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MATERYAL VE METOD

CERRAHİ TEKNİK:

Podemos notar que a história do hip-hop está ligada, desde a sua origem, às lutas e conquistas políticas dos negros norte-americanos nos anos de 1960. No entanto, alguns autores, que se dedicaram ao tema, localizaram, na África, a gênese desse estilo32. Andrade (1999), por exemplo, sustenta que a forma discursiva do rap, na qual o cantor parece, na verdade, falar e não cantar, remete à tradição africana de relatos orais:

As raízes do rap podem ser encontradas entre a população historicamente escravizada tanto do Brasil quanto dos EUA. No Brasil, os ganhadores de pau, que vendiam água nas ruas de Salvador, utilizavam-se do canto-falado em que o MC (mestre-de-cerimônia) conduzia o grupo. Nos EUA, houve escravos das fazendas de algodão no sul do país, os griots, que também se utilizavam desse estilo de cantar. É um exemplo básico da transcendência negra: não importa onde estejam seus descendentes, há referências a culturas de origem africana que permanecem por gerações.33

No entanto, Rose (1997) nos alerta que, embora essa tentativa de situar o rap nas histórias das práticas da cultura negra e de resgatá-lo de sua identidade como produto pós-industrial crie importantes elos entre o uso que o rap faz do discurso e as tradições orais, poéticas e de protesto dos negros, ela também produz alguns efeitos problemáticos. Isso porque essas leituras, ao reconstruírem a música rap como uma forma poética oral singular dessa população, atribuem a ela um caráter autônomo, retirando-a da cultura hip-hop dos anos de 1970, na qual ela se situa.

Mas, ao contrário, o rap é elemento cultural único que integra um movimento mais amplo que é o movimento hip-hop. Além do mais, prossegue a autora, essas considerações marginalizam a importância musical do rap, pois os seus elementos

31

Cf. HERSCHMANN (1997); ROSE (1997); SILVA (1998).

32

Ver os estudos de Andrade (1999), Guimarães (1999), Tella (1999), Silva (1998).

33

musicais e o uso da tecnologia são aspectos cruciais no desenvolvimento do hip-hop, sendo essa combinação um fator fundamental para a evolução geral do movimento. Por último, essas interpretações minimizam a centralidade da cidade pós-industrial na configuração e na direção do rap e do hip-hop e dificultam o mapeamento das formas e dos significados contidos nas apropriações que o movimento realiza das práticas da diáspora africana, a partir dos materiais dos centros urbanos pós-industriais. Nos termos da pesquisadora,

os temas e os estilos no hip-hop dividem semelhanças culturais e musicais que contêm expressões antigas e contíguas da diáspora africana; esses temas e estilos, em sua maioria, foram revistos e reinterpretados pela cultura contemporânea por meio dos elementos tecnológicos. As principais formas do hip-hop – o grafite, o break e o rap – formas desenvolvidas dentro das prioridades culturais da diáspora afro e em relação às grandes forças e instituições pós-industriais.34

Nos limites dessa pesquisa, reconhecendo as posições diferentes em relação à origem do hip-hop, tomo como orientação a história da música negra norte-americana. Em meados dos decênios de 1930 e 1940, o estilo musical blues, considerado até então uma música rural típica “se eletrificou”, possibilitando o surgimento do rhythm and blues. Da união deste ritmo, que era considerado música profana, com o ritmo gospel, a

música protestante negra, surgiu o soul, estilo musical que teve como maior expoente o cantor James Brown. O soul desempenhou um importante papel na história da luta negra norte-americana da década de 60, tornando-se a trilha sonora dos movimentos civis e um símbolo da consciência negra. Entretanto, já em 1968, esse estilo com seu sucesso e conseqüente massificação, transformou-se em um termo vago, sinônimo de black music, perdendo suas características revolucionárias e transformando-se em mais um rótulo

34

comercial. Nesse mesmo período, a palavra funk deixava de ter um sentido pejorativo e passava a ser considerada como um símbolo do orgulho negro.35

Com o conseqüente sucesso, o funk também tornou-se comercializável passando a ser uma música mais dirigível ao grande público. A partir de 1975, sobretudo com a emergência da banda Earth, Wind and Fire, o funk alcançou as paradas de sucesso, abrindo caminho para um estilo alegre, vendável e sem compromisso com a questão étnica.

O sucesso do soul e do funk possibilitou a outros países ter acesso e informações, através da indústria cultural, dos ícones afro-americanos e caribenhos.36 Todavia, a radicalização da afirmação da negritude, o protesto contra a discriminação étnico-social da população negra dos guetos novaiorquinos, sucedeu-se apenas com o rap, estilo musical que surgiu nesse período como mais uma reação da tradição black.

No final dos anos de 1960, Clive Campbell, mais conhecido como DJ Kool Herc, jovem imigrante jamaicano, chegou a Nova Iorque e trouxe de Kingston, para o espaço do Bronx, a técnica do “sound system”, organizando festas nas praças do bairro. Além de tocar os discos, o DJ usava o aparelho de mixagem para construir novas músicas. Ao promover essa releitura, Kool Herc criou uma nova musicalidade para o ritmo eletrônico que ficou conhecido como breakbeat.37 Alguns jovens, admiradores de Herc, procuraram desenvolver sua técnica. Dentre eles, destaca-se Grandmaster Flash

que, ao aprimorar as técnicas criadas por Herc, desenvolveu o “scratch38” e,

posteriormente, o back spin,39 transformando o disco vinil em um verdadeiro

35

Cf. VIANNA, 1989.

36

Cf. TELLA, 1999.

37

O breakbeat consiste em isolar uma parte da música, de preferência, em um momento que os

instrumentos estejam combinados numa melodia dançante e repeti-los seqüencialmente, produzindo um ritmo que é a transformação de um fragmento na própria harmonia musical. (MACHADO, 2003).

38

O scratch pode ser compreendido como a obtenção de sons através de uma técnica de girar manualmente, em sentido contrário, o disco de vinil em rotação, criando um som de “arranhadura”.

39

O back spin consiste em repetir diversas vezes uma frase rítmica ou uma batida extraída de um disco, acelerando ou retrocedendo seu andamento normal.

instrumento musical.40 Nas festas, os DJ distribuíam os microfones aos jovens que, a princípio, faziam certas interferências no baile, improvisando discursos ao som das músicas, como se fosse uma espécie de cantores-narradores. Surgiram, então, os MCs ou Mestres de Cerimônias e o que hoje conhecemos como a música rap. Segundo Machado,

podemos creditar a Kool Herc o início da criação e união do que hoje entendemos como “os três elementos do hip-hop” em um único espaço. Nos bailes do Hevalo, seus amigos e parceiros tomavam o microfone para passar ao público mensagens diversas tendo como fundo o breakbeat, numa forma de expressão espontânea que objetivava informar, protestar e, ao mesmo tempo, divertir. Ao mesmo tempo, dançarinos executavam os primeiros passos de break, substituindo as antigas danças pelas acrobacias e movimentos de solo. Por fim, grafiteiros eram convidados a pintar painéis ou qualquer outro material disponível, das roupas dos freqüentadores às portas dos banheiros. A partir daí, começava-se a constituir a teia originária do

hip-hop.41

A partir desse momento, o rap, abreviação de rthym and poetry, o break e o grafite ganharam as ruas do South Bronx, sem, no entanto, serem compreendidos como um movimento. As suas formas simbólicas eram tratadas isoladamente, servindo apenas como diversão aos jovens do bairro. A reunião e a difusão dos três elementos em torno do nome hip-hop somente aconteceu quando o jovem Kevin Donovam, mais tarde conhecido como Afrika Bambaata, propôs que os grupos de break deslocassem os conflitos de rua para o plano artístico. Assim, a violência armada foi substituída pelas competições de rima, o chamado freestyle42, pelo grito de paz dos MCs e pela “batalha”

de break43.

Desde então, como nos mostra Dayrell (2001), o rap aparece como um gênero musical que busca a articulação da tradição ancestral africana com a moderna

40

Cf. DAYRELL, 2001.

41

MACHADO, 2003, p.53-54.

42

O freestyle consiste em improvisar, a partir de uma batida tocada pelo DJ, uma letra de rap. Pode ser feito em dupla ou individualmente como forma de competição.

43

tecnologia, produzindo um discurso sobre as injustiças e violências vividas pelos jovens negros pobres das grandes metrópoles mundiais.

As primeiras manifestações do grafite surgiram no decênio de 1950 com as máfias novaiorquinas que o utilizavam para demarcar fronteiras ou para enviar mensagens de intimidação, na busca de sua auto-promoção. Entretanto, foi somente no final da década seguinte que essa expressão artística ganhou novamente destaque com a prática de assinaturas inscritas pelos jovens, nas estações de metrôs e nos muros da cidade, que competiam para ver quem conseguiria colocar seu nome em um maior número de lugares e, de preferência, em pontos de maior visualização. Embora, a princípio, fosse realizada individualmente, a arte do grafite foi absorvida posteriormente pelas gangues do South Bronx que passaram a competir, não por meio de brigas, mas por meio do grafite, através das melhores técnicas ou mesmo da destruição de um grafite feito por outro grupo.44

O break é um tipo de dança de solo que também ganhou expressão no início dos

anos 1970, cuja inspiração principal foram as performances introduzidas no palco por James Brown. Naquela época, as discotecas eram o principal local de diversão dos jovens do Bronx e o funk e o soul eram os estilos musicais que reinavam nos bailes ali realizados. Nas pistas de dança, grupos de dançarinos uniformizados realizavam passos sincronizados, reproduzindo movimentos acrobáticos de pulos e saltos e de ruptura corporal. Como afirma Machado, “era um ambiente, ao mesmo tempo, de diversão e de competição de qual grupo de sujeitos seria capaz de realizar o passo mais complexo

que tornaria impossível sua produção pelo grupo rival45”.

Entre os elementos do hip-hop, o rap foi o que alcançou maior visibilidade, tornando-se o principal veículo de expressão do movimento. Esse lugar de destaque

44

Cf. MACHADO, 2003.

45

pode ser compreendido pelo fato do hip-hop ser um movimento em que o discurso assume um papel central, o qual traduz as experiências vividas pelos jovens das periferias das grandes metrópoles mundiais.

No final dos anos de 1970, o movimento hip-hop no South Bronx já se encontrava consolidado. Durante o seu processo de constituição, as formas simbólicas do movimento foram se desterritorializando, conquistando grandes metrópoles mundiais. No ano de 1979, o primeiro disco de rap foi lançado, possibilitando a difusão desse gênero musical para além do circuito cultural local. Por meio da indústria cultural, jovens de diferentes lugares entraram em contato e identificaram-se com os elementos centrais do hip-hop, passando a (re) interpretar a realidade local com uma (re) leitura crítica do contexto no qual estavam inseridos, a partir de símbolos e práticas culturais elaboradas externamente. É o que se pode verificar em vários países, entre eles, o Brasil.

Benzer Belgeler