Moacir Gadotti, em seu livro “Boniteza de um sonho: ensinar-e-aprender com sentido” (2003) escrito em homenagem a Paulo Freire descreve em um parágrafo o que ele considera ser professor:
Ser professor hoje é viver intensamente o seu tempo com consciência e sensibilidade. Não se pode imaginar um futuro para a humanidade sem educadores. Os educadores, numa visão emancipadora, não só
transformam a informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também formam pessoas. Diante dos falsos pregadores da palavra, dos marqueteiros, eles são os verdadeiros “amantes da sabedoria”, os filósofos de que nos falava Sócrates. Eles fazem fluir o saber - não o dado, a informação, o puro conhecimento - porque constróem sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam, juntos, um mundo mais justo, mais produtivo e mais saudável para todos. Por isso eles são imprescindíveis. (GADOTTI, 2003, p. 17)
A definição poética feita por Gadotti sobre o que é ser professor, é bem diferente da realidade atual. A falta de expectativa na carreira, baixos salários, alta carga de trabalho, salas cheias, alunos desmotivados, escolas sem infraestrutura e cobranças da instituição e das famílias, faz com que o professor hoje perca esperança de uma carreira promissora. Mesmo nos cursos de Pedagogia ou Licenciatura, onde os alunos preparam-se para ser professor, na maioria das vezes, não pensam em se dedicar ao magistério como opção profissional (GADOTTI, 2003).
Essa desvalorização da imagem do professor não é de hoje e já aparecia em artigos de jornais em 1989, conforme apontou o jornalista Leonardo Trevisan em matéria do dia 1 de julho de 1989:
Todos dizem que gostam muito dos professores, mas não chegam a incomodar-se muito com o fato de que há tempos eles recebem um salário de fome. O salário é a parte mais visível de uma condição – da qual decorre um papel social que se descaracterizou por completo... Só quem não quer ver não percebe o sentimento de cansaço, de esgotamento de expectativas de quem encarava com dignidade o seu desempenho profissional. (TREVISAN, 1989)
Em um estudo8 realizado em 2009 pela Fundação Victor Civita (FVC) em parceria com a Fundação Carlos Chagas (FCC) e com patrocínio da Abril Educação, do Instituto Unibanco e do Itaú BBA, constatou-se que “apenas 2% dos jovens que cursam o 3º ano do Ensino Médio pretendem cursar Pedagogia ou alguma Licenciatura”. A pesquisa ouviu 1.501 alunos em 18 escolas públicas e particulares de oito cidades.
8 Fundação Victor Civita - Pesquisa: A atratividade da carreira docente. Disponível em
<http://www.fvc.org.br/estudos-e-pesquisas/2009/atratividade-carreira-docente-530689.shtml> Acesso em 4 de fevereiro de 2011.
O Jornal Estado de São Paulo publicou no dia 2 de fevereiro de 20119, os últimos dados do Censo do Ensino Superior, realizado anualmente pelo Ministério da Educação e Cultura – MEC, constatando que:
O número de formandos nos cursos que preparam docentes para os primeiros anos da educação básica - como Pedagogia e Normal Superior - caiu pela metade em quatro anos. De 2005 a 2009, os alunos que concluíram essas graduações foram de 103 mil para 52 mil, o que comprova o desinteresse dos jovens pela carreira. (OESP, 2009)
Além disso, os dados do censo apresentam queda também no que diz respeito aos cursos de licenciaturas, que preparam professores para atuar no ensino médio e últimos anos do fundamental: em 2005 foram 77 mil e em 2009 64 mil. Essa situação deverá provocar uma falta de docentes, pois os municípios tem se preparado para a ampliação do número de matrículas para crianças de 4 e 5 anos, que se tornarão obrigatórias em 2016.
No relatório da UNESCO de 2009, “Professores do Brasil: impasses e desafios”, Tardif e Lessard (2005 apud GATTI e BARRETTO, 2009) acreditam que:
O magistério, longe de ser uma ocupação secundária, constitui um setor nevrálgico nas sociedades contemporâneas, uma das chaves para entender as suas transformações. Nos países avançados, e também nos países emergentes como o Brasil, o setor de serviços e, no seu interior, os grupos de profissionais, cientistas e técnicos não cessam de crescer, e passam a ocupar posições de destaque em relação aos trabalhadores que produzem bens materiais, cuja presença numérica e importância relativa diminuem. (TARDIF E LESSARD, 2005, apud GATTI e BARRETTO, 2009 p. 15).
O crescimento no período de 1940 a 2000 das profissões no setor de produção de bens e nos provedores de serviços está ligado à aceleração na produção de conhecimentos e veiculação de informações, possibilitado pelo avanço das tecnologias, que requerem para o seu manejo ou domínio formação prolongada e de alto nível.
Essa preocupação com o professor já atinge, inclusive, a Casa Branca, pois em um dos seus mais recentes pronunciamentos, o presidente dos Estados Unidos da América, Barak Obama, comenta sobre a importância de
9 Disponível em <http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110202/not_imp674136,0.php>
ser professor em uma sociedade civilizada e convida os jovens a seguirem essa profissão, dizendo claramente:
In fact, to every young person listening tonight who’s contemplating their career choice: If you want to make a difference in the life of our nation; if you want to make a difference in the life of a child - become a teacher. Your country needs you10. (OBAMA, 2010)
O trabalho do professor tem uma importância ainda maior do ponto de vista político e cultural, na medida em que há mais de dois séculos constitui a forma dominante de socialização e de formação nas sociedades modernas e continua se expandindo. Ainda segundo Tardif e Lessard (2005 apud GATTI e BARRETTO, 2009):
Os professores constituem em razão de seu número e da função que desempenham um dos mais importantes grupos ocupacionais e uma das principais peças da economia das sociedades modernas. (TARDIF E LESSARD, 2005, apud GATTI e BARRETO, 2009 p. 15) No Brasil, dados de 2006 da Relação Anual de Informação Social – RAIS11, indicam, de forma surpreendente que os professores correspondem a 8,4% dos empregos registrados, colocando-se em terceiro lugar das categorias que mais empregam, atrás apenas de escriturários (15,2%) e provedores de serviços (14,9%). São cerca de 2.803.761 postos de trabalho no setor sendo que 82,6% em estabelecimentos públicos. Trata-se de uma profissão com predomínio feminino (77%) em que grande parte dos profissionais tem formação em nível superior.
A tabela 1 apresenta a distribuição dos empregos para os professores no Brasil de acordo com os níveis de ensino, conforme dados da RAIS de 2006.
Os dados aqui apresentados relacionam-se diretamente com a pesquisa realizada neste trabalho – discutida no Capítulo 4 em Análise dos Resultados, demonstrando que 53,3% do universo dos professores entrevistados dedicam- se exclusivamente à atividade docente e 46% cumprem o exercício de outras
10 Tradução livre: “Para cada jovem pensando em sua escolha de carreira: se você quer fazer
a diferença na vida da nação, se você quer fazer a diferença na vida de uma criança – seja professor. Sua nação precisa de você”. State of the Union de 25 de janeiro de 2011. Disponível em < http://www.whitehouse.gov/ > Acesso em 4 de fevereiro de 2011.
11 RAIS – Disponível em < http://www.rais.gov.br/rais_sitio/index.asp> Acesso em 4 de fevereiro
atividades além do magistério. Esse resultado é significativo, visto que 65% dos professores que responderam à pesquisa tem mais de 40 anos, 19,2% estão na faixa entre 30 e 34 anos e os restantes 15,8 % se encontram na faixa de 20 a 29 anos de idade, ou seja, a maioria já é considerada veterana na profissão.
Tabela 1 - distribuição dos empregos para os professores no Brasil
Fonte: relatório da UNESCO de 2009, Professores do Brasil: impasses e desafios.