2.3.1. Modalidade e Modo
No que concerne ao tratamento de modo e modalidade, não há um consenso entre os estudiosos. Dessa forma, conforme esclarece Almeida (1979, p. 10-11), ora se considera a modalidade como uma categoria mais ampla, incluindo, pois, o que se chama tradicionalmente de modo, como propõe Almeida (1979) e Brunot; ora se considera o modo como uma categoria que abriga as noções tradicionais de imperativo, subjuntivo e indicativo, além das noções de possibilidade e necessidade, como propõe Lenz, conforme esclarece Almeida (1979, p. 10-11). Entretanto, a distinção entre Modo e Modalidade, salienta Palmer (1986, p. 21), é similar às distinções entre Tempo e tempo ou entre gênero e sexo. Sendo assim, preferimos, assim como Lyons (1977) e Palmer (1986), fazer a distinção entre essas duas categorias, apesar de haver estreitas relações entre elas.
O termo “Modo” é, pois, aplicado aos conjuntos de formas verbais flexionadas, o que faz que seja considerado como uma categoria gramatical, já que, geralmente, está
explícita compartilhada só o falante Modalização epistêmica da predicação da proposição implícita Evidencialidade
associada à morfologia verbal. Em línguas como o Latim e as línguas européias modernas, esta categoria costuma estar agrupada em distintos paradigmas, tais como o indicativo, o subjuntivo e o imperativo. Entretanto, existem línguas em que esta categoria não é encontrada, ou, ainda, que apresentam outros paradigmas como o “quotative”, que está diretamente relacionado ao sistema evidencial, o que a diferencia da categoria modalidade, pois esta sempre terá marcadores formais em todas as línguas, embora nem sempre apareça
expressa no interior do verbo. Modalidade, por sua vez, por se tratar de uma categoria semântico-discursiva, pode
ou não ser formalmente marcado por um verbo ou por sua morfologia, já que, em algumas línguas, esta categoria é expressa por partículas que podem estar separadas completamente do verbo. Tal categoria, como veremos na seção 2.4. A expressão da modalidade, pode ser marcada por diversos meios, inclusive pela categoria de modo, como é o caso do subjuntivo em Espanhol, que tem, em alguns casos, uma função avaliativa sobre a veracidade ou possibilidade de ocorrência de um Estado-de-Coisas (Hengeveld, 1988), o que nos leva a dizer que a categoria de modo está a serviço da categoria modalidade, assim como tempo e aspecto, conforme veremos na seção a seguir.
2.3.2. Modalidade, Tempo e Aspecto
A categoria modalidade está mais freqüentemente relacionada à categoria de tempo (passado, presente e futuro), uma vez que ambas são mais comumente marcadas por alguma flexão verbal.
Segundo Lyons (1977), os operadores de tempo passado ou tempo futuro são prefixados à proposição de modo a estabelecer seu próprio ponto de referência espaço- temporal (ponto-zero do sistema dêitico – t0).
Conforme Dik (1997a), esses operadores “π2” (distinções expressas gramaticalmente) ou satélites “σ2” (geralmente coincidem com advérbios modificadores), ao qualificar um EC, dão origem a uma predicação estendida, nível em que se dá a função representacional. Sendo assim, um operador de tempo passado, por exemplo, localiza o EC num intervalo de tempo precedente ao momento da fala.
Em alguns casos, a escolha por determinado tempo verbal serve como um meio de expressão da modalidade ou, ainda, tem a função de asseverar ou atenuar a força
ilocucionária de um modalizador, como observa Silva-Corvalán (1995), ao analisar as condições de interpretação para os verbos modais “poder” e “deber” em Espanhol.
A autora chama a atenção para o fato de que o verbo ‘poder’ no tempo presente pode receber as seguintes leituras: permissão, habilidade, mitigação, possibilidade de raiz e possibilidade epistêmica. Quanto ao verbo ‘deber’, quando na forma do tempo presente, pode ser interpretado como necessidade ou possibilidade epistêmica, mitigação e obrigação ou conselho.
A morfologia verbal contribui, assim, para que uma proposição seja interpretada como mais ou menos assertiva (escala de assertividade), o que significa dizer que há uma relação entre modalidade e outras categorias verbais, como tempo, modo e aspecto.
Os tempos presente e pretérito do indicativo, indicativos de factualidade, conferem à proposição um caráter mais assertivo, enquanto que os tempos condicional (futuro do pretérito) e imperfeito do subjuntivo estariam no outro extremo da escala, indicando uma proposição mais hipotética e menos assertiva.
Com relação ao tempo passado, Bybee (1995) esclarece que, quando relacionado aos modais do Inglês, esse tempo pode ter um (i) uso de tempo presente, (ii) uso de tempo passado e (iii) uso hipotético. O uso de modais no presente implica a conclusão do evento ou atividade do predicado principal, principalmente quando na primeira pessoa, enquanto que os modais no passado oferecem duas espécies de vaguidade, a saber: (i) se o evento predicado foi ou não concluído e (ii) se a modalidade permanece em efeito.
A autora argumenta que há uma progressão diacrônica do uso do tempo passado a partir de condicionais hipotéticas, em que as condições são declaradas, até o uso presente de modais no passado, em que as condições não são declaradas, mas apenas implicadas. Sendo assim, ela sugere que o uso de modais no tempo passado pode ser interpretado como uma estratégia de polidez, uma vez que a obrigação foi enfraquecida, deixando aberta a possibilidade de o estado passado continuar no presente, já que as condições de conclusão não foram colocadas.
Quanto ao tempo futuro, Palmer (1986) esclarece que grande parte das formas que aparecem nesse tempo têm significado modal. Além disso, o autor ressalta que, em muitas línguas, o tempo futuro teve sua origem num tipo de auxiliar modal, como ocorreu em português (amarei), francês (aimerai), italiano (amerò), que derivaram da forma latina
amare habeo33, com a idéia de obrigatoriedade. Daí a relação entre modalidade deôntica e futuridade, uma vez que a sentença, nesse tipo de modalidade, descreve o EC que será
obtido, caso o ato seja realizado, em algum tempo (ou mundo) futuro.
Quanto à aspectualidade, o presente parece ser uma forma não-marcada, pois confere ao enunciado um caráter atemporal, enquanto que o pretérito e o futuro são perfectivos e o imperfeito, o condicional do indicativo e as formas do subjuntivo são imperfectivos. Desse modo, sentenças modalizadas com o aspecto perfectivo conduzem a uma interpretação de que a possibilidade da proposição existiu, mas não está mais disponível; enquanto que, ao modalizar com o imperfectivo, o falante concebe o conteúdo proposicional como possível desde que as circunstâncias contextuais sejam satisfeitas.
Por tudo isso, acreditamos que o estudo da modalidade não pode desconsiderar os efeitos do emprego dos tempos verbais sobre os modais, uma vez que eles constituem um dos modos de atenuação ou asseveração da força ilocucionária, contribuindo, portanto, para a compreensão dos valores deônticos instaurados e, conseqüentemente, para a argumentação no discurso publicitário.
2.3.3. Modalidade e Polaridade
Denomina-se Polaridade a distinção entre positivo e negativo que, em muitas línguas, está gramaticalizada (HALLIDAY, 2004). Geralmente, uma oração positiva (ou afirmativa) é uma forma não-marcada nas línguas, enquanto que a negativa é marcada pelo acréscimo de algum elemento adicional, como o advérbio de negação não próximo ao verbo, como ocorre em Português. Entretanto, as línguas dispõem de vários meios para expressar a negação, a saber: (i) morfologicamente, como parte do predicado; (ii) morfologicamente, no verbo auxiliar; (iii) por partícula negativa separada em relação à posição do verbo e (iv) partícula negativa separada em relação à posição da sentença34.
Essa noção de Polaridade está associada à Modalidade desde os estudos feitos pelos lógicos, quando tratavam da modalidade alética, que estava relacionada ao valor de
33
A forma latina livre habere passou a ser usada como um verbo auxiliar para indicar obrigação, ou seja, passou a formar uma perífrase modal deôntica (amare habeo = hei de amar), e, em seguida, como afixo (amar-ei).
34
Estes dados foram obtidos a partir um estudo feito por Dahl (1979 apud DIK, 1997, p. 385), que analisou a expressão da negação em cerca de 240 línguas.
verdade do conteúdo das proposições, tidas como contingentemente verdadeiras ou falsas e necessariamente verdadeiras ou falsas.
A associação de tais noções (possibilidade e necessidade) à de negação é importante para o estudo da modalidade lingüística, uma vez que nos permite reconhecer o escopo da negação; ou seja, ajuda-nos a identificar em que nível está atuando a negação, se no verbo principal (negação interna) ou no operador modal (negação externa), o que nos permite saber se há negação da modalidade ou da proposição.
Palmer (1995), tratando do relacionamento entre negação e modalidade, explica que, em muitas línguas, há uma irregularidade para a expressão de formas modais negativas. Essa irregularidade se dá de duas formas: (i) falta da correlação entre forma e significado (meaning) da expressão modal, o que ocorre quando formalmente o modal é negado, isto é, a proposição é negada semanticamente, mas não a modalidade (Deve venire/ Non deve
venire); (ii) aberturas (gaps) no paradigma, como em Inglês, em que a obrigação para agir
e a obrigação de não agir são expressos por must, enquanto que a não-obrigação de agir é expressa pela forma negativa de need.
O autor ainda esclarece que, quando o modal é negado, a paráfrase possível é “Não é
possível/ necessário que...”; enquanto que, quando o verbo pleno é negado, pode-se
parafrasear a oração do seguinte modo: “É possível/necessário que... não...”35, o que permitiria indicar o escopo da negação.
Com relação aos modais deônticos (em Inglês), Palmer (1995) sugere que existem formas que parecem logicamente equivalentes, como can’t (‘não-possível’), que expressa a
negação da permissão; e musn’t (‘necessário-não’), que expressa obrigação de não agir;
pois ambas compartilham uma característica: a de impedir a ação. Enquanto que existe somente uma forma (needn’t) para expressão da permissão de não fazer e a não-obrigação
de fazer. Sendo assim, acreditamos que levar em consideração a relação entre polaridade e
modalidade nos será útil, pois poderemos compreender melhor quando uma dada forma está a serviço de um determinado significado.
Esta relação entre Modalidade e Polaridade foi considerada ao formularmos as variáveis que usamos para a análise da modalidade deôntica no discurso publicitário. Sendo assim, uma das variáveis relaciona os valores deônticos (obrigação, permissão e proibição) à polaridade negativa, como vemos no capítulo 5 Metodologia.
35
“If the modal is negated, the expected paraphrase will be ‘It is not possible/necessary that…’, while if the full verb is negated, the paraphrase will be ‘It is possible/necessary that… not…’” (PALMER, 1995, p. 456).