A análise castoriadiana retrabalha a proposição marxista da reificação para apresentá-la como uma significação imaginária social nuclear na formação social-histórica do ocidente moderno, da qual o capitalismo é a face sistematizada e funcionalizada. A história do ocidente acontece numa luta entre dois projetos: a autonomia e a heteronomia. A vertente heterônoma é mais antiga do que a sociedade capitalista, tem raízes filosóficas no triunfo da lógica conjuntista- identitária e, de sua outra face, a ontologia determinista. Esta vitória causa o inconformismo e ativa o pensamento de Castoriadis, eppur si muove.
Enriquez (1989) escava os sentidos desse triunfo. Propõe refletir sobre ele a partir de uma questão incômoda: o projeto transformador teria sempre a derrota como horizonte? (ENRIQUEZ, 1989, p. 41). Conhecedor e admirador declarado de Castoriadis e sob o esteio de seu pensamento, Enriquez argumenta:
Hegel dizia que o homem é um animal doente. Castoriadis é mais radical: a a-funcionalidade faz do homem um animal louco e esta loucura lhe permite criar um outro tipo de razão e criar a sociedade na qual quer viver. (ENRIQUEZ, 1989, p. 40).
O animal vive fechado na funcionalidade, sua finalidade é a perpetuação da espécie. Este fechamento [clôture] caracteriza o regimento da lógica conjuntista-identitária, razão pela qual os animais são pouco suscetíveis à transformação salvo pelos efeitos dos mecanismos naturais de seleção, mutação, e outros que possam agir no longuíssimo prazo. “O homem é de uma complexidade diversa”, sua “a-funcionalidade” deriva da aptidão de ser regido pelo imaginário radical, que ultrapassa em muitos aspectos a lógica “natural” (ENRIQUEZ, 1989, p. 40).
A “loucura” da imaginação humana aporta a supremacia do prazer da representação sobre o prazer do órgão, precisamente o que torna possível a criação da vida social. Graças à sublimação pode-se substituir objetos próprios por objetos sociais, para fazer deles suportes do prazer. A fabricação social do indivíduo implica a internalização das significações sociais. A imagem castoriadiana da socialização como construção de “camadas sucessivas” evidencia
o processo de deposição do social sobre a psique. Observando a espessura do social no indivíduo, Enriquez afirma que “o homem, tanto quanto o ser vivo, se cria no fechamento”, não fosse isto, seria impossível a ele ter alguma coerência ou consistência, se estabilizar como uma identidade (ENRIQUEZ, 1989, p. 40).
A dificuldade do homem em se transformar é uma evidência de que o fechamento está mais presente nos humanos do que faz supor Castoriadis. A experiência psicanalítica mostra quanto é intensa a reação a tudo que é vivido como intrusão ao inconsciente. Nos três níveis de existência – animal, psíquico (sujeito) e social (indivíduo) – o ser humano destila a resistência:
[...] enquanto ser vivo, tem fronteiras mais fluidas que as dos animais, mas se defende de tudo que possa atacar seu eu; enquanto sujeito humano, experimenta as maiores dificuldades quando é posto à prova; enquanto ser social, é continuamente formado pelo poder implícito ou explícito e pelos mecanismos de dominação. (ENRIQUEZ, 1989, p. 41).
Ocorre o mesmo com a sociedade, que cria seu mundo, suas significações imaginárias. É certo pensá-la como imaginação instituinte, mas que sempre trabalha sobre o pensamento herdado. Esta contraposição é já uma maneira se dar o fechamento, em si e para si; a crença de que “nossos” valores são melhores que os de outrem, faz as outras sociedades serem investidas negativamente, desvalorizadas, e mesmo odiadas.
As razões para o fracasso do projeto transformador se prenunciam. A autonomia é a capacidade de uma sociedade se entender como obra humana, ao interrogar-se sobre sua instituição. Mas, autonomia é também auto-limitação, e há nisto duas implicações fundamentais: de um lado, a sociedade deve reconhecer e combater sua tendência de recair no instituído; de outro lado, a sociedade deve ser constituída de indivíduos com vontade de autonomia, capazes de “investir psiquicamente a liberdade e ambicionar a verdade”. Tarefa que não é solitária, “a liberdade é a possibilidade de cada um participar ativamente da formação e funcionamento da lei; a busca da verdade existe numa sociedade que admite a todos a indagação ‘o que devemos pensar?’” (ENRIQUEZ, 1989, p. 41-2).
O investimento psíquico na liberdade e na verdade só é possível graças à sublimação, processo pelo qual a psique se abre ao mundo social-histórico, para ter acesso a objetos que
nunca lhe seriam acessíveis de outro modo. Se a psique abre-se a esta outra lógica, Castoriadis acredita que psicanálise e educação têm papel central nisto. O papel revolucionário da descoberta psicanalítica estaria no favorecimento da sublimação, que ajuda a romper o isolamento da psique individual. A psicanálise teria como finalidade:
[...] uma relação do sujeito consciente com a verdade, uma sociedade que não será condenada à endofagia, uma saída da humanidade de sua condição de ‘estado infantil’, uma luta contra a repetição, uma recolocação das pulsões de destruição, pondo-as a serviço de Eros. (CASTORIADIS apud ENRIQUEZ, 1989, p. 42).
A educação – no sentido da paidéia 17 – é a outra possibilidade de desenvolver as virtudes castoriadianas, uma vez que a psicanálise não alcança a totalidade dos indivíduos. A educação poderia plantar a democracia, tal qual a psicanálise, ao fomentar a emergência “de indivíduos que interiorizaram a necessidade da lei e a possibilidade de pô-la em questão, a reflexividade e a capacidade de deliberar, a liberdade e a responsabilidade” (CASTORIADIS apud ENRIQUEZ, 1989, p. 42).
Enriquez é cauteloso quanto às esperanças de Castoriadis, alinhava os empecilhos ao projeto da autonomia e indica limitações da tese castoriadiana. É possível entender porque o projeto da autonomia tende ao fracasso quando se vislumbra a excessiva fé na transformação dos indivíduos e da sociedade, ambas indispensáveis para a fundação da sociedade autônoma:
A democracia é o único regime trágico: tal regime não promete nada a ninguém e não é garantido por nenhum sagrado transcendente... Ele existe pela vontade e o desejo de indivíduos conscientes dos aportes de seus atos, livres e ávidos pela verdade, que decidem criar leis comuns. O imaginário radical trabalha, mas sabe que o imaginário social instituído o ameaça. (ENRIQUEZ, 1989, p. 42, grifo meu).
Para realizar os sonhos é preciso a coragem que nem todos possuem. O fechamento é um caminho mais ‘barato’ e seguro, sem riscos ou esforços desnecessários. A reflexão amedronta o pensamento, a lógica conídica é apaziguadora, elimina o inclassificável encontrando destino
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O que os gregos chamavam paidéia e os latinos humanitas é “a educação do homem como tal, isto é, a educação devida àquelas ‘boas artes’ próprias só do homem e que o diferenciam de todos os outros animais. As boas artes eram a poesia, a eloqüência, a filosofia, etc., às quais se reconhecia um valor essencial por aquilo que o homem é e deve ser, portanto, a capacidade de formar o homem verdadeiro, o homem na sua forma genuína e perfeita” (ABBAGNANO, 1970, p. 209).
certo para tudo. Até mesmo a experiência analítica pode ser desviada ou pervertida (ENRIQUEZ, 1989, p. 42). Mas, uma moeda tem duas faces, o triunfo da heteronomia nunca é completo, “a vontade de autonomia ressurge das cinzas” (ENRIQUEZ, 1989, p. 42), a derrota nunca é definitiva. A sociedade heterônoma simplesmente não é capaz de soterrar de vez a autonomia, sentindo-se constantemente ameaçada por ela. Esta tensão permanente descreve a história do ocidente, tal como a concebeu Castoriadis, numa luta incessante entre autonomia e heteronomia. O diagnóstico da luta oculta os mecanismos que a sustentam, nesta permanente tensão; Enriquez ajuda a compreendê-la ao apontar ausências no pensamento de Castoriadis, em especial, a ausência das estruturas intermediárias e a ausência da pulsão de morte para além da compulsão à repetição.
A ausência das estruturas intermediárias provoca uma ligação direta, sem escalas, entre indivíduo e sociedade, que se revela problemática à medida que impede uma clara percepção do lugar social de irradiação da autonomia:
[...] as transformações profundas são sempre trazidas por grupos minoritários ou pela vontade de alguns poucos, dispondo ou não de poder, contrariados pela inércia da ‘maioria compacta’. (ENRIQUEZ, 1989, p. 38). Castoriadis opõe e liga... [o psíquico e o social]. Para ele a autonomia social e a autonomia individual andam juntas. Mas, dessa forma, cria-se um impasse sobre todas as estruturas intermediárias (instituições específicas, organizações, grupos...). Um indivíduo pode se identificar com um grupo sem se identificar com a coletividade... (ENRIQUEZ, 1989, p. 45, grifo meu).
Enriquez aponta, aqui, uma aporia18 do pensamento de Castoriadis. A análise dos “grupos informais” está na origem da tese sobre a instituição imaginária. A releitura castoriadiana da sociologia industrial norte-americana foi um trabalho pioneiro (ENRIQUEZ, 1997b, p. 89). A informalidade, célebre categoria das pesquisas lideradas por Elton Mayo, explica os fenômenos grupais por meio de vínculos exteriores ao processo de trabalho: a afetividade, o “moral” dos empregados e o “sentimento de pertencer” ao grupo orientam e dão sentido à atividade dos membros do grupo (MAYO, 1972). Tais fenômenos são desligados do contexto e exteriorizados da sua relação específica com o trabalho: “os fenômenos psicossociológicos
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Há no pensamento castoriadiano a presença e a ausência dos grupos humanos como sujeitos da transformação social. O termo “aporia” é usado no sentido de “conflito entre opiniões, contrárias e igualmente concludentes, em resposta a uma mesma questão” (ver Novo Aurélio: Dicionário da Língua Portuguesa).
observados nas coletividades que a empresa forma são idênticos àqueles encontrados em qualquer outra coletividade” (MAYO apud ENRIQUEZ, 1997, p. 151).
Castoriadis desmonta esta explicação ao colocar os grupos “informais” no centro do processo de trabalho, como agentes ativos em vez de simples executores de tarefas predefinidas pela gerência. Afastados da informalidade, os grupos passam a ser entendidos como agrupamentos de produção, e agrupamentos de luta e resistência, que desenvolvem laços fraternos e solidários na e pela luta (ENRIQUEZ, 1997a, p. 150; 1997b, p. 89; CASTORIADIS, 1985, p. 117); dinâmica esta indispensável à própria funcionalidade da organização capitalista do trabalho, como já se observou.
[...] esses grupos se constituem, desde o início, contra a direção... seu objetivo primeiro é a gestão de sua própria atividade. O grupo tende a organizar a atividade de seus membros, a definir normas de esforço e de comportamento que significam implicitamente uma contestação radical da própria existência de uma direção separada. A incapacidade de reconhecer claramente as conseqüências desse fato constitui a pedra de toque da sociologia dos grupos elementares [leia-se Mayo e toda sociologia industrial]. (CASTORIADIS, 1985, 118).
A trajetória intelectual de Castoriadis é marcada pela análise dos grupos operários em situação de trabalho. No final dos anos 1950, publicou sobre os temas da “luta dos operários contra a organização capitalista” e da “gestão da sociedade pelos trabalhadores” (CASTORIADIS, 1985). Daí vem o diagnostico da luta interna à organização capitalista como gérmen do antagonismo social, e a formulação da tese de que a contradição fundamental do capitalismo é uma luta contra a reificação. A resistência no processo de trabalho deu origem à percepção de uma contra-gestão, em que as normas de trabalho são combatidas em sua própria aplicação (CASTORIADIS, 1995, p. 27-28). Os grupos operários são responsáveis de fato pela produção, a direção da fábrica apenas de direito. Eis o núcleo antagônico a partir do qual é possível elucidar a sistematicidade e funcionalidade capitalistas.
Diante de descobertas tão poderosas, o autor não hesita em estender a lógica de funcionamento dos grupos para a totalidade social: a instituição imaginária da sociedade finca o pé na experiência do movimento operário; porém, como aponta Enriquez, tende a abandonar a preocupação com as estruturas intermediárias na sua reflexão social. Esta decisão teórica
produz excessiva simplificação, faltou analisar uma possibilidade concreta e freqüente: a adesão apenas parcial dos indivíduos aos “projetos”.
Ao descrever as lutas operárias em A instituição imaginária da sociedade, Castoriadis (1995) enfatiza os grupos informais e as reivindicações operárias de controlar e gerir a produção, nos períodos revolucionários. Afirma que estas lutas, ao longo da história, estampam os caracteres mais profundos da produção capitalista, traduzindo o sentido de uma antinomia “essencial para a compreensão de um grande número de outros fenômenos da sociedade contemporânea” (CASTORIADIS, 1995, p. 101). A ação operária está na “raiz do projeto revolucionário”, entendê-la é entender a sociedade: a “... teorização só faz colocar em seu lugar o que a sociedade diz já muito confusamente dela mesma em todos os níveis” (CASTORIADIS, 1995, p. 102, grifos do autor). A problemática da gestão operária é análoga ao problema geral da sociedade de que os operários são membros, a autogestão operária se apresenta como gérmen do projeto da autonomia desta sociedade, que não se cansa de enviar sinais desta evidência. A empresa parece ser o lócus da práxis castoriadiana no contexto social-histórico atual, o projeto da gestão da empresa pela coletividade que nela trabalha é paradigmático para a transformação social:
[...] torna-se claro que o problema da gestão da empresa ultrapassa amplamente a empresa e a produção, e remete ao todo da sociedade; e que qualquer solução desse problema implica uma mudança radical na atitude dos homens em relação ao trabalho e à coletividade. Somos assim levados a colocar as questões da sociedade como totalidade, e da responsabilidade dos homens... (CASTORIADIS, 1995, p. 103).
Castoriadis produz a aporia pelo ‘esquecimento’ das origens de sua própria reflexão. Seu trabalho seminal enfatiza o papel dos grupos na criação e transformação social, mas suas contribuições teóricas mais ambiciosas não elaboram profundamente este papel. Trata-se de uma aporia porque o projeto da autonomia se manifesta nos grupos, por meio da luta e resistência, mas nunca pode ser concluído neste nível, em que fica literalmente contido. A expansão para a totalidade da sociedade é necessária e problemática: o salto do indivíduo à sociedade é extenso demais. A proposição da práxis busca solucionar o impasse: pensar uma modalidade de ação individual que visa a autonomia social, sendo completamente heterogênea à ação heterônoma, podendo potencialmente tornar-se portadora de outro projeto. Entretanto, se a ação individual necessita encontrar ponto de apoio no social, o problema continua. É o grupo que, em primeiro lugar, fornece o suporte para a ação do indivíduo.
Castoriadis descobre o grupo, mas não extrai as conseqüências de sua descoberta, não recupera o grupo em seu pensamento sobre o social, por isso a expansão da lógica grupal para a sociedade acaba suspensa, como um acorde musical sem resolução.
Na construção da tese da instituição imaginária da sociedade, os grupos humanos ou são tomados como evidências tão elementares que desmerecem consideração, ou não são problematizados. Castoriadis conhece bem as estruturas intermediárias, mas as fez sucumbir sob a sociedade. Isto o levou a uma teoria social do tudo ou nada, que paradoxalmente permanece parcial. É o que Enriquez releva ao tratar a ausência das estruturas intermediárias, e o faz citando Freud:
Cada indivíduo é uma parte componente de numerosos grupos, acha-se ligado por vínculos de identificação em muitos sentidos e construiu seu ideal de ego segundo os modelos mais diversos. Cada indivíduo partilha de numerosas mentes grupais – as de sua raça, classe, credo, nacionalidade, etc. – podendo também elevar-se sobre elas, na medida em que possui um fragmento de independência e originalidade. (FREUD apud ENRIQUEZ, 1989, p.45; 1990, p. 67).
Um esquecimento da mesma ordem resulta na ausência da pulsão de morte. A vida em sociedade é apresentada com excesso de otimismo. Uma sociedade de irmãos iguais constituir-se-ia pela solidariedade de seus membros, cada um participando pacificamente, seguindo seu caminho. No pensamento de Castoriadis, a pulsão de morte tem como única manifestação a compulsão à repetição, que leva à negativação da criatividade humana. As sociedades heterônomas e o cerne religioso das instituições sociais seriam seus mediadores.
Ora, diz Enriquez, numa sociedade de irmãos iguais, alguns deles têm o desejo de ascender à posição de chefe. Uma sociedade igualitária não é pacifica por princípio, se necessário para seu próprio bem, pode suscitar a emergência da vontade de destruição de outras sociedades. Essas idéias não são estranhas ao pensamento de Castoriadis, mas deixam de ser incluídas em sua fundamentação teórica:
Castoriadis quer colocar Thanatos a serviço de Eros. Freud foi mais perspicaz, mostrou que, quanto mais se desenvolve a civilização, mais Eros, sem o querer, se põe a serviço de Thanatos. De outro modo, senão como explicar o ódio de si e dos outros, a guerra entre nações, os campos de
extermínio e o gulag? Freud entendia que a felicidade não é visada pela civilização... (ENRIQUEZ, 1989, p. 46).
Ao expor suas objeções, Enriquez demonstra conhecimento e admiração pela obra de Castoriadis. Constrói um diálogo com a obra e seu autor, fazendo-se crítico para deixar claro que é um entusiasta das aspirações autonomistas de Castoriadis:
[...] Castoriadis evocou em sua obra as questões que eu mesmo me ponho e ponho também para ele. Porém, sua construção teórica as coloca na periferia, ao passo que eu as ponho no centro. Cornelius Castoriadis faz surgir no pensamento contemporâneo ‘un frisson nouveau’, para retomar uma expressão de Vitor Hugo. Ele enuncia a possibilidade de instituir uma sociedade na direção da autonomia individual e social. O que retém minha atenção são, principalmente, as dificuldades de realizar o que ele propõe. (ENRIQUEZ, 1989, p. 47).
Como no jogo de xadrez, estas palavras são a perfeita abertura para as idéias de Enriquez.