• Sonuç bulunamadı

Fotoğraf 67: Arka Kapak

5. DEĞERLENDİRME

5.4. Ciltteki Süslemeler

O sentido formativo da arte trágica no jovem Nietzsche exige abertura para a compreensão da magnitude do empreendimento crítico de O nascimento, o qual alvejou os limites da razão moderna e da metafísica tradicional. Dessa forma, a Metafísica de Artista pode ser interpretada como projeto estético-formativo ao passo que firmou o elo entre arte e vida e possibilitou uma estética da existência. O jovem Nietzsche viu “[...] na experiência estética uma espécie de êxtase e redenção [tornando-se] um precursor da crítica a um tipo de racionalidade meramente técnica, fria e planificadora” (GIACOIA, 2000, p. 13). Ao repensar o papel da arte em relação com a vida, subscreveu-se na luta por novas saídas para a Bildung, e orientou a “[...] uma relação renovada com a classicidade, o que comporta uma radical atitude crítica nos confrontos com o presente” (VATTIMO, 1985, p. 20). A tragédia que nasce da confluência entre os impulsos naturais, apolíneo e dionisíaco, os viu conciliarem-se de

forma harmoniosa na criação do espetáculo grego. Essa relação dialética, tensa e interdependente entre os impulsos naturais constituiu uma novidade estética essencial, ao passo que “o jogo do apolíneo e do dionisíaco, e o ambíguo significado que a tragédia possui, de libertação do e pelo dionisíaco na bela imagem apolínea, permanecem elementos decisivos na obra de Nietzsche e constituem ainda a base de sua possível atualidade teórica” (VATTIMO, 1985, p. 20). Isso porque o fenômeno da arte tomado como problema existencial permitiu “[...] um mergulho redentor na imanência, onde não se trata mais de instaurar um juízo que divide, condena, renega, mas de proclamar um sim à vida em sua crua integridade” (GIACOIA, 1997, p. 187).

O interesse em explorar o sentido da Bildung nietzschiana-juvenil enquanto formação estética exigiu tematizar O nascimento enquanto problema de formação. Posta essa problemática, outra exigência logo se põe: a de interpretar o sentido formativo da arte trágica. Isso implicar aceitar, ou mesmo tomar como ponto de partida, a ideia de que a novidade filosófica de O nascimento corresponde a uma novidade estética e formativa. Isso já foi tornado claro no curso da argumentação deste estudo. Ora, existe, no escrito de Wagner, a Carta aberta a Friedrich Nietzsche, publicada no Norddeutsche Allgemeine Zeitung de 23 de junho de 1872, que, de tudo o mais que pode ser interpretado, representa uma dimensão formativa fundamental no questionamento: “O que dizer de nossos estabelecimentos alemães de ensino?” (WAGNER, 2005, p. 85). Com essa carta, Wagner se dirige criticamente a Wilamowitz-Möllendorff e sua recusa à interpretação sobre a Antiguidade grega que Nietzsche apresentou em O nascimento. E o questionamento wagneriano, que surge após várias outras considerações, procura mostrar que a novidade estética nietzschiana, que parte de uma retomada do sentido originário da experiência dionisíaca no drama grego, não só representa um duro golpe à filologia da época, mas, sobretudo, um corretivo à perspectiva formativa da época. A experiência formativa a partir do trágico é aquela “[...] que a cultura alemã deve assumir caso pretenda ajudar a nação, que volta a se erguer, a alcançar seus objetivos mais nobres” (WAGNER, 2005, p. 86). Mas o que há na arte trágica que é formativo? De que forma o jovem Nietzsche apresenta a produtividade formativa da arte trágica em O nascimento? A arte trágica afirma a vida em todos os sentidos. Na perene luta entre Apolo e Dionísio a arte trágica encontra o seu sentido e, com isso, suprime, sempre que apresenta à vida novos sentidos, qualquer pretensão de unilateralidade. É propriamente a tensão entre os dois impulsos artísticos naturais que justifica a existência, ao passo que Apolo e Dionísio se manifestam fisiologicamente, permitindo o movimento do olhar em direção à própria vida, ao que há de paradoxal nela, possibilitando a abertura ao acaso.

Essa nova perspectiva estético-formativa desafiou de imediato o círculo da ciência, a razão moderna, a moral cristã, uma vez que a tensão relação entre o apolíneo e o dionisíaco no contexto da arte trágica orienta, antes de tudo, à incerteza sobre a vida. Na tragédia, toda a angustiante luta dos heróis trágicos na busca por ultrapassar o próprio destino impulsiona-os à transgressão dos limites da existência e consequentemente de todos os valores estabelecidos. Se já existe em O nascimento uma perspectiva transvalorativa, ela reside em, por meio da experiência estética, transladar as esperanças em relação à vida da fixa certeza da ciência e moral cristã, para o devir. A realidade da existência, enquanto devir, rompe com o conjunto de conhecimentos e valores pré-estabelecidos, lançando o homem no vazio. A existência aqui passa a ser entendida como experiência; não mais aquela da epistemologia moderna e da moral cristã, donas do destino, mas como experiência do trágico, da incerteza, da luta e da descoberta. Daí o resgate de Dionísio e a obscura incerteza do devir em um momento no qual reinava a luz e suprema segurança de Apolo em relação à existência, pois do contraste entre as duas divindades renasce o verdadeiro existente, que é resultado de uma luta natural que produz sempre o novo: com a experiência do trágico a própria existência é criação. Trata-se da própria vida como obra de arte, criada na perspectiva da liberdade. Todo o ideal da permanência, presente na crítica nietzschiana a Parmênides e à ideia platônica, bem como toda a fixação conceitual da epistemologia moderna, o decadente socratismo, veem suas autoridades questionadas, ao passo que a experiência da arte aponta sempre para a transitoriedade do mundo dos fenômenos, da própria existência.

Em Cinco prefácios para cinco livros não escritos, presente oferecido à Cosima Wagner no natal de 1872, a perspectiva da experiência da arte trágica é também entendida como projeto de renovação da cultura alemã e a imagem do devir da existência quer mostrar que “cada instante devora o precedente, cada nascimento é a morte de incontáveis seres, gerar, viver e morrer são uma unidade” (CP I-V, 2000, p. 45). A existência é a tensa relação entre criação e morte e a vontade é o motor propulsor da própria existência. Para a existência poder ser considerada como fenômeno e para a experiência da arte poder favorecer o devir criativo de tal fenômeno, o pessimismo dionisíaco precisou ser contraposto ao otimismo racionalista a partir da suposição da decadência da cultura trágica dos gregos. O que se pode entender como processo decadente da cultura trágica dos gregos? Todo o longo processo de execração dos valores afirmativos do existir, que possui suas raízes no socratismo-platônico e na racionalidade dialética introduzida por Eurípides na tragédia grega. Com essa herança, esbanjaram-se os modernos e seus projetos formativos. A pergunta anteriormente posta a respeito da produtividade formativa da arte trágica orienta agora a outro questionamento que

pode ser formulado da seguinte maneira: quais os limites formativos da consciência socrática- racionalista que a modernidade levou ao extremo?

No contexto moderno racionalizante, o fundamento da existência funde-se com uma busca constante guiada pela consciência. Nesse contexto, o instintivo é desvalorizado ao extremo por não primar por raciocínios lógicos e certeiros e prevalece aquela velha perspectiva socrática, segundo a qual somente o que é inteligível deve ser tomado como belo. A busca incessante por uma compreensão racional da existência adoece os instintos, tolhem a criatividade. Incorre numa decadência fisiológica ao passo que favorece o enfraquecimento dos instintos mais vitais. Apolo e Dionísio são sufocados e a razão que se expande enfraquece os instintos mais vitais. Foi desse contexto que nasceu a mais bela criatura da modernidade: o homem teórico, aquele que dentre os grandes feitos requer para si o de ter separado conhecimento e vida e tornado a arte um problema do intelecto. Em sentido epistemológico- formativo são postos em confronto pelo jovem Nietzsche o homem teórico e o homem artístico sendo que este último “[...] é o tipo superior em comparação com o lógico e o cientista” (FINK, 1988, p. 35). Assim, o homem artístico surge com aquele com a força capaz que superação da clareza do conceito, posto que sua atitude é fruto da força criadora da intuição.

A Metafísica de Artista é, portanto, a noção central de O nascimento, que permite pensar um novo estatuto da arte e um novo sentido para a relação entre arte e vida. A partir da tensa e necessária relação entre Apolo e Dionísio, vimos uma retomada da tragédia no que diz respeito a seu surgimento. Com isso, o jovem Nietzsche nos insere de forma profunda em um problema de ordem estética e filosófica da tragédia enquanto lugar por excelência no qual coexistem os problemas da existência. Essa perspectiva é o que permite considerar a arte trágica como experiência capaz de assegurar sentido e finalidade à existência humana. Nisso consiste a experiência jubilosa do consolo metafísico. Ora, a superação da condição individual daquele submerso na consciência trágica o faz sentir-se identificado dionisiacamente, tanto com o herói trágico da cena, como com todos aqueles que estão ao seu redor. Daí o pessimismo juvenil-nietzschiano que permeia O nascimento. Ele não consiste numa negação da existência, nem fuga dela, o consolo metafísico vivido na tragédia é também alegria metafísica, sempre que se transpõe a sabedoria dionisíaca ao universo das imagens. Trata-se do herói, a expressão máxima da vontade, que é sempre negado por ser apenas aparência, e a eterna vontade continua intacta, posto que nunca é aniquilada. A vivência do consolo metafísico no âmbito do trágico transparece para Nietzsche como a mais produtiva

experiência, pois por meio dela o povo grego compreendeu sua a abundante força criadora que os tornou grandes.

O tratamento oferecido ao trágico pelo jovem filósofo desperta para a ideia de que a vivência do trágico, as experiências de vida, não se encerram, e de que, com um sentimento de unidade com a natureza, com o Uno Primordial, todas as expressões de vida transformam- se em novos sentidos para a existência. Em sentido estrito o consolo metafísico como o pretende o jovem Nietzsche aponta para a imanência, para o modo de ser no mundo e, enquanto crítica da moral e epistemologia, faz frente não só a Schopenhauer, como já o indicamos anteriormente, mas a toda conotação transcendente que o medievo e a modernidade pode oferecer à experiência da arte. O consolo metafísico orienta à própria vida ao eliminar os sentimentos pessimistas diante da efêmera existência e ao revelar a que tudo e todos podem continuar a se recriar perenemente. Quando então a experiência do trágico forma? Quando desperta para o sentido da vida, para a possibilidade de recriação e de novos sentidos. Em Ecce Homo (1888), ao tratar sobre O nascimento, Nietzsche fez-se ouvir na consideração que em tudo corrobora a perspectiva do trágico enquanto experiência formativa: “eu prometo uma era trágica: a arte suprema do dizer Sim à vida, a tragédia, renascerá quando a humanidade tiver atrás de si a consciência das mais duras, porém necessárias guerras, sem sofrer com isso” (EH, 2008, p. 62).

Em O nascimento, “[...] o jovem Nietzsche aponta o significado da tragédia grega para a cultura, capaz de elevar o espírito diante do drama da existência humana, dominar os caráter caótico dos impulsos e transformar em beleza os horrores da vida” (HERMANN, 2005, p. 78). O apolíneo e o dionisíaco conciliados na tragédia possibilitam a intensificação da vida com seus impulsos e paixões, que, para o jovem filósofo, encontrava-se sufocada pela racionalidade moderna ávida por clareza. Em sentido formativo-epistemológico, a arte trágica como experiência formativa suplanta toda a filosofia domesticadora da existência e qualquer moral puritana que, por meio de conceitos, apresentam vereditos sobre a vida. Nesse sentido, a atitude decadente própria do homem moderno foi a de combater os instintos, a tentativa de anulá-los. “Disso resulta o empobrecimento cultural, que estimula o desenvolvimento do saber e do conhecimento, em detrimento da vida com seus impulsos e suas paixões” (HERMANN, 2005, p. 79). Assim, a compreensão da Bildung trágica nietzschiana, ou o ideal de formação estética que permeia O nascimento eleva-nos à ideia de vida segundo o qual a experiência da arte nos conduz sempre à alegria existencial e à vontade constante em continuar a viver.

Benzer Belgeler