De acordo com Enriquez (2007a), não há como pensar o social sem colocá-lo no registro do poder e, conseqüentemente, da ordem. As sociedades se criam combatendo a indiferenciação, numa luta contra a fantasia de uma desordem primitiva. O estado de natureza hobbesiano é modelar nesse sentido: imagina-se a desordem total para instaurar-se o social. A animalidade apresenta-se na origem, quando o mundo é pura relação de forças, para ser vencida pelo que há de essencialmente humano: a razão. Enquanto isso, o fantasma do homem lobo do homem espreita, somente a garantia de um poder soberano absoluto é capaz de afastá-lo.
A idéia de uma sociedade como produto arbitrário da história, “processo sem fim e sem finalidade” é uma realidade insuportável para qualquer grupo social (ENRIQUEZ, 2007a, p. 91). A entrada na cultura faz aparecer não somente a linguagem, mas uma narrativa que ancora e legitima a vida do grupo em formação:
Nenhuma sociedade pode aceitar a idéia de que não passa de um produto da história, ou seja, do puro arbitrário... Pelo contrário, ela exige, para se instaurar e se manter, portanto, para se constituir como comunidade, o respaldo de uma ordem transcendente, que lhe assegure o caráter necessário de inserção no tempo e no espaço. (ENRIQUEZ, 2007a, p. 91).
O sistema simbólico é o organizador da vida em sociedade, é o meio pelo qual a organização social se oferece como objeto a interiorizar e fazer viver. Os mitos certificam a unidade e são referência unificadora necessária a todo ordenamento social. A angústia da vida em comum, sempre ameaçada pelo caos, é contida pelo mito de uma origem transcendente. Os ancestrais, os deuses, pouco importa, o que está em questão não é a falácia da explicação, mas, aquilo que a explicação traz: “um sistema conceitual, afetivo e de fantasia ordenado e tranqüilizador...” (ENRIQUEZ, 2007a, p. 91). O mito retira a angústia inerente à vida em comum porque estrutura uma ordem social.
A tese de Enriquez ecoa a obra sociológica de Freud: “o funcionamento do social é essencialmente passional não-racional”, apoiando-se em mecanismos da ilusão e fenômenos da crença, aos quais estão fadados mesmo os mais capazes e inteligentes seres humanos (ENRIQUEZ, 1990, p. 145). As sociedades se fundam no engano [tromperie], são refratárias ao esforço de busca da verdade, e só podem existir crendo-se sua possuidora, situando-se no lugar da verdade. Ao buscar justificar sua existência para elas mesmas, encontram as religiões, mitos, ritos, crenças, ideologias e slogans; a tomada de consciência e a elucidação são possibilidades sempre bloqueadas:
[...] nenhuma sociedade (na medida mesma em que aceita se confrontar com o processo histórico) pode fazer economia de certa clarificação de seus interesses e uma análise de seu funcionamento. Graças a essas tentativas é que rompe a tendência à repetição e pode evoluir. Porém o fato dela ser obrigada a empreender esse trabalho não significa que ela deseje terminá-lo. (ENRIQUEZ, 1990, p. 145).
Em suas considerações sobre a guerra, Freud explicita o sentido dessa interrupção: “em nossos impulsos inconscientes, diariamente e a toda hora, nos livramos de alguém que nos atrapalha, de alguém que nos ofendeu ou prejudicou” (FREUD apud ENRIQUEZ, 1990, p. 145). Este desejo inconsciente de nos livrarmos dos outros é o desejo de exterminar (matar) aquilo que aparece como impedimento da realização do nosso desejo: o outro, o estranho, o inimigo. A hesitação diante da morte exprime uma situação paradoxal: o inconsciente deseja a
morte do outro, mas não pode ou não é capaz de se representar a própria morte (ENRIQUEZ, 1990, p. 148). A guerra expõe a situação paradoxal, “é o momento no qual o inconsciente não se exprime mais lateralmente, mas diretamente sobre a cena do visível, onde ele é encorajado a fazê-lo”. Freud leva a pensar a guerra emanando dessa incidência não-desviada do inconsciente, um aparecimento “fora do lugar” cuja conseqüência inevitável é a “destruição generalizada” (ENRIQUEZ, 1990, p. 148).
A guerra é o ponto de excesso que desvela a natureza trágica do vínculo social. A comunidade só se institui ao instituir o controle da violência (que nunca desaparece). Para fazê-lo será preciso segregar e desviar a permanente violência social: “... o papel de toda sociedade é o de gerar a violência, dirigindo-a contra o exterior (o que reforça a coesão social) ou transformando-a em violência legal...” (ENRIQUEZ, 1990, p. 148). A paz social instituída pelo (estado de) direito não é outra coisa que a violência coletiva sob o controle da legalidade. A sociedade se estrutura na base daquilo que fornece o fundamento legitimador de sua ordem legal, estabelecendo a direção e o sentido da violência social autorizada. Esta é a essência da narrativa mítica, religiosa e ideológica na origem do vinculo social: a violência terá um “bom” destino nos “bodes expiatórios” e nos inimigos – “bom” porque deixa livre o caminho da coesão social para aquém dos outros.
Enriquez aborda a teoria freudiana pelo flanco “da alteridade e de seu reconhecimento”, identifica aí o núcleo problemático da construção dos vínculos sociais – o que, segundo ele, foi anunciado pela obra de Freud, ainda que esta não seja a terminologia por ele utilizada (ENRIQUEZ, 1990, p. 157). Ao optar por este caminho, demonstra-se sensível às ambigüidades que operam no âmago das relações sociais: o vinculo social se apresenta numa combinação paradoxal de amor e violência.
A violência é a recusa do amor e do reconhecimento simbolizada pela relação da horda com o pai; é a relação de força, posta no seio do grupo, como interdição: a voz que dita uma lei que se põe entre todos. Desta interdição nasce a reação violenta dos filhos que assassinam o pai, unindo o grupo na conjuração e no crime, instaurando “o pai mítico, fundador da comunidade” (ENRIQUEZ, 1990, p. 148). Esta é a referência normativa sem a qual seria impossível instituir a comunidade: o fim do pai “real” instaura o pai mítico. A função paterna significa a exigência da norma, da lei inter-dita na comunidade.
Tanto quanto a violência, o amor é estruturante do vinculo social. Mas, a amorosidade social é sempre assexuada. O amor desmesurado é violento, e nunca poderia instaurar a comunidade, a fusão do casal apaixonado é contrária à civilização. “Todo o amor é, por definição, endógamo e incestuoso”, remete aos primeiros objetos (ENRIQUEZ, 1990, p. 165). A relação mãe- filho(a) é prototípica do amor anti-social. A interdição do incesto tem função social, afasta e separa os filhos para libertá-los da “fantasia materna de plenitude”, que é o desejo de conservá-los e nunca vê-los crescer:
As sociedades ditas primitivas não se enganaram ao instituir um cerimonial que tem por objetivo separar definitivamente a criança da mãe e fazer dela um filho do pai. A proibição do incesto permite marcar a criança com o nome do pai, e instituir o parentesco simbólico no lugar do parentesco natural. (Enriquez, 1990, p. 166).
O amor paterno responde, então, pela instauração do vínculo, ao simbolizar a unidade do grupo humano. O pai simboliza o corpo do grupo, seu amor garante um lugar na organização social, referencia uma identidade. O pai é “o objeto comum do grupo”, que fomenta “a identificação dos membros do grupo uns com os outros” (ENRIQUEZ, 1990, p. 163). Assim, a fundação do vínculo social liga-se tanto ao amor do pai quanto ao seu assassinato, que instauram o mito (pai mítico) na origem do vínculo social.
A ordem social presentifica o mito de origem ao referenciar-se nele. Apóia-se na narrativa construtora de um lugar transcendente, de onde fala uma voz que enuncia “um sistema de limites”, para ditar, discriminar e criar relações de igualdade e diferença entre os membros do grupo social. Este lugar é ocupado pelas religiões, mitos, ritos, crenças e ideologias capazes de ditar e manter a ordem social. As normas sociais são, assim, postas como “... normas sempre legitimadas por uma lei (palavra fundadora que define a ordem do mundo, pronunciada um dia pelos deuses ou pelos grandes ancestrais, e que dá sentido ao grupo e à sua ação)” (ENRIQUEZ, 1990, p. 169). A lei, o inter-dito da vida grupal, organiza-se em torno dos limites e fronteiras do grupo, da inclusão e exclusão, formando um sistema de classificação que consubstancia um sistema de dominação.
As diferenças de sexos e de gerações fundamentam todo sistema de classificação: elas ordenam a cultura ao sustentar as proibições do incesto e do assassinato e devoração do pai;
elas ordenam o pensamento consciente ao impedir a mistura e a indiferença, garantindo o não- retorno ao idêntico – a ausência completa de limites, a impossibilidade mesma de significar. “Todo sistema de classificação fundamenta-se na relação com a lei que proíbe e autoriza as relações sexuais, criadora da ordem humana e da ordem social” (ENRIQUEZ, 1990, p. 171).
Há, ainda, diferenças daí derivadas que são importantes para a ordem social. A oposição entre profano e sagrado é o sustentáculo de toda narrativa mítica, a garantia de que a vida cotidiana não é fruto do simples acaso, mas conectada a uma esfera permanente e imutável que assegura a previsibilidade dos acontecimentos e a estabilidade da existência no e do mundo. Estabelece-se o mundo duplo que é uma “proteção contra o retorno ao caos primordial; o mundo fantástico é a base do mundo real; a crença é o sustentáculo das relações estáveis” (ENRIQUEZ, 1990, p. 174). A oposição entre esfera do profano e do sagrado, e as garantias que ela entrega explicam muito da necessidade humana de viver na ilusão e na crença, de criar verdades para nelas se apoiar, de viver uma existência na base do ‘tudo se passa como se... ’.
O ordenamento social é construído na base de sucessivas oposições, sempre legitimadas pela palavra fundadora: o mito que dita os desígnios da sociedade porque se põe no lugar do sagrado. A passagem da classificação à dominação se faz sem solavancos. Uma única classificação, presente em todas as sociedades, sintetiza este deslizamento: “... existe uma única classificação presente em todas as sociedades e no fundamento de sua ordem: a divisão senhor/escravo ou dominante/dominado” (ENRIQUEZ, 1990, p. 174). A ordem social se tece como operação conjunta de separação, diferença e dominação:
A classificação está na origem de todo o vínculo social e é criadora de instituições. Mas, as sociedades humanas passam insensivelmente de um sistema de classificação a um sistema de separação e a um sistema de dominação. (ENRIQUEZ, 1990, p. 174).
O problema da alteridade e de seu reconhecimento ganha contornos nítidos. Enriquez ressalta a interferência do mito na relação entre os homens, uma narrativa que os entre-têm fundamentando os vínculos que eles criam e mantêm. O reconhecimento do outro é, portanto, necessariamente mediado pelo simbólico, e isto se explica pela presença do inconsciente (irracional) como escora do edifício social. A presença integral do outro é insuportável ao inconsciente, porque sua duplicidade é perigosa: ser e não ser objeto de desejo, potencial e ameaça do desejo (sua impossibilidade). A alteridade se apresenta como eminente ameaça e