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Com estas premissas em mente, pode-se se voltar para a a atuação específica das Companhias Antropofágicas Privadas na Líbia. Como apontado, estas empresas, formadas no bojo da abertura comercial no país, combinavam tanto premissas neoliberais quanto considerações religiosas. Um episódio sugere que, para além desta reformulação simbólica, estas empresas tinham CASacidades das agências e foram CASazes de influenciar o cenário político em que foram inseridas. Uma vez que, como mencionado, as CSPs estavam relacionados principalmente à segurança das fronteiras, em uma lógica

especial, para evitar a saída de migrantes provenientes da Líbia para a Europa, a sua influência foi centrada especificamente na seleção de "potenciais imigrantes" e no controle, já em alto mar, de embarcações com migrantes. Uma vez que a União Europeia se focou fortemente em políticas migratórias com o governo Gaddafi, inclusive com doações de equipamentos para controle de movimentações, a presença de tais companhias, no âmbito do processo de abertura, está também está fortemente ligada a este tema.

Nas últimas décadas, a imigração irregular da África para a Europa foi construída como um problema de segurança na Europa Ocidental (Huysmans 2000: 752). Esta tendência não só é ampliada pela mídia e por discursos públicos, mas também é traduzido em uma série de medidas políticas europeias para gerir a imigração Com base na forma como a política de imigração da UE evoluiu entre 1999 e 2008, pode-se afirmar que consiste cada vez mais de medidas tecnológicas (Dijstelbloem et al 2011:. 2). Seguindo Hayes e Vermeulen (2012), a tecnologia e os seus fornecedores desempenham um papel importante na política de imigração da UE. Por exemplo, em 2006, a Comissão Europeia para Migração publicou dois documentos estratégicos focados em políticas de vigilância, o "Comunicação sobre as prioridades políticas na luta contra a imigração irregular de Nacionais de Países Terceiros" e a "Proposta de Regulamento e Criação de equipes de intervenção rápida nas fronteiras". Dentro desta lógica, a prática de enquadrar tecnologias de vigilância como o instrumento mais adequado para "proteger" a Europa contra os fluxos de migrantes demonstra a tentativa de legitimar a implantação de novas tecnologias de vigilância para a gestão das fronteiras da UE. Este argumento está em linha com estudiosos como Buzan et al. (1998), Huysmans (2000), Buonfino (2004) e Duffield (2008) que afirmam que a securitização pode contribuir para a justificação das medidas de confinamento e controle dos fluxos de de imigração. A partir desta perspectiva, pode-se argumentar que a lógica da política de imigração da UE de segurança é usado para legitimar a crescente implantação da tecnologia de vigilância como uma prática para gerenciar fronteiras e fluxos de imigração.

Somam-se a essas questões que a migração, como elemento construído como ameaça, se amalgamou com o combate ao terrorismo, principalmente na Europa. Baker-Beall (2009) aponta que o nexo " o outro / migrante" foi

rapidamente assimilado por um discurso macrosecuritizante do terrorismo. Nessa lógica, o processo de construção de ameaças globais contra o Terror, apontado no capítulo 2, se materializa e é resignificado na União Europeia através dos programas de controle de fronteiras - com as consequências de emergência típicas desse processo. As CAS se enquadram dentro desse mecanismo, seja por serem narrativamente as detentores dos elementos tecnológicos necessários para a averiguação dos migrantes ou mesmo por replicarem, como já discutido, semelhante lógica de exceção.

A migração na Europa, em especial o controle das fronteiras, é tratada no âmbito do caráter de 'proteção' da Estratégia Antiterrorista da UE. Este discurso contribui para a construção contínua dos controles nas fronteiras como uma das respostas mais adequadas para a ameaça terrorista. Centra-se em uma necessidade de reforçar a proteção das nossas fronteiras para tornar mais difícil para os terroristas entrarem ou operar dentro do continente. Ao mesmo tempo, reforça a ligação entre uma série de medidas destinadas ao controle de migrantes, principalmente ferramentas tecnológicas e a política antiterror (Idem, 2009:197)

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Tal reforço em práticas de tecnologia e mecanismos construídos como instrumentais se aproximam da narrativa das companhias de segurança, pautadas, como supracitado, pela lógica neoliberal. Por se posicionarem no campo como as mais CASazes de empregar padrões modernos de controle de migração, formam-se novamente pressupostos de 'naturalidade' para seu emprego. No caso específico da Líbia, as CAS se centralizavam principalmente no controle de fronteiras, que será abordado em seguida, e em operações navais na costa do país. Pela relativa proximidade com a Europa, principalmente a Itália, além de extensa costa, migrantes tem usado a Líbia para tentar alcançar o velho continente. Apesar de não ser o percurso mais empregado, esta área foi construída, principalmente no imaginário europeu, como a ponta de lança de uma suposta "invasão árabe" (Huysmann, 2011). Nesta lógica, a companhia britânica Bluemountain, identificada aqui com as premissas antropofágicas, possuía cinco embarcações, entre 2008 e 2010,

patrulhando a costa da Líbia. Interessante apontar que as embarcações serviriam, nessa lógica, para supostamente conter um perigoso fluxo de migrantes rumo a Europa, apesar de atuarem dentro de território soberano líbio. Tal premissa indica um já comentado processo de securitização da migração, em que essas movimentações são interpretadas como uma ameaça, ao mesmo tempo em que as ferramentas solucionadoras se materializam através de formas militarizadas. A ênfase nas ferramentas tecnológicas, assim, galvaniza ainda a premissa de que as CAS são elementos instrumentais, apolíticos, até mesmo evitando críticas sobre tal posicionamento.

Por empregarem elementos tecnológicos de ponta, como potentes radares para a identificação de embarcações, as CSP reforçariam o estereótipo de que a questão da migração seriam mais uma questão de resolução técnica - auxiliando no processo que ignora as origens geopolíticas e econômicas dos processos migratórios. Apesar de não ser o objetivo da presente discussão estabelecer uma reflexão profunda sobre a constituição do migrante como um elemento de ameaça, é importante ter essas considerações em mente, uma vez que ela auxilia na galvanização do emprego das CSPs na Líbia. No caso específico do controle de pessoas desejando ir para a Europa, a fala do chefe da agência de migração da União Europeia (Frontex), em visita a Trípole, afirmou que

[A coordenação] de setores do governo [líbio] com profissionais da União Europeia, assim como os programas em conjunto com empresas parceiras, garantem que o Mediterrâneo seja um espaço de segurança e respeito aos Direitos Humanos (...) a parceria com companhias da Europa permite que este governo [Líbia] empregue as tecnologias mais avançadas, as práticas

mais inovadoras, com melhor custo relativo (...) (Frentex,

2015, nosso grifo)

O uso das CAS na Líbia, assim, se enquadra dentro dos processo macrosecuritizante da Guerra ao Terror, pautado no intuito de lidar com ameaças desse tipo, resignificado dentro da política europeia de controle de fronteiras e migração. Isso não significa, contudo, que as Companhias

Antropofágicas de Segurança podem ser compreendidas como meros instrumentos, uma vez que suas ações, em campo, denota capacidades políticas que poderiam tanto ir contra o governo de Gaddafi quanto da própria UE.

Um exemplo de embates narrativos entre o lideranças do Velho Continente e as CAS se deu, em 2009, com discussões sobre a chegada de migrantes para a Líbia. Como já apontado, Gaddafi estabeleceu uma narrativa em que seu país seria o último bastião para uma "invasão" de árabes e africanos em direção a Europa. Apesar de tal discurso estar pautado em exageros - as políticas europeias convergiram para lidar com esse cenário apresentado. Em 2009, uma série de discursos do líder líbio demonstraram que as relações com a UE não estavam tão positivas, principalmente por embates sobre o controle das fronteiras terrestres do país. Conforme se consegue deduzir da fala do então ditador, os países europeus desejavam que Trípoli aumentasse o controle sobre a borda sul do país com o Níger e com o Chade. Gaddafi teria se ressentido do que considerou uma invasão da soberania líbia apesar de não ter feito maiores movimentações contra ou a favor dessas premissas.

As empresas que atuavam no país, principalmente a francesa EHC, ao que tudo indicam se aproximaram da análise de Gaddafi. Em dezembro de 2009, a companhia teve todo seu pessoal transferido da fronteira sul para a oeste, com a Argélia. A área era considerada valiosa pelas companhias na região, pelo aumento da presença de terroristas fundamentalistas e, por conseguinte, pelo acréscimo de fundos norte-americanos. A declaração no site da empresa sobre a mudança geográfica parece ser uma mensagem para a UE.

Em consonância com o governo da Líbia, [a EHC] resolveu realocar seus esforços da parte sul para a parte oeste do país. A região em que atuávamos está consolidada dentro dos objetivos anteriores de segurança e estabilidade, não havendo a necessidade da manutenção das operações (EHC, 2009).

Benzer Belgeler