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No início da organização civilizada humana, a propriedade era de uma tribo, em que o homem vivia da caça e da pesca, organizados hierarquicamente de forma familiar, onde cada um desempenhava sua tarefa. Posteriormente, na Antiguidade, surge a propriedade comunitária ou estatal, pela qual a posse se dava por meio da conquista ou de um contrato, quando surge a propriedade privada, tanto de bens mobiliários, como imobiliários, partindo da ideia das cidades. Em seguida, a propriedade se tornou feudal rumo ao campo e estruturada de forma fundiária (MARX; ENGELS, 2014) baseada na servidão, que foi extinta entre os anos de 1848 e 1868, continuando, porém, em forma de semi-servidão (HOBSBAWM, 1982).

Durante o período Napoleônico, parte dos camponeses passou do regime de semi- servidão ao status de proprietário livre. Entretanto o comportamento conservador do camponês fez com que a preocupação estivesse somente para dentro de suas propriedades individualizadas e praticamente voltadas à subsistência, o que arruinou a agricultura francesa e ocasionou muitos endividamentos. Marx ainda afirma que devido a este comportamento de individualismo foi o que não caracterizou uma classe dos agricultores, que sucumbiram ante a burguesia (MARX, 2011).

Mesmo a Revolução Industrial tendo acontecido na metade do século XVIII, até a metade do século XIX a maior parte da população europeia ainda vivia nos campos. Entretanto, com a expansão da industrialização as cidades começaram a receber parte significativa da população camponesa, que já não via perspectivas no campo. Iniciava- se assim a questão de que cidade é sinônimo de avanço e campo, de atraso. Este movimento fez com que determinados países e regiões se especializassem na agricultura e pecuária em larga escala para a exportação e a para o abastecimento das cidades (HOBSBAWM, 1979; 1982).

A divisão do trabalho numa nação obriga em primeiro lugar a separação entre o trabalho industrial e comercial e o trabalho agrícola; e como consequência a separação entre cidade e campo e à oposição dos seus interesses (MARX; ENGELS, 2014, p. 13).

O debate marxista sobre a agricultura e suas relações sociais entre as décadas de 1920 e 1960 consistiu em questioná-la por seu papel econômico capitalista. Entretanto, a partir da década de 70 um novo olhar é lançado sobre o papel da Agricultura Familiar, que interage com o capitalismo de forma diferente, o da subsistência. Também é

necessário ressaltar que muitos grupos familiares sucumbiram à agroindústria (SCHNEIDER, 2006).

Neste sentido, devem-se abandonar aquelas perspectivas de análise e interpretação que se baseiam em um raciocínio dualista, tipológico e ordenador da heterogeneidade social e econômica que caracteriza as formas familiares de produção. Para esta perspectiva, as formas familiares corresponderiam características como trabalho familiar, resistência à apropriação do excedente via mercado, propriedade de meios de produção, busca de autonomia, etc. Já as formas capitalistas seriam definidas por assentarem-se em trabalho assalariado, apropriação de mais-valia, reprodução ampliada, racionalidade dirigida à obtenção de produtividade e rentabilidade, entre outros aspectos (SCHENEIDER, 2006, p. 5).

O capital libertou a agricultura do regime feudal; ele a introduziu no circuito comercial e a partir daí, no desenvolvimento da economia mundial; ele a arrancou da estagnação e da rotina da Idade Média e do patriarcado. Mas, longe de eliminar a opressão, a exploração, a miséria das massas, ele desencadeia estes flagelos sob uma nova forma e restaura suas antigas formas sob uma base ―moderna‖. Não apenas o capitalismo não elimina a contradição entre a indústria e a agricultura, mas ao contrário, ele a aprofunda e agrava cada vez mais. O jugo do capital, que se forja sobretudo na esfera do comércio e da indústria, pesa cada vez mais sobre a agricultura (LENIN, 1980, p. 59).

Assim, Lenin (1980, p. 59) entende que o pequeno proprietário se torna um capitalista, um ―pequeno-burguês‖, ―antagonista ao proletariado‖, devido à partilha da renda fundiária e venda de seus produtos, e não de sua força de trabalho. De acordo com Hobsbawm (1979) o pequeno agricultor devia obrigações a um senhor local, seja em forma de dinheiro ou porcentagem da safra, além de pagamento de impostos e dízimos à Igreja.

O Capitalismo vê a terra como um ―fator de produção‖, ―uma mercadoria‖ e consequentemente a agricultura é vista como uma ―indústria‖, capaz de gerar lucro para o fazendeiro/ ―empresário‖, diferente do camponês, que mantinha uma relação social com a terra (HOBSBAWN, 1982, p.192). Desta forma o Capitalismo fez com que a propriedade deixasse de ser comunitária e desempenhasse atividades socioeconômicas em larga escala, assim como o que acontecia nos centros urbanos, para onde muitas famílias de camponeses e artesãos se direcionaram (RAMALHO; MOREIRA, 2010).

O século XIX foi marcado pelas grandes migrações do homem do campo para cidades europeias e até mesmo para outros países, como os Estados Unidos, em busca de um trabalho mais promissor. Somente no Brasil entre os anos de 1855 e 1874, 250 mil europeus se instalaram (HOBSBAWN, 1982) e posteriormente com as duas Grandes Guerras, milhares também se instalaram no país.

E é neste ínterim que nasce a Economia Solidária na Inglaterra, criada por operários nos primórdios do capitalismo industrial, como forma de resposta à pobreza e ao desemprego resultantes da difusão ―desregulamentada‖ das máquinas-ferramenta e do motor a vapor no início do século XIX (SINGER, 2002).

Como resposta às desigualdades sociais que a substituição da mão de obra humana pelas máquinas, os operários começaram a se organizar em forma de cooperativas baseados na ideologia socialista (SINGER, 2002). Desta forma os trabalhadores, quando organizados em cooperativas optam pela autogestão do empreendimento de forma participativa e democrática para a geração de trabalho e renda aos membros, consolidando a Economia Solidária (SINGER, 2004).

Estes se apresentam sob as formas de cooperativas populares, empresas recuperadas pelos ex-empregados de empresas falidas, associações de pequenos produtores, grupos informais e redes de cooperação, atuando em diversos setores produtivos: agricultura familiar e agroecologia, coleta de resíduos sólidos, inclusive de óleo de cozinha, organização de finanças solidárias e de comércio justo e solidário (BRASIL, 2016b, p. 1).

A vocação para a Economia Solidária é formada:

(...) por iniciativas de natureza associativa ou cooperativa que envolvem moradores que, num determinado contexto territorial, buscam a solução de problemas públicos concretos, relacionados à sua condição cotidiana de vida, através do fomento à criação de atividades socioeconômicas (FRANÇA FILHO, 2007, p. 160).

A Economia Solidária é um modelo que está fundamentado nos valores que Heckert (2004) descreve:

 Autogestão: gestão compartilhada entre os membros de forma participativa e democrática, de modo a gerar a inclusão, superando ações individualistas;

 Cooperação e Solidariedade: relação entre membros, levando em consideração suas diferenças de gêneros, raças e culturas diferentes, visando o bem estar dos envolvidos;

De acordo com Lechat (2002) a construção do pensamento sobre a Economia Solidária teve início em 1995 no Brasil em uma mesa redonda que discutia a formas de combate à pobreza no 7º Congresso Nacional da Sociedade Brasileira de Sociologia. A partir de então, vários eventos e artigos passaram a abordar o assunto, inclusive na mesma década de 90, Paul Singer e Marcos Arruda participaram de reuniões com a CUT para debates sobre a geração de emprego, renda e autogestão.

Assim, a Economia Solidária ganhou força no Brasil com o término da Ditadura militar no Brasil8, quando foi adotada por movimentos sociais e entidades sociais, como Organizações Não-Governamentais (ONGs), instituições religiosas, dentre outros, que buscaram apoio junto aos governos como forma de enfrentar a crise social que excluía um conjunto de pessoas da sociedade (SINGER, 2004; LEMAÎTRE; HELMSING, 2012).

Deste modo, o movimento da Economia Solidária vem crescendo nos últimos 20 anos no Brasil em busca de alternativas para inserir grupos de pessoas desfavorecidos com o objetivo de promover mudanças sociais e culturais para uma sociedade mais igualitária (CRUZ-SOUZA et al, 2011).

Algumas universidades brasileiras têm reunido esforços na criação de Incubadoras de Cooperativas Populares (INCOOPs) (CRUZ-SOUZA et al, 2011), além de ter aumentado o aumento no número de pesquisas científicas que, de acordo com França Filho (2007), há possibilidades de discussão sobre a Economia Solidária, como:

1) Conceitual: conhecimento e reflexão sobre o tema e seus impactos econômico e social;

2) Contextual: discute a crise do capitalismo e suas crises sociais, como pobreza, desemprego;

3) Estudo de caso: compreender a dinâmica dentro de um estabelecimento e suas experiências;

4) Metodologia de intervenção: a Economia Solidária pode ser vista como uma tecnologia social que possibilita a geração de renda, emprego e formação técnica; 5) Política pública: a inciativa pública pode auxiliar em detrimento dos resultados

obtidos com experiências apresentadas em trabalhos científicos realizados em universidades brasileiras.

Dentre as possibilidades de discussão sobre Economia Solidária, nesta pesquisa foi observada e discutida enquanto tecnologia social, permitindo a geração de renda e emprego em um empreendimento.

De acordo com Dagnino (2014) a Economia Solidária é a ―ponta da lança‖, pois combina dois processos econômicos, o Socialista e o Capitalista, e apresenta um ―estilo alternativo de desenvolvimento‖, porque de um lado questiona o modelo econômico capitalista, embora esteja se relacionando com ele, produzindo bens e serviços, porém de forma autogestionária e menos formal. Por outro lado, guarda traços do Socialismo e da luta das classes trabalhadoras e menos favorecidas.

A Economia Solidária é uma das responsáveis pela promoção de empregos nos últimos anos, beneficiando 275 mil pessoas em 10.800 EESs desde 2007. Baseado nestes dados, o Plano Plurianual 2016-2019 vislumbra fortalecer mais 20 mil EESs e atingir mais 200 mil pessoas, permitindo o acesso à formação técnica, créditos coletivos baseados na sustentabilidade econômica e ambiental (BRASIL, 2015a).

De acordo com o Sistema de Informações em Economia Solidária – SIES (2013) dos 19.708 EES cadastrados, seus associados se dividem na maioria em agricultores familiares, artesãos, artistas, assentados da Reforma Agrária, catadores de materiais recicláveis, garimpeiros e mineiros, técnicos e profissionais de nível superior, desempregados e autônomos, como mostra a Tabela 3.

Tabela 3 - Distribuição das categorias dos associados dos EES cadastrados no SIES

Reg o Ag ricult ore s fa mil ia re s Art esã os Art is ta s Ass ent ado s da Ref orma Ag ria Ca ta do re s de ma ter ia is re ciclá veis G ari mp eiro s e min eiro s T éc nico s e pro fis sio na is de nív el sup er io r O utr os tra ba lha do re s autô no mes / po r co nta pró pria Desempreg ado s (des ocupa do s) Centro- oeste 956 428 33 284 34 4 13 97 22 Nordeste 5.687 844 80 382 60 11 56 350 213 Norte 1.633 566 30 148 28 3 34 308 122 Sudeste 913 1.049 61 131 325 1 48 259 159 Sul 1.710 647 21 88 159 1 43 247 161 Total 10.899 3.534 225 1.033 606 20 194 1.261 677 Fonte: SIES (2014)

A gestão do Empreendimento da Economia Solidária que trabalha com Agricultura Familiar deve ser horizontalizada, ou seja, o mais democrática e participativa possível, pois todos os membros têm direito de manifestar suas opiniões , fortalecendo o arranjo socioprodutivo (MANCE, 2005). Assim é possível reconhecer os

EESs que trabalham com artesanato em bambu, que é uma matéria prima de baixo custo, seguindo as premissas que do capital adquirido, como elucida Singer (2002) ―parte é destinada aos reinvestimentos e o restante é dividido entre os trabalhadores da empresa‖ e a gestão é realizada horizontalmente entre os mesmos.

Para a Economia Solidária também há que se considerar a cadeia produtiva na qual um empreendimento está inserido, pois ele se relaciona com o mercado mesmo que sua gestão interna e apresente um conceito de desenvolvimento alternativo. Assim o empreendimento se relaciona com um fornecedor de insumos, que pode ou não ser outro EES; como um estabelecimento comercial ou diretamente com o consumidor final, como mostra a Figura 11. Toda essa relação é influenciada pelos Ambiente Organizacional e Institucional (MANCE, 2005).

Figura 11 - Cadeia Produtiva da Economia Solidária no Brasil

Fonte: da autora

O Ambiente Organizacional de um EES é formado por atores que regulamentam e incentivam o setor, estimulando o desenvolvimento e a disseminação de informações, como o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), atual Ministério do Trabalho e da Previdência Social (MTPS) por meio da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), além de Secretarias Estaduais e Municipais, Redes de Economia Solidária, que auxiliam no intercâmbio entre os EES; as Redes e fóruns de discussão, que facilitam na troca de informações e promovem eventos, as Incubadoras Universitárias de Cooperativas Populares (INCOOPs) que propiciam o intercâmbio de conhecimentos entre academia e EES, entre outros.

O Ambiente Institucional é composto pela viabilização da atuação dos EESs por meio de Leis, Políticas Públicas via Certificações, como o Selo da Economia Solidária pelo Sistema Nacional de Comércio Justo e Solidário (SNCJS); e Linhas de Crédito e

Financiamento pelos Bancos do Povo, Bancos Comunitários e Cartões de crédito solidário.

As certificações dos EESs podem ser realizadas pelo SNCJS, que é responsável pela organização dos parâmetros das relações comerciais e normas da Cadeia produtiva da Economia Solidária para fortalecimento dos EESs (BRASIL, 2015b). Assim, o empreendimento deve se formalizar e se filiar para ter acesso ao monitoramento e assessoria que este órgão disponibiliza.

Os atores da Cadeia Produtiva da Economia Solidária são os fornecedores de insumos, EESs, Cooperativas, Estabelecimentos comerciais, feiras, consumidor final, dentre outros que possam permear as relações existentes entre um ator e outro. O Quadro 4 ilustra a síntese desta cadeia produtiva no Brasil.

Quadro 4 - Síntese dos atores e ambientes da cadeia produtiva da Economia Solidária

no Brasil

Ambiente Organização Função

Ambiente Organizacional

SENAES - MTPS;

Secretarias e/ou Departamentos Estaduais e Municipais;

Organização a atuação dos EES Redes de Economia Solidária Reinvestimentos coletivos

Redes e fóruns de discussão Discutir as situações da Economia Solidária, fornecer informações sobre EESs e suas áreas de atuação, como o Farejador da Economia Solidária, Solidarius e o Fórum Brasileiro de Economia Solidária.

INCOOPs Favorecer a criação e formalização de EES

Ambiente Institucional

Leis e Políticas Públicas Programa Nacional de Incubadoras de Cooperativas Populares (PRONINC); Programa Nacional de Associativismo e Cooperativismo Social (PRONACOOP Social);

Projetos de Lei: PL 4685/2012, Projeto de Lei do Senado (PLS) 03/2007, PL 3723/2008 e Projeto de Lei e outras Proposições (PLP) 286/2008.

Certificações Selo da Economia Solidária;

Sistema Participativo de Certificação por meio do SNCJS

Linhas de crédito:

Fundos de Desenvolvimento Solidário, que financia: - Bancos Comunitários; - Banco do Povo; - Cartões de crédito solidário;

Continuação do Quadro 4.

Ambiente Organização Função

Atores da Cadeia Produtiva da Economia Solidária

Fornecedores de insumos (pode ou

não ser outros EES) Fornecimento de matérias-prima e/ou equipamentos EES ou Cooperativa Promover o desenvolvimento, geração de renda, reduzir a pobreza, acesso ao trabalho Estabelecimentos comerciais Comercializar os produtos do EES

Feiras de Economia Solidária

Consumidor final Aquisição dos produtos do EES

Fonte: da autora

Cada EES pode fazer parte de uma ou mais cadeias produtivas, entretanto é necessário analisar em qual setor é mais atuante, permitindo assim, o acesso a várias informações relacionadas aos Ambientes Organizacional e Institucional. No caso de uma EES que trabalha com Agricultura Familiar e produtos em bambu, deve estar inserido no contexto de ambos os setores para acessar melhores oportunidades de manutenção e desenvolvimento do empreendimento, além de entrever oportunidades estratégicas de mercado.

Benzer Belgeler