3.SEZGİN KIZILÇELİK’İN BATI UYGARLIĞINA VE BATI SOSYOLOJİSİNE YÖNELİK TEMEL TEZLERİ
3.2. Batı Toplumunu Anlama ve Batı Gerçeğini Meşrulaştırma Aracı Olarak Sosyoloji Olarak Sosyoloji
3.2.1 Batı Dünyasını ve Tarihini Doğru Anlamak için Batı Sosyoloji Tarihini Bilmenin Zorunluluğu Tarihini Bilmenin Zorunluluğu
Fora do catálogo dos direitos e garantias fundamentais (Título II da CF/88), mais precisamente no art. 93, IX, a Constituição institui a obrigatoriedade de fundamentação de todas as decisões emanadas do Poder Judiciário, cominando expressamente a sanção de nulidade para o caso de inobservância dessa obrigação.
Trata-se de um dever imposto às autoridades judiciárias, que se traduz, num outro polo, no direito do jurisdicionado de obter uma decisão judicial fundamentada. A fundamentalidade desse direito decorre não só da importância atribuída pelo próprio texto constitucional, que expressamente prevê a sanção de nulidade para o caso de sua inobservância, como do fato de a fundamentação em si representar o exercício democrático do poder atribuído aos órgão jurisdicionais. Como bem apontam Gilmar Ferreira Mendes e Lenio Luiz Streck (2013, p. 1325), “a obrigatoriedade de fundamentação é, assim, um corolário do Estado Democrático de Direito”.
Por óbvio, uma decisão não é fundamentada quando se limita a fazer asserções genéricas, não se debruçando sobre os elementos constantes do processo. Uma decisão somente pode ser considerada fundamentada quando apresenta razões concretas, colhidas nos autos, que apontem o motivo pelo qual o juiz, naquele determinado caso, reputou que a melhor decisão é a que está apresentando. A fundamentação há de ser sempre substancial, apontando concretamente os elementos dos autos em que suportada, e não meramente formal, repetindo fórmulas genéricas que, por servirem a qualquer caso, acabam por servir a nenhum. Como bem destaca Nelson Nery Jr. (2004, p. 128):
Fundamentar significa o magistrado dar as razões, de fato e de direito, que o convenceram a decidir a questão daquela maneira. A fundamentação tem implicação substancial e não meramente formal, donde é lícito concluir que o juiz deve decidir as questões postas a seu julgamento, exteriorizando a base fundamental de sua decisão. Não se consideram 'substancialmente' fundamentadas as decisões que afirmam que 'segundo os documentos e testemunhas ouvidas no processo, o autor tem razão, motivo porque julgou o pedido procedente'. Essa decisão é nula porque lhe falta fundamentação. A fundamentação constitucionalmente exigida, porém, vai além de obrigar o juiz a explicitar os concretos elementos do processo e a norma jurídica que
suportam suas conclusões. Num Estado Democrático de Direito, no qual o exercício do poder jurisdicional somente se legitima na medida em que o juiz “explicita as condições pelas quais compreendeu” (STRECK, 2013, p. 84), a exigência de fundamentação exige que o juiz leve em consideração todas as razões levantadas pelas partes ao longo da atividade processual.
Vendo sob a perspectiva da coolaboração no processo civil, nova face do princípio do contraditório, Daniel Mitidiero (2011, pp. 154-155) deixa bem claro que a fundamentação exige o cotejo das alegações trazidas pelas partes:
A fundamentação da decisão judicial tem de ser completa. Nesse sentido, o parâmetro a ser observado para aferição dessa completude não pode ser, como por vezes se sustenta, a simples constância na decisão do sistema lógico-jurídico mediante o qual o juiz chegou a suas conclusões (…). De modo nenhum. A completude da decisão tem que ser aferida em função da atividade das partes, das alegações por essas produzidas com o fito de convencer o órgão jurisdicional de suas posições jurídicas. O juízo é sempre e sempre um ato de três pessoas no marco teórico do formalismo-valorativo. Dentro da perspetiva metodológica já desenvolvida, a exigência constitucional da fundamentação tem que ser vista como exigência de que o juiz explicite as razões pelas quais entendeu em determinado sentindo, cotejando todos os argumentos favoráveis e contrários postos pelas partes envolvidas. Todos os argumentos apresentados tem que ser enfrentados, sob pena de mácula ao direito fundamental à fundamentação da decisão judicial. Ainda que o juízo repute ser irrelevante algum argumento apresentado, ele tem que utilizar específica fundamentação destinada a demonstrar a irrelevância desse argumento37.
Infelizmente, a prática jurisdicional quanto ao dever de fundamentação é bastante deficiente e está longe de cumprir a contento com a imposição constitucional.
O STF já teve oportunidade de assentar, apoiado na doutrina alemã, que o princípio de contraditório exigia, no que concerne à fundamentação das decisões judiciais, o “direito de ver seus argumentos considerados ('Recht auf Berücksichtigung'), que exige do julgador capacidade, apreensão e isenção de ânimo ('Aufnahmefähigkeit un Aufnahmebereitschaft') para contemplar as razões apresentadas” (cf., v.g., RE 434059, Rel. Min. Gilmar Mendes).
37 No mesmo sentido, Cássio Scarpinella Bueno (2008, v. 1, p. 136) aduz que “para que se dê cumprimento escorreito ao princípio constitucional, é fundamental que também os argumentos ou as teses que, ao julgador, pareçam de menor ou nenhuma relevância para o julgamento sejam identificadas e rejeitadas com esta fundamentação”.
Essa perspectiva vai ao encontro do que aqui se defende como conteúdo do direito fundamental à fundamentação da decisão judicial, mas o próprio STF, ao analisar a questão atinente à ofensa ao art. 93, IX da CF/88, em sede de repercussão geral em recurso extraordinário, resolveu praticamente esvaziar o direito de ver os argumentos das partes considerados, que ele mesmo vinha construindo, para assentar que “o art. 93, IX, da CF exige que o acórdão ou decisão sejam fundamentados, ainda que sucintamente, sem determinar, contudo, o exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas, nem que sejam corretos os fundamentos da decisão” (AI 791.292-QO-RG, Rel. Min. Gilmar Mendes).
Adotando posição contraditória – parece não ser possível não reconhecer a incoerência decorrente de afirmar o “direito de ver seus argumentos considerados” e ao mesmo tempo assentar a ausência de obrigação de “exame pormenorizado de cada uma das alegações ou provas” –, o STF restringiu, de forma inadequada e antidemocrática, o alcance do direito fundamental à fundamentação das decisões judiciais.
Em verdade, parece que o STF se demitiu da tarefa de delinear com precisão o conteúdo do art. 93, IX da CF/88, transferindo, ainda que modo não explicitado, tal tarefa ao STJ. Isso porque a legislação infraconstitucional, sem relevante inovação em face daquilo que se pode extrair da Constituição, trata da fundamentação da decisão judicial no art. 458, II do CPC, instituindo ainda um recurso para controle da observância deste dispositivo, qual seja, os embargos de declaração, que é cabível para controlar omissões, o que inclui a deficiência na fundamentação, nos termos do art. 535, II do CPC.
O problema que reside na jurisprudência do STJ é o fato de esta ter assentado que o órgão jurisdicional está obrigado a analisar apenas as “questões relevantes”, pois, na esteira do que já assentado pelo STF, “o órgão julgador não está obrigado a se manifestar sobre todos os argumentos expostos pelas partes” (cf., dentre vários, REsp 1220394/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques).
Esse entendimento é criticável porque não veio acompanhando do estabelecimento de mínimos critérios para se identificar o que vem a ser “questão relevante”, grassando quanto ao ponto uma casuística confusa e imprevisível.
utilizado para qualificar a “questão” que o órgão jurisdicional está obrigado a enfrentar, não pode ser extraído, implícita ou explicitamente, de qualquer texto normativo. A própria lei, em verdade, ao mesmo tempo em que utiliza o termo “questão” no art. 458, II do CPC, utiliza o termo “ponto” no art. 535, II do mesmo diploma, sendo que este tem um conotação técnica mais ampla do que aquele38, a indicar, no mínimo, que há sérias dúvidas acerca da legitimidade de restringir a obrigação judicial de se debruçar apenas sobre questões, quanto mais sobre aquelas que, sem qualquer critério objetivo, o próprio órgão jurisdicional repute como relevante.
Partindo do texto constitucional, tendo especial atenção quanto à necessidade de se potencializar a efetividade dos direitos fundamentais, não se pode senão defender que o juízo está obrigado a enfrentar todos os argumentos levantados pelas partes, e não apenas as “questões relevantes”, conferindo-se assim a interpretação mais ampla possível à legislação infraconstitucional sobre a matéria.
Parece ser legítimo, porém, indagar acerca da viabilidade prática do entendimento proposto, tendo em conta especialmente o fato de sempre ser possível levantar novos argumentos em um debate, o que redundaria num regresso ao infinito.
Poder-se-ia enfrentar esse problema propondo, por exemplo, que o juízo não estaria obrigado a enfrentar todos os fundamentos levantados pelas partes para defender suas alegações, mas apenas os fundamentos jurídicos, que poderiam ser definidos como “a alegada coincidência entre os fatos expostos e regras ou princípios que lhes conferem o efeito pretendido” (ALVIM, ASSIS E ALVIM, 2012, p. 1209). Por certo é uma posição muito mais palatável do ponto de vista constitucional, pois se propõe a abandonar o critério casuístico e obscuro da 38 Segundo Cândido Rangel Dinamarco (2009, v. 3, p. 35), “não é indiferente o emprego dos vocábulos ponto e questão. Pontos são fundamentos, ou elementos capazes de influir num julgamento. Questão é o ponto, quando sobre ele existe alguma dúvida (...)”. Para Carnelutti (s.d., v. 1, p. 36), “quando a razão, seja da pretensão ou da contestação, se torna duvidosa, surge uma questão, a qual, portanto, é a dúvida acerca de uma razão. Posto que a decisão da lide se obtém resolvendo as questões, as questões resolvidas logo são razões da decisão: as razões (da pretensão ou da contestação) passam a ser questões (do processo), e estas se resolvem em razões (da decisão)”. Araken de Assis (2008, p. 602), por sua vez, ensina que: “questão é o ponto duvidoso, de fato ou de direito, noção correlata à afirmação das partes, na formulação inicial; posteriormente, tornou-se dúvida acerca das razões alegadas pelas partes (...)”.
relevância da questão, mas ainda assim não corresponde a uma resposta constitucionalmente adequada, na medida em que deixa de fora os fundamentos que giram em torno da construção dos fatos – o juiz está obrigado a enfrentar o argumento da parte no sentido de que os fatos se deram dessa e não daquela maneira – bem como os fundamentos ligados à construção da norma jurídica a partir do cotejo entre os fatos e o texto normativo – o juiz está obrigado a dizer porque entende que o texto normativo x significa y e não z, como eventualmente defenda qualquer uma das partes.
A solução para o problema ligado ao regresso ao infinito, na verdade, passa pelo estabelecimento de um limite formal, processual, que seria a possibilidade de levantar argumentos até os embargos de declaração, bem como a adoção do método já proposto, pelo qual o juízo pode dar cabo ao processo de argumentação diante de argumentos contrários de igual correção mediante o exercício explícito e fundamentado do poder de escolha de um deles, devendo ser mantida a coerência entre as decisões, de modo a evitar que referida escolha descambe para um puro decisionismo.
Fixado o conteúdo do direito fundamental à fundamentação das decisões judiciais, não é difícil extrair-lhe o conteúdo objetivo, que inclusive já foi explicitado no início do trabalho: a necessidade de adoção de um método racional de interpretação/aplicação do direito, que envolva a necessidade de confronto de todos os argumentos postos em debates juntamente com o dever de manutenção de coerência entre as decisões.