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Importa percebermos de que forma este ambiente explosivo influenciou o aparecimento de um movimento independentista, em Angola, que pudesse vir a por em causa a presença portuguesa em África.

No dia 5 de Setembro de 1960, num artigo publicado no Wall Street Journal de Nova Iorque, eram feitas as primeiras alusões aos planos de Lumumba relativamente a Angola: “A República do Congo do Sr. Lumumba, dominada pela violência, está a transformar-se num

centro de um movimento para a libertação de Angola (…)”238.

De facto, tendo em conta a bibliografia consultada, não temos grande dúvida que a Independência do Congo Belga teve uma grande influência no despoletar dos acontecimentos que marcaram o início da actuação dos movimentos independentistas em Angola. Com o objectivo de percebermos de que forma se materializou essa influência iremos recorrer à obra de Hélio Felgas239 que aborda, de forma exaustiva, o tema da

“Guerra de África”.

A transferência de autoridade belga para a congolesa facilitou a instalação, em Leopoldville, das sedes dos partidos políticos angolanos iniciando, dessa forma, um período de actuação sem grandes constrangimentos. Este acontecimento viria, também, facilitar os contactos através da fronteira com Angola uma vez que apenas as autoridades portuguesas continuaram com exigências fiscais e, para além disso, os postos portugueses

apoiado pelos EUA, através do jovem diplomata Frank Carlucci, mais tarde embaixador em Portugal. ANTUNES, José Freire, Jorge Jardim Agente Secreto, p. 118.

237 JANKE, O Banho de Sangue do Congo, p. 143. In AAVV. A Guerra no Mundo. 238 Cit. por. GOMES, África em Chamas, p. 311.

eram raros e a fronteira estendia-se por milhares de quilómetros de selva e mato, proporcionando uma travessia sem qualquer tipo de dificuldade. Os movimentos propagandistas começaram a multiplicar-se, nomeadamente, no Norte de Angola240.

Outro aspecto que se constitui de extrema importância foi a posição assumida logo de início pelo governo congolês. No discurso inaugural da conferência dos Ministros dos Estrangeiros, realizada em Leopoldville em vinte e cinco de Agosto de 1960, Lumumba teve uma intervenção esclarecedora relativamente ao domínio português em Angola:

“Angola pertencia aos angolanos”, “o regime colonial português devia desaparecer da terra africana” e

acrescentou “o governo e o povo irmão da República do Congo não poupariam nem o seu auxílio nem o

seu apoio à luta legítima do povo angolano”241. Estas palavras provocaram um forte

encorajamento aos partidos angolanos de Leopoldville, nomeadamente para a UPA de Holden Roberto, constituindo-se elas também como uma forte ameaça ao regime colonial português de Angola.

Relativamente à questão dos partidos políticos angolanos podemos afirmar que até 1959 não existia qualquer partido político angolano constituído dentro ou fora do território angolano, ao contrário do que se assistia no Congo, nomeadamente na sua capital, onde os partidos políticos proliferavam. Existia, também, uma forte comunidade emigrante angolana, nomeadamente no Baixo-Congo242, que assistiu à formação destes partidos

congoleses e que, de certa forma, admiravam a actuação dos seus líderes políticos. Desta forma, podemos afirmar que a independência do Congo acelerou o ressurgimento de grupos políticos angolanos, nomeadamente, a UPA e o MPLA, constituindo-se a independência de Angola como o objectivo de ambas243.

Após a independência do Congo, Holden Roberto regressou a Leopoldville e rapidamente reorganizou a UPA, tendo para isso contribuído uma amizade partilhada desde os tempos da conferência de Acra. Lumumba começou por reconhecer a UPA como partido político angolano, concedeu-lhes bases para o seu treino militar244, autorizou a

utilização da Emissora de Leopoldville e permitiu a publicação do Jornal do partido, A Voz

da Nação Angolana que surgiu em Setembro de 1960. Relativamente a estes apoios

240 FELGAS, Hélio, Guerra em Angola, p. 56. 241 Cit. por. FELGAS, Guerra em Angola, p. 57. 242 Ver Anexo B (ANGOLA COLONIAL).

243 FELGAS, Hélio, Responsabilidades dos Grupos Políticos Angolanos do Congo Ex-Belga nos acontecimentos de Angola, p. 5.

244 Em 1962 o Governo do Congo terá, mesmo, autorizado a instalação de uma base militar de abastecimento e treino de forças contra Angola, na pequena cidade de Thysville, ao sul de Leopoldville, e perto da fronteira de Angola. NOGUEIRA, Salazar, A Resistência (1958-1964), p. 426.

gostaríamos de destacar o papel que a Rádio de Leopoldville teve no desencadear da campanha contra Portugal, encabeçada pelo líder da UPA, incitando os angolanos à revolta. Foi precisamente numa dessas emissões, a três de Agosto de 1960, que Holden Roberto declarou pela rádio o seguinte: “assumiam o compromisso de tornar a vida impossível ao colonialismo

português em Angola”245.

Com a morte de Lumumba, que teve como resultado prático uma diminuição no ritmo de ascensão da UPA246 e, ainda, os tumultos de Luanda organizados pelo MPLA que fez despertar, em Holden Roberto, o receio do avanço daquele partido em relação ao seu, estavam criadas as condições para se darem inicio às hostilidades, de uma forma brutal, contra o domínio português em Angola, no norte do país247.

O MPLA que em termos de presença e de apoio não teve tantas facilidades como a UPA em território congolês viu, no entanto, em 1961, a sua sede ser transferida para Leopoldville. Não se alheou desta luta, antes pelo contrário, fez uso da imprensa congolesa, para publicar em Julho de 1960, na Présence Congolaise, uma Declaração na qual afirmava que “a política portuguesa em Angola tendia para a preparação febril de uma guerra colonial”248 e

acrescentava o seguinte: “ O MPLA, encarnação da vontade do povo angolano, deseja a liquidação

urgente da dominação colonial portuguesa em Angola, por meios pacíficos e democráticos. É evidente no entanto que esta evolução pacífica dependerá da actuação do governo português”249. Por outro lado,

foram exigidas medidas contra Portugal no fórum da ONU e dirigidos vários apelos, aos aliados afro-asiáticos, no sentido de serem “salvos os seus irmãos das colónias portuguesas”250.

Ficou claro a intenção destes movimentos políticos: através do uso da força e também da pressão diplomática pôr em causa a presença colonial portuguesa no continente africano. Para isto muito ajudou a situação geográfica do Congo Belga, em relação a outros países limítrofes, e que contribuiu decisivamente para o esforço destes movimentos251.

245 FELGAS, Responsabilidades dos Grupos Políticos Angolanos, p. 13.

246 No entanto queremos relembrar que o aparecimento de Adoula na cena congolesa voltou a dar um pouco mais de esperança a Holden Roberto, nomeadamente na falta de apoio ao Movimento rival, o MPLA. FELGAS, Hélio, Os Movimentos Terroristas de Angola, Guiné e Moçambique, p. 29.

247 FELGAS, Responsabilidades dos Grupos Políticos Angolanos, pp. 17-18. 248 Cit. por. FELGAS, Responsabilidades dos Grupos Políticos Angolanos, p. 19. 249 Cit. por. FELGAS, Responsabilidades dos Grupos Políticos Angolanos, p. 19

250 Palavras escritas por Mário de Andrade num memorando dirigido à ONU. FELGAS, Responsabilidades dos

Grupos Políticos Angolanos, p. 20.

251 FELGAS, Os Movimentos Terroristas de Angola, Guiné e Moçambique, p. 31. Importa ainda referir, relativamente a este assunto, que estes dois movimentos tentaram estabelecer boas relações com diversos Estados mas, não o tentaram fazer entre eles. As tentativas de fusão foram poucas e jamais conheceram qualquer tipo de êxito. Para os observadores esta era uma questão incompreensível, nomeadamente, numa altura que muitos Estados Africanos tentavam acelerar a independência de Angola, constituindo-se este factor como elemento de

5. O Posicionamento hesitante do Governo do Congo relativamente a Portugal

A posição do governo do Congo reveste para a nossa investigação uma importância que não pode ser descurada.

A dependência económica do Congo em relação a Angola era evidente. De facto, uma boa parte dos minérios da rica província do Catanga era exportada pelo porto do Lobito cujo encerramento deliberado causaria sérias dificuldades à economia congolesa. Para Hélio Felgas, que viveu bem de perto todos estes acontecimentos, esta dependência económica, materializada pela utilização do CFB252, terá contribuído para a atitude hesitante

do governo de Leopoldville, face a estes grupos políticos.

Podemos confirmar esta ideia recorrendo a um relatório do Consulado Geral de Portugal em Elisabethville253, datado de Julho de 1963, relativamente a recortes do diário

catanguês “L’Easor du Katanga”, de 26 a 29 de Julho de 1963, intitulados “Le Congo Asphixié” e “Boycotter ceux qui nous boycottent”. Este relatório chama a atenção para o seguinte: “Os

citados artigos chamam a atenção para o prejuízo económico irreparável que o Congo sofria caso o Governo português impedisse a saída dos minérios catangueses pelo Lobito e pela Beira. Devemos também referir que estes editoriais que foram largamente comentados, não só pelos meios portugueses como até pelos europeus e catangueses e que até mereceram o aplauso entusiástico dos nossos compatriotas surgiram, logo após, ter sido difundido a entrevista concedida pelo senhor Fortemps, Director da “Union Miniére du Haut Katanga”254

e na qual são também apontados os prejuízos que adviriam para a economia congolesa, caso o nosso País resolvesse impedir a drenagem normal de cobre e cobalto catangueses pelos nossos dois portos do Lobito e da Beira”255.

Daqui se conclui que, se o Congo em nada dependesse de Angola, a ajuda a estes movimentos teria sido clara mas, ao contrário, se dependesse inteiramente de Angola esse auxílio teria sido nulo. Nesta balança política dos dirigentes congoleses dois riscos contribuíram para um certo equilíbrio: o de incorrerem no desagrado dos outros Estados africanos, face a um eventual posicionamento exageradamente brando, relativamente ao

hesitação relativamente ao movimento a apoiar por parte daqueles Estados. FELGAS, Os Movimentos

Terroristas de Angola, Guiné e Moçambique, p. 9.

252 Caminho-de-ferro de Benguela (CFB): 1.301 Km de linha com mais de 100 anos de história. O CFB é a única ligação ferroviária da África Central ao Atlântico. Ver Anexo I (CAMINHO-DE-FERRO DE BENGUELA).

253 Capital da Província do Catanga.

254 Ver Anexo F (UNIÃO MINEIRA DO ALTO CATANGA (UMHK)).

255 AHD, Maço 1095, Processo: 960,161, Relatório do Consulado de Portugal em Elizabetheville para o Ministério dos

governo português, e o de incorrerem no desagrado de Portugal, ficando vulneráveis a eventuais represálias vindas de Luanda256.

Foi este meio-termo que estabeleceu a dúvida e a hesitação do Governo do Congo e, ao mesmo tempo, o posicionamento dos dirigentes congoleses relativamente a Portugal. Uns declaradamente contra, nomeadamente Adoula e Kasavubu, outros, como Tchombé, tinham uma posição diametralmente oposta, embora como africanos não pudessem criticar abertamente a política portuguesa.

Foi a partir deste ponto que se verificou a aproximação entre Tchombé e Salazar. No próximo capítulo iremos abordar, detalhadamente, esta relação entre estes dois líderes políticos.

Benzer Belgeler