aprende com as crianças.” (BARROS, 1999)
O objetivo desta pesquisa é investigar em que medida ocorre a participação e a expressão das culturas infantis em uma das turmas do primeiro ano do ensino fundamental, em uma escola pública do município de Curitiba.
Entrar na escola e escutar as crianças é um desafio para o pesquisador, porque as relações estabelecidas naquele contexto são complexas, já que a escola está inserida “numa realidade histórica, que sofre toda uma série de determinações” (LÜDKE & ANDRÉ, 2008, p. 5) culturalmente constituídas, que tantas vezes mantém um modelo de organização que desfavorece a escuta e a participação da criança, elegendo o adulto como detentor do papel central da voz, das decisões e da condução do que se vive na escola.
Coletar dados e buscar entender o que acontece entre as crianças pesquisadas num ambiente que não favorece essa escuta exige do pesquisador um exercício de rastreamento de linhas de fuga encontradas pela criança na rotina da escola. Momentos de recreio, de entrada ou saída e de tempos de espera nos quais os adultos ainda não disseram o que se deve fazer são primorosos para a escuta e a observação das expressões da cultura infantil. Momentos de diretividade docente também ocupam um lugar de importância na observação do pesquisador, porque nesses momentos (predominantes na escola) as crianças encontram formas de relacionar-se e de responder ao que o ritual da escola exige delas, e torna explícito o que as tem impedido de participar e de expressar sua cultura.
Por esse motivo, a pesquisa avança para além de observar e escutar as crianças, e analisa aspectos facilitadores e dificultadores de sua participação, considerando os arranjos estabelecidos na escola e seus agentes, crianças e adultos que com ela se relacionam. Ou seja, a pesquisa olha também para as condições que favorecem, ou não, a participação infantil na sala de aula.
A abordagem qualitativa mostra-se como mais adequada para pesquisas que dizem respeito aos fatos humanos, que consideram o movimento histórico e social e
as contradições das situações da vida das pessoas. Em se tratando de pesquisas com crianças na escola, o olhar para o dito e o não dito, o velado e o explícito, a tradição e a ruptura são essenciais para a compreensão do campo pesquisado. Nesse sentido, é elucidativo o que Chizzotti (2006, p. 19) define como abordagem qualitativa:
[...] genericamente pode-se definir como um esforço durável de observações, reflexões, análises e sínteses para descobrir as forças e as possibilidades da natureza e da vida, e transformá-las em proveito da humanidade.
A abordagem qualitativa possibilita uma conexão do objeto de estudos com os processos sociais e históricos, e se contrapõe a uma racionalidade científica que estabelece leis gerais para a investigação de fenômenos naturais. Esta afirmação nos remete, necessariamente, a um cuidado na forma de conceber e interpretar os fatos humanos. Não é possível uma única percepção para compreendê-los, considerando que a busca de uma compreensão dos fatos humanos exige congregar julgamentos de valor e conhecimento científico, que transcendem a objetividade e a neutralidade das ciências exatas.
Este posicionamento coloca em relevo a necessidade de múltiplos procedimentos que se complementam e ampliam a interpretação dos dados, principalmente quando o sujeito pesquisado nem sempre fala ou tem espaço para falar, mas se expressa por outras linguagens que apresentam mensagens importantes para a análise.
Para Souza (1995, p. 33), a marca principal do desenvolvimento do ser humano é a cultura e isso coloca a linguagem em destaque e começa a ser percebida como “fundadora de uma nova relação do homem consigo mesmo e com o mundo. Essas duas dimensões humanas – linguagem e história – estão no cerne de uma nova consciência do homem”. Para pesquisas com crianças, recorre-se não apenas à linguagem verbal, mas a outras linguagens corporais e artísticas, além da imobilidade corporal e do silêncio, manifestações tão relevantes numa pesquisa dentro da escola.
Entender o significado que as pessoas dão à sua vida é foco de atenção especial do pesquisador, por isso, nesta pesquisa, há a tentativa de “capturar a
perspectiva dos participantes” (LÜDKE & ANDRÉ, 2008, p. 12) buscando analisar o sentido que as crianças dão às questões focalizadas na escola.
Pesquisas relacionadas à infância foram, durante muito tempo, influenciadas por um olhar adultocêntrico, recorrendo apenas à escuta dos adultos, sem a possibilidade da participação efetiva das crianças na investigação (SCOTT, 2000; CORSARO, 2005). Esta tendência está vinculada à visão da criança como aquele que não fala, aquele que seria incapaz de emitir opinião sobre suas experiências (ARIÈS, 1962; CORSARO, 2011), com a realização de estudos “sobre” e não “com” as crianças. Esta posição está relacionada a uma representação social sobre a criança como aquele que não tem o que falar, ou que sua fala e opinião não tem relevância na pesquisa, por ser um sujeito a se formar, dependente do adulto.
Contudo, alguns movimentos foram decisivos para se construir outras representações sobre a criança. Os avanços de pesquisas em áreas do conhecimento como a Sociologia, Antropologia, Psicologia do Desenvolvimento e Neurociência confirmaram um novo estatuto para a criança, na perspectiva de sua agência sobre as questões que lhe dizem respeito. Influenciaram a criação de documentos legais, como a Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança (ONU, 1989), que reposicionou o enfoque de direitos da infância, demandando reformulações de políticas públicas e de práticas. Com o princípio da participação, a Convenção Internacional Sobre os Direitos da Criança tira o foco das necessidades para dar foco ao sujeito titular de seus direitos: de obter informação, de liberdade de pensamento, consciência e religião, de opinar e expressar-se, de ser escutado, de ser levado em conta. Direitos que dizem respeito a crianças tomarem parte em atividades e decisões que as afetam.
São anúncios de um movimento que propõem um novo jeito da sociedade se organizar, que não coloca nem o adulto e nem a criança no centro, mas propõe uma relação de respeito e de dignidade para ambos. É evidente que a concretude dessa mudança exigirá mudanças culturais que levam tempo para ocorrer. O exemplo desta pesquisa mostra que a escola é um dos espaços onde, provavelmente, a mudança ocorra de forma lenta e gradativa.
As contribuições da Sociologia da Infância têm sido essenciais para a amplificação das vozes das crianças. Para Soares (2006, p. 27):
que são produzidos acerca da infância através da Sociologia da Infância, é um aspecto central para a definição de um estatuto social da infância, no qual sua voz e acção são aspectos indispensáveis.
Nesse caminho, a partir de uma percepção da criança como ativa, competente e capaz, reconstitui-se a imagem convencional da criança e o reconhecimento da sua importante contribuição em pesquisas, e, como consequência, envolvem uma mudança nas metodologias das pesquisas nas quais a criança é coprodutora dos dados e em alguns casos, envolvidas na análise (ALDERSON, 2005).
Para esta pesquisa, a escuta das crianças como sujeitos pesquisados foi fundamental como reconhecimento de sua contribuição na compreensão do tema da pesquisa: a força da participação infantil no grupo de sujeitos pesquisados e as culturas infantis expressas na rotina escolar. Pesquisas não apenas sobre, mas com as crianças tornam possível compreender as perspectivas das crianças sobre a escola.
Para Campos (2008, p. 35), “a criança faz parte da pesquisa científica há muito tempo, principalmente na condição de objeto a ser observado, medido, descrito, analisado e interpretado”. Atualmente, novos entendimentos sustentam o enfoque das perspectivas participativas em pesquisa, defendendo dinâmicas que possam ter a parceria de crianças e adultos, ratificando suas competências como atores sociais. Com este novo paradigma, pensar em pesquisas que envolvem crianças pressupõe a valorização das competências das crianças e a partilha de poder (que anteriormente ficava na perspectiva do adulto), e, ainda, a visão da criança como capaz de apresentar ideias, construir propostas colaborativas e, até mesmo, denunciar abuso de poder.
Escutar as crianças nas pesquisas tem sido um desafio do século XXI provocado pelos estudos recentes sobre a criança, que contrapõem a concepção de imaturidade infantil que negligenciou seu reconhecimento como ator social. Provavelmente, este aspecto justifique a escolha de tantos pesquisadores em desenvolver pesquisas com crianças e dar a elas a voz, o protagonismo e a visibilidade, já que:
[...] pesquisar criança é um pouco buscar algo de novo para nós e para elas, é buscar esse mundo que virá, nesse regime de visibilidade que vivemos. Quando pesquisamos crianças, acho que também nós procuramos
algo novo naquilo que virá, e que em alguma medida a criança pode anunciar (além do passado e do presente). (ABRAMOWICZ, 2011, p. 21).
Para Oliveira-Formosinho (2008, p. 24), “[...] as crianças não são meros respondentes, mas intérpretes do processo de investigação e poderão fazer autoanálise e evoluir durante o próprio processo investigativo”. Para a autora, a pesquisa deve levar em conta as culturas infantis e as formas de interpretação do adulto sobre a linguagem cotidiana das crianças. Dessa forma, na medida em que as crianças ajudam a conduzir a pesquisa, apresentando suas interpretações sobre a realidade, a imagem de criança utente, presente na representação social de muitos adultos, dá lugar à imagem de criança cidadã, que tem um conjunto de características que a distingue dos adultos e que tem opinião sobre as questões que afetam sua vida. Por outro lado, quando a criança não oferece muitos elementos para análise, pode significar a existência de alguns fatores definidos pela sua vivência em um ambiente repressor ou, em outros casos, pobre de repertórios para que ela aprenda como se expressar.
Coletar dados com crianças pressupõe perceber e escutar as manifestações corporais, os silêncios, as relações que elas estabelecem com outros e as emoções manifestadas. São sinais tão importantes quanto as conversas entre as crianças e entre elas e os adultos. Ceccim (1997, p. 31) explicita o termo “escuta” utilizado na pesquisa:
Enquanto audição se refere à apreensão/compreensão de vozes e sons audíveis, a escuta se refere à apreensão/compreensão de expectativas e sentidos, ouvindo, através das palavras, as lacunas do que é dito, e os silêncios, ouvindo expressões e gestos, condutas e posturas. A escuta não se limita ao campo da fala ou do falado, [mais do que isso] busca perscrutar os mundos interpessoais que constituem nossa subjetividade para cartografar o movimento das forças de vida que engendram nossa singularidade.
Muitas vezes as crianças vão contar o que sentem por meio de gestos e comportamentos, ou até mesmo silenciando-se ou omitindo-se. São sinais que devem ser observados pelo pesquisador numa escuta sensível. Com crianças maiores, as conversas informais, a produção de desenhos e pinturas, as filmagens e fotografias, a participação e observações das brincadeiras são instrumentais que possibilitam, de maneira lúdica, “um trabalho de tradução e desocultação das vozes das crianças” (SOARES, 2006, p. 29), que nos permite olhar o mundo com os olhos
das crianças. Este conjunto de produções pode ser complementado com a coleta de informações dos educadores que convivem com as crianças e com as observações do cotidiano.
A forma com que os espaços e tempos são organizados na escola também interfere na escuta das crianças. Espaços podem propor encontros ou isolamento, interação ou estagnação e obediência. Há espaços que contam as histórias de quem nele convive e espaços estéreis, padronizados, que não fazem ligação com a vida das pessoas que o frequentam.
A partir de todos esses aspectos, é preciso salientar que a pesquisa com crianças na escola alarga o conceito de “escuta” para além dos domínios da comunicação verbal, pois considera outras formas de comunicação mesmo sem falar. A postura do professor, a organização da sala de aula, a organização do mobiliário, as cores, o acesso aos materiais, o planejamento da rotina, dos grupos, são, na escola, condições para a expressão e para a participação infantil. São condições que favorecem ou impedem a participação. Importante perguntar a serviço de quem está a escola, qual é o sujeito que salta como protagonista no processo escolar. Será o professor? Ou as crianças?
Um aspecto muito relevante e desafiador para o pesquisador é adequar temas e procedimentos utilizados na investigação. Scott (2000) alerta para a verificação sobre a ambiguidade das questões colocadas para a criança e a interpretação que ela dá a cada questão. Por exemplo, se preciso entender qual sua opinião sobre a escola de ensino fundamental, certamente terei que elaborar uma maneira lúdica de perguntar, repetidas vezes, de formas diferentes. Certamente, respostas iguais aos colegas poderão vir de outra forma, em outro momento, revelando o verdadeiro sentimento da criança sobre a escola de ensino fundamental. O repertório das crianças também poderá interferir nas respostas. Quanto mais a criança conversa com seus pares e com os adultos sobre o assunto, mas informações terá para dar sua opinião.
Interpretar a linguagem cotidiana das crianças exige do pesquisador (e do educador) um olhar apurado e uma escuta aguçada, no sentido de:
Ver: observar, construir o olhar, captar e procurar entender, reeducar o olho e a técnica. Ouvir: captar e procurar entender; escutar o que foi dito e o não dito, valorizar a narrativa, entender a história. Ver e ouvir são cruciais para que se possa compreender gestos, discursos e ações. Este aprender de
novo a ver e ouvir (a estar lá e estar afastado; a participar e anotar; a interagir enquanto observa a interação) se alicerça na sensibilidade e na teoria e é produzida na investigação, mas é também um exercício que se enraíza na trajetória vivida no cotidiano (SILVA; BARBOSA & KRAMER, 2008, p. 48).
O processo de reeducar o olhar adulto para a criança e, assim, reeducar a técnica e a escuta para aprender a vê-la e a escutá-la está imbricado de subjetividade. O exercício do olhar sensível do pesquisador percebendo sutilezas no cotidiano é como o olhar do poeta, que, surpreendido pelo exercício de olhar o mesmo, o óbvio, reparou e surpreendeu-se com a eterna novidade do mundo:
[...] Sei ter o pasmo essencial Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo. (PESSOA, 1994).
Assim, para pesquisar a escola na perspectiva da criança, será preciso exercitar o olhar com o foco da criança, com os olhos de criança, do ponto de vista da criança. Conforme Bakhtin (2003, p. 23):
[...] devo entrar em empatia com esse outro indivíduo, ver axiologicamente o mundo de dentro dele tal qual ele o vê, colocar-me no lugar dele e, depois de ter retornado ao meu lugar, completar o horizonte dele com o excedente de visão que desse meu lugar se descortina fora dele.
Bakhtin nos instiga com o conceito de polifonia. “Para esse autor, a verdade não se encontra no interior de uma única pessoa, mas está no processo de interação dialógica entre pessoas que a procuram coletivamente [...], nas múltiplas vozes que participam do diálogo da vida” (SOUZA, 1995, p. 104).
Alderson (2005, p. 453) alerta que “reconhecer as crianças como sujeitos em vez de objetos de pesquisa acarreta aceitar que elas podem “falar” em seu próprio direito e relatar visões e experiências válidas”. Esta fala pode ser expressa por linguagens corporais, produções artísticas ou conversas.
Quando falo ou escuto, estou colocando para o outro minha visão de mundo, e descrevo o lugar do eu pesquisador e do sujeito pesquisado. Palavra é arena de luta, pois nela se encontram, tensos, diferentes e divergentes sentidos (SILVA; BARBOSA & KRAMER, 2008). O desafio é escutar as palavras, mas também
perceber as diferentes manifestações que acontecem entre as crianças bem pequenas e garantir que tais manifestações sejam contempladas na análise do dito e do não dito. Muitas vezes na escola, não há espaço para a fala, ou não há espaço para a fala de todos, apenas de alguns. Uns porque são adultos e, por ter a função de professores, detêm o poder da fala; outros por subverterem a ordem estabelecida, falam sem permissão, apesar das consequências que sofrem, possivelmente com rótulos e castigos.
A entonação é outro fator importante ao analisar as vozes das crianças e dos adultos. A entonação revela um empoderamento ou a falta dele. Cada fala cria algo que nunca antes existiu, que se revela na entonação. Bakhtin afirma que a entonação é de natureza social e que existe um conteúdo e uma expressão que complementa esse conteúdo, já que “a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros” (1981, p. 109-113).
O autor nos alerta que a “característica fundamental da entonação é estabelecer uma estreita relação da palavra com o contexto extra verbal e, por isso, ela se localiza na fronteira entre o verbal e o não-verbal, do dito e do não-dito” (SOUZA, 1995, p. 106). Para ele, compreender é opor à palavra do locutor uma contra palavra e a compreensão, além de ser um processo ativo, é um processo criativo.
Constataremos esta afirmação ao observar a entonação e a postura corporal de alguns professores das crianças na escola pesquisada, com posturas eretas, com olhares direcionados e firmes, com entonação forte, dando o tom de quem está no comando. Na análise dos dados, vamos perceber que esta postura organiza, direciona, faz acontecer a aula, mas na perspectiva do professor, que se coloca como locutor. Não há, em muitos casos, a contrapalavra do interlocutor.
Assim, ao pesquisar crianças num espaço em que a voz dos adultos prevalece, sugere ao pesquisador perceber quais momentos a criança encontra para subverter a ordem estabelecida e buscar linhas de fuga para expor-se, participar e manifestar-se. Escutar a criança é “uma oportunidade de retomarmos, a partir do ângulo dela, um olhar crítico sobre o mal-estar da nossa cultura” (SOUZA, 1995, p. 120), que sempre tem hierarquizado as idades da vida, colocando numa posição periférica, crianças e idosos. Insistir em entendê-la a partir de seu próprio ponto de vista é uma possibilidade de ampliar nosso respeito sobre ela.