Se a natureza não é indeterminada em sua dinâmica, em sua ordem, em sua necessidade, em sua mutação e em seus correspondentes propósitos interiores, bem como os seus objetos que lhe são exteriores e também se sujeitam à sua determinação de meio a fim, já devidamente expostos, de sorte que da sua imanência irrompe uma consciência manifestante de ânimo interior, na sua organicidade total, em cujo vórtice se interioriza a dinâmica ordenada da mobilidade, da mutação, para dentro do homem, nele, agora, no homem.
Na consciência interiorizada, conjunciona-se e apresenta-se sua vontade livre determinante, manifestante do todo da sua multiplicidade fenomênica, que, por sua consciência, manifesta-se na vontade e objetiva-se exteriormente nos objetos. A dinâmica ordem total dos fenômenos interiores centrados no ânimo, que, por sua vez, manifestam-se e realizam-se também no homem como fenômeno na forma do pensamento, no impulso da forma, da manifestante razão. Nela a razão, a alma, o espírito, o pensamento, o pensar e o sentir materializando-se nos princípios interiores da consciência, da vontade e do querer que, por sua vez, fundam as naturezas humanas nos sentimentos e na racionalidade.
Objetiva-se racionalmente sua vontade livre no mundo da determinação de princípios, limites, intervenção e conformação de objetos. Abre-se, desponta na obra edificada da consciência. O pensamento, manifestante razão, faz-se conjunção negativa interior e conexão positiva exterior; e o ânimo, na qualidade de balança, indica a medida da conduta e a condição do sentido pela lei moral como determinante para além da materialidade, pela lei e pela arte, a saber, para fora do mundo dos fenômenos em direção ao mundo das idéias, do que é condicionado para o que não se encontra submetido a condições, mas aberto em devir ao fazer. Desse modo, o ânimo aparece apresentado pela natureza, ela fornece o modelo. Assim é a chama do homem na sua determinabilidade dinâmica racional, existencial e estética. Para Schiller, a natureza é o modelo a seguir.
A natureza, em seu todo, age racionalmente, de sorte que, no homem, natureza, sensibilidade e razão se determinam pela forma do demiurgo de suas expressões espirituais. No correlato da determinação natural e sensível da natureza da razão, o espírito se mostra e apresenta a direção já indicada. “Já pelo fato de a natureza o ter tornado num ser racional e sensível, i. e., em homem, ela anunciou-lhe a obrigação de não separar o que ela juntou, não deixando para trás a parte sensível mesmo nas mais puras expressões da sua parte divina, nem baseando o triunfo de uma na opressão de outra” (TBST: 121).
Ocorre que da dinâmica e da mobilidade da natureza ao homem, todos os seus objetos lhes são fins e, reciprocamente, também são meios interiores e exteriores das realizações de seus atos de permanência na totalidade, nos seus impulsos geradores da multiplicidade manifestantes na objetualidade. Nessa conjunção, necessária, correspondente e determinante, a eficiência de cada um dos impulsos geradores funda e limita o outro, tanto na multiplicidade sensível como na forma. A natureza em ato exige modificação no seu impulso de vida; e a forma da vida não exige a modificação, mas a forma exige a permanência, a imutabilidade, ou seja, o impulso formal. Ambos os impulsos, sensível e formal, estão em campos opostos.
No entanto, o impulso sensível não exige que a modificação se estenda aos objetos e seus afazeres, e o impulso formal não é reclamante da unidade das sensações; o que possibilita a tarefa da autonomia e da determinação da natureza no homem; e, nele, o impulso formal realiza-se na interioridade do seu pensamento, e, igualmente, no seu ânimo entre o sentir e o pensar, livres e em busca de determinabilidade, criação e intervenção em correlato com a determinabilidade disposta pela mão da natureza.
A ordenação da natureza, por sua vez, submete aos seus fins e à conformidade todos os objetos da sua geração. Como um poder supremo os sujeita em sua interioridade, dinâmica, mutacional, pulsional, ora de modo passivo, ora de modo ativo, ou as duas funções conjuntamente. Contudo, todos a realizam de forma e de modo incondicionais, disponíveis nas funções legadas dos impulsos e na originalidade recíproca; elas realizam meio e fim, concomitantemente.
Contudo, a natureza realiza-se por inteiro na sua bela criatura, o homem, em poder e força, dispostos em suas inclinações sensíveis e racionais, e ambas agem sobre o homem de forma necessária. A primeira, a inclinação sensível, faz do homem um ser de seus propósitos naturais, material, físico, temporal apenas um meio, e a segunda condiciona-lhe a conformidade aos fins dela (a natureza). Nele (no homem) brota o ânimo na razão, a sua natureza primeira (segunda no registro lógico), subsumindo-o como obra.
Contudo, o homem, a bela criatura da natureza, não se encontra em estado absoluto. Depende das disposições recebidas em depósito e impressas no ânimo, temporalmente dependente das forças da natureza e da natureza das forças e das formas da razão, sua primeira (segunda) natureza. Pela mão da natureza e da razão, o homem separa-se do reino das inclinações como também dos objetos, quer pela contemplação, quer pela observação. Nesses modos edifica a sua interioridade pela intuição, pela percepção, pela dedução e pela cognição; e na possibilidade de intervenção alcança domínio sobre a matéria. Nesse ato primeiro deslumbra no seu ânimo o reino da idéia, forma, lei, princípios e liberdade, ao que lhe faculta lançar-se ao infinito em tarefa autônoma, dinâmica, determinante, ordenante a par da sábia natureza, na conquista da razão, sem que antes a natureza lhe dispusesse o estado estético em alimento à razão, esta apresenta-lhe o fim último, a conformidade afins da direção da liberdade.
E, mais, contemplado pela razão e pelo sentimento estético, o homem vê que a natureza sofre violência dada a sua falta de individualidade. Notadamente a natureza age sobre o ser humano como uma força, um poder, e, no entanto, a possibilidade de intervenção
do homem faz dele um demiurgo, um interventor. Tal facilidade lhe é facultada pela sua individualidade disposta pelos princípios naturais, imanentes no homem, na parte que lhe toca pelo destino, o poder de resistir e intervir na esfera exterior, porém, no âmbito moral.
Precisamente na esfera interior, são-lhes facultadas a força de intervenção e a resistência frente a si e ao instinto, e isto lança-o ao acaso e à autonomia e lhe abre a faculdade de agir livremente. “Só a resistência pode tornar visível a força. Daqui resulta que a consciência suprema da nossa natureza moral só pode ser conservada num estado violento, na luta e que o supremo prazer moral será sempre acompanhado de dor” (TBST: 31), (estado dorido e consciente) que separa inequivocamente o homem do animal. O homem se faz contraditório ao superar a dor no plano sensual, embora inicie pela sensação do prazer ou da dor, recepcionado pelos sentidos na imersão exterior. Se sentir compaixão pelo outro na esfera interior, nesse ato inicia o aparecer do humano?
Denominamos essas forças, do plano sensual, de determinações necessárias e permanentes que não se submetem ao poder e à força do homem, são as “sensações, os impulsos, os afetos, as paixões, assim como a necessidade física e o destino” (TBST: 31). Tais forças submetem o homem de modo irrevogável. Em contrapartida, as forças naturais sensíveis, na sua exterioridade, agem na interioridade do homem de modo racional. Ao senti- las, a razão ordena, avisa, como “um dever anterior, uma vez que os sentidos já terão julgados antes que o entendimento inicie a sua tarefa” (TBST: 106). Nesse vórtice matricial da natureza sensível e racional, o ânimo humano é pleno e submisso, porém unitário e indeterminado e pode determinar-se.
E assim: “No prazer físico ou sensível, em que a alma é submetida a uma necessidade natural cega e a sensação se sucede diretamente à causa física” (TBST: 29), essas forças, formas da totalidade, não se encontram, necessariamente, sob a legislação superior da razão. Entretanto, a razão concede ao homem uma determinação superior na multiplicidade, ao despertar a consciência, a vontade e o querer em oposição à natureza sensível. Ele movimenta o ânimo para fora do âmbito condicionado e o coloca em ação na direção da autonomia e liberdade no mundo, conquanto homem que sente a própria determinação.
E, concomitantemente, a razão liga, conecta, relaciona, modifica a conformidade a fins da dinâmica ordem primeira, a natureza, no que deve ser em segunda ordem. No entanto, a natureza é carente de individualidade e não de totalidade. A individualidade é manifesta no ato do pensamento do homem, na lida das formas diversificantes, capitaneada pela razão. A razão visa a suprir a carência e a separação exterior numa interioridade a ser delimitada.
A natureza oferece as indicações na dinâmica da mobilidade exterior e manifesta na interioridade. Esta, a natureza, apresenta-se na lei moral que une o todo para além dos sentidos, guiada pela lei do sentir e do pensar comandada pela vontade. O homem da razão não é deus, nem animal, mas contém a parte animal em si. É um ser finito que se defronta com os limites da existência e está submetido ao domínio da lei na multiplicidade e nos impulsos. No homem, a coerção da idéia interiorizada eleva-o da parte ao todo. Já aos animais a interioridade é realizado pelo instinto, pois eles são carentes da razão. No homem, forças e formas movimentam-se na sua natureza conduzida por inclinações e princípios. A existência humana
funda-se na nossa natureza racional e numa necessidade interior. Ela é a que nos está mais próxima, a mais importante e em simultâneo a mais facilmente reconhecível, porque não é determinada por nada exterior, mas por um princípio interior da nossa razão. Ela é o paládio da nossa liberdade (TBST: 31).
A determinação e a determinabilidade passiva e ativa entre outros estados têm por meta a liberdade e é onde inicia a argumentação do método estético de Schiller.