A abordagem dos modelos realizada anteriormente demonstra o quanto o contexto de cada país foi decisivo na formação de suas televisões públicas. Sendo assim, na Europa, o modelo foi marcado pela noção de serviço público e independência, nos Estados Unidos a televisão pública surgiu como um complemento da televisão privada, enquanto na América Latina o Estado assumiu o seu controle, utilizando-as, muitas vezes, como instrumento político.
O modelo norte-americano tem suas raízes no livre mercado, já que, segundo Horwitz (1989), os serviços de comunicações nos EUA sempre foram providos de forma privada. Esses eram sujeitos à regulação por agências independentes embora responsáveis por resguardar o interesse público, estas acabavam protegendo a indústria regulada. Segundo Santos e Silveira (2007) mesmo que os primeiros regulamentos e consequentes regulações colocassem o espectro radiofônico como uma espécie de bem público, havia a necessidade de licenças por parte dos governos para as radiodifusoras funcionarem. Ainda assim, a radiodifusão americana era um empreendimento predominantemente privado.
As mínimas regulações sobre a radiodifusão guiaram-se por um vago pressuposto de interesse público (cf. STEVANIM, 2010, p.7). Portanto, o modelo americano está muito mais
64 ligado à saúde da sociedade econômica capitalista e ao público, considerado um aglomerado de consumidores.
Para Santos e Silveira (2007) o conceito de público deve abranger preocupações sociais e culturais, questões de acesso universal, visões essas que são negligenciadas pelo modelo de financiamento publicitário.
Diferentemente do americano, no modelo europeu, a radiodifusão foi tratada como um bem público. O Estado sempre foi o principal promotor da comunicação, e embora a presença do mercado fosse permitida, era fortemente regulada. Denominado de public service, segundo Ferreira e Jambeiro (2011), apesar de possuir algumas variações, a comunicação possui um só objetivo “dar ao público não o que ele quer, mas o que ele necessita, como concebido no interior do próprio aparato do sistema” (FERREIRA; JAMBEIRO, 2011, p.8). Tendo como lema “educar, entreter, informar” a televisão pública europeia foi desenhada em termos pluralistas em diversos níveis, como aponta Blumler (1993):
en la multiplicidad de tipos de audiencia atendidos en los perfiles de audiencia abastecidos; con respecto a la realización de programas, en la medida en que intenta aparejarlos con la heterogeneidad del público espectador u garantizar que cada tipo de programa tenga suficientes recursos para ser bueno en su género; con respecto a la reactividad de la sociedad, lo cual implica que los sectores significativos de la comunidad, divididos según intereses, intereses valores e identidades, puedan ver en los programas transmitidos un reflejo tolerablemente auténtico de sus principales inquietudes (BLUMLER, 1993, p.24-25).
Cifuentes (2002) acredita que a América Latina foi herdeira dos países que tiveram modelos de organização do rádio e da televisão com predomínio da influência do Estado sob regimes autoritários. Portanto, misturou-se o pior da censura governamental com a alocação arbitrária de frequências e espaços a setores privilegiados da esfera privada. O desenvolvimento da televisão pública foi secundário, além de ser um instrumento político do governo, a televisão tinha sua imagem vinculada a uma programação desinteressante voltada para públicos muito específicos.
Segundo Stevanim (2010), apesar do conceito de público ser definido como aquilo que pertence a uma coletividade, sem pertencer a um único dono, muitos desdobramentos são possíveis, sendo assim, a definição de modelos de radiodifusão pública é marcada por especificidades históricas e pela dinâmica gestada através de conflitos de interesses. Para o autor as influências que as construções subjetivas e as imagens do mundo lançam sobre um cenário, a princípio, objetivo, passam despercebidos.
65 Neste sentido, “o modo como se entende o Estado, o mercado e a comunicação em toda sua dinâmica pode revelar divergências estruturais e contradições implícitas na prática comunicativa” (STEVANIM, 2010, p.7). Sendo assim, a partir do papel assumido pelo Estado, puderam-se observar duas tendências principais no encaminhamento das políticas de comunicação: os Estados Unidos, marcados pela existência de um Estado liberal, procuraram preservar o livre mercado e uma influência reduzida na distribuição das concessões; enquanto a Europa, onde imperou o Estado de Bem-Estar Social, o Estado atuou como principal promotor da comunicação, permitindo a presença do mercado, porém com forte regulação.
Como foi analisado, em cada tradição surgiram determinadas experiências de televisões públicas. Dentro da intervencionista, europeia, desenvolveram-se televisões estatais, que vão do mais paradigmático que é o da BBC (Reino Unido), com financiamento e gestão independentes, até modelos como o da RTVE (Espanha) e RTP (Portugal), que recentemente passaram por uma reformulação da programação e revisão da identidade corporativa, para que os pressupostos de público, fizessem, de fato, parte de sua realidade (STEVANIM, 2010, p.8). Enquanto nos Estados Unidos, assim como na América Latina, a televisão pública ocupou um espaço secundário e fragmentado na sociedade com capacidade reduzida de competir com os grupos nacionais da TV privada.
O entendimento de como foi constituída as televisões públicas nos países analisados é relevante para a análise da TV Brasil e a observação das peculiaridades de cada uma delas demonstra o quanto o contexto é fundamental não só para sua construção, mas também para a sua consolidação no cenário nacional.
Quadro 7: Características das TVs públicas
Estrutura do Sistema Modelo de Financiamento Modelo de Gestão BBC
Oito Canais sendo os principais: BBC1; BBC2; BBC3; BBC4
Cobrança de Taxa anual BBC Trust e Executive Board
RTVE
Oito canais sendo os principais: La 1; La 2; Canal 24h, Teledeporte e Clan
Recursos Públicos com a proibição de veiculação de publicidade Conselho Assessor, Conselho Informativo; Conselho de Administração RTP
66 sete canais de televisão: RTP
1, RTP 2, RTP África, RTP Açores, RTP Madeira, RTP N, RTP Memória e RTP Internacional e ainda sete estações de rádio.
Taxa paga pelo cidadão; Recursos orçamentários estatais; publicidade e venda de produtos
Órgãos sociais; Conselho de opinião; Provedores do ouvinte e do telespectador. PBS Emissoras Locais e Organizações nacionais Fundo Governamental; Doações de fundações civis, cidadãos e empresas privadas; comercialização de conteúdo entre os membros ou emissoras de outros países
Conselho Diretor
TVN Canal transmitido em todo
território nacional Busca suas receitas no mercado
Conselho Diretor Quadro elaborado pela autora