No “Bosquejo da Historia da Poesia Brasileira”, que Joaquim Norberto de Souza e Silva escreveu para suas Modulações Poéticas dedicadas ao Januário da Cunha Barbosa, há um esboço de fases ou épocas da história da poesia e
1 MALHEIRO, Agostinho Marques Perdigão. A Escravidão no Brasil. Ensaio histórico-jurídico- social. Parte 2ª. (Índios). Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1867, p. 10.
literatura brasileiras.2 Animado de um patriotismo sem modéstias, Souza e Silva explicou o estabelecimento da poesia nacional fundamentado no processo de uma história que contrapunha, de um lado, protagonistas brasileiros - que constituiriam o povo “mais digno da veneração dos estrangeiros” entre os povos americanos, e de outro, os antagonistas portugueses enquanto tiranos opressores.3
O tempo da narrativa de Joaquim Norberto Souza e Silva acerca do surgimento da literatura local organiza-se em uma periodização de seis fases. Sua primeira época vai do descobrimento até fins do século XVII: durante a “infância” do Brasil, dizia, evocando “a bella expressão do historiographo brasileiro Rochapitta”, que os colonizadores heroicamente teriam conquistado, dizia, palmo a palmo as terras dos indígenas possuidores do país, enquanto que os jesuítas, “com o estandarte da civilisação e emblema da Redenção do mundo, chamaram ao grêmio da Religião Christan tantos milhares de Brasileiros que [...] viviam nas trevas da ignorância e do paganismo”.4 A segunda época marcaria um amadurecimento ainda tímido das letras entre o início e meados do século XVIII, porém, observa que nessa fase “o Brasil viu a sua historia narrada por um filho de suas mattas”, por meio de genealogias e necrologias de fidalgos e descrições de festividades produzidas na Academia Brasílica dos Esquecidos.5 Demarcada pela segunda metade do século XVIII, sua terceira época teria sido o período em que “tudo progrediu sobre a influencia do magnanimo marquez de Pombal”, quando o Brasil, “já mais adiantado na carreira da civilisacao”, foi agraciado com fundação de várias associações literárias, como a Arcádia Ultramarina: “epocha foi esta de esplendor e gloria para uma colonia, cujos filhos celebraram os esforços de seus compatriotas,
2 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Bosquejo da Historia da Poesia Brasileira. In: ___. Modulações Poéticas. Rio de Janeiro: Typographia Franceza, 1841, p. 10.
Na linhagem da poesia, há também os dois tomos do poema épico em que Antonio Gonsalves Teixeira de Souza conta, em doze cantos, a sua história da independência do Brasil para exaltar a monarquia e sua família real pelo feito heróico da emancipação política do país em busca da riqueza, progresso e civilização. Ver SOUZA, Antonio Gonsalves Teixeira de. A Independencia do Brasil. Tomo I. Rio de Janeiro: Typ. Imparcial de Francisco de Paula Brito, 1847; SOUZA, Antonio Gonsalves Teixeira de. A Independencia do Brasil. Tomo II. Rio de Janeiro: Typ. Imparcial de Francisco de Paula Brito, 1855, p. 340.
3 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Op. cit., 1841, p. 15-16. 4 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Op. cit., 1841, p. 21. 5 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Op. cit., 1841, p. 25-26.
suas acçoens de heroísmo ao som da braga do captiveiro”, época que terminou com a morte de D. José I e a consequente queda de Pombal, pois, com a saída do ministro, narra, “os litteratos brasileiros foram perseguidos e suas associaçoens aniquiladas”.6 Além disso, Joaquim Norberto Souza e Silva destaca orgulhosamente que, também nesse terceiro período, se formou uma sociedade política na então Villa Rica contra a tirania e em prol da independência nacional. A quarta época é demarcada entre o início do século XIX até a proclamação da independência, quando “grandes poetas appareceram” e conseguiram vislumbrar “o facho de nossa liberdade, independência e gloria” através da “treva da tyrania”.7 A quinta época inaugura- se com a proclamação da independência e vai até o que Joaquim Norberto chamou de “reforma da poesia”, a qual, segundo ele, diz respeito a “uma nova epocha de gloria, explendor e prosperidade” trazida pela independência e que teria causado uma abertura para o campo da “patria litteratura”:
Com a luz que derrama o pharol de nossa liberdade La se esvaecem as trevas da torva ignorância; diffundem-se per todos os ângulos do nascente império as sciencias, as artes e as lettras; e em tempos de tanto enthusiasmo, - passados tempos, que não mais veremos! – a poesia se elevou para celebrar os feitos gloriosos dos defensores da patria e cantar a independencia da nação, proclamada nos saudaveis campos do Ypiranga per um príncipe magnânimo, que trocara o solio dos Affonsos pelo throno americano.8
Ainda em paralelo ao eixo de historicização da constituição do país, de sua independência política e civilização, a sexta época histórica da literatura, segundo Joaquim Norberto, seria o presente no qual a “reforma da poesia” estaria em incontestável vigor, um período caracterizado pela busca por uma inspiração mais nacional e menos europeia e no qual os protagonistas seriam destacadamente “o mestre” Domingos José Gonçalves de Magalhães e “o gênio” Manuel de Araújo Porto-Alegre. Conclui Joaquim Norberto de Souza e Silva que as épocas do passado e do presente da história do Brasil e de sua poesia apontam para um futuro glorioso: “O porvir! – Eis a esperança do Brasil!
6 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Op. cit., 1841, p. 29-30. 7 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Op. cit., 1841, p. 35. 8 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Op. cit., 1841, p. 41.
– Eis a epocha que vislumbra com brilho e magestade atravez de seu veo! – Que esse porvir se converta em esplendido presente!”.9
Nesse “bosquejo” de Joaquim Norberto Souza e Silva, a relação entre os períodos da história da poesia brasileira e da história do Brasil vai além de uma mera sincronia do tempo narrativo e revela uma única rede causal para os acontecimentos que demarcam e conduzem a historicização do Brasil e de sua literatura. Como resultado, a história do Brasil e a história da poesia brasileira foram estabelecidas por meio de uma mesma estrutura narrativa, considerando que se trata de uma mesma prática discursiva de construção historiográfica do Brasil.
Ademais, pode-se dizer que a compreensão de história do Brasil compartilhada por Joaquim Norberto de Souza e Silva largamente se estrutura ao redor da noção de civilização. Em Brasileiras Celebres, obra de 1862 que reúne biografias laudatórias de mulheres - justificava-a, dizia, "pelas suas provas de amor da patria, pelos seus rasgos de desinteresse, pelos seus exemplos de virtude, pelos seus actos de piedade e religião, pelas suas producções artisticas literarias ou scientificas"10 - , há uma "Introducção Historica" em que é possível observar uma concepção de história enquanto uma narrativa épica do Brasil que enumera na passagem do tempo feitos que teriam encaminhado o país em direção à autonomia enquanto estado e civilização de molde europeu:
Nação de hontem, o Brasil ja escreve a sua historia, ja tem os seus heroes, que enumerão gloriosas batalhas, que apontão os logares de suas victorias; ja possue a sua litteratura, ao principio pallida cópia, depois elegante imitação, e por fim donosa originalidade; ja conta seis artistas, de não pequena nomeada; ja mostra seus homens scientificos com sua reputação européa; já apresenta uma triplice pleade de oradores que honrão o pulpito, que ennobrecem a tribuna parlamentar, abrilhantão a cadeira judiciaria; ja se honra de seus estadistas; ja se gloria de ver as suas princezas adornando o solio das côrtes da velha Europa; ja aponta para seus edificios monumentaes, dignos das primeiras capitaes de reinos seculares, e em breve terá seus monumentos historicos como as estatuas equestres de seus imperadores, como a columna gigantesca de sua independencia, como a cruz collossal de seu descobrimento, como os bustos marmoreos de
9 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Op. cit., 1841, p. 55-56.
10 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Brasileiras Celebres. Rio de Janeiro: Livraria de B. L. Garnier, 1862, p. 62.
suas celebridades, e pois não serão menos condignas de memoria as Brasileiras que se tem distinguido ou se tem tornado celebres.11
Além de conceber a história enquanto narrativa épica, a fala de Souza e Silva regularmente recorre à noção de civilização para dar conta da transição do Brasil entre as fases de colônia, de reino e de império. Isto está evidente, entre outros possíveis exemplos, quando Souza e Silva comemora que, no Brasil, a "fertilidade do solo juncta-se a riqueza mineral", e que as "arriscadas e celebres pesquizas para a descoberta do ouro e dos diamantes" do passado juntavam-se no presente às "tentativas das exploraçòes do ferro e do carvão de pedra", atividades das quais, dizia, "espera o imperio tantos progressos na senda da civilização e dos melhoramentos materiais".12 Isto é dito no início da "Introdução" como uma expectativa a ser realizada, como uma projeção do que é almejado, mas, no entanto, isto também é posteriormente reiterado no texto de Souza e Silva como obra parcialmente já realizada e concluída ao tratar da ocupação da terra pela empresa colonizadora portuguesa na época da Maria I: "o Brasil havia avançado na senda do progresso, graças á fertilidade de seu solo e ás riquezas de suas minas auriferas e diamantinas", e como resultado, explicava, impôs-se a necessidade da armada portuguesa "proteger o seu commercio, acompanhando as suas frotas alem do Atlantico, e as alfandegas extrangeiras recebião as producções brasileiras".13 O contexto desta fala de Souza e Silva é que, em sua concepção, tratava-se de fazer justiça com os agentes da civilização e do progresso do Brasil e lhes pagar tributo com uma menção honrosa na história do país.
Assim, a "Introducção Historica" de Souza e Silva faz da noção de civilização o fiel da balança para selecionar e narrar quais teriam sido os feitos épicos de uma história do Brasil, cuja direção e trajetória alinham-se ao processo da conquista da automia do país e cujos passos são contados enquanto avanços da civilização, do progresso e do desenvolvimento. Entre tais feitos se destacariam, em seus termos, aqueles pertencentes ao "nosso grande
11 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Introducção Historica. A Colonia - O Reino - O Imperio In:___. Op. cit., 1862, p. 1-2.
12 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Introducção Historica. A Colonia - O Reino - O Imperio In:___. Op. cit.,, 1862, p. 9.
13 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Introducção Historica. A Colonia - O Reino - O Imperio In:___. Op. cit., 1862, p. 33-34.
seculo tão cheio de extraordinarios acontecimentos", o século XIX. Souza e Silva conta que "o governo do principe regente D. João VI abriu ao Brasil uma nova era de prosperidade, de riqueza e de liberdade", e que suas iniciativas no país, como a da abertura dos portos, teriam começado "a independencia da patria, que dava o seu primeiro passo na senda da civilização e do progresso".14
Souza e Silva também compreende que "a proclamação da maioridade de S.M.I. o Senhor D. Pedro II trouze a paz ao imperio", porque atuou como agente civilizador ao conciliar partidos em disputa e criando um consenso dedicado ao Brasil, "ao seus melhoramento e progresso material e moral". De fato, as falas de elogio à D. Pedro II regularmente lhe atribuem a figura de agente civilizador, como no enunciado que diz que o "throno constitucional do esclarecido monarcha" promoveu um incremento "á colonização, que vae abrindo novos nucleos de povoações, novas cidades, novas provincias, e a catechese pacifica dos Indios" e isto, por sua vez, estabeleceu a "civilização e prosperidade d'esta bella e bem fadada parte do novo mundo". Em suas palavras, a "proclamação da maioridade do Senhor D. Pedro II" fez o país avançar rumo ao progresso e ao desenvolvimento:
Ainda ha pouco os politicos e publicistas dizião do alto da tribuna parlamentar, ou nas paginas da imprensa com os olhos fitos no futuro: "Tudo no Brasil está ainda por fazer-se!" e ja hoje o engrandecimento do paiz repelle essa proposição, ou condemna-a por vaga: os melhoramentos pullulão; o vapor rompe a corrente de soberbos rios oceanicos e leva a navegação aos confins do imperio; o vagão penetra a sombra das florestas e vara a noute dos tunneis, arrastado pelo cavallo dynamico, e o fio electrico transmitte a palavra da civilização através das aldeias dos barbaros Indianos.15
Souza e Silva dizia ainda que o estabelecimento de cidades faz com que a "luz da instrucção" fosse derramada sobre "a cabeça bella e intelligente da juventude" do país, "esse gigante do porvir, como a chama o poeta nacional".16
A recorrência das noções de civilização, de progresso e de desenvolvimento é observável também na Historia da Conjuração Mineira, de
14 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Introducção Historica. A Colonia - O Reino - O Imperio In:___. Op. cit., 1862, p. 36-38.
15 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Introducção Historica. A Colonia - O Reino - O Imperio In:___. Op. cit., 1862, p. 49-51.
16 SOUZA E SILVA, Joaquim Norberto de. Introducção Historica. A Colonia - O Reino - O Imperio In:___. Op. cit., 1862, p. 51.
1873, na qual Souza e Silva dizia, por exemplo, - para ilustrar o contato de brasileiros setecentistas em busca da independência com Thomas Jefferson - que "a mocidade brasileira" ambicionava "uma existencia mais activa, mais sua, mais nacional", e que por isso "via com dôr o retardamento do progresso da patria" e, ao retornar da Europa para a colônia, "suspirava pela liberdade, pelas dilicias da civilisação".17
Dessa maneira, a julgar pelas regularidades identificadas em seus enunciados, a concepção de história do Brasil compartilhada por Souza e Silva se fundamenta em uma narrativa épica de feitos memoráveis que estabeleceram no passado e que ainda estabeleciam no presente de seu tempo a civilização, o progresso e o desenvolvimento, além de projetá-los também enquanto obra para o futuro do país.
3.2 O sentido do Brasil no compêndio da história de Abreu e Lima