• Sonuç bulunamadı

Pode-se afirmar que o primeiro momento em que a lavagem de ativos foi substancialmente tratada num tratado de elevada relevância ocorreu na Convenção de Viena, no ano de 1988, cuja temática principal era o tráfico de substâncias entorpecentes e psicotrópicas, delito este responsável pelas primeiras grandes iniciativas que acabaram resultando no momento atual dos tratados internacionais sobre cooperação internacional em matéria penal. 74 Trata-se, também, do primeiro documento internacional no qual as partes se obrigaram a aprovar legislações internas que impusessem penas ao delito em comento. O texto

73 MORO, Sergio Fernando. Crime de lavagem de dinheiro. São Paulo: Saraiva, 2010. (e-book). 74 BADARÓ, Gustavo Henrique; BOTTINI, Pierpaolo Cruz. Lavagem de dinheiro: aspectos penais e

processuais penais: comentários à Lei 9.613/98, com alterações da Lei 12.683/2012. São Paulo: Ed. Revista dos Tribunais, 2012. p. 28.

dela resultante foi incorporado ao ordenamento jurídico brasileiro três anos mais tarde, por meio do Decreto 154/9175.

Acerca deste importante documento, Teresa Manso Porto destaca a percepção, já no ano de 1988, dos efeitos desestabilizadores que os rendimentos ilícitos derivados especificamente do narcotráfico acarretavam. Por isso, recomendou-se a tipificação de condutas como a conversão ou transferência de bens e valores provenientes do tráfico de drogas, bem como de atos que buscassem dificultar ou impedir a identificação ou localização destes ativos.76

Neste documento, que teve como importantes fontes o relatório da President's Comission on Organized Crime, datado de 1984, e o Money Laudering Control Act, de 1986, ambos de origem norte-americana, podem ser encontradas previsões como a da necessidade de uma ação coordenada e harmônica entre os Estados e aquela que registra a percepção da ligação entre o tráfico e outros delitos:

Conscientes de que o tráfico ilícito é fonte de rendimentos e fortunas consideráveis que permitem às organizações criminosas transnacionais invadir, contaminar e corromper as estruturas do Estado, as atividades comerciais e financeiras legítimas e a sociedade a todos os seus níveis.77

Diante disso, embora não use a terminologia “lavagem de ativos ilícitos”, o texto inegavelmente aborda o tema ao recomendar a criminalização, entre outras, das práticas de conversão ou transferência de bens ou valores oriundos do crime de tráfico de drogas, bem como das condutas tendentes à ocultação ou dissimulação da origem, localização, movimentação ou propriedade

75 BRASIL. Decreto n. 154 de 26 de Junho de 1991. Promulga a Convenção Contra o Tráfico Ilícito de

Entorpecentes e Substâncias Psicotrópicas. Diário Oficial da União, Poder Legislativo, Brasília,

27 jun. 1991. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/decreto/1990-1994/D0154.htm>. Acesso em: 29 abr. 2015.

76 MANSO PORTO, Teresa. El blanqueo de capitales entre la dogmática y la política criminal

internacional: resultados desde una perspectiva de derecho comparado. Estudios Penales y Criminológicos, Santiago de Compostela, v. 31, p. 305-324, 2011. Disponível em:

<http://dspace.usc.es/bitstream/10347/7320/1/307-326.pdf>. Acesso em: 13 ago. 2015.

77 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção das Nações Unidas Contra o Tráfico

Ilícito de Estupefacientes e de Substâncias Psicotrópicas. Viena, 1998. Disponível em:

<http://www.gafisud.info/pdf/Convecaodasnacoesunidascontratrficoestupefacientes.pdf>. Acesso em: 25 jan. 2014.

destes.78 Eis o que a doutrina denomina de legislação de primeira geração, momento no qual o tipo penal da lavagem de dinheiro alcança apenas os produtos do tráfico. Por sua relevância, merecem transcrição alguns artigos:

Artigo 3, b, i a conversão ou a transferência de bens, com conhecimento de que tais bens são procedentes de algum ou alguns dos delitos estabelecidos no inciso a) deste parágrafo, ou da prática do delito ou delitos em questão, com o objetivo de ocultar ou encobrir a origem ilícita dos bens, ou de ajudar a qualquer pessoa que participe na prática do delito ou delitos em questão, para fugir das consequências jurídicas de seus atos;

Artigo 3, b, ii) a ocultação ou o encobrimento, da natureza, origem, localização, destino, movimentação ou propriedade verdadeira dos bens, sabendo que procedem de algum ou alguns dos delitos mencionados no inciso a) deste parágrafo ou de participação no delito ou delitos em questão;79

Outro ponto relevante previsto no artigo 5º do texto foi a possibilidade de perseguir os bens e valores auferidos com o crime de tráfico e com a lavagem do dinheiro dele oriundo, havendo a possibilidade de as autoridades decretarem a quebra do sigilo bancário do investigado. Além disso, o documento trouxe importantes disposições acerca do confisco, tais como a daquele que se dá com base no valor equivalente, pelo qual se poderia atingir tanto os bens diretamente auferidos, como aqueles obtidos de forma indireta, respeitando-se sempre o direito do terceiro de boa-fé, que é aquele que, a despeito de não ser acusado ou requerido no processo, é titular de um direito real principal ou acessório, que poderá ser afetado no curso do procedimento.

Por fim, o texto tratou do direito processual, por exemplo, no artigo 9º, que dedica especial tratamento às medidas e estratégias de cooperação internacional objetivando tanto o combate ao tráfico de drogas como à persecução dos bens e valores auferidos.

Assim, são inegáveis os avanços trazidos por tal Convenção, pois muito embora o seu enfoque tenha sido o tráfico de entorpecentes, já havia a percepção de que a prevenção da prática da lavagem de ativos, com especial

78 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Convenção das Nações Unidas Contra o Tráfico

Ilícito de Estupefacientes e de Substâncias Psicotrópicas. Viena, 1998. Disponível em:

<http://www.gafisud.info/pdf/Convecaodasnacoesunidascontratrficoestupefacientes.pdf>. Acesso em: 25 jan. 2014. p. 6.

atenção para a movimentação dos valores, é fundamental para o implemento de uma estratégia adequada.