de transportes públicos acessíveis a todas as pessoas segundo um plano de deslocamento urbano e interurbano, e com base nos meios de transportes adequados as diferentes neces- sidades sociais (de gênero, idade, incapacidade) e ambientais, com preços adequados à renda dos cidadãos. Será estimulado o uso de veículos não contaminantes e reservado áre- as aos pedestres de maneira permanente a certos momentos do dia. 2. As cidades promo- verão a remoção de barreiras arquitetônicas para a implantação dos equipamentos necessá- rios ao sistema de mobilidade e circulação e a adaptação de todas as edificações públicas ou de uso público, dos locais de trabalho, para garantir a acessibilidade das pessoas porta- doras de necessidades especiais.
Um dos fatores de impedimento ao lazer decorre da ausência de pro- jetos culturais e artísticos nas cidades. Esses projetos devem ser desenvolvidos de uma forma que interajam com a população.
Uma idéia de acesso às artes como forma de lazer, é a interação da população através de oficinas de dança, teatro, música e outros ramos de arte e cultura, subsidiada pelo Poder Público através da respectiva pasta e que devem ser
voltadas para a população de cada localidade (bairro) da cidade. Só assim o povo poderá ter qualidade de vida através de lazer, além de participar de todo um proces- so de cultura e educação. O mecanismo sugerido é necessário, pois atualmente, o lazer é algo caro para se obter por vias normais (no caso de cultura a compra de in- gressos para peças de teatro e shows variados), pois essas atividades tornaram-se fonte de renda, assumindo a característica de negócio e passando a ser um privilégio das classes mais abastadas.
Nesses projetos de interação da população com a cultura como forma de lazer, a utilização das praças, parques e logradouros e próprios públicos são es- paços essenciais para o desenvolvimento dessas atividades e instrumento da quali- dade de vida como direito fundamental.
O mesmo se diga com a falta de um programa de estímulo aos espor- tes em geral. Os centros esportivos são em número restrito e não atingem os bairros mais isolados e a periferia. O esporte é instrumento fundamental para afastar a ju- ventude dos perigos da degeneração, e também para ofertar aos adultos a possibili- dade de uma vida saudável.
Mas como já dito, os espaços públicos, em face da violência vêm tendo sua utilização limitada, o que impede a prática desportiva como forma de lazer e re- creação.
Uma vez cumpridas essas quatro funções sociais da cidade, que são básicas (habitação, trabalho, circulação e recreação), estar-se-á propiciando redução das desigualdades sociais, a promoção de justiça social e a melhoria da qualidade de vida. Ou nos dizeres de Nelson Saule Júnior, “a incorporação da função social das cidades como preceito que deve balizar a política de desenvolvimento urbano, à luz do des- envolvimento sustentável, aponta para a possibilidade de sairmos do marco apenas da críti- ca e denúncia do quadro de desigualdade social, e passaremos para a construção de uma nova ética urbana, onde os valores ambientais e culturais se sobreponham no estabeleci- mento de novas cláusulas dos contratos sociais originários de novos paradigmas da gestão
327 Fórum Social das Américas – Quito – Julho de 2004; Fórum Social Urbano – Barcelona – Setembro de 2004
pública, mediante práticas de cidadania que reconheçam e incorporem os setores da socie- dade excluídos de seus direitos e necessidades básicas”.328
Resumindo, para os fins deste trabalho, as quatro funções sociais da cidade, aliadas ao novo conceito de função social, conforme a mais recente Carta de Atenas (1998 -entendimento mais amplo da cidade e sua sustentabilidade, a tutela da vida como um todo e o planejamento visando o bem-estar dos cidadãos),329 tudo associado às diretrizes gerais da política urbana, cujo mote é ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, conforme dispõe o artigo 2º e seus acessórios da Lei Federal nº 10.257, de 10/07/2001 (Estatuto da Cidade), tem por objetivo final, o resguardo do ser humano e sua dignidade e a tutela da qualida- de de vida, direito fundamental decorrente do próprio direito à vida.
5.2.2. Serviços Públicos: justa distribuição e qualidade de vida
Os serviços públicos essenciais, em especial a sua justa distribuição, integram os requisitos na busca pelo direito fundamental à qualidade de vida.
A Constituição de 1988 dispõe expressamente sobre a obrigação do Poder Público, na forma da lei, a prestação de serviços públicos e o faz em dois momentos específicos.330 “A Constituição insere, ainda, o conceito de serviço relevante, como o de saúde (art. 197).331
328 Nelson Saule Júnior, Novas Perspectivas do Direito Urbanístico Brasileiro. Ordenamento Constitucional da
Política Urbana. Aplicação e Eficácia do Plano Diretor, pp. 61/62.
329 Milena Kanashiro, Da antiga à nova carta de Atenas – em busca de um paradigma espacial de sustentabili-
dade. Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 9, p. 33-37, jan/jun de 2004, Editora UFPR 33. São objetivos da nova Carta de Atenas de 1998 através de quatro pontos-chave: promover competitividade econômica e empre- go; favorecer coesão social e econômica; melhorar o transporte; e promover o desenvolvimento sustentável e a qualidade de vida. Também integra o documento um programa de dez itens: demografia e habitação, questões sociais, cultura e movimento, escolha e diversidade, segurança e saúde.
330Constituição Federal de 1988: Art. 37. (...), § 3º - A Lei disciplinará as formas de participação do usuário na
administração pública direta e indireta, regulando especialmente: I - as reclamações relativas à prestação dos serviços públicos em geral, asseguradas a manutenção de serviços de atendimento ao usuário e a avaliação pe- riódica, externa e interna, da qualidade dos serviços (...). Art. 175. Incumbe ao Poder Público, na forma da lei, diretamente ou sob regime de concessão ou permissão, sempre através de licitação, a prestação de serviços pú- blicos. Parágrafo único – A lei disporá sobre: I – o regime das empresas concessionárias e permissionárias de serviços públicos, o caráter especial de seu contrato e de sua prorrogação, bem como as condições de caducida- de, fiscalização e rescisão da concessão ou permissão; II – os direitos dos usuários; III – política tarifária; IV – a obrigação de manter serviço adequado.
A não interrupção dos serviços públicos e das atividades essenciais, em face da valorização do ser humano, assegurado pelos Direitos e Garantias Fun- damentais previstos na Constituição, passou a ser uma exigência social para garan- tir uma ordem de atividades indispensáveis à manutenção da vida humana sob a ótica da dignidade e da qualidade de vida dos cidadãos.
A Lei Federal nº 7.783, de 28/06/1989, que dispõe sobre o exercício do direito de greve, define as atividades essenciais, regula o atendimento das necessi- dades inadiáveis da comunidade, e dá outras providências.
A questão que ora se aborda nesse primeiro momento á a interrupção de serviços públicos e atividades essenciais que possam prejudicar o direito à quali- dade de vida dos cidadãos. Tanto é verdade que mencionada lei dispõe que caracte- riza abuso do direito de greve a inobservância das normas nela contidas (art. 14).
No que diz respeito à paralisação de serviços públicos e atividades es- senciais em período de greve, determina o texto legal que deverão ser mantidas em atividade equipes de empregados com o propósito de assegurar os serviços cuja paralisação resultem em prejuízo irreparável (deterioração irreversível de bens, máqui- nas e equipamentos, e manutenção - art. 9º. Também faculta ao empregador, não havendo acordo, a possibilidade de contratação direta dos serviços necessários – Parágrafo único - Lei Federal nº 7.783/1989).
Mas o que a lei considera serviços ou atividades essenciais? O artigo 10 e seus incisos da Lei Federal nº 7.783/1989, enumeram essas atividades: I - tra- tamento e abastecimento de água; produção e distribuição de energia elétrica, gás e com- bustível; II - assistência médica e hospitalar; III – distribuição e comercialização de medica- mentos e alimentos; IV – funerários; V – transporte coletivo; VI – captação e tratamento de esgoto e lixo; VII – telecomunicações; VIII – guarda, uso e controle de substâncias radioati- vas, equipamentos e materiais nucleares; IX – processamento de dados ligados a serviços essenciais; X – controle de tráfego aéreo; XI – compensação bancária.
Ao cuidar dos serviços ou atividades essenciais a lei fala em prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades inadiáveis da comu- nidade e dispõe: “São necessidades inadiáveis, da comunidade aquelas que, não atendi- das, coloquem em perigo iminente a sobrevivência, a saúde ou a segurança da população” (art. 11 e Parágrafo único - Lei Federal nº 7.783/1989).
E o mesmo texto legal ainda assegura que: “No caso de inobservância do disposto no artigo anterior, o Poder Público assegurará a prestação dos serviços indispen- sáveis” (art. 12 - Lei Federal nº 7.783/1989).
A importância dos serviços públicos e das necessidades inadiáveis é tão relevante que, não bastasse a Lei Federal já mencionada, o Código de Defesa do Consumidor, através de seu artigo 22 e Parágrafo único, além de obrigar o forne- cimento desses serviços, quando essenciais e contínuos, impõe nos casos de des- cumprimento, compelir os responsáveis ao fornecimento e reparar os danos causa- dos, na forma prevista no CDC.
Assim, entendemos que os serviços públicos e as atividades essenciais que coloquem em risco a sobrevivência, a saúde, a segurança e outros bens ine- rentes à vida, possuem todos natureza de essencialidade, não podendo ser inter- rompidos, sob pena de responsabilização.
Os serviços públicos estão intimamente ligados ao direito à cidade e à cidadania, “entendido como uma nova lógica que universalize o acesso aos equipamentos e serviços urbanos, condições de vida urbana digna e ao usufruto de um espaço cultural- mente rico e diversificado e, sobretudo, em uma dimensão política de participação ampla dos habitantes das cidades na condução de seus destinos”.332 Ora, se os serviços públi- cos (equipamentos e serviços urbanos) estão ligados ao direito à cidade e à cidadania, eles possuem relação íntima com a qualidade de vida.
Também a Carta Mundial do Direito à Cidade cuida em seu artigo XII do direito a água, ao acesso e administração dos serviços públicos domiciliares e
332 José Roberto Bassul, Reforma Urbana e Estatuto da Cidade, EURE (Santiago) vol. 28, n. 84, Santiago, Sept,
urbanos.333 Assim dispõe sobre esse direito: