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3.6. Örgütsel Vatandaşlık Davranışı Kavramının Boyutları

3.6.3. Centilmenlik

“E tinha piscina, e eu não podia entrar. Todo mundo tava lá e eu não podia entrar porque depois ia ficar sofrendo com chapinha, secador... 33.”

Após termos tecido considerações sobre as diferentes formas de manipulação do cabelo pelas mulheres colaboradoras é importante salientarmos quais as consequências de suas escolhas e como isto marcou e ainda marca suas trajetórias de vida. O cabelo crespo exige cuidados específicos por conta da estrutura dos fios e o que percebemos é que independente de como optam por utilizar seus cabelos, o cotidiano é marcado por essa escolha.

Uma das questões necessárias de salientarmos é sobre as dificuldades dos procedimentos de manipulação. Percebemos nas falas das mulheres que o uso de tranças, apesar de trazer a praticidade do “acordar com o cabelo pronto” causa certa dor e incômodo.

Porque aquelas tranças enraizadas, a mulher puxava, nossa, doía muito, muito, muito, muito (Monalisa).

É que eu não acho prático mesmo, eu tinha que acordar mais cedo, fazer chapinha, e eu não gosto de acordar cedo. Pensando bem eu acho que o melhor seria raspar porque aí nem precisa acordar cedo. Quando eu usava trança era bom, acordava e nem precisava olhar no espelho (Dandara).

O meu não machuca, minha prima puxa, mas não machuca que nem o dele, às vezes sai uma “feridinha” é tranquilo, já acostumei com a dor. Fazer dreads dó mais. Eu fiz dreads de lã acho que duas vezes, demora oito horas pra fazer, eu não aguentava mais (Dandara). O que mais dói é dreads, trança não dói tanto (Dandara).

Mas cuidar dá trabalho. Eu gosto de cuidar do cabelo dos outros, mas eu queria ter alguém pra cuidar do meu (risos)(Dandara).

Quando pensamos nas consequências das escolhas de manipulação, Monalisa é a que melhor nos permite compreender as dificuldades e privações do cabelo alisado. Isto porque o cabelo alisado não fica liso o tempo todo, na maioria das vezes este cabelo tem sua estrutura modificada por produtos químicos, mas precisa de escovação e do uso da chapinha para se manter liso e sem volume.

E todo mundo fala, meu namorado fala: "Queria tanto ver você de cabelo molhado", só que não é assim, porque tem química então

quando o cabelo seca não fica nem enrolado nem liso, fica aquela coisa estranha (Monalisa).

Mas se você me perguntar se eu pudesse, se eu teria o cabelo de outro jeito, sim eu teria, porque esse me dá muito trabalho, me enche o saco. Ontem mesmo era pra eu ter saído com as meninas, mas eu tava com preguiça também, mas se eu tivesse com o cabelo pronto, teria ido também, aí era só colocar uma roupa e sair. Mas não, meu cabelo tava nojento, tinha que lavar, secar, passar chapinha (Monalisa). Mas pra secar meu cabelo é diferente do que outras meninas fazem. Eu não posso simplesmente levantar ele e fazer um coque, não consigo, por enquanto que ele tá curto, menos ainda, aí tenho que colocar presilha, “tic-tac”, tem vezes que eu nem gosto, mas eu tenho que usar porque se não fica tudo pra cima (Monalisa).

Por exemplo, em casa tem uma menina que tem cabelo liso, cabelo lindo e ela lava o cabelo, passa um secador e pronto, o cabelo dela fica perfeito (Monalisa).

Percebemos em todos os momentos da fala de Monalisa como a escolha pelo cabelo alisado causa sofrimento e privações em sua vida. Além destes relatos apontados inicialmente e que nos mostram o trabalho e o tempo que ela gasta para cuidar do seu cabelo após cada lavagem, ela ainda nos relata como é privada de algumas situações, por não poder molhar seu cabelo e perder o efeito da escova e da chapinha. Monalisa deixa de ir às aulas, pular na piscina e de se divertir para manter seus cabelos lisos e não permitir que o vejam em sua forma natural.

Já teve vez de eu estar de TPM, e aí não queria sair de casa porque meu cabelo tava ridículo. Passava chapinha arrumava e pensava "Está muito feio, não vou sair de casa". Já faltei de aula por causa disso. Mas tipo, hoje eu estou bem mais tranquila, bem mais resolvida (Monalisa).

Já aconteceu de eu sair, de ir pra uma festa e eu estar de cabelo preso, e estar todo mundo de cabelão solto, e tal. Aí eu fico meio assim de estar de cabelo crespo. Mas aí eu bebo umas e esqueço (risos)

Tem festa que eu penso, vou pular na piscina, mas e quando eu sair da água meu cabelo vai estar daquele jeito, né? Aí eu percebo que meu cabelo crespo me priva de algumas coisas (Monalisa).

(Ao relatar sobre um passeio em um local com piscina) E tinha

piscina, e eu não podia entrar. Todo mundo tava lá e eu não podia entrar porque depois ia ficar sofrendo com chapinha, secador (Monalisa).

O cabelo tá lá bonitinho e a gente pensa que ele tá armado, aí a gente não pode sair na chuva, e não pode fazer algumas coisas, é complicado (Monalisa).

Ainda sobre alisamento, Monalisa relata a questão da frequência que tem que fazer o retoque de raiz para que seu cabelo não fique com duas texturas diferentes, o liso e o crespo. Percebemos que desde sua adolescência era algo muito difícil sair de casa ou viajar sem a raiz do cabelo estar alisada, e que até hoje faz seus planos a partir do retoque de sua raiz, sempre cautelosa para que ninguém veja a raiz do seu cabelo crespa.

É que quando a raiz do meu cabelo cresce muito, me dá muito trabalho, e eu fico extremamente irritada, aí eu não vejo a hora de alisar a raiz (Monalisa).

Aí quando a raiz crescia dava mais trabalho, eu ia lá, alisava, e não era muito barato, mas minha mãe podia pagar. Quando eu fazia alguma coisa de errado ela me deixava de castigo, e ela não pagava pra eu alisar o cabelo (Monalisa).

Então era uma punição eu ir com o cabelo crespo, não alisado nos lugares (Monalisa).

Pensar que para a mãe de Monalisa, fazer com que ela fosse aos lugares sem a raiz do cabelo alisada era uma forma de castigá-la, nos permite compreender de forma nítida a importância da raiz sempre lisa. Salientamos sobre como deve ser significativo para Monalisa se adequar ao que socialmente é considerado bonito para que, apesar de todas estas dificuldades relatadas por ela própria, continue usando alisamento em seu cabelo.

Outra questão muito presente na fala das mulheres colaboradoras refere-se à curiosidade das pessoas em relação ao cabelo crespo quando utilizado nas mais diversas formas.

Uma colega minha uma vez quis passar a mão no meu cabelo pra ver como que era, e um amigo mais descarado perguntou "É igual Bombril?" (risos), aí eu apelei e falei "Sua mãe tá boa?", ele falou que o cabelo dele é outra linhagem, claro, ele é branco. E quando a minha amiga passou a mão e achou super macio. É que as pessoas acham que é duro, que vai furar a mão (Irene).

Às vezes era gente que eu nem conhecia, perguntava quem trançava, falava que ficava diferente. As pessoas tem curiosidade, perguntam como chama, eu penso que é estranho as pessoas não saberem o que é trança, todo mundo trança cabelo (Dandara).

Quando eu entrei na federal eu já tava com ele Black mesmo, quando eu trancei as meninas da minha sala perguntavam "Como faz?", "Como faz pra lavar?", eu falava "Gente é normal, eu só lavo". Pra mim é estranho esse tipo de curiosidade (Dandara).

O que eu não gosto mesmo é que mexam no meu cabelo, aí eu não gosto que chega nem perto. Ele desarruma muito fácil, eu gosto de deixar ele certinho (Dandara).

Em nosso entendimento, essa curiosidade em relação ao cabelo crespo demonstra uma característica resultante da ideologia racista presente nas mais diversas relações sociais. O cabelo crespo é visto como exótico e essa curiosidade que as pessoas têm em colocar as mãos para sentir sua textura é ainda tão frequente por conta da pouca incidência de mulheres que utilizam seus cabelos crespos naturais.

Acreditamos que tocar o cabelo por achar que ele é duro ou como relatado por Irene, que ele “fura a mão”, demonstra uma realidade pautada no racismo e na desvalorização da beleza negra.

Quando pensamos em todas estas questões e todas as dificuldades que as mulheres negras encontram ao adotarem as mais diversas formas de manipulação de seus cabelos, percebemos que o cabelo crespo exige uma luta diária que ultrapassa o seu não enquadramento nos padrões de beleza. As privações que as mulheres negras relatam, as dores que sentem nas diversas práticas e esta curiosidade e necessidade que outras pessoas têm em tocar seus cabelos, nos mostram que há um preconceito contra o próprio cabelo e que este preconceito é só mais um dos reflexos de nossa sociedade racista.