3. KÜLTÜREL AKTARIM VE PŞİNAVOLAR
3.3. Dışarıya Sunma ve Aktarma Mekanları
3.3.1. Düğün Dernek
Stockhausen (1978: p. 354, passim) explica que a proporção das camadas temporais da peça (tanto musicais como cênicas) são resultado da multiplicação dos dígitos do ano de sua criação (1977): para cada 1 volta dos milênios, decorrem 9 séculos (1x9), 63 décadas (1x9x7) e 441 anos (1x9x7x7). Ainda segundo o compositor, as Tentações e Incentivos que interrompem e dão continuidade ao fazer musical “não são tão importantes quanto a polifonia de camadas temporais, e são – como no caso da apresentação em concerto – dispensáveis”13. Em função
disso, nossa análise concentrar-se-á na partitura de DER JAHRESLAUF, resultado da obra para concerto criada por Stockhausen em 1977. Nosso foco é a análise do material musical instrumental, e todas as informações referentes à atuação de dançarinos, atores ou cantores serão comentadas apenas como complemento, ou como contextualização.
Embora cada um dos grupos instrumentais em DER JAHRESLAUF represente um ciclo temporal diferente, os andamentos e subdivisões formais são sincrônicos, tocados por quatro naipes instrumentais diferentes, cada um representando um ciclo temporal distinto: anos, décadas, séculos e milênios. A continuidade musical é suspensa quatro vezes por meio de eventos
13) STOCKHAUSEN, 1978: p. 355. Em traduçao livre de: “Mir sind sie nicht so wichtig wie die Polyphonie der Zeitschichten, und ich könnte auch – wie im Falle einer konzertanten Auführung – auf sie verzichten.”
dramáticos denominados Tentações cuja função é impedir o fazer musical, e a cada vez são conduzidas à continuidade por meio de eventos nomeados Incentivos, chamados à continuidade do fazer musical.
Cada dígito é representado no palco por um conjunto de musicistas e, nas versões cênicas, por um dançarino-corredor:
Figura 4.1: cartaz da première da ópera DIENSTAG aus LICHT
• Os milênios são representados musicalmente pelo conjunto de três shō14 (órgão de boca
japonês), ou três harmônios na versão com instrumentos ocidentais (atualmente, sintetizadores ou samplers), e são corporiicados isicamente pelo corredor-dos-milênios, um dançarino vestido
14) A análise aqui apresentada fará referência aos instrumentos por seus equivalentes ocidentais, para efeito de clareza textual.
© Stockhausen-Stitung für Musik, Kürten, Germany (www.karlheinzstockhausen.org)
inteiramente de branco que realiza uma única e lenta volta em sua pista de corrida15 ao longo de
toda a duração da obra.
• Os séculos são representados por um conjunto de três lautas ryūteki (substituídas por lautas piccolo na versão ocidental16) e um gongo shōko (subtituído por bigorna ou tubo de ferro
fundido). O corredor-dos-séculos é um dançarino vestido de azul, que corporiica a corrida dos séculos em 9 voltas ao longo de sua pista.
• Para as décadas, três hichiriki (saxofone soprano, na instrumentação europeia), um tambor kakko (substituído pelo bongô), e um dançarino vestido de amarelo. Ao longo da peça, o corredor-das-décadas não fará 81 voltas em sua pista (o equivalente a 9 x 9), mas sim cerca de 56 voltas pela pista.
• Por im, para os anos, uma cítara gakusō (substituído por um clavicórdio elétrico na versão com instrumentos ocidentais), um alaúde gakubiwa (substituído por um violão ou guitarra elétrica), e um tambor taiko (substituído por um bumbo sinfônico). O corredor-dos- anos está vestido de verde, e completará 357 voltas em seu percurso ao longo da peça.
A diferença entre o número de voltas completadas pelos corredores dos-anos e das- décadas e o número de anos e décadas na obra se deve às seções em que os respectivos naipes silenciam (como durante os solos de lauta).
Para a estreia, os papéis dos corredores-dos-anos foram interpretados por atores do teatro nō, cuja habilidade de mover-se polirritmicamente – ou seja, mover partes do corpo de forma autônoma e em diferentes tempos e ritmos – já havia encantado Stockhausen17. A tradição
do nō, como boa parte da cultura tradicional nipônica, se ampara em movimentos lentos e calculados, e na a capacidade de aguardar, imóvel, o momento apropriado de movimentar-se. Para além das regras de etiqueta, formuladas ao longo da história do Japão e reforçadas durante o período Tokugawa (1603-1868 EC), diversos textos sobre as artes – shodō (書道: o caminho da caligraia18), chadō (茶道: o caminho do chá), do Kyūdō (弓道: o caminho do arco) e do
Kendō (剣道: o caminho da espada), para citar algumas – reiteram a importância do timing e do movimento controlado. Maconie destaca que, embora o cenário de JAHRESLAUF, com sua exigência de movimentos rápidos e em diferentes planos (agachado, em pé, pulando), pudesse parecer desrespeitoso aos artistas japoneses e à sua tradição por conta do potencial ridículo que tal proporção de movimentos pudesse atrair, “é certamente possível conceber
15) As pistas de corrida para cada corredor têm o formato dos número do ano em que a obra é executada. Assim, em sua estreia em 1977, o corredor-dos-milênios correu sobre o número 1; o dos-séculos, sobre o número 9; e os corredores das-décadas e dos-anos correram, cada um, sobre o número 7. Para sua performance em 2015, as pistas de corrida passam a ser: milênios (2); séculos (0); décadas (1); anos (5).
16) No entanto, a partitura (STOCKHAUSEN, 1994a: p. XI) explicita que, se possível, deve-se dar preferência para lautas ryūteki ou piccolo de madeira sobre piccolos de outros materiais.
17) STOCKHAUSEN, 1978: p. 443. No texto, Stockhausen se refere aos movimentos do dançarino como sendo polifônicos (“Aber für mich als Europäer war es eine phantastisch polyphone Erfahrung und eine völlig neue Vision”).
18) Tradicionalmente, os japoneses deinem a prática de uma atividade como o caminho (dō, 道) da atividade (do
chá, do arco etc.). Também é comum que se reiram à arte (jutsu, 術) – donde shojutsu (arte da escrita), kenjutsu
gestos apropriados às escalas temporais multicamadas de Stockhausen, gestos que não cortejem o ridículo: para as velocidades mais rápidas, por exemplo, tremores rápidos e movimentos de expressão facial, mãos e pés”19.
Figura 4.2: disposição dos músicos no palco
A partitura deixa explícito que não há regente (STOCKHAUSEN, 1994a: pg. XI). Na maior parte da performance, o bumbo sincroniza os musicistas, e o primeiro músico coordena seu respectivo naipe por meio de seus movimentos – por isso senta-se entre os outros dois instrumentistas do grupo. Os percussionistas sentam-se ligeiramente à frente de seus respectivos grupos, para que seus movimentos possam ser vistos com facilidade pelos outros.
Em DER JAHRESLAUF, a medida unitária de tempo é marcada pelos instrumentos de percussão e varia para cada agrupamento: para as cordas, é o compasso; para os saxofones, o conjunto de 7 compassos; para as lautas, o conjunto de 7 unidades dos saxofones (totalizando 49 compassos). Os harmônios não têm um marcador. A década (conjunto de sete compassos) é assumida como referência de unidade para encadeamento das diferentes camadas, tornando-se a unidade cíclica da obra.