• Sonuç bulunamadı

KAVRAMSAL ÇERÇEVE

2.3. Buluş Yoluyla Öğretim Kuramı

Em nossa pesquisa temos fontes de diferentes origens. Buscamos dar aos/as leitores/as da tese uma visão bastante abrangente dos elementos que emergiram nas entrevistas. A entrevista surge como uma possibilidade dialógica entre pesquisador e entrevistadas que juntos constroem textos que serão analisados como discursos. Por isso nossa preferência por apresentar trechos maiores de entrevista, inclusive alguns deles com nossas intervenções, pois consideramos que a entrevista deve ser pensada próxima às considerações de Mendes (2003):

A entrevista como situação interaccional estrutura-se sempre de várias formas. Daí que a distinção entre entrevista estrutura ou não estruturada perca parte de sua pertinência (Collins, 1998: 13). Deve-se é estar atento às definições e relações de poder, às inflexões discursivas e irrupção do imprevisto. Numa situação de entrevista, o entrevistado, mais do que comunicar ou partilhar significados, pode estar negociando suas identidades, arrastando nesse processo o entrevistador e obrigando esse negociar, alterar ou sublimar suas identidades. Ninguém, para o bem e para o mal, sai incólume de uma entrevista. E é nessa riqueza dialógica, nessa polifonia de vozes presentes e ausentes, que jaz toda a riqueza das entrevistas, mais do que numa busca distante e objectiva de fatos ocorridos (p. 10)

Na análise das entrevistas identificamos nossas colocações e das entrevistadas quando as citações envolveram mais de um turno, quando não, fizemos apenas a referência ao final da citação. Todas foram gravadas em áudio digital e transcridas resultando em um caderno de entrevistas. As citações deste serão compostas na tese pelo nome da professora, o/s número/s do/s quadrante/s da tabulação do caderno de entrevistas, seguido/s pelo ano em que ocorreu a entrevista. Os quadrantes são turnos de conversação do entrevistador e das entrevistadas. Nas citações das entrevistas as reticências indicam que a citação é apenas parte de um quadrante, também utilizamos essa pontuação para indicar a interrupção do pensamento de quem fala.

As entrevistas possuíam um roteiro aberto; nosso foco foram os relatos da trajetória de cada professora trans, mas não como sujeito que poderia revelar qualquer essência de si, pois reiteramos que nossa compreensão das categorias sujeito e coletivo não pode ser analisada como se fossem estáticas ou autônomas uma da outra. Essa compreensão indica o modo como pensamos a constituição dos discursos das professoras trans, ou seja, nos coletivos onde elas existem, nas teias de interdependências em que a subjetividade passa a ser constituída nas linguagens acessadas por esses discursos. Com elas decidimos que as que desejassem serem identificadas teriam seus nomes divulgados na pesquisa.

Entendemos cada entrevista como um discurso que vai além dos fatos narrados; ela também é uma busca de cada entrevistada se constituir diante de um pesquisador. Quando do contato com as entrevistadas, afirmamos que procurávamos professoras trans para entrevistas, elas demonstraram uma grande satisfação e de imediato narravam muitas histórias. Aos

poucos analisamos que a construção do objeto de nossa pesquisa era em si um reconhecimento público das professoras. Três delas me procuraram pouco antes da entrevista e uma de suas colocações ilustra a percepção que tinham das entrevistas, ela comentou: “ninguém acredita que somos gente que presta para alguma coisa, agora vai ficar tudo cientificamente registrado, que nós também somos gente, vou esfregar na cara de muitos na escola a sua pesquisa”. Esse comentário foi feito fora das entrevistas por Amaryllis, uma das entrevistadas. Ao longo da tese apresentaremos partes das entrevistas e introduziremos os argumentos que defendem a legitimidade dessas professoras como propiciadoras de uma educação que se coloca contra os mecanismos de humilhação, subalternização e exclusão de sexualidades. A seguir segue um quadro que identifica nossas entrevistadas.

QUADRO 1

DADOS DAS ENTREVISTAS COM PROFESSORAS TRANS Professoras

entrevistadas Localização Professora da Entrevistas Data Local Nº de palavras 1 Marina Reidel Canoas-Porto

Alegre/RS Entrevista 1 Entrevista 2, 3 Entrevista 4 Entrevista 7 01/08/2010 Canoas/RS 01/08/2010 Canoas/RS 02/08/2010 Canoas/RS 07/08/2010 Porto Alegre/RS 48.870

2 Milena Foz do Iguaçu/PR Entrevista 1 21/09/2010 Pinhões/PR 8.730 3 Amaryllis (nome da cidade/estado) Região Sul do Brasil Entrevista 1 dia/mês/2010 (nome da cidade/estado) 19.198

4 Andreia Curitiba/PR Entrevista 1 17/11/2010 (tarde) Aracaju/SE

6.719

5 Adriana Sales Cuiabá/MT Entrevista 1 17/11/2010 (noite) Aracaju/SE

7.141

6 Adriana Lohana Aquidabã/SE Entrevista 1 18/11/2010 Aracaju/SE

13.068

7 Fayla Jequitinhonha/MG Entrevista 1 08/08/2011 Belo Horizonte/MG

9.763

O QUADRO 1 também indica a ordem cronológica das entrevistas, além do local de origem e o número de entrevistas com cada professora. Indicamos o número de palavras em cada entrevista para que torne perceptível o volume dos dados e a diferença dos conteúdos de cada entrevista. A entrevista de cada professora possui elementos discursivos em comum, o que não pode ser tomado como uma generalização; também apresenta especificidades e formulações conduzidas pelos nossos interesses e relacionadas à disponibilidade de cada professora no momento da entrevista. Os elementos discursivos indicam como uma ambiência social de emancipação das emoções na contemporaneidade permite um maior gradiente de informalização nas interdependências sociais. O uso do nome social é um desses elementos que passa a tomar a pauta dos discursos das políticas de direitos humanos em documetos que

analisamos, conforme o discurso das professoras entrevistadas. Depois de Marina localizamos outras trans que exerciam a função de professora e algumas que atuavam em organizações não governamentais como educadoras sociais.

Durante a pesquisa de campo, encontramos um número bastante reduzido de professoras trans e geralmente elas residiam em regiões muito distantes entre si. Na qualificação do projeto assumimos uma direção mais específica à pesquisa: focar apenas professoras trans que atuavam na educação formal. Após um levantamento bibliográfico em alguns sítios eletrônicos de periódicos como Scielo e Capes acerca dessas professoras, nada de específico foi encontrado. Os termos utilizados na busca foram: professoras, escolas, educadoras, transexuais e travestis. Encontramos duas dissertações defendidas, uma que discutiu professores/as a partir das questões de gênero e sexualidade, não especificando as trans (Franco, 2009) e outra que analisou as trans na educação sem foco específico nas professoras (D. C. B. Santos, 2010). Nesse período localizamos alguns casos em jornais eletrônicos que relatavam questões acerca de professoras trans, como o caso das professoras Victória Bacon (Willy, 2009) e Lily McBeth (Community divided..., 2006) que travavam lutas para permanecerem na função docente; também localizamos a professora Bianca (Bittencourt, 2010) que não tinha os mesmos problemas, mas indicou algo sobre o reconhecimento do nome social, como já analisamos anteriormente. A seguir faremos uma apresentação sucinta de cada uma das entrevistadas e como chegamos a elas o que será mais aprofunado ao longo das análises.

Marina Reidel, na época da entrevista, estava com 40 anos aproximadamente, era formada em Artes, residia em Canoas e lecionava em Porto Alegre e Montenegro, cidadees do Rio Grande do Sul. Marina teve um maior destaque durante a tese devido ao seu papel em chamar nossa atenção para um objeto específico de pesquisa, pela construção da primeira entrevista e por seu projeto de constituição da rede de professoras trans. Ela se constituiu como a principal informante de nossa pesquisa por diversos motivos. Percebemos em nossos diálogos iniciais que Marina possuía uma desenvoltura para se mover entre os grupos participantes dos encontros articulados por movimentos sociais e setores da educação pública, ela conseguia argumentar em relação às questões das transexualidades e travestilidades de modo bastante reflexivo. Assim fizemos a proposta para entrevistá-la e ela foi extremamente solícita, inclusive sugeriu sua casa para nossa hospedagem e abriu a possibilidade para que pudéssemos acompanhá-la em suas atividades; também nos correspondemos por mensagens eletrônicas ainda por um ano aproximadamente.

Marina Reidel possuía boas relações com o movimento social de LGBT além de iniciar o projeto da rede de professoras trans e elaborar argumentos acerca da transcidadania, termo utilizado por ela. Durante o ano de 2009 aumentou nossa proximidade com Marina via mensagens eletrônicas, telefonemas e alguns encontros ocasionais, firmando entre nós uma relação de confiança. Em junho de 2010 participamos da I Mostra Nacional Programa Saúde na Escola e VI Mostra Nacional Saúde e Prevenção nas escolas, ocorrido no Distrito Federal. Esse encontro, promovido pelos Ministérios da Saúde e da Educação, foi direcionado para toda a educação básica do país. Éramos apresentadores do tema Orientação sexual e identidade de gênero: pela promoção dos direitos LGBT, juntamente com outras pessoas. Nossa indicação se deu pela participação que tínhamos no grupo de trabalho no Ministério da Educação (MEC) para acompanhar a implantação do Programa Brasil sem Homofobia e o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e dos Direitos Humanos de LGBT (Brasil, 2009a), (daqui por diante PNLGBT). Na ocasião indicamos o nome de Marina, pois consideramos que sua contribuição como professora trans era importante para se analisar a transfobia na escola.

Em agosto de 2010, em Canoas - uma cidade da grande Porto Alegre -, onde Marina residia, foi possível conviver uma semana com seu cotidiano. Nesse período nossas atividades foram: entrevistas com Marina, participação em suas atividades nas escolas e diálogos sobre a rede que começava a se articular. Os locais de trabalho visitados foram duas escolas, uma em Porto Alegre outra em Montenegro, cidade natal da entrevistada, nesta participamos de atividades dela na Fundação Municipal de Artes de Montenegro - FUNDARTE e num centro de saúde onde ela desenvolvia atividades com pacientes da saúde mental em um centro municipal de saúde que funciona na modalidade ambulatorial. Ela trabalhava com conteúdo da área de Artes nesses contextos observados, abarcando alunos de uma ampla faixa etária, desde crianças até idosos. Assim, participamos de suas atividades docentes e aos poucos delimitamos parte daquilo que seria nosso foco em outras entrevistas, isto é, como as professoras trans se constituem e permanecem nessa função. Com ela pudemos pensar as questões mais pertinentes e direcionar as entrevistas, pois não seria possível essa modalidade de convivência com todas as entrevistadas. Marina e Adriana Sales, até aquele momento, eram as que mais se articulavam com o movimento de LGBT, porém sempre de maneira crítica à posição ocupada pelas demandas de gays em detrimento das trans.

A professora Adriana Sales residia em Cuiabá, Mato Grosso, era formada em Letras, tinha uns 35 anos aproximadamente no período da entrevista que ocorreu no XVII Encontro Nacional de Travestis e Transexuais, cujo tema era A conquista da cidadania pelo fim da

transfobia, de 16 a 19 de novembro de 2010, em Aracaju, estado de Sergipe; nesse encontro também participavam Marina Reidel, Andreia e Adriana Lohana. Estabelecemos com ela um contato mais longo antes da entrevista, semelhante à Marina, pois a conhecemos no grupo de trabalho de que participávamos no MEC, ela era uma das representantes do movimento LGBT. Nós já havíamos estado juntos na ILGA LAC (Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersex da América Latina e Caribe) em fevereiro de 2010, na cidade de Curitiba, mas ela não havia sido identificada como professora; foi no grupo de trabalho do MEC que soube de sua profissão. Adriana possui uma relação com a escola que se destaca; sua rede de interdependências sociais possui uma vasta ligação com movimento social de LGBT e de trans especificamente, como a grupos que pautam a temática da diversidade na educação. Ligada à formação de professores/as em seu Estado, ela trabalha com as modalidades Educação de Jovens e Adultos (EJA), Educação Quilombola, Educação Especial, Educação Escolar Indígena e as diversidades etnorracial e sexual. No início daquele encontro em que entrevistamos Adriana, em Aracaju, ela informou-nos sobre a professora Andreia e Adriana Lohana, que estavam no encontro.

Percebemos que a análise de Adriana Sales acerca do movimento social e as posições que ela tomava eram bastante articuladas, inclusive ela demonstrava consciência das disputas dentro do próprio movimento de LGBT. Discutíamos com ela algumas questões da articulação trans durante os vários encontros que tivemos em Brasília, o que nos ajudou decisivamente a pensar a especificidade das travestis no processo social brasileiro, algo específico e irredutível à questão das transexualidades, mas não apartada destas. No discurso de Adriana ressalta sua articulação com o movimento social de LGBT, com a articulação de travestis e transexuais e com as políticas educacionais; na época da entrevista sua localização funcional que não se restringia mais à sala de aula, participando de outras instâncias da educação. Ela tem sua graduação em Letras pela Universidade Federal de Mato Grosso e leciona desde 1995, quando inicio de seu curso. Ela também fez pós-graduação em Cultura e Civilização Francesa, na França. Na época da entrvista ela trabalhava na Superintendência de Formação Profissional da Secretaria de Estado da Educação e a lecionava na graduação do curso de Pedagogia de uma faculdade privada. Em 2012 ela e Marina cursavam o mestrado e demonstravam um grande potencial para as análises a que elas propunham elaborar.

Com Adriana Lohana, Andreia, Milena e Amaryllis a convivência foi menor, cerca de quatro a cinco dias, pois as entrevistas ocorreram em encontros nos quais articulamos nossa participação para encontrá-las. Analisamos que esses espaços seriam interessantes, pois eram espaços das trans e/ou professoras/es discutindo a diversidade sexual, mas fora das escolas e

de suas rotinas, isso ajudaria no foco das entrevistas. Adriana Lohana e Andreia foram entrevistadas no XVII Encontro Nacional de Travestis e Transexuais ocorrido na cidade de Aracaju/SE, em novembro de 2010. Nesse encontro pudemos perceber que o termo transfobia ganhava densidade e analisamos que poderíamos entendê-lo de modo semelhante à homofobia, isto é, um dispositivo da heteronormatividade funcionando especificamente para constituir as trans como outsiders nas práticas sociais. Ainda que consideremos a consistência teórica do termo transfobia questionável, ele ganha em força política e recortes identitários entre os grupos que promoveram a ascensão dos direitos LGBT. As professoras entrevistadas utilizavam bastante esse termo, indicando como os textos, as práticas sociais e discursivas podem estar relacionadas à produção de sujeitos que desafiam os dispositivos da heteronormatividade.

Adriana Lohana tinha 23 anos na época da entrevista e estava próxima de conseguir a cirurgia no Rio de Janeiro pelo SUS. Ela graduou-se em Letras, pela Universidade de Tiradentes, em Sergipe e depois que se formou foi lecionar na escola que estudou no segundo grau. Quando entrevistamos Lohana ela cursava o 6º período de Serviço Social. Em seu discurso a escola surge como ambiente de fuga, lugar que sentia segurança em relação às questões da sexualidade. Por isso ela dizia permanecer na escola a maior parte do tempo possível. Adriana atuou durante apenas um ano na escola como professora, passando a atuar mais com educação popular, ela trabalhava na Rede Educação Cidadã que atua com Comunidades Quilombolas, Comunidades Sem Terra e em outros espaços não formais. Adriana Lohana, na época da entrevista, militava no Movimento Popular de Saúde e outros movimentos sociais, além da educação curricular. Em sua entrevista privilegiamos as percepções do discurso que se referem ao período que ela permaneceu na escola como professora, pois nosso foco são as professoras trans que atuam na rede de educação pública e formal.

Andreia, quando foi entrevistada, estava por volta dos 30 anos. Ela é formada em Estudo Social e História, com especialização em História da Arte e Metodologia de Ensino, há nove anos é professora no ensino público estadual (fundamental e médio), em Curitiba, estado do Paraná. Ela ingressou na educação com a identidade de gênero transexual, mas já possuía formação acadêmica. Na descrição de sua transformação iremos compreender que este foi gradual e acompanhado por profissionais da saúde.

Milena Branco e Amaryllis foram entrevistadas em outros contextos, encontros da educação pública que tratavam da diversidade sexual e/ou homofobia. Milena era de Foz do Iguaçu, Paraná, formada em Matemática e tinha 29 anos. Ela foi entrevistada no I Encontro

Estadual de Educação LGBT (Lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais) que foi realizado no Centro de Formação Continuada de Faxinal do Céu, município de Pinhão, estado do Paraná, entre os dias 20 e 24 de setembro de 2010. Este encontro foi promovido pelo Departamento da Diversidade, por meio do Núcleo de Gênero e Diversidade Sexual da Secretaria de Estado da Educação do Paraná. O grupo que trabalha com a diversidade sexual naquele Estado nos conhecia de outros encontros e Dayana Brunetto Carlin dos Santos, daquela secretaria, articulou nossa participação no encontro e informou-nos que lá estariam professoras trans. Na abertura, eu comentei acerca da pesquisa que desenvolvia e logo depois estabelecemos contato com várias educadoras sociais que eram trans; com a professora Milena dialogamos, estabelecemos um bom contato e ela concedeu a entrevista. Essa firmou em sua entrevista que gostava da educação, mas não se reconhecia totalmente satisfeita com a função de professora. Milena morava e trabalhava na cidade de Foz do Iguaçu, Paraná, salientou que se compreende como mulher, por isso não se identificava com o movimento de trans. Salientamos que a única professora que havia feito a cirurgia de adequação dos genitais à identidade de gênero era Amaryllis; as demais haviam realizado alguns procedimentos estéticos e/ou hormonais.

Também participamos de outros encontros semelhantes ao ocorrido no Paraná, nos seguintes estados: Maranhão, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo, sempre como indicação da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI13) devido a nossa presença no grupo de trabalho do MEC. Em um desses conhecemos Amaryllis, no encontro ela não se assumia publicamente como transexual e se definia como mulher, alguns organizadores do encontro mediaram nosso primeiro encontro. Amaryllis estava por volta de seus quarenta anos quando a entrevistamos e era formada em História. O discurso elaborado por ela trazia de modo constante a afirmação de sua feminilidade, o que indicava uma constituição identitária bastante colada à mulher heterossexual, ou simplesmente mulher. As demais, em um momento ou outro se afirmavam travestis e/ou queer. Inclusive ela não se sentia confortável com a autoidentificação de transexual, afirmando-se publicamente como mulher ou pseudo-hermafrodita, algo que analisaremos mais a frente. Em seu discurso, a infância pobre, a violência paterna e a perda da mãe durante a adolescência salientam sua experiência a partir de um contexto de vulnerabilidade social que se destacou em relação às outras professoras. Sempre as entrevistas foram marcadas depois de dois ou três dias de aproximação e diálogos, pois sentíamos que era

13 Em 2011 a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade (SECAD) foi fundida a outra e tornou-se Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI)

importante desenvolver relações de confiança mútua e a clarificação dos objetivos da pesquisa.

Desde 2010 soubemos da existência de várias outras professoras que ingressaram na rede articulada por Marina, também soube de outras pela mídia, como a professora Bianca (Bittencourt, 2010) e a professora Amanda, que está no documentário: Amanda e Monik (2007); no final de 2010 encontramos mais cinco professoras trans espanholas em um encontro em Madri; elas apresentavam uma mesa redonda na 1ª Semana de Diversidade Sexual, na Faculdade de Educação da Universidade Complutense de Madri. Naquele momento analisamos que os dados já eram suficientes, porém havia uma professora trans com quem estabelecemos contato e parecia uma pessoa muito interessante conforme os relatos de pesquisadores da UFMG que a conheceram pessoalmente. Assim chegamos a nossa última entrevistada, Fayla.

Nosso contato com Fayla foi via atividades do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania GLBT da UFMG (Nuh), em um programa de extensão. Em parceria com outros projetos, vários componentes do Nuh foram até a cidade de Jequitinhonha, na região do Vale de mesmo nome, em Minas Gerais, e lá conheceram Fayla, a quem eles identificaram como uma liderança LGBT naquela região. Fizemos vários contatos por telefone com Fayla e quando ela estava em Belo Horizonte para uma conferência estadual de saúde combinamos a realização da entrevista. Ela cursava Ciências Biológicas, estava com a idade de 20 anos aproximadamente e soube de nossa pesquisa pelos componentes do Nuh, senti uma grande

Benzer Belgeler