• Sonuç bulunamadı

Bioma composto por um complexo de formações florestais úmidas e outras fisionomias, que abrange 17 estados brasileiros, o leste do Paraguai e na Província de Misiones, Argentina, em um território de mais de 1.300.000 km2. Graças à intensa ocupação e exploração iniciada nos primórdios do período colonial e exercida de forma contínua até a atualidade, a região está reduzida a menos de 16% de sua formação original (Ribeiro et al. 2009, Mittermeier et al. 2001).

Compreende as bacias hidrográficas do Paraná, Uruguai, São Francisco, Parnaíba e Atlânticos Sul, Sudeste, Leste e Nordeste Oriental. Em termos de biodiversidade, abriga cerca de 20.000 espécies vegetais, que corresponde a mais de 30% da flora nacional, além de cerca de 900 espécies de aves, 280 de mamíferos, 380 de anfíbios, 200 de répteis e 350 de peixes. Ademais, é o bioma com o maior número de espécies ameaçadas de extinção, com cerca de 190 somente dentre os vertebrados e também é a região com o maior grau de endemismo, representado por cerca de 42% dos vertebrados silvestres, 52% das espécies arbóreas, 74% das bromélias, 80% dos primatas e 92% dos anfíbios (Campanili & Schafer 2010, MMA 2008, Myers et al. 2000, Mittermeier et al. 2003).

Apresenta grande heterogeneidade de habitats e fitofisionomias, que podem ser categorizadas em floresta ombrófila densa, ombrófila aberta, ombrófila mista, estacional decidual, estacional semidecidual, mangues, restingas e campos de altitude. Essas diferenças possibilitaram a divisão do bioma em 15 ecorregiões (Di Bitetti et al. 2003), sendo que, nesse trabalho, foram abordadas quatro delas: as Florestas Costeiras da Bahia e os Brejos de Altitude, em uma investigação mais aprofundada (número de entrevistas maior que 20 e tempo de coleta maior que 25 dias), bem como as Florestas do Interior da Bahia, Florestas da Serra do Mar e Florestas do Alto Paraná, em métodos complementares.

Para representar a área de domínio contínuo que abrange parte do sul, sudeste e do litoral nordestino, foram visitados dois municípios baianos pertencentes à Microrregião de Ilhéus-Itabuna. São eles Barra do Rocha (14º12’24’’ S – 39º36’11’’ O) e Gongogi (14º19’31’’ S – 39º28’02’’ O). A fitofisionomia predominante é de floresta ombrófila densa e a área está próxima a zonas de restinga e manguezal. O principal curso hídrico da região é o Rio de Contas. O clima é quente e úmido, com precipitação anual média entre 1200 a 1800 mm. A cultura do cacau, que é plantada no sub-bosque e depende das copas mais altas, é uma das principais atividades econômicas da região, que ajudou a manter o pouco da cobertura original, que hoje remanesce em apenas 2 a 7%. A monocultura e a atividade pecuária hoje são dominantes e ainda exercem forte pressão de desmatamento (Campanili & Schafer 2010, IBGE 2014). A representação dessa área nessa tese será tratada através da abreviatura MAc (Mata Atlântica Continua).

Ainda representando o domínio contínuo da Mata Atlântica, foram realizadas entrevistas complementares em Minas Gerais e São Paulo. No município de Conceição do Mato Dentro – MG (19º 02’ 04’’ S – 43º25’22’’ O), que abrange um ecótono entre Mata Atlântica e Cerrado, a porção úmida está inclusa na ecorregião das Florestas do Interior da Bahia, caracterizada por florestas estacionais semideciduais, além de formações secas e matas de galeria. Em Salesópolis – SP (23º 31’48’’ S – 45º50’49’’ O), a 850 m de altitude, a vegetação é do tipo ombrófila densa alto montana, com pluviosidade em torno de 1.300 mm. Abriga a nascente do Rio Tietê, além dos rios Paraitinga e Claro e está situada na ecorregião da Serra do Mar (Campanili & Schafer 2010,

IBGE 2014). Na ecorregião das Florestas do Alto Paraná, as entrevistas foram realizadas no município de Cornélio Procópio – PR (23º15’ 01’’S e 50º45’00’’ O), com clima mesotérmico úmido e precipitação pluviométrica média de 1.200 a 1.400 mm anuais. A vegetação é do tipo estacional semidecidual, com índice elevado de desmatamento para fins agropecuários (IAPAR 1994).

Já os Brejos de Altitudes da Região Nordeste, áreas aqui contempladas por análises aprofundadas, são maciços residuais, cuja vegetação resistiu às drásticas mudanças climáticas durante o Pleistoceno do Período Quaternário, graças à manutenção da umidade devido a grandes altitudes e posicionamento em relação ao mar (Ab’Saber 1982). Segundo Prance (1982), o Nordeste brasileiro é um importante centro de endemismo, onde parte dessa característica se deve à presença dessas áreas de refúgio para a vida silvestre, que estão inseridas no meio de formações secas típicas da Caatinga, com condições mais adversas à permanência de uma diversidade tão elevada em relação a áreas úmidas.

A área escolhida para retratar essas formações foi a Área de Proteção Ambiental da Serra de Baturité (4º 7.24’ 48.85’’ S – 38º 03’19.79’’ O), o maior e mais representativo relevo residual cristalino do estado do Ceará, formada por um maciço de biotita-quartzo-feldspato-gnaisse. A precipitação média anual varia entre 900 a 1.400 mm e há muita variação de umidade entre as faces barlavento e sotavento. Devido a esse fato, há uma grande heterogeneidade de climas, indo do super-úmido ao úmido, sub-úmido e semiárido, em função da face de exposição e variação da altitude (Mantovani 2007, Fernandes-Ferreira 2011, IBGE 2014). Nessa tese, usaremos a sigla MAn para representar essa área.

Como complemento, também foram realizadas visitas na Serra da Ibiapaba – CE (3°20'00'’ S – 40°42'10' O), área de clima tropical úmido e pluviosidade anual média que pode ultrapassar 2.000 mm por ano. Devido à forte conexão com as áreas secas e litorâneas, em ambos os brejos de altitude citados, há um mosaico de habitats, caracterizado por floresta decídua, floresta seca semidecídua, floresta ombrófila densa montana e baixo montana e caatinga, contando inclusive com influências amazônicas, tanto na flora como na fauna (Borges-Nojosa & Caramaschi 2003, Borges-Nojosa 2007, Loebmann & Haddad 2010).

Também foram realizadas atividades complementares no Arquipélago de Fernando de Noronha, pertencente ao estado de Pernambuco e que consiste em um topo de uma ilha vulcânica submarina, situada a 360 km do ponto mais próximo da costa continental, no Rio Grande do Norte. Possui cerca de 26 km2 e 17 ilhas e ilhotas. A precipitação anual média varia entre 500 a

2000 mm e o clima é tropical úmido. A vegetação, originalmente típica da Mata Atlântica, é predominantemente de floresta estacional decidual e semidecidual, apesar de ter sofrido profundas modificações ao longo de séculos de exploração (Silva 2008, Batistella 1993). Nessa tese, por se tratar de uma região de Mata Atlântica insular, essa localidade será representada pela abreviatura MAi.

2.1.4. Caatinga

Bioma endêmico do Brasil, que ocupa uma área superior a 850.000 km2, correspondente a cerca de 10% do território do país, atravessando todos os estados da Região Nordeste, com limite setentrional na região norte de Minas Gerais.

A fisionomia é típica de savana estépica, mas a nomenclatura caatinga também é atribuída a um complexo vegetacional, que inclui formações abertas (caatinga aberta) ou mais densas, que, a depender da altura da cobertura vegetal, pode ser chamada de caatinga arbustiva ou arbórea. Diferenças nessas formações, bem como em fatores como relevo e pedologia proporcionam a divisão desse bioma em algumas ecorregiões conhecidas como Agreste, Seridó, Cariri, Curimataú e Carrasco. A composição das espécies florísticas é tipicamente xerófila e decidual, ou seja, adaptada a aridez e com perda geralmente total de folhas no período seco. Com relação aos vertebrados terrestres, atualmente já foram documentados mais de 240 peixes, 175 répteis e anfíbios, 510 aves e 158 mamíferos (Albuquerque et al. 2012, Almeida-Cortez et al. 2013, Feijó & Langguth 2013).

A Caatinga tem como principais características climáticas a alta taxa de evapotranspiração (1.500 – 2.000 mm/ano) e os baixos índices pluviométricos, com média de 800 mm/ano, sendo o período chuvoso geralmente concentrado em apenas três a cinco meses. Além disso, é comum a ocorrência de estiagens que podem chegar a mais de cinco anos (Kill & Correa 2005).

Para os estudos nesse bioma, foram escolhidas localidades nos estados do Ceará, Piauí e Pernambuco. No Ceará, foram visitados os municípios Itapajé (3º41’04.58’’S - 39º35’34.48’’O), Caridade (4º13’35.46’’S – 39º11’06.10’’O) e Irauçuba (3º44’57.19’’ S – 39º46’49.86’’O), que fazem parte da Microrregião de Uruburetama, característica do complexo cristalino cearense. A área de Itapajé, apesar de abranger resquícios de floresta subperenifólia tropical pluvio-nebular, abrange também domínios de subcaducifólia tropical pluvial e de caatinga densa. Irauçuba e Caridade possuem características morfoclimáticas absolutamente típicas do sertão cearense, com clima tropical semiárido, baixos índices de precipitação e áreas com domínios completos de caatinga densa. Essa região foi a contemplada por abordagens mais aprofundadas e, portanto, a partir desse momento será tratada no manuscrito como Caa.

Ainda no estado do Ceará, foram realizadas entrevistas complementares no município de Granja (3º07’06.11’’ S – 40º49’49.00’’O), pertencente à Microrregião do Acaraú. A maior parte de sua extensão territorial é coberta por caatinga arbustiva aberta e densa e, mais ao interior, por tabuleiros costeiros, com precipitação média de 1.350 mm por ano (IBGE 2014, Fernandes-Ferreira et al. 2011).

No Piauí, o estudo foi conduzido no município de São Raimundo Nonato, no entorno do Parque Nacional da Serra da Capivara (9º00’49.00’’S – 42º41’56.12’’O). A região apresenta oito tipos de fitofisionomias diferentes, cuja maior parte consiste de caatinga arbustiva densa e elevada (até 10 m de altura). A precipitação média é de 644 mm por ano. O ParNa Serra da Capivara apresenta um platô central que pode chegar a 600 m de altura e é rodeado por barrancos sedimentares de até 200 m (IBGE 2014, Perez 2008).

O município de Serra Talhada encontra-se na Mesorregião do Sertão Pernambucano, Microregião do Pajeú, a uma altitude de 429 metros. O relevo é típico da Depressão Sertaneja com superfície de pediplanação monótona e cortada por vales estreitos, com vertentes dissecadas. A vegetação consiste principalmente de caatinga hiperxerófila e de floresta seca caducifólia. A precipitação pluviométrica anual é de 1.141 mm (IBGE 2014).

2.1.5. Cerrado

Assim como caatinga, a nomenclatura cerrado também atribui mais de um significado, que envolve tanto conceitos florísticos quanto de domínios fitogeográficos. Embora haja longas discussões sobre a sua validade enquanto bioma (Batalha 2011), consideremos aqui as definições político-ecológicas, que tratam o Cerrado como o segundo maior bioma do Brasil, com uma extensão territorial de mais de 2.000.000 km2, que abrange a totalidade do estado de Goiás e do Distrito Federal e a quase totalidade do Tocantins ainda parte de Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Maranhão e Piauí (Silva & Bates 2002, Klink et al. 2005).

Apresenta uma ampla variação de habitats, categorizados principalmente em cerrado senso stricto, cerradão, cerrado campestre, cerrado rupestre e matas de galeria, de acordo com a paisagem fitofisionômica e composição da flora, que varia desde espécies gramíneas, como nos campos rupestres a lenhosas e altas, como nas matas de galeria. O relevo é geralmente acidentado, com formações elevadas que podem chegar a 1390 m de altitude. O clima é tropical sazonal e a precipitação média entre 1200 a 1800 mm por ano. Abriga a segunda maior biodiversidade entre as áreas de savana em todo o mundo, com cerca de 170 espécies de mamíferos, 850 aves, 150 anfíbios e 120 répteis (Silva & Bates 2002, Klink & Machado 2005, Gottsberger & Silberbauer-Gottsberger 2006).

Embora sua exploração seja relativamente recente em relação aos outros biomas, a partir da década de 1960, cerca de 50% de sua cobertura original foram modificadas em pastagens plantadas (Machado et al. 2004, Klink & Machado 2005).

A localidade representativa desse bioma nessa tese é a Chapada dos Guimarães (15°07’33’’S – 55°34’48’’O), no estado do Mato Grosso, município adjacente à capital Cuiabá, com a qual divide os limites do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Essa unidade de conservação envolve uma área de 32.630 ha e altitude máxima em cerca de 900 m. A região está inserida no Planalto Central Brasileiro e o relevo é caracterizado por grandes encostas e escarpas de arenito vermelho. A vegetação abrange várias fitofisionomias do bioma, como o cerrado sensu stricto, matas de galeria, matas secas deciduais e semideciduais e os campos rupestres, sendo esses típicos dos afloramentos

rochosos, em altitudes acima dos 800 m. O clima é do tipo tropical sazonal e a precipitação média varia entre 1800 e 2000 mm (IBGE 2014, Lopes et al. 2009). As atividades de campo para esse bioma foram concentradas nessa região e, ao longo dessa tese, ela será referenciada através da abreviatura Cerr.

Na região central do Maranhão, o município de Barra do Corda (5°30’00’’S – 45°14’48’’O) foi utilizado como área complementar de estudo e encontra-se numa região de Cerrado ecotonal entre Caatinga e Amazônia Legal, na Microrregião do Lato Mearim e Grajaú. Apresenta forte influência de floresta semidecidual, ainda que a maior parte do seu território tenha sido perdida graças a atividades agropecuárias. O clima é tropical quente e sub- úmido, com precipitação média de 1300 mm (IBGE 2014, Lacerda & Figueiredo 2009).

2.1.6. Pantanal

Bioma que abrange os estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, no Brasil, além do norte do Paraguai e leste da Bolívia, em um território com cerca de 250.000 km2.

É caracterizado por uma savana estépica muito pouco acidentada, cuja maior parte é alagada intermitente ou sazonalmente, sendo considerada uma das maiores regiões desse gênero no mundo. Está localizado na Bacia Hidrográfica do Alto Paraguai e pode ser dividido em duas principais zonas, Pantanal Sul e Norte. O clima é tropical quente e úmido e a pluviosidade média anual pode superar os 1.400 mm. A vegetação é caracterizada por extensas áreas de várzeas dominadas por pastagens inundadas e manchas de floresta estacional semidecidual e cerrado sensu stricto (Harris et al. 2005, Garcia 1984, Por 1995).

Atualmente, há mais de 650 aves, 120 mamíferos, 260 peixes, 40 anfíbios e 120 répteis documentados, ainda que o nível de endemismo seja baixo quando comparado a outros biomas (Harris et al. 2005, Paglia et al. 2012, Strüssmann et al. 2007, Por 1995).

Os municípios escolhidos para representar esse bioma na presente pesquisa, Poconé (16°15’ S – 56°37’ O) e Porto Jofre (17°20’ S – 56°46’ O), são circunvizinhos e estão localizados no estado do Mato Grosso, na Microrregião

do Alto Pantanal. A vegetação é composta principalmente por campos inundáveis, matas ciliares, formações florestais e arbustivas, com uma separação bastante nítida em relação à apresentada no Cerrado, bioma que circunda a maior parte do seu território. O clima é tropical sazonal e o relevo é plano e sazonalmente inundável, pertencente a Bacia Quaternária do Pantanal Matogrossense. A precipitação pluviométrica anual varia entre 1.000 a 1.400 mm (IBGE 2014). Na presente tese, essa área será tratada através da abreviatura Pan.

2.1.7. Pampas

No Brasil, Pampa ou Pampas são as nomenclaturas dadas para o bioma que ocupa mais de 60% do estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, mais a totalidade do Uruguai e do centro-leste argentino, em uma área que supera os 750.000 km2.

É caracterizado por uma região de planícies, cuja cobertura vegetal é domínio de gramíneas, herbáceas e algumas espécies arbóreas isoladas ou próximas a cursos d’água. Devido à alta fertilidade do solo, a utilização para fins agropecuários é intensa desde o século XVII, o que vem provocando mudanças alarmantes em sua paisagem. Somente no Brasil, a região abriga mais de 80 mamíferos, 470 aves, 90 répteis e 50 anfíbios (Pillar et al. 2009, Bencke 2009, Paglia et al. 2012, Marini & Garcia 2005).

Os municípios escolhidos para retratar essa região na presente pesquisa, Bagé (31°19’ S – 54°06’ O) e Dom Pedrito (30°58’ S – 56°22’ O), estão inseridos na mesma microrregião, denominada Campanha Meridional, localizada no estado do Rio Grande do Sul. Pode apresentar clima subtropical ou temperado, com temperaturas de ampla variação durante o ano. O volume pluviométrico médio é de 1.300 mm anuais. A vegetação silvestre é tipicamente pampeana, composta por gramíneas, plantas rasteiras, algumas formações arbustivas e árvores isoladas. Contudo, essa área é amplamente dominada pela cultura agropecuária, o que tem provocado diversas transformações na paisagem (IBGE 2014). Nessa tese, essa região será atribuída como Pam.

Figura 1. Áreas de estudo e seus respectivos biomas no Brasil. Legenda: 1) Nova Mutum-

Paraná – RO; 2) Abunã – RO; 3) Altamira – PA; 4) Vitória do Xingu – PA; 5) Caridade – CE; 6) Itapajé – CE; 7) Irauçuba – CE; 8) São Raimundo Nonato – PI; 9) Itapipoca – CE; 10) Granja – CE; 11) Serra Talhada – PE; 12) Barra do Corda – MA; 13) Chapada dos Guimarães – MT; 14) Barra do Rocha – BA; 15) Gongogi – BA; 16) Salesópolis – SP; 17) Conceição do Mato Dentro – MG; 18) Arquipélago de Fernando de Noronha – PE; 19) Serra de Baturité – CE; 20) Porto Jofre – MT; 21) Poconé – MT; 22) Dom Pedrito – RS; 23) Bagé – RS; 24) Cornélio Procópio – PR; 25) Serra da Ibiapaba – CE.

Benzer Belgeler