O modelo parsoniano superestimou o consenso normativo como uma ca- racterística empírica das sociedades, dando pouca atenção a outros fatores de moti- vação, na análise da ação social. Garfinkel destacou o fato de que Parsons atribuiu excessivo valor aos problemas de motivação sem se voltar para a inteligibilidade que permite aos atores sociais coordenar suas ações e orientá-las ao longo de seu desen- volvimento. Ele opôs, então, à motivação e disposição parsonianas, a questão da inteligibilidade e do saber e postulou que conceptualizar o saber que os atores apli- cam às circunstâncias de suas existências é um elemento-chave para uma teoria da ação social.
Os aspectos enfocados na solução garfinkeliana – os saberes e os procedi- mentos dos atores sociais, o status desses saberes e procedimentos no quadro teórico- analítico da ação social – dialogam com e se benefeciam do pensamento do filósofo Alfred Schutz (1962, 1967). Esse fenomenologista propôs pressupostos e métodos da elabora- ção situada, como a pressuposição da reciprocidade de perspectivas, segundo a qual os membros atuam como se partilhassem um ponto de vista intercambiável sobre a ação.
A pressuposição da reciprocidade inclui métodos de elaboração situada do que se passa, tais como o método do ad hoc, o método do etcétera e o método da interpretação documental. Pela implementação do método do ad hoc, os raciocínios gerais se adaptam às circunstâncias presentes. Pelo método do etcétera, listas de eventos de uma ação, sempre necessariamente abertas, são consideradas comple- tas. Finalmente, pela implementação do método da interpretação documental, o sentido do que se passa é associado a um padrão subjacente, reconhecido e familiar.
Schutz entende que o mundo social é interpretado em função de categorias e de construções de senso comum originadas nas práticas sociais. Essas construções constituem recursos com a ajuda dos quais os atores sociais compreendem suas situ- ações de ação, apreendem as intenções e as motivações dos outros, alcançam uma compreensão intersubjetiva, coordenam ações e, em um plano mais geral, circulam pelo mundo social.
Os conteúdos e características dessas categorias e construções devem for- necer os fundamentos da teoria social, a referência da teoria social ao mundo social da vida e da experiência cotidiana, garantindo, assim que o mundo da realidade social não seja substituído por “um mundo fictício inexistente, criado pelo observador cientí- fico” (Schutz, 1967: 8). Tais conteúdos e características exigem uma investigação sis- temática, tanto no nível teórico quanto no nível empírico. Conforme veremos adiante, a Análise Conversacional stricto sensu condiciona a teorização como uma decorrência da investigação empírica.
A economia conceitual de Schutz remete a uma descrição relacional de linguagem como coordenação de coordenação de conduta. A Biologia do Conhecer, porém, atribui uma centralidade maior ao linguajar do que aquela encontrada no mo- delo de Schutz. Para essa Biologia, o estar na linguagem é constitutivo do humano.
Ao teorizar sobre o saber e a cognição de senso comum, Schutz apontou que diferentes perspectivas, biografias e motivações fazem com que os atores sociais disponham de diferentes experiências do mundo. Apesar disso, eles podem conside- rar suas experiências como ‘idênticas’ para todos os fins práticos. Desse modo, para esse filósofo, as pessoas não põem em dúvida que as coisas correspondam à sua aparência e que a experiência passada possa ser um guia confiável para o presente. Nas ações da vida cotidiana, construções sociais de objetos e eventos, naturais e sociais, funcionam como recursos pragmáticos para a construção das ações. A com- preensão entre os atores, então, se estabelece através de um processo ativo, no qual os participantes adotam a tese geral de uma reciprocidade de perspectivas, suspen- dendo as dúvidas quanto à validade e utilidade das construções sociais.
A proposição da reciprocidade de perspectivas pode ser correlacionada à adequação de uma conduta às suas circunstâncias, conforme Maturana (1999b: 62) discute. Com efeito, Schutz entende que, nas ações cotidianas, os atores sociais se orientam através de objetos e eventos, naturais e sociais, para a construção de obje- tos e eventos, naturais e sociais. Eles são construídos e reconstruídos ativamente, no fluxo da experiência, através de uma série de operações subjetivas, de sínteses de identificação constantemente renovadas, em um quadro de familiaridade e conheci- mento prévio, alimentado por um estoque de saber disponível, originado nas práticas sociais. Esse estoque de construções sociais, em função do qual os atores analisam o mundo, é conservado sob uma forma tipificada, sendo, pois, aproximativo e reversível.
A objetividade e a tipicidade dos objetos e eventos ordinários são tomadas como dadas pelos atores sociais. É assim que esses objetos são estabilizados como sendo “absolutamente idênticos”, apesar das mudanças que intervêm nas perspecti- vas físicas a partir das quais eles são vistos e, nos casos de objetos animados, apesar de suas formas mutantes e das suas múltiplas manifestações comportamentais (Schutz, 1967: 7).
Uma proposta semelhante a essa de Schutz, presente na teoria garfinkeliana, pode ser, pois, compatibilizada com a concepção performativa da realidade, proposta na Biologia do Conhecer, bem como com a descrição das operações de distinção enquanto as atividades cognitivas fundamentais do ser humano e com a postulação da recursividade enquanto o elemento instaurador das impressões de estabilidade com as quais circulamos no meio social (Maturana, 2001b: 72), aspectos que conside- ro basilares para a minha observação dos eventos interacionais dos Tipis.