Melucci (1996) oferece lentes conceituais para entender e explicar o nível microssocial e mesossocial da ação coletiva do movimento social surdo brasileiro para o reconhecimento da Libras pelo Estado.46 Para Alonso (2009, p. 64-65), Melucci privilegia “[...] mecanismos micro e mesossociológicos que vinculariam o novo padrão de sociedade, as experiências individuais da complexificação e as novas formas de ação política”.
Entretanto, autores como Bartholomew e Mayer (1992) e Gohn (1997) observam que a produção teórica do sociólogo italiano tende a deixar em segundo plano os processos sociais que ocorrem no campo político-institucional, como a estruturação jurídica das organizações do movimento social e a relação destas com o sistema partidário e as instâncias estatais. De fato, segundo Melucci (1989b, p. 53), as formas pelas quais o MSC relaciona-se “[...] com o
46 Giddens (2012) discorre sobre três níveis da análise social e cultural da sociedade. O nível microssocial refere- se às interações humanas cotidianas dentro de ambientes específicos que tanto constituem quanto restringem os entendimentos e as ações dos atores sociais. O nível macrossocial engloba sistemas sociais em grande escala, como o sistema político e a ordem econômica, envolvendo características gerais da sociedade, como classe social e divisão do trabalho. No nível mesossocial, situam-se fenômenos sociais entre os níveis micro e macro, incluindo as instituições e dimensões organizacionais da sociedade.
sistema político e com o Estado é apenas um fator mais ou menos importante na ação coletiva”. Assim:
Embora a relação entre sistemas políticos e movimentos sociais seja uma perspectiva analítica que é difícil de evitar em sociedades complexas, é uma perspectiva limitada. Os conflitos sociais contemporâneos não são apenas políticos, pois eles afetam o sistema como um todo [...] se concentram nas necessidades de auto-realização, mas não numa orientação política, porque contestam a lógica do sistema nos campos culturais e na vida cotidiana das pessoas (MELUCCI, 1989b, p. 54).
Essa posição de Melucci deve-se em larga escala à base empírica em que se baseia a sua produção. Melucci (1996, 2001) pesquisou os MSC – como o movimento pacifista ou ecológico – no contexto histórico europeu e norte-americano das décadas de 1960-1980. Nesse contexto, os MSC buscavam desenvolver a sua ação coletiva da maneira mais autônoma possível em relação tanto ao Estado quanto ao sistema político.
Todavia, a busca por autonomia em relação ao campo político-institucional não foi uma orientação dominante dos movimentos sociais latino-americanos (CHIHU AMPARÁN; LÓPEZ GALLEGOS, 2007). Para Chihu Amparán e López Gallegos (2007, p. 154, tradução nossa), na América Latina, “[...] a relação com o Estado resulta crucial para entender os movimentos sociais contemporâneos [...]”.
Nessa direção, Zald (1992) considera que a análise da ação coletiva dos movimentos sociais deve considerar o nível macrossocial da ação estatal e o seu impacto no movimento social, seja de modo direto, por meio de restrições ou estímulos, seja de maneira indireta, como efeito de determinadas políticas governamentais. Assim:
O Estado suscita muitos assuntos com os quais os movimentos sociais se debatem. Além disso, o Estado facilita ou impede os movimentos, ameaçando ou aumentando os custos da ação coletiva, operando em coalizão com o movimento ou opondo-se a ele (ZALD, 1992, p. 339, tradução nossa).
McCarthy e Zald (1997), embasados na Teoria da Mobilização de Recursos47, explicam que o movimento social tende a estruturar-se como uma Organização do Movimento
47 A Teoria da Mobilização de Recursos (TMR), desenvolvida por um grupo de sociólogos norte-americanos a partir da década de 1970, enfatiza o caráter racional inerente à tomada de decisão pelos atores sobre aderir ou não a um movimento. Antes de agir coletivamente, os atores avaliam os custos e benefícios individuais envolvidos na participação, engajando-se quando estes superam aqueles. A ação coletiva centraliza-se no uso instrumental das organizações do movimento social (OMS) para a mobilização dos recursos materiais e humanos ––––––––––––––
Social (OMS), quando inclui entre as suas metas a obtenção de recursos e benefícios dentro
do sistema político – como a aprovação de uma legislação específica. Esses autores definem a OMS como uma instituição tipicamente formal que existe com base na lei, tem seus escritórios e procedimentos administrativos, além de mostrar-se disposta a se envolver em política oficial ou institucionalizada. Historicamente, isso ocorreu em grande medida com a Feneis.
A OMS “[...] identifica suas metas com as preferências de um movimento social [...] e as tentativas para implantar esses objetivos” (McCARTHY; ZALD, 1997, p. 153, tradução nossa). Ela mobiliza e agrega recursos – como militantes, simpatizantes, instalações, trabalho, financiamento, legitimidade, solidariedade, entre outros – que vêm dos indivíduos e de outras organizações sociais, incluindo instâncias estatais.
Esses recursos são convertidos em ações coletivas para atingir os objetivos do movimento social conforme diferentes táticas, como estratégias de protesto – por exemplo, passeata ou abaixo-assinado – ou lobbying48 – como organização e transmissão para
deputados e senadores de materiais contendo informações sobre as demandas do movimento social.
A articulação das demandas múltiplas de um movimento em uma única voz de autoridade dentro da esfera pública é uma das mais relevantes tarefas da OMS (McCARTHY; ZALD, 1997). Assim:
As organizações só se concretizam como fonte de poder se houver disponibilidade de recursos, e essas condições externas à ação, que escapam ao controle subjetivo, são justamente as que determinam a força da organização e, por conseguinte, o seu sucesso (McCARTHY; ZALD, 1997, p. 156, tradução nossa).
necessários à consecução das metas do movimento. Para Alonso (2009, p. 53), a TMR “[...] privilegia a racionalidade e a organização e nega relevo a ideologias e valores na conformação das mobilizações coletivas”. 48 Lobbying é a ação de representantes de grupos de interesses para apresentar as demandas do grupo que eles representam aos legisladores ou tomadores de decisão das instâncias governamentais (BOBBIO; NICOLA; PASQUINO, 2004). Segundo Farhat (2007, p. 145), os grupos de interesses são formados “[...] de pessoas físicas e/ou jurídicas, formal ou informalmente ligadas por determinados propósitos, interesses, aspirações ou direitos [...]”.
McCarthy (1996, p. 141, tradução nossa) destaca que as OMS não são as únicas estruturas de mobilização de recursos, pois esta pode ocorrer igualmente em um nível menos formal, envolvendo:
A série de locais sociais da estrutura de micromobilização da vida cotidiana que não são destinados primariamente à mobilização do movimento, mas onde a mobilização pode ser gerada: estes incluem unidades familiares, redes de amizade, associações voluntárias, unidades de trabalho, e os elementos da estrutura do próprio Estado.
Nessa direção, a mobilização de recursos necessários à ação coletiva dos membros do movimento social surdo não se limitou à Feneis ou às associações de surdos. De acordo com os dados da pesquisa, espaços disponibilizados por universidades públicas e particulares para reuniões e projetos de pesquisa envolvendo pessoas surdas usuárias da Libras podem ser considerados exemplos de locais que acabaram se convertendo em estruturas de mobilização, ainda que não tivessem sido criados para essa finalidade.
2.3 A TEORIA DO PROCESSO POLÍTICO E O CONCEITO DE ESTRUTURA DE