Outro princípio basilar da tributação é o da eqüidade. A preocupação consiste em dar um mesmo tratamento, em termos de capacidade contributiva, aos indivíduos considerados iguais (eqüidade horizontal), assegurando, ao mesmo tempo, que os desiguais serão diferenciados segundo critérios a serem estabelecidos (eqüidade vertical). Dessa forma, vê-se a necessidade de se estabelecer critérios para a classificação dos que são considerados iguais e para o estabelecimento de normas adequadas aos desiguais. Esses critérios são os do benefício, também chamado de equivalência, e o critério da capacidade de contribuição.94
Deve-se notar que o princípio da eqüidade tem como objetivo a distribuição justa do ônus tributário pelos indivíduos, para que ocorra, então, a justiça fiscal. Como já dito, a repartição se daria levando em consideração o benefício que cada pessoa recebe em relação aos bens e serviços prestados pelo governo, bem como a referida repartição deveria se pautar na capacidade de cada um para contribuir.
93
VALLÉE, A. Op. cit., p. 82.
94
No entanto, deve-se salientar que quanto maior o nível de justiça fiscal, menor será a eficiência arrecadatória do tributo. Isso porque, quando aplicados os critérios de eqüidade, uma das conseqüências possíveis é a diminuição efetiva de recursos arrecadados pelo Estado. O que vale, então, é chegar a um equilíbrio tanto para o Estado como para o contribuinte, uma vez que é muito difícil que se tenha um tributo que concilie eficiência da arrecadação e eqüidade ao mesmo tempo.
2.4.3.1. O princípio do benefício
Quando se fala em princípio do benefício, também chamado de critério de equivalência, há que se entender que tal preceito estabelece um princípio de igualdade com base nas preferências individuais pelo consumo de bens e serviços produzidos pelo governo.95
Assim, por meio da concepção que se tem desse critério, pode- se entender que cada indivíduo deve ser tributado de forma proporcional ao benefício que recebe do Estado. No entanto, há uma grande dificuldade em se identificar o valor real de vantagens que são usufruídas por um indivíduo, prejudicando, conseqüentemente, a utilização absoluta do princípio. Assim, esse modelo sofre limitações que reduzem fortemente seu alcance prático, uma vez que somente pode ser aplicado quando os beneficiários podem ser identificados claramente.96 Todavia, a abordagem que prevalece é a do tributo como mecanismo de solidariedade social. A primeira tem a marca liberal. A segunda, a marca da social democracia e decorre da intervenção do Estado.
95
REZENDE, F. A. Op. cit., p. 162-163.
96
2.4.3.2. O princípio da capacidade contributiva
Quando se trata do critério da capacidade de contribuição, deve-se compreender que tal preceito se refere às possibilidades que cada um tem de pagar tributos. Isso quer dizer que cada pessoa deverá ser tributada conforme a sua capacidade de aptidão econômica. Assim, a capacidade contributiva pode ser considerada como a capacidade econômica para pagar tributos.97 Ademais, esse princípio implica que a mesma soma de tributos deve ser paga por pessoas que possuam capacidades para pagamento iguais, da mesma forma que a tributação deverá ser diferenciada, quando os indivíduos possuam capacidades contributivas diferentes.98 Assim o princípio da capacidade contributiva propõe que os indivíduos devem arcar com uma carga fiscal que signifique igual sacrifício de bem-estar, representado em razão de perdas de satisfação no setor privado.
É importante que o Estado tente viabilizar que a tributação ocorra de forma a que cada contribuinte, com a mesma capacidade contributiva, pague o mesmo montante. Contudo, as contribuições também deverão ser diferenciadas de acordo com as diversas capacidades de pagamento. Somente o tributo que seja organizado segundo princípios idênticos para todos que estejam vinculados às mesmas situações. O pagamento deverá ser proporcional à capacidade econômica de cada um, respondendo ao princípio de igualdade de direito e de justiça fiscal.99
Como princípio informador dos tributos, a capacidade contributiva se consubstancia na personalização dos mesmos, devendo ser
97
ECKSTEIN, O. Op. cit., p. 93.
98
MUSGRAVE, R. A., MUSGRAVE, P.B. Op. cit., p. 183.
99
considerada nas formas de eqüidade horizontal e vertical. Observando o sistema horizontal, para a instituição do imposto é necessário que se leve em conta as condições pessoais dos contribuintes. Assim, arcarão com o mesmo ônus fiscal aqueles contribuintes que possuam a mesma capacidade de contribuição na escala de renda. A personalização do imposto deve ser observada sempre que a estrutura do aspecto material da hipótese de incidência o comporte, mesmo que se esteja diante dos chamados impostos reais. 100
Já o sistema vertical considera que deve ser dado tratamento desigual aos que têm capacidade contributiva diferenciada, na medida de sua desigualdade, por meio de instrumentos de redistribuição como a assistência social, impostos negativos e intervenções públicas, podendo ser entendido também no sentido de que os mais abastados serão tributados de forma mais pesada do que aqueles que possuem menos renda. De uma ou outra forma, o princípio da capacidade contributiva vertical evidencia o tratamento desigual de acordo com a diferença na capacidade de pagamento de cada um. 101
Esse princípio, como dito anteriormente, tem por finalidade o alcance da justiça fiscal, repartindo os encargos do Estado na proporção das possibilidades econômicas de cada contribuinte, ou seja, a partilha dos gastos estatais com a sociedade será feita, então, conforme a capacidade contributiva de cada indivíduo.102
100
MUSGRAVE, R. A., MUSGRAVE, P.B. Op. cit., p. 183.
101
MUSGRAVE, R. A., MUSGRAVE, P.B. Op. cit., p. 184.
102