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CUMHURİYET ÖNCESİ TÜRKİYE’DE HAPİSHANE SORUNU

Os conceitos são parte da experiência humana, logo, a ciência, com auxílio científico de métodos e de observações, tem a anteposição à teoria que embasa sua estrutura.

Se comumente partirmos dos conceitos para compreendermos as “coisas”, nossa indagação parte do que constituem os conceitos, quais elementos, características os compõem? Para esse intento, utilizamos, dentre outras fontes, as importantes contribuições teóricas trazidas por Lefebvre (1991), Bourdieu (1930-2002) e Vygotsky (1896-1934). Compreendemos que cada um desses autores contribuiu com suas teorias para a definição conceitual dos objetos que os homens buscaram ao longo da história desvendar.

Segundo Lefebvre (1991), o conceito pode ser estudado a partir da sensação e da percepção; pode ser estudado historicamente, como foi que a espécie humana evoluiu, a compreensão e a definição das coisas; e, finalmente, pode ser estudado logicamente e aprofundado formalmente.

O conceito num certo sentido é abstrato, é um pensamento. É alcançado a partir do imediato da impressão sensível e do conteúdo, por outro lado a abstração abandona parte do conteúdo reduzindo-o (pela análise) a um aspecto, a um elemento (como é o caso dos conceitos de números, espaço, matéria, cão, cavalo). Mas por outro lado, o pensamento que se eleva do imediato, num certo sentido, é concreto, já que nos liga a ele, e num outro sentido, é abstrato, já que as sensações nos dão apenas a superfície do mundo exterior, sua primeira relação conosco, seu lado voltado naturalmente para nós (LEFEBRVE, 1991, p. 223).

Os humanos organizam as informações que internalizam para garantir a sobrevivência e a permanência em um grupo social. “Vemos o mundo e tentamos compreender seu funcionamento, com óculos conceituais. Inicialmente com conceitos cotidianos, alternativos, espontâneos, ou pré-conceitos, que vão dando lugar aos conceitos científicos” (NÉBIAS, 1999, p. 133).

O conceito de campo científico foi desenvolvido por Bourdieu para significar o espaço estruturado de lutas pelo monopólio da autoridade, da competência e do crédito científico (BOURDIEU, 1983; ALVES; RABELO, 1998).

Bourdieu retoma os preceitos de Durkheim de que os fatos sociais devem ser construídos para que se tornem objeto de estudo e de que, antes de efetuar a análise dos arquivos, o experimento, ou a observação direta, é necessário preparar um quadro de referências, de modo a formular as questões adequadas e tornar as respostas inteligíveis [...] Na construção do objeto é preciso separar as categorias que pré-constroem o mundo social e que se fazem esquecer por sua evidência, o que significa levar a campo conceitos sistêmicos, noções que pressupõem uma referência permanente ao sistema completo das suas inter-relações, que subentendem uma referência à teoria. Os conceitos primários formulados e aperfeiçoados por Bourdieu são o de habitus16 e o de campo. A estes se agregam outros, secundários, mas nem por isto menos importantes, e que formam a rede de interações que orienta a sociologia relacional, a explicação, a partir de uma análise, em geral fundada em estatísticas, das relações internas do objeto social [...] (THIRY-CHERQUES, 2006, p. 32).

Percebemos, nas ideias de Bourdieu, que a maneira de perceber, julgar e valorizar o mundo se forma a partir do agir, do corporal e do material, e que o homem funciona como esquema de ação, de percepções e de reflexões. No entanto, diante dessas construções do pensamento, não se leva em conta a situação pensada em si, nem em que mundo esse pensamento está situado. Por isso, sua teoria se fragiliza, pois, ao mesmo tempo que admite as condições da existência, da consciência, das práticas como sendo ideologias da matriz determinante do indivíduo, desconsidera seu meio, a totalidade histórica e as contradições existentes numa sociedade como a nossa.

Dentro desse contexto teórico, pressupomos que o uso empírico, analítico e sistemático utilizado no método de Bourdieu, para a construção de conceitos e teorias científicas, fica limitado aos interesses que regem a acumulação de capital, seja econômico, científico etc. Ademais, são essas doutrinas que comandam as tendências de paradigmas dominantes do conhecimento em tempos de pós-modernidade.

16 De acordo com Bourdieu (1983), habitus são disposições adquiridas em função de se pertencer a determinados

grupos sociais, são um sistema de disposições, modos de perceber, de sentir, de fazer, de pensar, que nos levam a agir de determinada forma em uma circunstância dada.

Antes de Bourdieu, Vygotsky, também numa linha experimental e de observação, descreveu sobre a dinâmica do processo de formação dos conceitos, na linha da psicologia histórico-cultural. Esse estudioso refere que a partir das interações sociais e das condições de vida, é que se chega ao desenvolvimento intelectual precipitado na infância. A percepção e a linguagem das diferenças, nesse caso, são indispensáveis à formação de conceitos. Além dos conceitos que se desenvolvem nos processos de formação que começam na infância, elas são o resultado de uma atividade complexa, em que todas as funções intelectuais básicas como atenção, memória lógica, abstração, capacidade para comparar e diferenciar constituem parte dessa formação. Assim, os conceitos inferiores são abarcados por conceitos novos ou mais elevados que os transformam (VYGOTSKY, 1991).

As funções mentais superiores do homem (percepção, memória, pensamento) desenvolvem-se na sua relação com o meio sociocultural, relação essa que é mediada por signos. Assim, o pensamento, o desenvolvimento mental, a capacidade de conhecer o mundo e de nele atuar é uma construção social que depende das relações que o homem estabelece com o meio (CAVALCANTI, 2005, p. 187).

Vygotsky, com suas contribuições teóricas, parte da presunção de que os homens constroem suas percepções e concepções de mundo, sobre as coisas, de objeto e de si próprio numa relação causal com o meio. Essa relação é que influenciaria o desenvolvimento humano. Partindo desse bojo, pressupõe que as fragilidades humanas incididas numa sociedade de classes podem inferir diretamente nas potencialidades cognitivas e, consequentemente, na vida humana em todos os seus aspectos. Os achados de Vygotsky (1991) fazem-nos refletir sobre como as construções cognitivas mentais constroem racionalmente as concepções humanas a partir de uma aprendizagem social.

Conceitos científicos, apreendidos nas academias, escolas, instituições formais de ensino, não são, a priori, compreendidos na infância, “[...] mas surgem e se constituem por meio de uma imensa tensão de toda atividade de seu próprio pensamento”, ou seja, são assimilados através da aprendizagem17 (VYGOTSKI, 2001, p. 260). Podemos compreender, nessa definição, que, por exemplo, a criança, em cada uma de suas fases de desenvolvimento mental, adquire capacidade de reconhecer e definir objetivos, coisas, no entanto o entendimento do que aquele objeto significa cientificamente é uma construção desenvolvida pedagogicamente.

17 O aprendizado é um aspecto necessário e universal do processo de desenvolvimento das funções psicológicas

Ao pensarmos sobre os conceitos, somos remetidos à ideia lógica do conhecimento científico. Para Paviani (2009), a ciência se caracteriza por um conjunto de elementos teóricos e metodológicos que lhes dão um caráter processual, uma dinâmica autossistêmica – organizativa. Nesse sentido, podemos distinguir questões filosóficas dos problemas científicos, então, nesses casos, as tarefas de conceituar e de distinguir seriam especialmente filosóficas. Assim, o cientista pode, conduzido pela própria experiência e reflexão, apontar características do que seja um problema teórico, mas, de direito, é função epistemológica refletir sobre as condições necessárias para se produzir conhecimentos científicos.

Logo, os dicionários que reúnem uma gama de palavras de uma determinada língua auxiliam na compreensão das mesmas, diante da diversidade de áreas do conhecimento (REY- DEBOVE, 1984). Por exemplo, no Dicionário Aurélio século XXI, a palavra “conceito”, dentre as acepções apresentadas, significa “representação dum objeto pelo pensamento, por meio de suas características gerais” (FERREIRA, 1999, p. 232), ou seja, é uma ideia, é a representação mental de uma coisa concreta ou abstrata, ou, ainda, é o objeto do pensamento enquanto pensado.

No Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “conceito” é a representação mental de um objeto abstrato ou concreto, que se mostra como um instrumento fundamental do pensamento em sua tarefa de identificar, descrever e classificar os diferentes elementos e aspectos da realidade (HOUAISS et al., 2001).

Conceitos científicos são construções históricas e culturais com significados particulares e relativamente estáveis, relacionando-se com os conceitos espontâneos dos sujeitos, que são adquiridos pelas suas experiências cotidianas: a sua relação com os conceitos espontâneos encontra-se no fato destes situarem-se entre o conceito científico e seu objeto, modificando-se e adquirindo todo um conjunto novo de relações com outros conceitos e também com o objeto (SCHROEDER; FERRARI; MAESTRELLI, 2010, p. 42).

Os homens, mediante sua capacidade intelectual, constroem o conhecimento e nomeiam definições sobre suas próprias ideias, gerando informações e representações genéricas ou contemplativas dos objetos, fenômenos, aspectos da natureza, de si próprio etc. As classificações para cada elemento, coisa, objeto, fato, fenômeno e de homem (biológico- social) são constituídas a partir de elocuções e simbologias mentais, ou então serão buscadas pela curiosidade humana até que sejam desvendadas pelas áreas dos conhecimentos.

Assim formam-se os conceitos, partindo-se de uma racionalidade mental que, num sobressalto humano pelo desconhecido, projeta um caminho para descortinar a verdade. É

coerente afirmar que é a ciência que possui a faculdade e os meios para que se chegue ao escopo e desvendamento dos fatos. É ela e nela que se elencam juízos valorativos das coisas, inferem-se descrições do que são os casos, eventos, fatos e menciona-se a funcionalidade comum de objetos da mesma natureza. Ela classifica-os e, por fim, lança as concepções.

2.1.2 Os impactos da ciência moderna na produção de conhecimento e na formulação de