-comum dos homens criadores da sociedade capitalista: o positivismo. Segundo esse pensamento, a realidade se confunde

com a imediatez, com a ‗positividade‘ do mundo, tal como se reflete na consciência, ou seja, a realidade se

confunde com a sua manifestação imediata. Mas, a aparente positividade dos fatos serve apenas como ponto de partida para a compreensão do Realismo. A dialética exige que se parta além da imediatez para, assim, poder

descobrir sua razão de ‗ser-assim-como parece‘. Para o positivismo um dado empírico é uma ‗positividade‘, uma

imediatez, mas por trás desse corpo visível, exposto à nossa senso-percepção, há uma espécie de alma, um ‗não-

ser‘ que não se apresenta claramente. Esse tal é o valor que revela o processo pelo qual aquele realismo é como

se parece. É o que pode se chamar de caráter social do dado empírico. A observação distante, aparente, não dá conta da interpretação adequada de um fato. O fato não pode ser explicado por si mesmo, mas somente se explica pela passagem do dado visível – a positividade – para o valor – o processo que levou para chegar tal como ele é (FREDERICO, 1997).

Marx36– despontam como elementos de primeiro plano ativo da realidade social e, na qual, o homem é um simples apêndice. Relegado ao segundo plano, os indivíduos relacionam-se uns com os outros como portadores dessas mercadorias, contados como personificação de categorias econômicas.

É nesse contexto desumanizado que a arte37 defronta-se com o desafio de refletir a realidade social, o mundo dos homens como uma totalidade viva, formada pela unidade contraditória de essência e aparência (LUKÁCS, 1979). Esse desafio deve levar o verdadeiro artista a desmascarar a impressão fantasmagórica da realidade e revelar a aparência como aparência, como dissimulação do essencial. Desse modo, a arte entra em contradição com o capitalismo e este é, portanto, o aspecto marxista da arte: quando ela se apresenta com um caráter humanizador das relações sociais38.

É por isso que, ao refletir de forma sensível a trajetória dos homens, o romancista – ou o romance – põe em evidência a condição humana às voltas com os fatores históricos e sociais que podem bloquear as possibilidades do pleno desenvolvimento humano. Os autores de romances históricos adotam uma firme postura realista para poder alcançar esse objetivo.

Para Lukács, o romance com teor histórico pode oferecer uma forma de revelação do mundo a partir de uma tomada de posição perante a realidade. Segundo ele, o realismo é um método, um caminho para se chegar à verdade e um critério atemporal para se julgar a produção artística. Toda forma de produção artística, para Lukács, que quebra a unidade entre essência e aparência oferece uma reprodução falseada da realidade e, portanto, se distancia do verdadeiro papel da obra de arte39.

A partir desse realismo40, o romance vence uma realidade mecânica e nos apresenta numa totalidade complexa, o livre curso do desenvolvimento dos destinos humanos: o romance, como gênero literário, portanto, é a expressão artística mais acabada do mundo

36 Para Marx a defesa da totalidade sobre as partes surge como uma necessidade contra o esfacelamento do

mundo, provocado pela presença do capitalismo. A sociedade capitalista não pode ser compreendida pelas visões parciais e relativas de um economista, por exemplo, ou de um historiador. É preciso pensar na sociedade como uma totalidade viva e articulada (JAMESON, 1985).

37 Todo verdadeiro artista e todo verdadeiro escritor é um adversário instintivo de qualquer alteração do principio

do humanismo, independente do grau em que seja alcançada a consciência disso. Daí que, para Lukács (1964), toda boa arte e toda boa literatura devem ser humanistas, não só ao estudarem apaixonadamente o homem e a verdadeira essência de sua natureza humana, mas, também, por defenderem apaixonadamente a integridade humana contra todas as tendências que a atacam, a envilecem e a adulteram.

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Para Marx e Engels, os diferentes domínios ideológicos não poderiam ser independentes. Marx e Engels reconheceram constantemente o efeito extraordinariamente e profundo e vasto da literatura sobre a consciência dos homens. Eles nunca subestimaram a importância de orientações em matéria de literatura (LUKÁCS, 1979).

39 No domínio da teoria literária desde o início que as lutas de Marx e Engels observamos efeitos do

posicionamento burguês sobre a consciência da classe operária. Marx e Engels reconheceram o efeito extraordinariamente profundo e vasto da literatura sobre a consciência dos homens (LUKÁCS, 1964).

40 Segundo Lichteim (1970), para Lukács tudo acaba conduzindo para uma única verdade central: o realismo em

burguês (LUKÁCS, 1965). É nele em que os dramas e os conflitos do processo histórico podem ser refletidos artisticamente, já que se encontram concentrados em personagens típicos, isto é, indivíduos que refletem, ao mesmo tempo, as condições específicas de sua singularidade e as tendências gerais do processo histórico como um todo.

No curso de seu desenvolvimento, o romance considerado clássico chegou a ser a expressão do caráter revolucionário da burguesia – classe voltada para a mudança social e profundamente interessada em conhecer a realidade. Mas, o ano de 1848 marca o final desse período heroico. A burguesia enfrenta um novo adversário: o proletariado. Perante os novos desafios, a burguesia torna-se uma classe conservadora, interessada apenas em manter a ordem estabelecida. A sociedade não é mais o palco da história social, dos conflitos e da busca do conhecimento da verdade. O racionalismo torna-se uma técnica positiva de controle social e o ideal emancipatório é abandonado. O romance, entendido como um resgate da totalidade perdida entra em crise: ele passa a ser a expressão da decadência ideológica da burguesia.

Nesse sentido, Lukács somente pode entender o romance a partir de uma compreensão ontológica: a consciência das personagens do romance deve ser uma expressão necessária das condições sociais e históricas nas quais eles aparecem. Nestes termos, o realismo implica na fiel reprodução de personagens típicos em situações típicas.

De acordo com o pensamento dialético materialista, o conceito de ‗tipicidade‘ não deve partir de uma construção intelectual apriorística e abstrata, feita a revelia da realidade como quer Weber, nem uma construção estatística que abstrai a riqueza e a diversidade presentes na realidade como defende Durkheim. O conceito de tipicidade revelado nos atores sociais, como compartilha Marx, aproxima-se da compreensão que Lukács leva para a literatura. Ele critica escritores que trabalham somente com personagens médios41 ou comuns. É que, para Lukács, esse tipo de personagem não reflete piamente toda a riqueza da vida dos

41 De acordo com Frederico (1997), dentro do conceito de ‗tipicidade‘, pode-se dizer que para Lukács, a

concepção das personagens do romance não deve seguir caracteres medianos, como apresentados pela sociologia compreensiva, defendida por Max Weber (ele entende a realidade como caótica e, portanto, impossível de oferecer dados adequados. Ele, então, cria uma realidade ideal para efeito de compreensão do mundo. Dessa

realidade abstrata e ideal ele cria o ‗tipo ideal‘. A partir de uma racionalização utópica: a partir desse ponto o

leitor/observador pode constatar até que ponto a realidade aproxima-se ou não do tipo ideal) ou pela sociologia positiva de Durkheim (ao contrário de Weber, Durkheim rejeita noções prévias – construções abstratas. Ele acha

que a busca desse ‗tipo‘, valor dado aos personagens, deve partir da própria realidade. Através de uma estatística

ele faz uma abstração de todos os casos individuais e chega a uma concentração de caracteres do tipo médio). Essa compreensão não é a que interessa a Lukács. Para ele, assim como para Marx, o gênero humano não ser

contado como um mero ‗dado‘. Deve-se considerar o longo processo no qual o sujeito e a realidade exterior compõem uma totalidade. Não se pode medir o ‗tipo‘ de personagem a priori ou por uma medida abstrata. Ele

deve ser um ser que exprime com a máxima clareza a verdade de sua espécie, de modo que ele é um ser específico e ao mesmo tempo concentra as tendências mais essenciais da espécie universal em questão.

homens, os seus prazeres, os seus problemas e as suas paixões. O bom romance produz personagens típicos, isto é, indivíduos bem definidos e demarcados em suas personalidades individuais inconfundíveis – como veremos no caso das personagens de A Letra Escarlate, no capitulo que fecha este estudo.

Daí que, personagens típicos, segundo Lukács, além de suas inelimináveis singularidades, concentram também certas tendências universais próprias do ser humano, postas num determinado momento histórico. Lukács recorre à dialética para definir típico como uma junção do singular com o universal. Esse entrecruzamento entre os destinos individuais e as possibilidades concretas postas pelo desenvolvimento social é a chave do romance como forma de representação do mundo.

De certa maneira é a luta contra sobrevivências burguesas na consciência das pessoas42 – a luta contra o ‗emburguesamento‘ de suas consciências, portanto – que constitui a linha fundamental do romance que se definirá como sendo de cunho histórico e, porque não dizer, marxista. Desse pensamento, caberá ao romance histórico um papel fundamental na exposição de questões político-sociais que abalaram a Europa, especialmente a partir do século XVIII, mais precisamente, a partir da Revolução Francesa.

Benzer Belgeler