A Televisão Nacional do Chile começou a ser delineada no ano de 1968, seu objetivo era promover a construção de uma rede nacional de difusão para que o seu sinal fosse levado a todos os cantos do país. Neste momento, somente a Universidad de Chile, a Pontificia Universidad Católica de Chile e a Pontificia Universidad Católica de Valparaíso, com financiamento público total ou parcial, tinham a autorização para operar sinais de televisão, sendo que o Canal 13, pertencente à Pontificia Universidad Católica de Chile, possuía a maior audiência.
Segundo Otondo (2008) acreditava-se que as universidades teriam mais competência para oferecer cultura e conhecimento de forma plural e isenta, possibilitando também o debate de ideias necessário para formar e informar os telespectadores.
Em 1970, foi promulgada a Lei 17.377, que estabeleceu o primeiro marco jurídico da televisão chilena, criando a TVN como uma empresa de direito público de propriedade do Estado. No ano de 1973, ocorreu o golpe militar no Chile, os militares passaram a controlar os meios de comunicação e a TVN, recém-criada, foi utilizada como porta-voz do governo militar. Contudo, o Canal 13 conseguiu preservar certa autonomia e credibilidade, mantendo- se como líder de audiência.
60 [...] La condición de universidad de Iglesia de la Universidad Católica (UC) y la presencia de economistas cercanos a ella en puestos de gobierno, permitieron que Canal 13, su canal conservara un mayor grado de autonomia dentro del marco permitido por la dictadura. Esto contribuyó a que en ese período, Canal 13 consolidara un liderazgo absoluto en términos económicos, de audiencia y credibilidade (JULIO; MORENO; SANTA MARÍA, 2007, p.49).
A década de 80 foi marcada por várias discussões daqueles que seriam, no futuro, os responsáveis pelas mudanças que ocorreram anos mais tarde com o fim da ditadura. Reunidos no CENECA, um centro de estudos sobre comunicação, e liderados por Sonia Fuchs, realizavam discussões sobre o sistema de televisão chileno e também sobre as funções do Conselho Nacional de Televisão, o órgão responsável pela fiscalização e vigilância da televisão chilena.
Com a derrota de Pinochet no plebiscito de 1988, a oposição passou a elaborar um programa de governo para disputar as eleições marcadas para o ano de 1989. Assim, Patricio Aylwin, o candidato mais provável para a disputa e integrante da Concertación de Partidos para la Democracia29, encarregou Jorge Navarrete para encabeçar a elaboração do capítulo de
televisão no programa de governo.
Em 1989, Augusto Pinochet, antes de deixar o poder, não só aprovou a regulamentação para entrar em operação a televisão com fins comerciais, propiciando às alas conservadoras que o apoiavam o acesso aos novos meios de comunicação que seriam implantados, mas também vendeu o Canal 9, o qual correspondia à frequência cultural da TVN.
Segundo Otondo (2008), o canal foi vendido por razões políticos-ideológicas e para saldar uma parte da enorme dívida da TVN, que estava numa situação difícil. Nesse contexto surgiu a primeira rede de televisão privada no Chile, o Megavisión, indo ao ar em 1 de outubro de 1990. “O novo canal prometia uma programação voltada para a família, pluralista e independente, baseada em informação e entretenimento, sem qualquer vínculo com instituições do governo, religiosas ou culturais do país” (OTONDO, 2008, p.84).
A vitória de Alwin nas eleições trouxe um novo momento para história do Chile. Ou seja, o fim do governo militar derrotado nas urnas foi uma oportunidade inédita para a construção de um projeto de televisão genuinamente pública.
Las tesis que sustentaban Aylwin y sus colaboradores era que la crisis previa a la dictadura respondía a una polarización ideológica de la sociedad, donde el diálogo y los consensos habían quedado sin espacios.
61 Prisioneros de este ambiente radicalizado, los medios de comunicación habrían actuado como un catalizador de los conflitos. Desde esa mirada, la reconstrucción de la democracia exigia un ambiente de estabilidade y governabilidade, donde los medios de comunicación jugarían un rol central (JULIO; MORENO; SANTA MARÍA, 2007, p.51) .
No ano de 1992, o então presidente, Aylwin, referendou pelo Congresso as leis 19.131 e 19.132, que não só reformaram o sistema de televisão chileno, mas também foram responsáveis pela modificação do Conselho Nacional de televisão30, transformando profundamente a natureza jurídica-institucional da TVN. Estas mudanças estruturais levaram o sistema televisivo chileno a se tornar misto, ou seja, universitário, público e privado. Segundo Fuenzalida (1999) a reforma foi realizada para tirar a televisão do governo e entrega- la ao Estado, representado por dois poderes públicos: Executivo e Legislativo.
Ainda na perspectiva de Fuenzalida (1999), a reforma buscou alcançar três objetivos: 1) outorgar à estação autonomia jurídica e política do governo, passando a TVN a ser governada por um diretório nomeado em comum acordo pelo Presidente da República e Senado31; 2) outorgar à TVN autonomia econômica, visto que, sem a mesma, a autonomia
jurídica não passava de uma ilusão; 3) e por último, garantir também a autonomia administrativa, possibilitando estabilidade empresarial e desenvolvimento saudável como indústria.
De acordo com Cifuentes (2002) a lei que reformou o estatuto jurídico da TVN “definiu a autonomia como o princípio básico, e o pluralismo como o objetivo principal de sua ação” (CIFUENTES, 2002, p.135).
Conforme ressalta Otondo:
A refundação da TVN representou uma mudança radical no modelo de televisão pública usual na América Latina, baseada em três pontos: ruptura com o modelo estatal, gestão democrática da empresa e independência financeira do governo para garantir o cumprimento da missão – representação democrática e plural na gestão e na programação – para ser a televisão de todos os chilenos (OTONDO, 2008, p.78).
A implantação do projeto de reforma não foi fácil, pois ainda existia muita resistência por parte de alguns setores do governo. Uma das maiores dificuldades enfrentadas após a posse de Alwin foi chegar num consenso quanto à forma de funcionamento e indicação do Diretório (OTONDO, 2008), que após muitas discussões foi composto da seguinte forma: um
30 De acordo com Júlio, Moreno, e Santa María (2007), as principais mudanças no Conselho foram: limitar a duração das futuras concessões a 25 anos renováveis, redefinir a composição de seu diretório que não seria integrado por quem ocupasse certos cargos definidos na lei, mas através de proposta via presidente e com aprovação do senado e assinalou a missão de olhar pelo funcionamento correto da televisão.
62 Conselho Diretor com seis membros escolhidos em comum acordo entre o Presidente da República e o Senado e um presidente de conselho indicado pelo Presidente da República. Os conselheiros eleitos não podiam ser demitidos por razões políticas ou circunstanciais, evidenciando a diminuição da interferência política na TVN, que por longos anos foi utilizada como instrumento por governos anteriores. Pelo menos na lei, a emissora se viu livre de influências políticas exteriores.
O financiamento da TVN também foi matéria de discussão. Com o intuito de instalar uma autonomia política, foi estabelecido que ela buscaria suas receitas no mercado, competindo com as demais redes de televisão, evitando, portanto, a negociação política por verbas e a corrupção. Segundo Otondo (2008), para competir em igualdade no mercado, a TVN foi transformada em uma empresa de sociedade anônima aberta, possibilitando-a não ficar submetida à burocracia e às normas administrativas característica das empresas do Estado.
Televisión Nacional no tiene fines de lucro, en eso se diferencia de las estaciones privadas comerciales con fines de lucro, pero tiene que autofinanciarse y eso significa que no puede recibir dinero del Estado, entregado a través de un ministerio, no puede comprometer el crédito del Estado chileno para, por ejemplo, obtener créditos bancarios, dentro o fuera del país. [...]Por lo tanto, los legisladores fueron tajantes: no van a recibir dinero del Estado, pero tampoco van a prestar servicios gratuitos. Nosotros no podemos, por ejemplo, pasar publicidad gratuita del Estado, el Estado tiene que pagar (FUENZALIDA, 1999, s.p.).
A programação da TVN se constitui como uma questão à parte. Foi dada uma grande ênfase a conteúdos de informação e jornalísticos, entretanto, a ficção e um conteúdo voltado para o público infantil foi deixado de lado. Ao depender do mercado, a TVN perde a capacidade de investir em programas de utilidade pública, necessários para que a mesma cumpra sua missão de televisão pública. Desse modo, a faculdade de inovar, criar programas que realmente façam a diferença, fica totalmente comprometida.
Segundo Julio, Moreno e Santa María (2007);
[...] es importante destacar que TVN se benefició de su carácter hibrido: por un lado su mandato de autofinanciamiento aseguró su competitividad en el mercado y, por outro, su ideología de la televisión pública favoreció a que estableciera una relación privilegiada con la audiencia, claramente marcada por las características politicas de la transición democrática (JULIO; MORENO; SANTA MARÍA, 2007, p.63).
A TVN se mostrou um modelo de televisão diferente da estatal tradicional encontrado na maioria dos países da América Latina. Sua reforma evidencia a possibilidade de criar uma
63 televisão pública não vinculada a governos nem submetida às disputas políticas, que na maioria das vezes acabava prejudicando o seu desenvolvimento.
Na década de 1990, as modificações provocadas pela transição democrática, também acompanharam os mudanças no mercado, que estava em constante crescimento. No século XXI a história se repetiu, visto que as transformações tecnológicas e a implantação da televisão digital imprimiram novos desafios à TVN e ao seu modelo, que se viu obrigada lidar com um novo tipo de audiência.
Quadro 6: Características da TVN TVN
Estrutura do Sistema Modelo de Financiamento Modelo de Gestão Canal transmitido em todo
território nacional
Busca suas receitas no mercado
Conselho Diretor Quadro elaborado pela autora