Observemos o seguinte trecho:
Globo: Texto de referência: “Ele tem apenas uma bossa, a da paternidade. Será um padre
eterno53.”
Classificação (I); (7) Nota 53: Padre eterno: em francês “pai” e “padre” se exprimem pela
mesma palavra, père.
A classificação de número (I) refere-se às notas do tradutor – que expressam esclarecimentos sobre a tradução. Essa classificação compreende o esclarecimento de expressões do texto original, tanto no próprio francês como em outras línguas, e alguns problemas de tradução. Frequentemente, por sua característica, vem acompanhada do número (7) da segunda classificação: explicações de expressões, problemas e curiosidades da tradução, como se pode ver no exemplo citado. Aqui, o tradutor se revela exatamente em sua função e apresenta, segundo Mittmann, a “expressão da incerteza”, pois “não traz a definição como verdade absoluta”. Rónai, ao apresentar na nota uma segunda definição para père,
divide a interpretação com o leitor, dizendo-lhe que, apesar de sua escolha ser aquela, “padre”, existe também a segunda, “pai”. Esse caso mostra, então, “o embate entre, por um lado, a tentativa de não deixar em aberto o sentido, preenchendo-o com uma definição ou apontando para um suposto referente, e, por outro lado, a incerteza, a manifestação de que o sentido pode ser outro” (Mittmann, 2003, p. 160). Aqui, vemos o que foi dito anteriormente, que o tradutor carrega a responsabilidade de não deixar nenhum espaço em aberto, nenhuma “falha” de sentido. Essa suposta função do tradutor é preconizada por aqueles que seguem a concepção tradicional do tradutor, que desejam para ele um apagamento do seu discurso em face do discurso do autor. Contudo, como se pode perceber, essa atitude revela o tradutor em seus impasses, suas dúvidas, e abre para a informação de que o discurso da tradução pode apresentar múltiplos sentidos. No exemplo tratado, aproxima o processo tradutório do leitor, ao convidá-lo a perceber um outro discurso: no lugar de “padre”, que foi primeira escolha, pode ser “pai”, uma outra escolha possível, parece o tradutor querer dizer.
Em outro exemplo, temos:
L&PM: Texto de referência: “Se fizer algumas pequenas baixezas políticas, como ler num
boletim Vitel69 em vez de Manuel (dá rima, deixa a consciência tranqüila70), será, aos quarenta anos, procurador geral e poderá se tornar deputado.”
Classificação: (I); (7) Nota 69: No original, Villèle. Optamos pela mudança de grafia para
que o texto (a rima logo a seguir mencionada) faça sentido para o leitor brasileiro. (N.T.)
A primeira questão a se observar é que, no mesmo trecho na tradução da Globo, há somente uma nota, e ela está localizada em outro lugar, não apresentando a mesma classificação que a da L&PM, pois o texto não tem o mesmo caráter. Nesse caso, vamos utilizar somente esta última para ilustrar nosso exemplo.
Como vemos nesse trecho, a nota 69 trata-se de uma típica nota do tradutor, em que este explica uma posição tomada na hora do processo tradutório, o porquê de ter sido alterada
uma grafia. Segundo Mittmann, a “marca de primeira pessoa [nesse caso, ‘optamos’], apontando para o tradutor, é uma reafirmação do tradutor como enunciador do discurso da N.T.” (2003, p. 141). E, mais adiante, “o tradutor se coloca como sujeito enunciador, do lado de fora do seu dizer e capaz de comentar e justificar o próprio discurso” (ibidem). Isso só é possível pela ilusão de que o processo tradutório, no lugar de produzir discurso, acessa o discurso do autor, reproduzindo-o fielmente. Essa ilusão não é percebida pelo tradutor, que toma o cuidado de justificar suas escolhas com receio de “ferir” o texto original ao alterá-lo. A alteração de uma grafia pelo tradutor poderia ser vista como “erro”, “deslize”, o que comprometeria o trabalho do tradutor como profissional e atestaria sua infidelidade ao texto original.
Já a classificação de número (II), que apresenta as notas de erudição – aquelas que expressam a erudição e o saber de quem as redigiu –, foi subdividida em: (a) um saber de especialista em Balzac e (b) um saber de historiador, acadêmico ou professor. Aqui, o tradutor se mune de seu poder-saber para apresentar conhecimento, esclarecimento ao leitor. Saindo da sua posição-sujeito de tradutor, ou melhor, incorporando outras posições-sujeito, o tradutor revela seu conhecimento de especialista em determinada área, fazendo com que o conhecimento apresentado ganhe legitimidade pela posição-sujeito que passa a ocupar. Nesse caso, apresenta-se também uma rica formação imaginária, em que o profissional da tradução tece seu discurso visando a um determinado tipo de leitor, ao mesmo tempo em que se baseia em uma determinada imagem que faz do autor do texto original, de sua obra e da função que ela exerce, ou da posição que ela ocupa em dado campo literário.
A subclassificação (IIa), que remete à especialidade em Balzac, compreende um grande número de notas para ambas as edições de O pai Goriot: 38 para a da Globo e 31 para
a da L&PM. Essa classificação está diretamente ligada às de números (6) e (8) da segunda classificação, que compreendem as notas (6), alusivas a outros romances da Comédia ou aos personagens que apareceram ou aparecerão nesses outros romances, ou a qualquer fato relativo a essas personagens, e (8), sobre o próprio Balzac e sua obra. São notas que denotam um conhecimento da obra balzaquiana e o desejo de inteirar o leitor dos seus pormenores, seja remetendo-o aos meandros da obra, relacionando os romances, seja apresentando algumas características do próprio Balzac com relação à Comédia e ao tempo em que esta foi escrita.
Como já foi dito, o próprio Rónai se apresenta como “especialista em língua e literatura francesa”, tendo defendido “tese sobre Balzac” (1981, p. 184), o que o legitima para coordenar o trabalho da tradução completa da Comédia. Já as tradutoras da L&PM, apesar de não se apresentarem dessa forma, têm uma tradução, como visto, que de certa forma se aproxima da coordenada por Rónai, pois elas também redigem inúmeras N.T., sendo algumas claramente um esclarecimento sobre a obra balzaquiana e seu autor.
É interessante notar, nesse ínterim, que a edição de Le père Goriot publicada pela Le Livre de Poche em 1995 também se configura como uma edição erudita, dessa vez da obra original. Na folha de rosto, vemos a seguinte frase: “Introduction, notes et dossier de Stéphane Vachon”,∗ e, no fim do livro, no dossiê, lemos: “Le lecteur trouvera, dans nos commentaires et notre dossier, quelques services annexes et des compléments indispensables à son étude de ce roman de Balzac (...)”∗∗ (1995, p. 357). Ou seja, como as edições brasileiras, objeto de análise deste trabalho, a edição francesa citada também tem uma introdução e está repleta de notas, quase uma por página também, apresentando, no fim, um grande anexo, chamado de dossiê, que contém explicações sobre a obra, sobre o próprio Balzac e sua época, além de trazer alguns documentos. Considerando esse fato, podemos
∗ “Introdução, notas e dossiê de Stéphane Vachon”.
∗∗ “O leitor encontrará, em nossos comentários e dossiê, alguns ofícios anexos e complementos indispensáveis a
levantar a hipótese de que seria de praxe, assim, publicar as edições de tradução em um volume de estudo, por causa da fortuna da obra.
Retomando a classificação (IIa), de início já se pode entrever que imagens Paulo Rónai apresenta dele mesmo, explicitadas mais claramente na classificação (6), alusiva às personagens da Comédia. Esse autor, ao se mostrar tão meticuloso e criterioso na redação das notas, dá a perceber que se trata de alguém que detém um saber sobre o assunto do qual está tratando, ou seja, um saber de especialista em Balzac, pois somente um especialista nesse autor poderia conhecer a fundo essa obra, composta de 17 volumes. Paulo Rónai, aqui, age como um acadêmico, professor, que ensina aos alunos onde devem buscar o conhecimento necessário. Ele dá uma explicação que faz com que o leitor se sinta atraído por ler os outros romances e lhe transmite a imagem de que ele detém esse saber, mesmo que esse leitor não saiba quem foi Paulo Rónai e qual o seu grau de erudição e formação. O mesmo se dá com as tradutoras na edição da L&PM, com a diferença de que, como vimos, as notas relativas aos outros romances da Comédia, ou classificação (6), têm um formato enciclopédico e almejam à exaustividade na apresentação dos outros romances da obra ou das personagens que apareceram ou aparecerão nesses outros romances, bem como de qualquer fato relativo a essas personagens. Vejamos alguns exemplos:
Globo: Texto de referência: “De lá, ele voltou a este bairro, à rua do Grês, e entrou na casa
de um conhecido usurário, chamado papá Gobseck36, um grandíssimo patife,...”
Classificação: (IIa); (6) Nota 36: Gobseck: essa personagem de Balzac é encontrada em
Gobseck, novela cronologicamente posterior a O Pai Goriot, mas que no plano da Comédia Humana o precede.
L&PM: Texto de referência: “Ele voltou para este bairro, pela Rue des Grès, onde entrou na
casa de um agiota conhecido, chamado Gobseck50, um tipo estranho,...”
Classificação: (IIa); (6) Nota 50: Jean-Esther van Gobseck, personagem de A comédia
humana (Gobseck, César Birotteau, Contrato de casamento, Os camponeses). (N.T.)
Globo: Texto de referência: “Lá está de Marsay no camarote da princesa Galathionne80.”
Classificação: (IIa); (6) Nota 80: Princesa Galathionne: personagem balzaquiana cujos bailes
freqüentava a Condessa Félix de Vandenesse (Uma Filha de Eva) e cujo marido quis seduzir a sra. Schontz, amante do Marquês de Rochefide (Beatriz).
Classificação: (IIa); (6) Nota 80: Princesa Galathionne, personagem de A comédia humana
(Uma filha de Eva). (N.T.)
Contudo, esse saber de “especialista” em Balzac também pode ser verificado em outros exemplos, e não se refere somente à classificação (6). O professor Rónai apresenta, frequentemente, pormenores da obra balzaquina, de seu autor, fatos que são revelados ao leitor às vezes a título de curiosidade, outros, como esclarecimento de algum ponto obscuro. Verifiquemos nos trechos seguintes:
Globo: Texto de referência: “‘Parece tão forte como Augusto, rei da Polônia!’33,...”
Classificação (IIa) e (IIb); (1) Nota 33: Trata-se de Augusto de Saxe (1670-1733), que Balzac
provavelmente confunde com seu filho, o marechal de Saxe, de uma força lendária.
Globo: Texto de referência: “a fim de não cometer nenhuma dessas asneiras, em face das
quais se diz pitorescamente na Polônia: Atrele cinco bois a seu carro!43, certamente para tirar a vítima do atoleiro em que se meteu.”
Classificação (IIa); (8) Nota 43: Atrele cinco bois a seu carro!: reminiscência do encontro de
Balzac com a Condessa Hanska em 1833. Alusões como esta, disseminadas nos romances de Balzac, constituíam uma espécie de correspondência disfarçada para a amante distante.
Globo: Texto de referência: “– Chá que a zenhorra o convita – disse o barão, espesso
alsaciano, cujo rosto redondo denunciava uma astúcia perigosa –, pode estar zecurro de zer
pem recepido82.”
Classificação (I) e (IIa); (8) Nota 82: Balzac gosta muito de transcrever o sotaque de suas
personagens estrangeiras. O tradutor procurou imitá-lo, fazendo o Barão de Nucingen pronunciar o português à maneira alemã.
Este primeiro grupo de notas traz discursos reveladores. À primeira vista, podemos observar que são todas da Globo e não trazem como contraponto nenhuma da L&PM. Ou seja, nesta última edição não existia nota que correspondesse ao mesmo trecho das de Rónai. Todas elas trazem a classificação (IIa) e duas trazem a de número (8), que, como já vimos, está diretamente ligada ao saber de especialista em Balzac.
No trecho inicial vemos o seguinte fragmento de frase: “Balzac provavelmente confunde com seu filho”. É interessante notar como Rónai apresenta aqui uma dúvida e sugere uma correção do texto do autor, apontando-lhe uma falha, estando isso coerente com o
discurso que apresenta em seu livro, segundo o qual, sobre o nível de colaboração que o tradutor deve ter com o autor ao traduzir seu texto, “ele pode e deve corrigir os erros tipográficos do original, eventuais trocas de palavras e confusões de nomes” (1981, p. 98).
No segundo trecho, encontramos: “reminiscência do encontro de Balzac com a Condessa Hanska em 1833. Alusões como esta, disseminadas nos romances de Balzac, constituíam uma espécie de correspondência disfarçada para a amante distante”. Aqui Rónai expressa todo o seu conhecimento não só da obra balzaquiana, mas também da vida do autor. Assim, divide com o leitor uma informação que, longe de ser necessária ao entendimento da obra, serve como floreio e curiosidade do mundo balzaquiano, que logicamente transcendia sua obra.
Já no último, temos: “Balzac gosta muito de transcrever o sotaque de suas personagens estrangeiras”. O que chama a atenção aqui é o verbo no presente: “gosta”, que dá uma sensação de intimidade entre o “tradutor”, o especialista Rónai, e o autor. Esse trecho mostra que tal atitude por parte de Balzac é corriqueira: ele “gosta”, e que Rónai sabe disso, compartilha isso. Há um sabor de confidência aqui.
Passemos a outro caso:
Globo: Texto de referência: “– Olhe aqui – replicou o estudante de Medicina –, ao sair da
aula de Cuvier87,...”
Classificação (IIa) e (IIb); (1) e (8) Nota 87: Georges de Cuvier (1769-1832): fundador da
Anatomia Comparada e da Paleontologia, citado no Prefácio de A Comédia Humana; o próprio Balzac assistiu a suas aulas e procurou aplicar-lhe as teorias à sociedade humana.
L&PM: Texto de referência: “– Então me conte – continuou o estudante de Medicina saindo
do curso de Cuvier83...”
Classificação (IIb); (1) Nota 83: Barão Cuvier (1769-1832), naturalista francês, conselheiro
de Estado, professor de História Natural no prestigioso Collège de France. (N.T.)
Nesses trechos, já temos o contraponto entre as duas notas e podemos observar algo interessante: enquanto a classificação da primeira nota é uma, a da segunda é outra. A classificação da nota da Globo é múltipla, trazendo tanto um saber de especialista em Balzac
como um de historiador, acadêmico. Da mesma forma, trata tanto de apresentar um esclarecimento sobre personalidades reais, ganhando a classificação (1), como sobre o próprio Balzac, demonstrado pelo número (8). Isso porque a nota começa de forma enciclopédica, até mesmo similar à da L&PM – “Georges de Cuvier (1769-1832): fundador da Anatomia Comparada e da Paleontologia” –, mas em seguida continua com a ligação da personagem com Balzac, transcendendo a literatura para a vida real, pois o autor até mesmo assistiu a suas aulas e procurou aplicar suas teorias. Em contraponto, a nota da outra edição limita-se a explicar quem foi Cuvier e por isso se circunscreve a um saber de historiador, ou seja, enciclopédico, sobre uma personagem real, classificações (IIb) e (1), respectivamente.
Continuando ainda na classificação (II), passemos à sua subclassificação (IIb), que traz um saber de historiador, acadêmico ou professor. No trecho a seguir, observa-se como esse saber se manifesta:
Globo: Texto de referência: “O carro da civilização, semelhante ao do ídolo de
Jaggernat2,...”
Classificação (IIb); (2) Nota 2: Ídolo de Jaggernat: alusão a uma prática dos fanáticos de
Jaggernat ou Djaggernat, cidade da Índia, os quais em determinados dias de festa se atiram sob as rodas do carro gigantesco no qual a estátua do deus é carregada pelas ruas.
L&PM: Texto de referência: “O carro da civilização, qual o do ídolo de Jaggernat1,...”
Classificação (IIb); (2) Nota 1: Jaggnernat ou Jaggernaut (em sânscrito Jaggannatha, “senhor
do universo”): Deus hindu, cuja estátua, em gigantesco carro triunfal, era rolada para fora do tempo e cujos devotos muitas vezes morriam por se curvar em êxtase religioso diante do carro. (N.T.)
Primeiramente, o que temos de observar é o tipo de saber que essas notas portam. Ao esclarecer o leitor, elas exercem a função de um professor, ou historiador, ou seja, portam um saber enciclopédico – sendo ambas alusivas a costumes e hábitos, ganhando também a classificação (2) –, e assim fazem com que seu discurso seja legitimado. Mas, o mais interessante é como esse discurso é expresso.
Claramente, Paulo Rónai esclarece-o por meio de um julgamento de valor revelado em seu discurso de tradutor: “alusão a uma prática dos fanáticos de Jaggernat ou Djaggernat”. A palavra grifada revela que, para ele, a atitude dos indianos, em face da festa de um de seus deuses, é vista como fanatismo. É com os olhos de homem ocidental que Paulo Rónai descreve essa prática; ele não leva em conta as diferenças culturais, de costumes, sobretudo religiosas, para descrever o ritual indiano. Ou seja, Paulo Rónai passa aqui uma certa imagem de intolerância para com costumes diferentes dos seus, além de também produzir uma imagem para o leitor de que essas pessoas são fanáticas, que o leitor menos desavisado não questionará, tendo em vista que o discurso do tradutor é legitimado como o discurso do saber no campo da tradução a que se refere. Além disso, o autor reproduz, de certa forma, o discurso do homem ocidental, que vê com olhos críticos as manifestações religiosas orientais. Seu discurso, nessa nota, reflete uma posição etnocêntrica, de olhar estrangeiro, que toma sempre por base a própria cultura para olhar a do outro – nesse caso, a cultura de homem ocidental, mas sobretudo de europeu, já que Rónai não era brasileiro, mas húngaro. Assim, o tradutor deve tomar cuidado em estabelecer uma “ética da tradução”, como propõe Venuti, que se traduz na escolha do léxico usado no texto da tradução, mas também certamente no discurso do tradutor presente nas notas, pois esses discursos podem ter efeitos sociais que podem ser estabelecidos pela tradução (Venuti, 2002, p. 195).
Em contraponto à nota da Globo, pode-se perceber que a da L&PM porta um discurso bem diferente: além de trazer “Deus” em letra maiúscula, o que já denota respeito pela religião hindu (usualmente Deus em maiúsculo só é usado para o Deus Supremo das religiões monoteístas judaico-cristãs, não para as politeístas), em vez de “fanáticos”, as tradutoras referem-se aos praticantes do ritual como “devotos”, bem como, diferentemente de Rónai, que afirma que eles “se atiram sob as rodas do carro gigantesco no qual a estátua do deus é
carregada pelas ruas”, elas afirmam que eles se curvam “em êxtase religioso diante do carro”. Podemos perceber aqui a presença da interpelação ideológica. Estamos na época do “politicamente correto”, da “tentativa de tolerância” para com outras práticas religiosas, bem como da “tentativa de aceitação” de outras culturas e manifestações, seja de que ordem forem. O mesmo não acontecia na época em que Rónai redigiu as notas do tradutor. As notas desse exemplo revelam, em seu discurso, muito mais do que a presença do tradutor; elas demonstram um tipo de formação intelectual e cultural, um tipo de saber que está calcado em determinadas epistemes epocais. As grandes redes organizadoras do saber das tradutoras da L&PM são manifestamente outras, se comparadas com as do discurso de Rónai. Indo além, a N.T. de O pai Goriot tem muito mais um caráter de enciclopédia do que a de Rónai, percebida pela preocupação em dar o significado em outra língua: “(em sânscrito Jaggannatha, ‘senhor do universo’)”. Vemos aqui, então, a interpelação do interdiscurso, isto é, do discurso histórico, que é usado para “dar sustentação ao seu discurso, ao definir e delimitar o sentido de uma expressão do texto da tradução” [“senhor do universo”]. “Esse outro discurso pode ser proveniente de dicionários, obras de temas específicos, enciclopédias etc. E entra no espaço da nota com um intertexto (...)” (Mittmann, 2003, p. 145). Notemos em outro exemplo:
Globo: Texto de referência: “Encontram-se ali móveis indescritíveis, proscritos em toda a
parte, mas postos ali como os rebotalhos da civilização nos Incuráveis7.”
Classificação: (IIb); (4) Nota 7: Incuráveis: nome de um hospício em Paris, construído na rua
de Sèvres em 1634 para acolher anciães indigentes e incapazes de ganhar a vida.
L&PM: Texto de referência: “Ali se encontram daqueles móveis indestrutíveis, proscritos
em toda parte, mas lá colocados como são as sobras da civilização para os Incurables5.”
Classificação: (IIb); (4) Nota 5: Incurables, hospital parisiense que recebia não apenas
doentes desenganados, mas também idosos, indigentes e paralíticos. (N.T.)∗
∗ Sobre a diferença de palavras nos trechos das traduções: “indescritíveis” e “indestrutíveis” para as notas da
Globo e da L&PM, respectivamente, ver o trecho em francês da edição da Livre de Poche: “Il s’y rencontre de
ces meubles indestructibles, proscrits partout, mais placés là comme le sont les débris de la civilisation aux Incurables” (1995, p. 54). A palavra indestructibles significa algo que não pode ser destruído, ou seja,
indestrutível. Vemos aqui que a edição da L&PM traz a correção de um deslize cometido pela tradução da Globo.
Essas notas, como segunda classificação, ganharam o número (4), que se refere a descrições de lugares em Paris, tanto que ainda existem como que não existem mais. Entretanto, o discurso que apresentam se revela bem diferente entre ambas. O que chama a atenção logo de início é a escolha entre “hospício” e “hospital”. O primeiro significado para