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O caráter das notas analisadas, em ambas as traduções, varia desde esclarecimentos sobre problemas de tradução, explicação de expressões do texto original, até informações sobre a obra e seu autor. Como apresentamos no item 2 deste capítulo, elas se dividem em oito tipos, que serão exemplificados neste subitem.

Vimos, no subitem anterior, que as N.T. não são gratuitas, muito menos trazem um discurso isento, pois transmitem claramente, no caso analisado, um determinado tipo de saber. Acontece que essa “transmissão de saberes” pelo tradutor não é ingênua, ou por acaso, mesmo que seja inconsciente. Todo paratexto de uma tradução, e aí incluídas as notas, fala muito do tradutor, mas principalmente da imagem que ele tem de si mesmo, da obra que traduziu, do leitor a quem esta se dirige, do autor do original. Essas imagens são as formações imaginárias, dentro das quais todo e qualquer discurso é produzido e sem o que o funcionamento discursivo não se efetiva. É pelas formações imaginárias que são constituídas as verdades discursivas, que por sua vez se encontram em dadas formações ideológicas em um corpo social. E todo esse arcabouço é o que dá as características das condições de produção, que moldam os vários discursos existentes. Assim,

o funcionamento de uma N.T. estará de acordo com a imagem que o tradutor faz de si, do autor e do leitor, e da imagem que ele faz do próprio processo tradutório, já que é esta imagem

(que não precisa ser necessariamente consciente) que vai guiar a produção da nota pelo tradutor (Mittmann, 2003, p. 110).

Remetendo ao nosso objeto de pesquisa, percebemos que a imagem que Rónai faz do processo tradutório é de isenção, isto é, o tradutor deve ser o mais “fiel” possível ao pensamento do autor, tendo como papel, nesse processo, o de procurador mais do que de colaborador. E pelo número de notas do tradutor da L&PM, similar ao da Globo, pode-se concluir que o mesmo se dá com as tradutoras da edição mais recente. Na trilha de Rónai, conscientemente ou não, elas também produziram uma edição erudita da obra e redigiram inúmeras notas de pé de página, transmitindo, com esses procedimentos, uma pretensão à isenção discursiva, ou seja, o texto da tradução passa a guardar a verdade transcendental que deve ser buscada, esclarecida e decodificada para o leitor da obra. Ao tradutor somente restam os espaços dos paratextos, sobretudo das N.T., para mostrar-se presente. Contudo, essa presença, pelos adeptos da concepção tradicional da tradução, não é aceita, mas tolerada, porque é simplesmente questão de necessidade. Segundo Mittmann (2003, p. 118), para os adeptos dessa concepção

a N.T. (...) é um recurso para resolver problemas de tradução que não foram resolvidos no próprio texto, servindo então como instrumento facilitador da leitura do texto da tradução, já que se pressupõe que ela esclareça o sentido. Não é lugar para manifestação da subjetividade do tradutor, já que as explicações e os esclarecimentos devem ser objetivos, não cabendo opiniões do tradutor.

Como se viu no tópico anterior, essa subjetividade se revela, no entanto, várias vezes exatamente no discurso de Rónai, apesar de sua crítica em o tradutor se fazer visível no texto da tradução. Rónai é traído, podemos dizer, pela sua própria vontade de verdade.

Ambas as traduções, assim, resolvem nas notas coisas que poderiam resolver no texto, em nome de uma pretensa isenção discursiva, pois circunscrevem o discurso do tradutor aos

paratextos, à margem do texto. Todavia, como se viu no capítulo 1, a margem também se mostra como uma extensão do texto, faz parte dele, é o texto que se expande. Nesse sentido, “o tradutor não vai para fora dos limites do texto fechado, para produzir um outro texto, o da N.T., mas apenas se estende, em resposta a uma determinada situação de tradução” (Mittmann, 2003, p. 119). A N.T., nesse caso, mostra-se como a confirmação do discurso do tradutor, de sua interpretação, de seus impasses em relação ao texto original. Mas também revela as imagens produzidas por ele no âmbito de seu discurso.

E as imagens produzidas pelos tradutores nas edições realizadas não se limitam ao próprio processo tradutório ou a como o tradutor deve se portar. Há um outro tipo que fica menos explícito em seus discursos, mas que pode se revelar o grande motivador da redação das inúmeras notas: trata-se da imagem do leitor produzida pelo tradutor, neste caso, especificamente do leitor brasileiro, e também do Brasil.

Usaremos, para exemplificar esse caso, o discurso de Rónai em seu livro A tradução vivida. Na página 185, há um trecho em que ele explica um dos motivos da redação de inúmeras notas de pé de página, trecho este já citado anteriormente neste trabalho: “(...) pareceu-me que a distância que em espaço e tempo separava a França da Comédia Humana do Brasil de então era tamanha que exigia numerosas notas de pé de página”. Percebe-se que, para o autor, o acesso do Brasil à França do século XIX era precário, o que pode ser percebido como a imagem que o Brasil passa de ser um país continental, situado fora da Europa e, o que sugere a leitura do autor, isolado do ponto de vista da informação. Sendo as notas de tão variadas espécies, indo de esclarecimentos sobre a obra a explicações de lugares de Paris, como verificamos, pode-se inferir que o professor Paulo Rónai tinha uma imagem de leitor pouco afeito a pesquisas, mas também de pouco acesso a informação, por causa da distância que separava a França do Brasil de então, ou seja, pelo fator tempo, mas também pela distância geográfica, o que se deduz

quando se questiona sobre se ele teria o mesmo cuidado caso a tradução tivesse sido feita, sob sua supervisão, em um país vizinho da França. Nesse caso, na sua opinião, as notas são imprescindíveis, para que o leitor não se indisponha com a obra, ou para que não lhe falte a informação necessária para entendê-la, informação essa que lhe seria dificultoso conseguir. Assim, as notas se configuram como um instrumento facilitador da leitura.

Facilitando a leitura, apresentando ao leitor a interpretação do tradutor, esclarecendo pontos mais ou menos obscuros, vemos em ambas as edições do romance balzaquiano um grande número de notas. Passemos agora à análise do segundo grupo, objeto deste tópico.

Como se viu no item 2, quando foi apresentado o quadro classificatório, as notas desse segundo grupo foram divididas em oito modalidades, algumas estreitamente ligadas a problemas de tradução propriamente ditos, como as de número (7) – relativas a explicações de expressões, problemas e curiosidades da tradução –, e outras que se mostram claramente como expressão do poder-saber dos tradutores, como as de número (8) – notas sobre o próprio Balzac e sua obra. Apresentaremos sempre dois exemplos de cada classificação, que contenham notas das duas edições, sobre o mesmo trecho, para que haja um contraponto discursivo. Depois de cada um dos exemplos, segue um comentário sobre o duo de notas.

(1) Notas sobre personalidades – autores, cientistas, filósofos, poetas, etc. –, lugares e acontecimentos históricos reais

Estas notas contabilizam 64 ao todo nas duas edições – sendo o grupo dessa classificação que detém o maior número –, 36 notas na edição da Globo e 28 na da L&PM. São notas que expressam claramente um saber de acadêmico, historiador, professor.

Globo: Texto de referência: “Freqüentemente, uma facécia digna de Juvenal16,...”

Classificação (IIb); (1) Nota 16: Juvenal (65-128 d.C.): poeta latino autor de famosas sátiras

em que açoita os vícios de seu tempo com veemente indignação.

Classificação (IIb); (1) Nota 15: Decimus Iunius Juvenalis, conhecido apenas como Juvenal,

poeta satírico do século I. (N.T.)

Nesse primeiro exemplo, pode-se perceber a diferença de discurso já apontada em outros momentos neste capítulo: enquanto Rónai se revela em um discurso mais enfático, com palavras do tipo “açoita”, “veemente”, as tradutoras mantêm um discurso mais enciclopédico, em que é dado o nome oficial da personalidade, em latim, com informações mais diretas. Observemos também que, ao contrário do comumente realizado por Rónai, nessa nota ele dá a data de nascimento e morte da personalidade, o que, como vimos, se relaciona a um discurso de dicionário, com o objetivo de dar informações históricas. O interdiscurso se apresenta aí, nesse caso.

Globo: Texto de referência: “Pois bem, um homem tão probo quanto você pensa ser ainda, o

sr. de Turenne97, fazia, sem se considerar comprometido, pequenos negócios com salteadores.”

Classificação: (IIa) e (IIb); (1) e (6) Nota 97: Visconde Henri de la Tour d’Auvergne (1611-

1675): marechal da França, que comandou o Exército francês durante a guerra da Devolução e a da Holanda, e conquistou a Alsácia em 1675; a tradição o representa como homem de uma simplicidade e modéstia notáveis, e que não ligava importância ao dinheiro. Talvez Vautrin haja encontrado esta informação em algum libelo dos protestantes que passaram a atacar Turenne depois de sua conversão ao catolicismo.

L&PM: Texto de referência: “Pois bem, um homem que tinha tanta probidade quanto o

senhor acredita ter ainda, o sr. de la Turenne87, sem acreditar-se comprometido, pequenos negócios com bandidos.”

Classificação: (IIb); (1) Nota 87: Visconde de la Turenne ou Henri de la Tour-d’Auvergne

(1611-1675), marechal e general francês. (N.T.)

Nesse pequeno excerto do corpus, acontece algo interessante: a nota 97 ganha duas classificações, (1) e (6), a primeira sendo a que nos interessa no momento, sem dúvida, mas a de número (6) vindo se entremear no discurso mais acadêmico. Ambas as notas dão as datas de nascimento e morte da personalidade, mas o discurso de Rónai revela-se, todavia, muito mais prolixo, com um adendo a mais. Seguindo o fio discursivo, o professor aproveita para dar uma informação sobre a personagem fictícia da Comédia, Vautrin, mas com uma característica: a informação é duvidosa, pois se inicia por “talvez”, o que denota uma

interpretação sua do fato narrado no romance. Tal suposição, feita por ele, revela sua intimidade com a obra, e aqui o professor estabelece um diálogo com o autor, levantando a hipótese de que seja da forma como afirma. Vemos que na maior parte das vezes Rónai, se tenta em algum momento, não consegue despir-se do seu papel principal no trabalho na Comédia: o fato de ser especialista em Balzac.

(2) Notas alusivas a costumes e hábitos da época e de outras épocas e culturas

Este fragmento do corpus revela-se o menor de todos para as notas da Globo: 2 somente, tendo o mesmo número para as da L&PM. Assim, são os dois conjuntos a seguir.

Globo: Texto de referência: “O carro da civilização, semelhante ao do ídolo de

Jaggernat2,...”

Classificação: (IIb); (2) Nota 2: Ídolo de Jaggernat: alusão a uma prática dos fanáticos de

Jaggernat ou Djaggernat, cidade da Índia, os quais em determinados dias de festa se atiram sob as rodas do carro gigantesco no qual a estátua do deus é carregada pelas ruas.

L&PM: Texto de referência: “O carro da civilização, qual o do ídolo de Jaggernat1,...”

Classificação: (IIb); (2) Nota 1: Jaggnernat ou Jaggernaut (em sânscrito Jaggannatha, “senhor do

universo”): Deus hindu, cuja estátua, em gigantesco carro triunfal, era rolada para fora do tempo e cujos devotos muitas vezes morriam por se curvar em êxtase religioso diante do carro. (N.T.)

Esse primeiro grupo de notas já foi tratado anteriormente neste capítulo, quando falamos da classificação (IIb). Como se verifica, a narrativa de Rónai do ritual hindu está repleta de julgamentos de valor, e, para a sociedade de hoje, porta um discurso preconceituoso, se formos considerar a estimulação que os nossos tempos fazem do discurso tolerante e “politicamente correto” (mesmo que esta última característica seja eivada de preconceitos da mesma forma).

Já o recurso das tradutoras, ao recorrerem ao significado em outra língua, dá ao seu discurso, mais uma vez, um caráter enciclopédico, trazendo o interdiscurso dos dicionários e enciclopédias e criando a ilusão de transparência e verdade inquestionável que esses veículos carregam.

Globo: Texto de referência: “Embora um pouco rústico, vestia-se com tamanho apuro,

tomava tão elegantemente o rapé e o aspirava como um homem seguro de ter sempre a tabaqueira cheia de macuba17 que,...”

Classificação: (IIb); (2) Nota 17: Macuba: tabaco estimado de Macuba, na Martinica.

L&PM: Texto de referência: “Embora um pouco rústico, ele andava tão bem-posto, era tão

entendido em tabaco, aspirava-o como um homem tão certo de ter sempre sua tabaqueira cheia de macouba17 que,...”

Classificação: (IIb); (2) Nota 17: Macouba, variedade de tabaco da Martinica com perfume

de rosas. (N.T.)

É interessante como o discurso de Rónai traz palavras sempre mais denotativas de afeição, valor, do que o das tradutoras. Novamente, aqui, aparece uma outra: “estimado”, que evoca no leitor a interpretação de que é algo usado na Martinica, mas sobretudo de que se gosta muito. A informação traz um algo mais, faz mais do que simplesmente informar.

(3) Notas referentes a traduções de palavras em outras línguas, que não o francês, no original

Neste pequeno excerto do corpus encontram-se também poucas notas: 7 para a edição da Globo e apenas 2 para a da L&PM, o que limitou nossas escolhas.

Globo: Texto de referência: “Ah! Sabei-o: este drama não é ficção nem romance. All is true3: ele é tão verídico que qualquer um pode reconhecer em si mesmo e, talvez em seu próprio coração, os elementos que o compõem.”

Classificação: (I) e (IIa); (3) Nota 3: All is true: “tudo é verdade” (em inglês no original). Nas

edições anteriores a 1839, esta frase servia de epígrafe ao romance.

L&PM: Texto de referência: “Ah! Pois fiquem sabendo: este drama não é uma ficção, nem

um romance. All is true2, ele é tão verdadeiro que todos podem reconhecer seus elementos em si mesmos, talvez seu coração.”

Classificação: (I); (3) Nota 2: Tudo é verdade. Em inglês no original. (N.T.)

Ambas as notas têm quase o mesmo discurso, não fosse pela frase de Rónai na redigida por ele: “Nas edições anteriores a 1839, esta frase servia de epígrafe ao romance.”

No original francês da Le Livre de Poche (1995, p. 69), encontramos macouba, inclusive trazendo também uma

nota de pé de página. E no dicionário eletrônico Houaiss encontramos a mesma palavra, macouba, com a seguinte explicação: “variedade de fumo da Martinica, com cheiro que evoca o da rosa”. Ou seja, provavelmente houve um engano na tradução coordenada por Rónai, que a L&PM corrigiu.

Novamente o professor expressa seu saber de especialista em Balzac, dando ao leitor uma informação que não necessariamente seria imprescindível, mas que se trata de outra curiosidade da obra. Essa pequena frase corrobora o que dissemos anteriormente, que essa edição da Comédia é erudita, pois serve também para instruir o leitor.

Quanto à menção “em inglês no original”, há quem condene o tradutor por fazê-la, pois nada esclarece, sendo até desnecessária, e seria uma forma de ele se fazer presente. Não precisamos dizer que essa posição contrária vem daqueles que condenam a presença ostensiva do tradutor no texto da tradução, ou seja, dos partidários da concepção tradicional.

Globo: Texto de referência: “Viu a sociedade tal qual é: as leis e a moral impotentes para

com os ricos e viu na fortuna a ultima ratio mundi51.”

Classificação: (I); (3) Nota 51: Ultima ratio mundi: em latim no original “o supremo

argumento do mundo”.

L&PM: Texto de referência: “Ele viu o mundo como é: as leis e a moral impotentes entre os

ricos, e viu na fortuna a ultima ratio mundi62.”

Classificação: (I); (3) Nota 62: O argumento definitivo. Em latim no original. (N.T.)

Esse pequeno excerto do corpus da classificação (2) não se mostra muito diferente do primeiro apresentado. Há de se atentar somente para as palavras utilizadas: “supremo”, no caso de Rónai, “definitivo”, no caso das tradutoras. Logicamente, a ênfase maior encontra-se na primeira, não só pela escolha do léxico, mas também pela inversão frasal; vindo o adjetivo antes do substantivo, ele acaba ganhando um destaque maior.

(4) Notas alusivas a descrições de lugares em Paris, tanto que ainda existem como que não existem mais

Neste item, apresentam-se 25 notas para a tradução da Globo e 8 para a da L&PM. Vejamos:

Globo: Texto de referência: “Quando essas munições foram postas em uso e a viúva se viu

de armas na mão, ficou perfeitamente parecida com a tabuleta do Boi na Moda21.”

Classificação: (IIb); (4) Nota 21: Boi na moda: famoso restaurante da época, em cuja tabuleta

o dono mandou pintar um boi vestido dos atavios elegantes da moda: um chapéu, um xale, etc.

L&PM: Texto de referência: “Quando tais munições foram empregadas e a viúva ficou armada

para a batalha, ela se parecida exatamente com o cartaz do restaurante Boeuf à la Mode19.”

Classificação: (IIb); (4) Nota 19: O cartaz do célebre restaurante Boeuf à la Mode, situado na

Rue du Lycée, exibia um boi ornado de xale e chapéu. (N.T.)

Aqui se observa o que já foi dito: que a tradução da L&PM guardou os nomes em francês, enquanto Rónai os traduziu. Ambos os discursos são enfáticos nesse caso, o que se percebe pelas palavras “famoso” e “célebre”. No entanto, o texto da nota 19 é menos interpretativo que o da nota 21. Este último traz que “o dono mandou pintar”, dando a impressão que quem escreve sabia do fato por tê-lo presenciado. E a nota 19, como de costume nas dessa edição, preocupa-se em passar mais informações objetivas, como onde estava situado o restaurante à época.

Globo: Texto de referência: “– Mas preciso encontrar-me com alguém nas Variedades78.”

Classificação: (IIb); (4) Nota 78: Théâtre des Variétés: inaugurado em 1807, no bulevar

Montmartre, para a representação de vaudevilles (comédias leves entremeadas de canções).

L&PM: Texto de referência: “...–, mas devo me encontrar com alguém no Variétés78.”

Classificação: (IIb); (4) Nota 78: O Théâtre des Variétés apresentava na época sobretudo

vaudevilles, comédia que combina pantomima, dança e canções. (N.T.)

Vemos que Rónai, como seu costume, traduziu o nome do teatro no texto, “Variedades”, mas não na nota, onde o apresentou na forma francesa. E ele novamente externaliza uma interpretação: na sua opinião, as vaudevilles são comédias “leves”, mas dessa vez dá a data de inauguração, o que não foi feito na nota 78.

(5) Notas alusivas a obras e personagens literários e mitológicos

As notas deste item são em número de 33: 23 para as da Globo e 10 para as da L&PM. Refletem, em sua maioria, um saber de historiador, professor, acadêmico, por seu caráter primordial de instruir e transmitir conhecimento.

Globo: Texto de referência: “Esse homem parecia, em suma, ter sido uma das bestas do

nosso grande moinho social, um desses Ratons parisienses que nem mesmo conhecem seus Bertrands15,...”

Classificação: (IIb); (5) Nota 15: Seus Bertrands: alusão a duas personagens de uma fábula

de La Fontaine, O macaco e o gato (livro IX, fábula 16). O macaco Bertrand incita o gato Raton a tirar do fogo as castanhas, e depois as come ele mesmo. A metáfora significa, pois, mais ou menos isto: “um desses explorados que nem mesmo conhece seus exploradores”.

L&PM: Texto de referência: “Enfim, aquele homem parecia ter sido um dos burros de carga

do nosso grande moinho social, um desses Ratons parisienses que sequer conhecem seus Bertrands14,...”

Classificação: (IIb); (5) Nota 14: Referência à fábula de La Fontaine “O macaco e o gato”,

animais cujos nomes eram, respectivamente, Bertrand e Raton. (N.T.)

Vê-se aqui, novamente, uma maior intervenção discursiva de Rónai. A partir do seu texto para a nota, pode-se notar a imagem que ele faz de si mesmo: como professor, deve transmitir seu saber ao leitor. Ele supõe, dessa forma, uma ignorância do leitor sobre o assunto e explica a fábula em mais detalhes, além de fazer relação com o sentido do texto. Lembrando Mittmann, o tradutor aqui deve preencher todos os sentidos possíveis, não deixando espaços em aberto, em uma tentativa de controle da leitura.

Globo: Texto de referência: “...magníficas imagens da probidade, que nos deram duas obras-

primas: Alceste83 de Molière...”

Classificação: (IIb); (5) Nota 83: Alceste: personagem principal de O Misantropo, de

Molière.

L&PM: Texto de referência: “...magníficas imagens da probidade que nos valeram duas

obras-primas, Alceste de Molière81...”

Classificação: (IIb); (5) Nota 81: Alceste é personagem da peça O misantropo (1666), do

dramaturgo francês Molière (1522-1673). (N.T.)

Há algo interessante a notar nesse excerto do corpus. Enquanto ambos os textos trazem mais informações sobre a personagem, “Alceste”, dizendo qual a obra e quem é o autor, o da nota 81 traz a nacionalidade de Molière juntamente com as datas de seu nascimento e morte, informações que não constam da nota 83. Assim, pode-se levantar a hipótese de que Rónai supõe

Benzer Belgeler