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Pela ênfase que se dará ao sentido simbólico das espacialidades configuradas a partir da lógica de expansão territorial do GEPE e dos respectivos espaços de ação dos adeptos na dinâmica urbana de Fortaleza, derivado das diferentes linguagens que compõem o universo doutrinário espírita acredita-se que a teoria das formas simbólicas de Cassirer (2001) se apresenta como referencial teórico capaz de contribuir na análise dos dados empíricos pelos seus fundamentos e conceitos a respeito da realidade cultural através da leitura compreensiva do sentido e significado

das representações simbólicas. Até porque, é preciso que haja um deslocamento da centralidade investigativa do mundo dos fatos para o mundo simbólico do sujeito- objeto (GIL FILHO, 2010). Condição favorável para se mapear em termos simbólicos a intencionalidade das práticas sociais dos adeptos do GEPE, seja no âmbito dos diálogos ou narrativas mediúnicas196; nas ações pedagógicas197 ou de promoção social198, capaz de ensejar espacialidades específicas que pressupõe “um contíguo do mundo material ao espiritual (e vice e versa)” (GODOY, 2007, p.42), sempre orientado pela noção de unicidade entre Deus, o homem e o mundo.

De acordo com esse idealismo crítico as espacialidades se configuram como “parte de um sistema simbólico que estrutura funcionalmente a experiência humana” (CASSIRER cf. GIL FILHO, 2010, p.1) e a espacialidade espírita, enquanto expressão do sentir e do devir de uma consciência espiritual derivada de uma conduta de vida, comprometida com a ética e o bem estar coletivo, modela seus espaços de ação a partir das interlocuções entre as dimensões tangíveis e intangíveis199, se apresentando, portanto, como um campo simbólico de análise dual.

Inicialmente, quando se observa que a experiência do sensível em direção ao conhecimento lógico e abstrato precisa transcender os limites do espaço objetivado em direção a realidade plausível do mundo espiritual, cuja representação subjetiva-se para alcançar através da consciência intuitiva o limiar perceptivo das esferas espirituais. E segundo, quando significamos por meio de experiência ou da comunicação mediúnica200 os espaços de ação do GEPE estamos, na verdade, estruturando por meio de funções específicas o mundo simbólico dessa organização social religiosa.

196

Referências as formas de comunicação utilizadas no intercâmbio mediúnico entre os planos terreno e espiritual, cuja mediação feita pelo médium pode dispor de elementos da fala, da escrita, da intuição, da visão, da audição, como linguagens recorrentes da espiritualidade.

197 Lastro fundamental para apreensão da codificação espírita através do estudo dos princípios doutrinários. 198 Atuação social-caritativa em que a solidariedade como ferramenta da cidadania investe na assistência e promoção social do homem ao “oferecer-lhe condições para superar a situação de penúria sócio-econômica- moral-espiritual em que se encontra”, cuja caridade não se reduz a ajuda material “mas na relação que se estabelece com o outro” (SAPSE, 2000, p.13). Assistência aqui entendida como “um ato espiritual e não somente a solução de um problema material e terreno” (GODOY, 2007, p.53).

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Mundo objetivado da consciência humana e mundo subjetivado da consciência espiritual mediados pelo conhecimento doutrinário, no qual o eterno devir se constrói na busca do equilíbrio entre alteridade e ética, cujas atitudes balizadoras da conduta espírita se colocam para além “das tensões sociais intrincadas” entre esses dois mundos (GODOY, 2007, p.49), que se complementam como condição indispensável à escalada evolutiva da humanidade.

200 É um processo psíquico em que se estabelece o diálogo entre um médium e um espírito comunicante a partir de uma sintonia vibracional em nível de perispírito.

Exatamente, “nesse espaço onde acontece a significação e a objetivação do mundo” (FERNANDES, GIL FILHO, 2011, p.213) que se formatam as distintas espacialidades espíritas.

A partir da concepção de que as formas simbólicas são representações culturais ou mundo de símbolos, construídos através da linguagem201, passíveis de serem apreendidos no tempo e no espaço de ação em diferente forma e função específica (CASSIRER, 2001), torna-se possível recorrer a esse aporte filosófico como base de sustentação de análise e interpretações dos dados empíricos desta investigação, no sentido de apreender a lógica simbólica das espacialidades, no âmbito das práticas sociais espíritas.

A espacialização dessa dinâmica social pela sua singular concepção teórica e prática de lidar com realidades geográficas, que não se limitam à geometria do espaço físico euclidiano, não terá como referência apenas o arquétipo religioso com base na dualidade de espaço sagrado e profano, pressuposto espacial da teoria fenomenológica

eliadeana, mas, sobretudo, o significado das impressões advindas das diferentes

formas de atuação espírita que, mediadas pelo conhecimento doutrinário e as experiências mediúnicas, projetam na realidade o sentido das abstrações lógicas e dão contextura às formas simbólicas (CASSIRER, 2001), que estruturam os espaços de ação do espiritismo, através de suas representações culturais.

Embora para Cassirer (2001, p.208) toda forma simbólica seja única na noção espacial, derivada de uma intuição imediata, o substrato mediador dessa dialética possibilita à linguagem “realizar sua função essencialmente lógica: a de transformar impressões em representações”, essa passagem da consciência sensível à esfera do intelecto demanda uma estrutura tríplice em que a linguagem como expressão aglutinadora da forma e do conteúdo do conhecimento cultural apresenta três funções básicas: expressividade, representação e significação, a partir da relação entre signo e significado.

201

No sentido cassireriano se apresenta como esfera mediadora da cultura, capaz de promover “uma determinada direção fundamental de nossa ação espiritual, uma totalidade de atos psíquico-espirituais que revela um novo aspecto da realidade das coisas” (GIL FILHO, 2010, p.4).

Nesses termos, cada forma simbólica se caracteriza pela natureza da relação que estabelece entre signo e significado. Como formas simbólicas o mito, a linguagem, a ciência e a religião contêm na estruturação dos significados específicos relações de expressividade (identificação entre signo e significado); de representação (distinção entre signo e significado) e significação (religação entre signo e significado) respectivamente (CASSIRER, 2001). A religião, ao transcender o mito na objetivação do mundo ao “ordenar a narrativa do fenômeno religioso, de maneira que a organização das ideias ultrapasse a caracterização dada pelo sentir mítico” (FERNANDES, GIL FILHO, 2011, p.223), se inclui na relação de representação em que está contida a linguagem.

Ao articular dialeticamente as forças estruturantes da realidade – mito, religião, linguagem, arte, ciência, – sabendo-se que essas formas de objetivação necessitam da intuição tempo e espaço na passagem das impressões sensíveis para os conteúdos simbólicos, expressos em sentimentos, discursos, narrativas, práticas sociais, torna-se evidente que a fenomenologia do conhecimento de Cassirer (2005) delineia espacialidades como expressão simbólica, mediadoras das práticas sociais.

Consoante com Cassirer (2001), dentre essas formas simbólicas o mito ao se espacializar no pensamento humano enforma espaço de ação e expressão e a religião, ao transcender àquele, adquire conformação simbólica quando recorre às espacialidades funcionais da expressividade e da representação pela linguagem. Quando se refere à espacialização do fenômeno religioso Cassirer (2001) argumenta que demarcar a ultrapassagem do sentir mítico para o discurso fundador das grandes religiões requer uma reflexão acerca das forças de conservação e mudança, que pontuam o trajeto evolutivo da humanidade.

Em todo o curso de sua história a religião permanece indissoluvelmente ligada a elementos míticos, e impregnada deles. Por outro lado o mito, mesmo em suas formas mais grosseiras e rudimentares, traz em si alguns motivos que de certo modo antecipam os ideais religiosos superiores que chegam depois. Desde o início, o mito é religião em potencial. (CASSIRER, 2001, p.146).

Sendo o espiritismo uma doutrina espiritualista moderna, ancorada na lógica e na razão, se apresenta como um campo de conhecimento multidisciplinar aberto a

permanente reflexão crítica, no qual a própria concepção religiosa em termos de uma fé raciocinada não pode estar dissociada das experiências e narrativas que estruturam o simbolismo espiritual. Assim, pretende-se identificar a lógica da espacialização do GEPE com foco numa possível dimensão religiosa, a partir do esquema representacional dos atores sociais do GEPE referendado nas práticas sociais do espiritismo. Donde a leitura interpretativa dos dados empíricos da pesquisa poderá transitar dialeticamente do fenomênico para o representacional, uma vez que a espacialidade contém “tanto o esquema perceptual de determinada forma simbólica quanto representação objetivada do fenômeno” (GIL FILHO, 2010, p.6). É nesse espaço perceptivo que se pretende apreender as representações culturais derivadas dos espaço de ação das quatro unidades gepeanas.

Benzer Belgeler