• Sonuç bulunamadı

Embora os contatos internacionais – de Abdias à Edna Roland – tivessem contribuído para um significativo alinhamento brasileiro ao ativismo transnacional, boa parte dos militantes não participou destes contatos. Porém, isso não os impediria de acompanhar o que acontecia fora do país e de também absorver, através de fontes não-relacionais, os conteúdos que circulavam nos diversos contextos de luta, tanto na África como nos Estados Unidos. As principais fontes eram as revistas de notícias e os livros escritos por intelectuais negros.

Entre as fontes de notícias, destacam-se as revistas Realidade, Ebony e Manchete, que traziam informações sobre os protestos nos EUA e também sobre as

tendências de estilo e comportamento que circulavam entre a juventude negra. Conforme os relatos a seguir, uma parcela destas informações contribuíram para o entendimento do cenário internacional de lutas.

Eu fiquei muito impressionado com a morte do Luther King, com os Panteras Negras, aquilo me galvanizou. Eu acompanhava tudo, ponto por ponto: Muhammad Ali era Cassius Clay; a Angela Davis, que saltou do tribunal para fugir; o julgamento e a luta dos Panteras Negras; os assassinatos... E acompanhava na revista Realidade, que era uma revista meio contestadora no período da resistência democrática.

(Amauri Mendes Pereira, 2007, p.74)

No período em que eu estava quase no último ano do científico, comecei a tentar organizar o movimento negro lá onde eu morava, na Zona Leste de São Paulo. Apresentei a idéia para as pessoas, montamos o estatuto... Eu não tinha muita clareza, porque as fontes de informação que eu tinha eram o pouco que eu estava lendo naquele momento. Eu tinha uns 16, 17 anos, e o que me impactou foi a revista Realidade. Imagina você andar daqui até o Centro da cidade. Eu fazia isso só para poupar a grana para comprar a revista Realidade.

(Ivair Alves dos Santos, 2007, p.71)

Então, não era uma banalidade ler numa revista como a Manchete, nos anos 1960, uma matéria sobre mais um verão quente nos Estados Unidos com manifestações contra o racismo. Aquilo foi importante para nós. Primeiro, porque aparecia em revistas perfeitamente acessíveis, que você encontrava numa biblioteca. Isso provocava comparações, possibilidades de analogia – são as primeiras referências de liderança que você vai ter. Depois, porque os Estados Unidos tiveram uma força muito grande em chamar a atenção e mostrar coisas.

(Edson Cardoso, 2007, p.87)

Ao mesmo tempo que os militantes acompanhavam o cenário de lutas norte- americano e procuravam fazer comparações que os ajudassem a compreender a luta antirracista no Brasil, também descobriam estilos e comportamentos nos EUA. Tais aspectos também eram incorporados ao cotidiano brasileiro.

A revista Ebony é voltada para a classe média negra, que, naquele momento, também estava muito mobilizada. Então você tinha lá os artigos, você tinha debates: separação ou integração? E eu conseguia perceber que, embora muita coisa fosse específica, tinha muitas coisas com as quais eu podia me identificar plenamente com a situação do Brasil. [...] E o que eu fazia? Pegava a Ebony, que tinha um formato da Life antiga, aquela revista grande, botava aquela pilha de Ebony debaixo do braço, ia para lá e ficava mostrando: “Olha aí. Deixa o cabelo assim também. É legal”. E alguns diziam: “Não. Isso fica legal em você, não fica em mim”. Mas, rapidamente a coisa pegou. Claro, não foi por minha causa. Tinha televisão, filmes americanos etc. Rapidamente aquilo se alastrou, até que, num determinado momento, todos os negros usavam afro, independentemente de qualquer coisa.

Considerando que o movimento negro brasileiro sempre se caracterizou pela enorme pluralidade de idéias e práticas (Hanchard, 2001), uma parcela da militância sempre esteve alinhada com os grupos de esquerda no Brasil. O que, durante os governos militares, os afastava de tudo que estivesse ligado aos americanos. Apesar de reconhecerem a importância do movimento dos direitos civis, faziam críticas ao modelo de lutas daquele país e acabavam se identificando mais com as lutas do continente africano. Os dois relatos a seguir abordam esta postura.

A grande máxima, digamos assim era rejeitar o imperialismo dos Estados Unidos. E esse era um drama que eu carregava porque tinha um lado daquela sociedade de que eu gostava. Eu gostava dos Panteras Negras, eu gostava da luta pelos direitos civis, e carreguei comigo este drama durante todo o meu período de participação, porque você rejeitava o imperialismo mas aquela era uma sociedade que tinha algo que agradava. E o algo que me agradava era a luta racial. Acredito que todos os negros daquele momento, que participavam, que tinham atividade política mais forte, também sentiam isso. Naquele período estava começando todo o processo de libertação das colônias do neocolonialismo. Aí, claro, você vai ler Senghor, Agostinho Neto, todo aquele pessoal da négritude. Então isso alimentou a gente durante muito tempo. Tanto que eu acho que, quando o movimento negro ressurge cm 1978, essas são as referências. Além dos Estados Unidos, a grande referência são as lideranças dos movimentos de libertação na África.

(Zélia Amador, 2007, pp.87-88)

Havia uma certa articulação entre nós, mas a gente dizia assim: “Eles são os negros burgueses. A pequena burguesia negra. Nós estamos fora. Somos revolucionários negros, nossa visão é revolucionária. Nosso referencial não é Estados Unidos. Estados Unidos criaram uma elite negra. Nossa visão são as lutas de libertação africanas, luta armada.” Esse era o nosso referencial: Samora Machel, Eduardo Mondlane, Agostinho Neto, Amílcar Cabral... A gente fazia essas cisões, que depois vimos que eram completamente inconsistentes.

(Amauri Mendes Pereira, 2007, p.141)

O contato com a África se dava principalmente através da leitura. Entre os autores principais estava o psiquiatra e ativista negro Frantz Fanon com o clássico

Os Condenados da Terra publicado originalmente em 1961, no ápice das lutas pela

libertação da Argélia. O livro retrata os horrores do colonialismo e as dificuldades dos povos autóctones de se libertarem do domínio europeu e construírem uma nação independente política e culturalmente. O uso da violência como recurso de luta e o caráter revolucionário do livro radicalizavam seu conteúdo e o tornavam uma fonte de inspiração para os grupos mais radicais. Além de Fanon, os relatos mostram a influência também de outros intelectuais negros.

Sobre a África nós liamos livros traduzidos; por exemplo, o Condenado da

terra de Frantz Fanon, que era quase uma bíblia. Então a gente lia muito. E

também lia muitas matérias, a gente conseguiu revistas sobre África. Então, o movimento negro, seu pensamento de afrobrasilidade, formou-se muito com referência em algumas lideranças negras americanas e em lideranças dos países da linha de frente nos processos de libertação africana. As referências eram Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Samora Machel... A gente tinha que acompanhar o legado que eles deixavam na época para a formação da consciência negra. Quanto aos americanos, Malcolm, Luther King, eram essas as pessoas que a gente tinha como referência.

(Gilberto Leal, 2007, p.76)

Um livro fundamental foi Alma no exílio, do Eldridge Cleaver, que chegou numa tradução feita no Brasil. O Frantz Fanon também, com Os condenados

da terra, foi um livro que quase todo militante que estava ali em volta leu.

Foram livros muito importantes e que reforçaram um conteúdo de militância muito grande. Emprestavam-se livros, porque o movimento negro em São Paulo foi feito basicamente por estudantes universitários que estavam enfrentando a dificuldade da universidade e estavam lendo, eram pessoas que liam e que tomavam contato.

(Luiz Silva (Cuti), 2007, p.77)

Um autor que a gente discutiu bastante foi Frantz Fanon, um psiquiatra que Estudou o colonialismo na África. Mas a gente lia de tudo; o que caísse... (Hédio Silva Junior, 2007, p.80)

Mesmo sob a influência da literatura negra sobre as lutas na África, ativistas norte-americanos como Martin Luther King Jr., Malcolm X e Eldridge Cleaver dividiam as atenções da militância negra no Brasil. Este conjunto de fontes formaram ao longo dos anos as principais matrizes de pensamento do movimento negro, conforme o relato abaixo.

Podemos identificar três matrizes de pensamento no discurso da geração que se engaja no movimento negro nos anos 1970 e 80. Três diferentes fontes, diferentes influências externas. Você tem o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, que sempre mobilizou a atenção da militância; você tem as lutas independentistas no continente africano, sobretudo, até pela facilidade da proximidade linguística, nos países lusófonos, notadamente Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau. E, por fim, o movimento pela négritude, que a rigor sempre foi um movimento literário na verdade, um movimento cultural de intelectuais de África e das Antilhas que se encontram em Paris nos anos 30 do século passado e que vão formular algumas idéias a respeito do que seriam o ocidentalismo e o orientalismo na perspectiva africana, nos valores africanos. Enfim, um modo africano de ser por meio de várias linguagens.

(Hédio Silva Júnior, 2007, p.69)

O que podemos observar até aqui é que, desde a tese do quilombismo, passando pelos congressos negros e pelos autores negros, até o contexto de lutas estadunidense, o interesse pelo continente africano aparece como principal ponto de articulação de todas estas narrativas. A busca por uma origem comum africana

parece confirmar o princípio básico no pensamento pan-africanista de articular o significado da raça negra em torno na idéia de “Mãe África”, berço de todos os negros, agora em exílio pelo mundo. Disso decorre um interesse comum de todos os lugares da diáspora em recuperar a história do continente africano e a partir dela construir as bases de uma identidade afro-descendente.

Por exemplo: a valorização da história africana, que era uma coisa que valia lá na África e nos Estados Unidos e também era válida aqui. Aqui a gente poderia acrescentar a história afro-brasileira, adaptar essa idéia e trazer isso para cá. Isso era absolutamente válido e necessário. A valorização de uma estética negra, isso era uma coisa que cabia... Certas formas de luta, certas coisas específicas podiam ser trocadas. Inclusive num movimento que acabou sendo não de mão única, mas algo de mão-dupla: os negros americanos, curiosamente, têm vindo muito para cá. Salvador está virando uma espécie de meca dos negros americanos. Então não é uma coisa subserviente de imitação do estrangeiro. E contato, é troca. E isso a gente começou a fazer naquela época, e estava claro para a gente.

(Carlos Alberto Medeiros, 2007, p.89)

Importante ressaltar, conforme o relato acima, que os fluxos transnacionais são também multilaterais. Ou seja, há o interesse mútuo dos países da diáspora em conhecer seus contextos, com suas lutas, seus dramas e suas soluções. É deste interesse que surge o transnacionalismo negro acadêmico que, segundo Hanchard (2004), se forma por meio das pesquisas e dos debates em torno dos Black Studies, um conjunto abordagens teóricas desenvolvidas a partir das múltiplas experiências vividas em diversos lugares para refletir sobre um bloco teórico que dê sentido a experiência africana no mundo. Entre as diversas correntes que formam estes estudos, os comparative studies cumprem um papel importante de difusão das noções de raça e racismo, colocando em perspectiva as diferenças e similaridades encontradas nos contextos analisados.

Neste sentido, os desdobramentos do projeto Unesco são fundamentais para compreendermos as mudanças no olhar da militância sobre as relações raciais no Brasil. Nas comparações feitas entre o Norte e o Sul do país e entre o Brasil e os Estados Unidos, foi possível verificar que que a democracia racial não passava de um ideal sem correspondência com a prática cotidiana do preconceito e da discriminação (cf. Bastide & Fernandes, 1955), que no Brasil, diferentes dos EUA, prevalecia um “racismo de marca”, igualdade excludente, porém funcionando de forma mais sutil (cf. Nogueira, 2007 [1955]) e, principalmente, que a comparação

entre “brancos” e “não-brancos” nas estatísticas oficiais revelavam a influência de adscrições raciais na desigualdade brasileira (cf. Hasenbalg, 1995 [1979]).

Foi apropriando-se de todas estas influências teóricas e práticas que o movimento negro brasileiro se reinventou no final dos anos 1970 e passou a orientar suas ações a partir de um novo frame de ação coletiva e a reivindicar mudanças urgentes na sociedade brasileira. O primeiro passo neste sentido é redefinir a identidade racial, ou seja, quem são os negros no Brasil. Isso passa necessariamente por uma nova forma de classificação racial.

Benzer Belgeler