1.2. Ülseratif Kolit
1.3.5. CYP 2C9*3
1.5.1 — Especificidades da economia de Marx
A exposição realizada neste capítulo chamou a atenção para algumas características da economia marxista que a distinguem de outras vertentes teóricas; em particular, para a importância do duplo caráter do trabalho produtor de mercadorias e para a existência, na economia capitalista, de uma substância do valor, o trabalho abstrato. Do duplo caráter do trabalho decorre uma dualidade geral das categorias econômicas próprias à economia ca- pitalista: a mercadoria tem um duplo caráter, o mesmo acontecendo com a riqueza e com o processo de produção. Por outro lado, o fato de o valor ter uma substância, o trabalho abs- trato, permite explicar o dinheiro como sua concretização material, e o capital como esta substância em movimento. Como estas características (a dualidade das categorias econô- micas, a existência de uma substância do valor) são peculiares à estrutura das relações eco- nômicas capitalistas, chamar a atenção para elas implicou também chamar a atenção para a especificidade histórica do modo capitalista de produção.
Nesta seção, são agregados três comentários mais sobre a especificidade das cate- gorias marxistas. O primeiro diz respeito à natureza da mercadoria e do dinheiro, e ao vín-
48 Enquanto não houver “replicantes” (para citar o filme Blade Runner) que substituam os humanos. Se isto
vier a acontecer, por outro lado, dará origem a grandes complicações. Os “replicantes” não terão o direito de se considerarem humanos e de lutar contra sua exploração?
culo entre ambos; o segundo, à distinção entre preço e valor; o terceiro, à natureza do ca- pital e à dinâmica que seu domínio impõe à economia capitalista.
1.5.2 — Especificidade da teoria da mercadoria e do dinheiro
Comentando a visão de Marx sobre a gênese do dinheiro, Roman Rosdolsky49 chama a atenção para aspectos da sua argumentação, já mencionados nas seções anteriores (sobretudo nas subseções 1.2.2 e 1.2.4), que aparecem ainda mais claramente nas diversas críticas feitas à teoria do dinheiro de Ricardo (que estão presentes tanto em O Capital e em
Para a Crítica da Economia Política quanto nas Teorias da Mais-Valia). É útil retomar
esta argumentação.
Ricardo erra ao ocupar-se apenas com a magnitude do valor [a tradução em inglês é mais
enfática: “Ricardo’s mistake is that he is concerned only with…”, isto é, “O erro de Ri- cardo é que se ocupa apenas …”. Economic Manuscript of 1861-63, vol. III, p. 318]. Por isso tem em mira apenas a quantidade relativa de trabalho que diferentes mercadorias con- figuram, contêm como valores nelas corporificados. Mas o trabalho nelas contido tem de apresentar-se como trabalho social, como trabalho individual alienado. (…) Ricardo não explica essa conversão do trabalho dos indivíduos particulares, contido nas mercadorias, em trabalho social igual e por isso em trabalho representável em todos os valores de uso e por todos eles intercambiável; esse aspecto qualitativo da coisa, o qual se encerra na confi- guração do valor de troca em dinheiro. Ricardo omite essa circunstância — a necessidade de apresentar o trabalho nelas contido como trabalho social igual, isto é, como dinheiro [Teorias da Mais-Valia III, p. 1186].
Esta necessidade de ser o trabalho individual representado pelo geral é a necessidade de uma mercadoria ser representada pelo dinheiro [Teorias da Mais-Valia III, p. 1191].
Para compreender o dinheiro, não basta conceber o aspecto quantitativo do valor, por exemplo vinculando-o ao tempo de trabalho necessário. Isto foi feito por Ricardo. É preciso ter em conta o aspecto qualitativo do valor, isto é, que as diversas mercadorias en- quanto valores assumem uma forma em que existem como encarnação do trabalho social, e são por isto intercambiáveis por qualquer outra mercadoria. Ou seja, adquirem a forma de
49
No capítulo “A transição do valor ao dinheiro”, segunda seção, “Os aspectos quantitativo e qualitativo do problema do valor (magnitude e forma do valor)” [Rosdolsky 2001, p. 111-115].
trabalho geral, abstrato. A necessidade de os produtos do trabalho se apresentarem desta
forma só existe, naturalmente, em uma sociedade em que são mercadorias. Esta sociedade só pode existir com o dinheiro.
Em que medida a teoria da gênese do dinheiro desenvolvida por Marx se distingue da argumentação convencional, de que o dinheiro se torna necessário a partir da complica- ção trazida pela generalização das trocas? Esta argumentação diz, resumidamente, que na troca entre poucas pessoas, o que A tem e não quer deve ser desejado por B, e vice-versa, o que B tem e não quer deve ser desejado por A. Quando poucas pessoas participam do pro- cesso de troca, encontrar correspondências deste tipo é possível. Mas quando são muitos os participantes, tais correspondências passam a ser difíceis ou impossíveis; daí um interme- diário das trocas, aceito por todos, fazer-se necessário.
Em Para a Crítica da Economia Política, Marx critica esta maneira de conceber a gênese do dinheiro:
Os economistas costumam derivar o dinheiro das dificuldades exteriores com as quais se defronta o comércio de troca, mas aí se esquecem de que estas dificuldades surgem do de- senvolvimento do valor de troca, e, por isso, do trabalho social como trabalho geral [grifo JM]. Por exemplo, as mercadorias como valores de uso não são divisíveis livremente, o que elas devem ser como valores de troca. Ou então, pode acontecer que a mercadoria de A seja valor de uso para B, mas a mercadoria de B não seja valor de uso para A; ou que os possui- dores de mercadorias necessitem mutuamente de proporções desiguais de valor de suas mercadorias indivisíveis a serem trocadas mutuamente. Em outras palavras, com o pretexto de tratar do comércio de trocas diretas, os economistas fazem a idéia de alguns aspectos da contradição, que o modo de ser da mercadoria envolve como unidade imediata de valor de uso e de valor de troca. Por outro lado, prendem-se conseqüentemente ao comércio à base de troca como a forma adequada do processo de troca das mercadorias que, segundo eles, estaria vinculado apenas a certos incômodos de caráter técnico, para cuja solução o di- nheiro seria um expediente habilmente inventado [Para a Crítica da Economia Política, p. 46].
Na argumentação convencional sobre a necessidade do dinheiro, não há nenhuma diferença entre os bens trocados numa troca com poucos participantes e numa troca com muitos participantes, generalizada; o que distingue as duas situações é a complexidade da última em contraposição à simplicidade da primeira. Ou seja: não é compreendida a especi-
ficidade da mercadoria, que ela não é um bem qualquer, que ela só se constitui a partir de um processo social específico.
Na teoria de Marx, ao contrário, a generalização das trocas, antes de tudo, implica a transformação dos bens (produtos do trabalho) em mercadorias; isto significa acrescentar- lhes, ao lado do seu valor de uso, um caráter de valor; e ao mesmo tempo atribuir ao tra- balho de produzi-los, ao lado do seu caráter específico, concreto, o caráter de trabalho
abstrato. Ou seja: a passagem de uma economia de trocas eventuais (em que não há ainda
propriamente mercadorias) a uma economia mercantil é uma mudança profunda, qualita- tiva, que altera tanto o caráter dos produtos do trabalho humano (que se tornam mercado- rias, e adquirem com isto uma dupla determinação), quanto o caráter do trabalho que os produz (que se torna igualmente bifacético).
A produção de mercadorias exige que cada mercadoria busque ser reconhecida como parte do trabalho social, da riqueza social geral, e isto só pode ser feito com a sua equiparação a uma mercadoria que seja a expressão geral da riqueza. Para que haja produ- ção de mercadorias, tem de haver dinheiro, e não um simples numerário, nem um simples intermediário das trocas50.
Para apreendermos o que é o dinheiro, é preciso portanto partir da natureza dos
produtos do trabalho como mercadorias, ou melhor, da natureza da economia que se or- ganiza para a produção de mercadorias. Não é possível entender o dinheiro a partir dele
mesmo, ou com um exame das suas funções: é preciso estudar as relações fundamentais da economia que o faz necessário51. Em resumo: o dinheiro não é uma mera conveniência
é uma necessidade lógica, econômica e social, que decorre da própria natureza da merca-
doria e do trabalho que a produz, isto é, das dualidades valor de uso — valor e trabalho
concreto — trabalho abstrato.
50
Isto não significa que o dinheiro deva ser uma mercadoria como o ouro, conforme foi destacado na nota 28.
51
Embora reduza o dinheiro a meio de troca, Frank Hahn propõe basicamente a mesma questão: “Quais características essenciais de uma economia devem ser capturadas por um modelo, se ele deve explicar o uso, ou o uso exclusivo, de um meio particular de troca?” [Hahn 1975, p. 33]. E no mesmo sentido: “É claramente desejável estudar economias que tenham sido modeladas de uma maneira na qual os fenômenos que explicam o uso do dinheiro são intrínsecos” [Hahn 1975, p. 43].
1.5.3 — A distinção entre valor e preço
Em um artigo cujo tema central é a especificidade da teoria econômica de Marx, Bruce Roberts faz a seguinte observação:
(…) [E]m toda a história do pensamento econômico, apenas Marx não está interessado me- ramente nos preços, mas em um conjunto de valores que diferem destes preços. Para Ri- cardo, valores-trabalho eram preços naturais, logo o interesse em um é a mesma coisa que o interesse no outro. Para os neoclássicos, valorações subjetivas refletem-se imediatamente nos preços, logo também não há um sentido separado para o valor distinto do preço. Sraffi- anos contemporâneos dispensaram completamente qualquer conceito de valor enquanto re- solvem seus sistemas lineares de preços. Cada uma destas abordagens procura como sua solução uma ‘estrutura única’ de preços, um único número ligado a cada mercadoria. Ape- nas Marx e a tradição marxista procuram determinar teoricamente uma ‘estrutura dupla’ de preços, incluindo tanto o preço de uma mercadoria (ou uma forma de valor) quanto, sepa- radamente, seu valor [Roberts 1987, p. 85].
Pode haver algum exagero nesta afirmação; a distinção clássica entre preço natural e preço de mercado é uma das maneiras de contrapor valor e preço; mesmo autores neo- clássicos ocuparam-se por vezes desta questão. Mas o ponto destacado corretamente por Roberts é que na economia marxista esta distinção tem uma importância teórica qualitati- vamente maior da que pode ter em outras abordagens.
Roberts explica esta importância pelo objeto específico da teoria de Marx, a análise das relações de classe [Idem, p. 86]. Nesta perspectiva, deve haver uma distinção entre padrões de dispêndio de trabalho e de apropriação; é esta distinção que abre a possibilidade de transferências de tempo de trabalho.
Por exemplo, se o ‘quantum pago’ por uma certa mercadoria excede o ‘quantum despen- dido’ na sua produção, então o vendedor se apropria da diferença como, de fato, uma trans- ferência de tempo de trabalho despendido em outro lugar; (…) Estes resultados são a regra mais do que a exceção (…). Em termos mais diretos, então, a distribuição capitalista dos rendimentos de lucro expressa uma transferência ou redistribuição de trabalho não pago através do mecanismo dos preços de mercado [Roberts 1987, p. 89].
Uma teoria de uma estrutura única não pode, pela própria natureza dos conceitos que usa, dar nenhum sentido sério à noção de que alguma coisa ‘não é paga’. Se o único modo rele-
vante de contar é com números que medem o que é pago, então o sentido capitalista52 da categoria fundamental para a definição de classe — a de trabalho excedente — foi sim- plesmente eliminado previamente [Idem, p. 90].
Esta observação é correta, no sentido de que para poder expressar uma transferência de valor na circulação é necessário dispor das categorias distintas de preço e de valor. No entanto, nos termos da economia marxista, a relação fundamental de classe — a extração direta de mais-trabalho (ou trabalho excedente) na produção, a partir do intercâmbio entre capitalista industrial e trabalhador assalariado — pode sim ser expressa independentemente desta distinção (como é bem sabido, o capitalista se apropria de uma mais valia comprando a força de trabalho por ser valor e vendendo suas mercadorias igualmente por seu valor). É a participação das demais classes proprietárias (capitalistas comerciais, capitalistas presta- mistas, proprietários de terra) na distribuição da mais-valia que só pode ser explicada atra- vés da distinção entre preço e valor.
Nos Capítulos 5 e 6 voltaremos a esta questão, procurando mostrar que as vanta- gens analíticas da distinção entre preço e valor vão além da possibilidade de explicar a participação do conjunto das classes proprietárias na apropriação da mais-valia.
1.5.4 — Valor, capital e dinâmica
Finalmente, é útil ressaltar algumas peculiaridades e implicações do conceito de
capital de Marx.
Marx define o capital como uma substância social — o valor — que encontra uma existência autônoma no dinheiro e se movimenta, mudando de forma, para se valorizar. O capital só pode ser entendido portanto como um movimento; e a idéia de que muda conti- nuamente de forma é essencial para que possa ser compreendido. Isto naturalmente, já marca uma diferença enorme com relação às maneiras pelas quais o capital é em geral con- ceptualizado — na economia neoclássica, por exemplo, mas não apenas nela. Em geral, o que se faz é contrapor dois tipos de capital: capital como um estoque de bens de capital, e capital monetário ou financeiro. Para Marx, “bens de capital” e capital monetário são duas
formas do capital, que só têm de fato este caráter no interior do movimento de conjunto.
52
“Sentido capitalista”, por oposição ao sentido que o trabalho excedente tem em outros modos de produção, como por exemplo na corvéia.
Além disso, sendo substância social, o capital só existe a partir de relações sociais histori- camente específicas.
Mas o capital não é apenas movimento, mudança contínua de forma. Este movi- mento é um movimento autônomo: ele é uma substância semovente e um sujeito automá-
tico. É uma realidade social — formada pela reificação de relações sociais — que impõe
uma marca a todo o funcionamento da economia, que faz que seu objetivo seja a acumula- ção de riqueza na forma geral, abstrata, de dinheiro — de dinheiro como capital.
Em todas as formas de sociedade se encontra uma produção determinada, superior a todas as demais, e cuja situação aponta sua posição e influência sobre as outras. É uma luz uni- versal de que se embebem todas as cores, e que modifica suas particularidades53. É um éter especial, que determina o peso específico de todas as coisas emprestando relevo a seu modo de ser.
(…) O capital é a potência econômica da sociedade burguesa, que domina tudo. Deve constituir o ponto inicial e o ponto final … [Introdução à Crítica da Economia Política,
1857, pp. 18-9].
Não é por acaso que Marx deu a seu livro fundamental o título de O Capital54. Sendo o objetivo do capital a sua valorização, o objetivo da economia capitalista não é portanto a produção de bens para o seu posterior consumo, ou a “maximização da utilidade” trazida por este consumo. Além disto, este fato não se limita a impor uma finali- dade para a produção capitalista distinta da satisfação das necessidades humanas; impõe também uma dinâmica, em que os indivíduos são subordinados ao movimento do capital. Na subseção 1.4.3 já examinamos alguns de seus aspectos; no Capítulo 5 voltaremos a esta questão. A especificidade do conceito de capital de Marx será tratada, além disso, nos Ca- pítulos 3 e 6.
53
A redação do texto da edição brasileira foi ligeiramente modificada, com base na edição de Siglo Veintiuno Editores [Marx 1971c], p. 27-8.
54
Na verdade, a história do título do livro se liga à dos diversos planos formulados por Marx para a redação de sua obra econômica. Voltaremos a isto no Capítulo 2, seção 2.2.