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5.5. Bulgular

5.5.3. Betimsel İstatistik Değerleri

De acordo com Silva, Melo e Appolinário (2007), as famílias são vistas enquanto produtoras e reprodutoras da vida biológica e social, em que valores, símbolos e representações sociais constituem o elo entre os membros que as compõem. Por sua vez, Sartori (2004) procura estabelecer a relação entre família-gênero-regras sociais. Segundo a autora, a família é a primeira e uma das principais instituições que ensina o indivíduo a agir de acordo com determinadas regras sociais. É dentro dela que as relações familiares se constituem e onde se formaliza o processo de socialização das crianças, através da imposição de uma série de normas, regras, valores, representações sociais. É neste ambiente que as crianças internalizam as relações de gênero e aprendem a serem homens e mulheres, e assim constroem sua identidade, bem como reproduzem as desigualdades sociais e as relações de poder entre ambos os sexos. Geralmente, nas mais diversas famílias, mas especificamente nas famílias populares, o gênero é caracterizado como dual e desigual, reproduzindo no âmbito da sociedade as relações de poder e vários outros comportamentos categorizados como feminino e masculino. A ruptura com essa concepção é difícil em razão da legitimação e supervalorização, tanto no âmbito familiar quanto no âmbito da sociedade, dessa dualidade. Diante disso, as relações entre pai-filho, mãe-filho e irmãos são sempre vistas a partir de significados sexualizados.

Família, enquanto grupo doméstico, possibilita a interqualificação ou complementaridade das identidades sociais. Ou seja, o todo relacional representado na família exprime-se por meio de uma divisão de trabalho entre os gêneros, que a um só tempo constitui o masculino como destinado à exterioridade, à associação com o público e, complementarmente, o feminino direcionado ao domínio privado, a uma maior interioridade. Desse modo, a casa e seus desdobramentos – filhos/as- encarnam o universo feminino, cabendo ao homem prover as necessidades econômicas do espaço doméstico, configurando-se aí a verdadeira dimensão moral do gênero masculino (SARTORI, 2004, p. 178).

É principalmente em famílias com núcleo patriarcal, geralmente famílias pobres, em que a dicotomia dos papéis sexuais familiares está mais presente. Segundo Oliveira (2005), a

conceituação de papel sexual diz respeito não somente ao posicionamento do indivíduo no grupo familiar e na sociedade em geral, como também diz respeito aos modelos culturais e aos sistemas de valores. Ou seja, os papéis sexuais familiares estão associados aos valores e normas socioculturais. No caso de famílias com núcleo patriarcal, esses valores e normas impõem uma separação dos papéis entre o homem e a mulher. Esses papéis são substancialmente diferentes e as funções a eles associadas são socialmente valorizadas de forma desigual. As funções atribuídas aos homens, nesse modelo, são as mais valorizadas socialmente, já que cabe a eles o exercício das atividades de natureza instrumental de provisão e de intermediação com a esfera pública. Às mulheres são atribuídas funções de menos prestígio e atividades afetivas, ligadas ao espaço privado do lar, como atividades de cuidado dos filhos e do marido e o trabalho doméstico.

A família, baseada no modelo homem/provedor e mulher/dona-de-casa, reflete a assimetria sexual, centralizando todo o poder no homem. A mulher cônjuge, a quem é atribuído o papel de esposa, mãe e responsável pelo trabalho doméstico, ocupa uma posição subordinada nessa relação assimétrica. Ela é, por status, não provedora. Assim, essa relação, na qual o homem é provedor e a mulher (cônjuge) não, é marcada pela diferenciação dos papéis e pelo fato de que a função de provedor, que tem prestígio social, é a principal atribuição do “chefe de família”. Por fim, esse tipo de família é o lócus preferencial da dominação masculina, sendo esse modelo o grande viabilizador da divisão sexual do trabalho na família (OLIVEIRA, 2005).

Por sua vez, Sarti (1995) também afirma que as famílias pobres urbanas geralmente apresentam uma estrutura hierárquica que segue um padrão de autoridade patriarcal, que se fundamenta na autoridade do homem sobre a mulher, dos pais sobre os filhos e dos mais velhos sobre os mais novos. Também é bastante transparente na dinâmica dessa família a divisão sexual do trabalho, que se apresenta com papéis de gênero bem definidos: o homem aparece como principal provedor e a mulher como dona-de-casa. Nessas famílias, o homem é visto como “chefe de família” e a mulher na condição de “chefe da casa”. Ainda, segundo a autora, há não apenas uma vinculação do trabalho feminino como complementar ao do homem, mas também uma visão negativa, por parte dos seus integrantes, especialmente, por parte do marido, sobre o trabalho da mulher fora do lar. Primeiro, pelos baixos salários que são pagos a essas trabalhadoras, bem como pelas más condições de trabalho. Segundo, porque o trabalho fora de casa afasta a mulher do cuidado com a casa e, principalmente, do cuidado com os filhos. E assim, vai-se legitimando a imagem da dona-de-casa:

Diferentemente das mulheres profissionais de camadas médias e altas, a baixa qualificação, baixa remuneração e sobrecarga de tarefas domésticas para as trabalhadoras pobres contribuem para tornar o trabalho remunerado muito pouco gratificante, ainda que ‘algum dinheirinho meu’ e o exercício de uma atividade ‘fora de casa’, que as retire do confinamento doméstico, justifiquem muitas vezes os sacrifícios (SARTI, 1995, p. 145).

Portanto, como vemos, em geral, a família pobre, fundada num núcleo patriarcal forte, acaba internalizando nos indivíduos essa dualidade entre os gêneros, possibilitando, de certa forma, o desenvolvimento de relações de dominação entre homem e mulher.

3.1.1 Gênero e dominação masculina

Vimos acima que a dualidade entre os gêneros é internalizada nos indivíduos pela sociedade e pela família, possibilitando relações de dominação entre homem e mulher, relações estas caracterizadas, em geral, pela superioridade masculina e subordinação feminina. É nesse sentido, então, que Fonseca (1996) afirma que através de um intenso processo de imposição cultural e simbólico, no qual fica certificada, na interioridade dos sujeitos, a superioridade masculina, que ocorre a formação dos sujeitos sociais sexuados

Segundo Bourdieu (1999), a “dominação masculina” é resultante de uma espécie de violência suave, imperceptível, que se coloca na ordem das coisas, isto é, que é vista como normal, natural, inclusive pelas suas próprias vítimas. A “dominação masculina”, que foi socialmente construída, está calcada e se utiliza da “diferença biológica” entre os sexos, para justificar a sua suposta naturalidade. Ela deixa de ser encarada como arbitrária e passa a ser entendida, pelos sujeitos sociais, como natural. Eles naturalizam aquilo que, na verdade, foi culturalmente criado. Com a aceitação social da dominação masculina, inclusive pelas próprias vítimas, como algo “normal”, “natural”, torna-se “natural”, também, a subordinação da mulher em relação ao homem, já que a ele são atribuídos aspectos de positividade e, à mulher, aspectos de negatividade. Assim, a mulher na sociedade, especificamente em nossa sociedade, enquanto sujeito social, faz parte de um sistema estruturado e pautado por subordinações.

A partir da análise de Bourdieu, é possível afirmar que, por conta da naturalização de processos socialmente criados, como a dominação masculina, é sustentada a ideia de que, o lugar perfeito e natural para a mulher é a casa, a família e a reprodução. Com isso, instituem-se concepções no que se refere ao trabalho. À figura da mulher são reservados trabalhos relacionados ao mundo privado ou, ainda, trabalhos na esfera pública, da produção, mas, socialmente inferiorizados. Ao homem, cabe a realização de trabalhos considerados produtivos na esfera pública. E, com isso, gera-se a oposição entre “trabalho de homem” x “trabalho de mulher”, fundamentando e percebendo a divisão sexual do trabalho como um fenômeno natural.

Longe de as necessidades da reprodução biológica determinarem a organização simbólica da divisão social do trabalho e, progressivamente, de toda ordem natural e social, é uma construção arbitrária do biológico e, particularmente do corpo, masculino e feminino, de seus usos e de suas funções, sobretudo da reprodução biológica, que dá um fundamento aparentemente natural à visão androcêntrica da divisão de trabalho sexual e da divisão sexual do trabalho e, a partir daí, de todo o cosmos. (BOURDIEU, 1999, p. 33).

Por sua vez, Durham (1983) afirma que a posição da mulher na sociedade está condicionada pela divisão sexual do trabalho que se reproduz no âmbito familiar. Segundo ela, a diferenciação entre papéis femininos e papéis masculinos está presente, historicamente, em todas as sociedades humanas. O que não quer dizer que as formas dessa divisão sexual são idênticas. Na verdade são extremamente variadas no tempo e no espaço, assim como são variadas também a rigidez da separação entre tarefas consideradas próprias aos homens e próprias às mulheres.

Em sua concepção, a divisão sexual do trabalho é fortemente condicionada pelas peculiaridades biológicas e culturais do processo reprodutivo dos seres humanos, peculiaridades essas que têm um peso enorme sobre as mulheres. Ou seja, na sua visão, a construção cultural da divisão sexual do trabalho se elabora sobre as diferenças biológicas do ser humano. Por exemplo, o período de dependência do filho em relação à mãe é bastante longo, que tem que o amamentá- lo, carregá-lo, e tudo isso tendendo a sobrepor ao nascimento de outros filhos. Isso significa que as mulheres passam boa parte de sua vida adulta cuidando de mais de uma criança, de idades diferentes. Com isso, não há a intenção em dizer que “haja uma explicação natural para a distinção entre papéis masculinos e femininos, mas que, nesse particular, a cultura organiza,

orienta, modifica, ressalta ou suprime características que possuem fundamentação biológica” (DURHAM, 1983, p. 11). Assim, o fato de essa tarefa ser atribuída basicamente às mães, não deve ser vista como uma simples imposição masculina. Na verdade, constitui-se uma imposição cultural que se constrói sobre as características que os humanos compartilham com outros mamíferos, que são bem expressivas nos antropoides: uma dependência prolongada das crias em relação às mães. Mas isso não quer dizer que essa elaboração cultural seja imutável. Segundo Durham, é perfeitamente possível e aceitável modificar culturalmente esse padrão, provendo figuras substitutas das mães e promovendo modificações na divisão sexual do trabalho. Em suma, o que a autora está enfatizando é que os aspectos gerais da divisão sexual do trabalho podem ser influenciados por elaborações culturais construídas sobre as características biológicas do ser humano e que estão presentes no desenvolvimento da espécie humana antes do próprio desenvolvimento da cultura. Mas tais padrões culturais são perfeitamente modificáveis, o que alteraria, de certo modo, a divisão sexual do trabalho.

De qualquer modo, apesar das profundas mudanças culturais, a relação entre o papel feminino na sociedade e a reprodução pode ser associada a características biológicas da espécie, o que, por si só, não é um fato suficiente capaz de explicar o outro lado da divisão sexual do trabalho, que consiste na dominação masculina na esfera pública. Isso porque tal divisão não se restringe aos seus aspectos gerais, influenciada pelos aspectos biológicos, ela abrange muitos outros aspectos, já que sua própria extensão e rigidez variam de uma cultura para outra. Assim, atividades consideradas femininas em uma determinada cultura, como trançar, tecer, plantar hortas, etc., podem ser consideradas masculinas em outra cultura ou, em uma terceira cultura, podendo ser realizadas tanto por homens quanto por mulheres. Além disso, a própria concepção do termo “feminino” pode variar de cultura para cultura, haja vista que, uma determinada cultura, por exemplo, pode ver a mulher como incapaz para o comércio, ao passo que outra já lhe atribui uma habilidade ‘natural’ para as atividades comerciais. Nesse sentido, segundo Durham, o fato de reconhecer a existência dos aspectos gerais da divisão sexual do trabalho não implica em aceitar que a submissão da mulher e a dominação masculina sejam fenômenos naturais ou universais. Partindo deste ponto, analisamos a questão da atribuição à mulher da maior parte das atividades domésticas e do cuidado com os filhos. Assim, fazer as atividades domésticas, ter filhos e cuidar deles, são fatos que podem estar associados não apenas a uma submissão que foi culturalmente construída, que valoriza na mulher a docilidade e a aceitação da dominação masculina, mas

também podem estar associados ao que culturalmente exige firmeza, coragem, iniciativa, autonomia, segurança.

Enfim, diz Durham,

O que a análise da diversidade cultural demonstra é a necessidade de dissolver a definição das relações entre homens e mulheres em termos de dicotomia dominação- submissão e começar a pensar numa complexa combinação de área de influência ou autonomia, de graus diversos de imposição e aceitação de autoridade real ou simplesmente formal (1983, p. 16).

Portanto, como vimos, as diferenças entre homens e mulheres construídas no desencadear do processo histórico-sociocultural, seja no âmbito da família, seja no âmbito da sociedade em geral, produzem desigualdades e geram hierarquias entre o trabalho masculino e o feminino, perpetuando a divisão sexual do trabalho e a distinção entre os papéis sociais masculinos e femininos. Mas, especificamente no Brasil, como as relações de gênero e a divisão sexual do trabalho historicamente se desenvolveram? Quais foram os papéis sociais assumidos pela mulher no âmbito da sociedade e de suas famílias do processo histórico do Brasil?