Seedling survival as a criterion of resistance to early drought in bread wheat genotypes
3. Bulgular ve Tartışma
Entendendo que as ideologias não são construtos individuais, mas construtos sociais compartilhados por um grupo, van Dijk (1997, p. 113-115) estabelece algumas categorias que organizam os interesse ou proposições avaliativas que definem o tipo de grupo. São elas:
Identidade e pertença: questões como “quem somos?”, “Quem pertence ao grupo?”, “Quem pode ser admitido?”, “Quem é aceito e quem não é?” englobam as propriedades fundamentais através das quais o grupo se autodefine, como a origem, a aparência, o sexo, a língua, a religião, etc. Segundo van Dijk, a discriminação a outros grupos assenta nessas características básicas, tendo em vista que são atribuídas a estes outros grupos, mas definem também a base de ideologias de resistência.
Tarefas/atividades: questões como “O que fazemos?”, “O que se espera de nós?”, “Qual é o papel ou a tarefa do nosso grupo?” definem a ideologias de grupos e papeis sociais.
Objetivo: trata-se das ações normalmente realizadas visando a uma ou mais finalidades no âmbito geral – por exemplo, jornalistas consideram que redigem notícias para informar - e das concepções que os grupos têm de si em relação a essas ações.
Normas / valores: as tarefas e os objetivos de cada grupo dependem de normas e valores, isto é, de critérios ideológicos que presidem as apreciações de cada grupo. São as normas e valores que definem, por exemplo, grupos políticos como os liberais e os conservadores ou os grupos religiosos como os católicos e os protestantes.
Posição: essa categoria determina quem são os amigos e os inimigos do grupo, os aliados e os adversários, assim como as relações de dominação, de conflito e as de competição entre os grupos.
Recursos: um grupo só sobrevive ou se reproduz se tiver acesso a recursos sociais, ainda que mínimos. Determinados grupos obtêm esses recursos ou são definidos através do acesso a materiais ou recursos simbólicos específicos, tais como a cidadania, o direito à residência, os direitos humanos, o respeito, o emprego, a saúde, a habitação, a segurança social, os rendimentos e o conhecimento. Os ricos e os pobres, os trabalhadores e os desempregados, os sem-abrigo é que definem, em termos gerais, os que Têm e os que Não têm”.
Segundo o autor, as categorias acima relacionadas não são consideradas um reflexo da realidade social, mas uma construção ideológica da mesma, visando servir aos interesses do grupo: “são uma imagem que o corpo tem de si mesmo e de suas relações com outros grupos” (VAN DIJK, 1997, p.115).
Em nossa dissertação, consideraremos, com van Dijk, que os moradores em situação de rua, ainda que pertençam a um grupo marginalizado pela sociedade, possuem ideologias próprias, que variam em graus de complexidade. Assim sendo, os conceitos relacionados pelo autor serão oportunos para investigarmos as expressões ideológicas que identificam o grupo, as manifestações de pertença a grupos sociais, as representações de sua posição social e a imagem que o grupo tem de si em relação à sociedade.
2.1.5 Ethos
A retórica aristotélica definiu como ethos a imagem de si mesmo que o orador constrói, implicitamente, em seu discurso para persuadir o auditório. Tal imagem não equivale necessariamente ao caráter real do orador. É produzida não pelo o que é dito de si, mas pelo modo como o orador se expressa: “através de sua maneira de falar: adotando as entonações, os gestos, o porte geral de um homem honesto, por exemplo, não se diz, explicitamente, que é honesto, mas isso é mostrado” (MAINGUENEAU, 1998, p. 59, grifo do autor):
Persuade-se pelo caráter (ethos) quando o discurso é de tal natureza que torna o orador digno de fé, porque as pessoas honestas nos inspiram uma confiança maior e mais imediata. [...] mas é necessário que esta confiança seja o efeito do discurso, não de um juízo prévio sobre o caráter do orador. (ARISTÓTELES45 apud MAINGUENEAU, 2005, p. 70)
Eggs (2005) percebe dois campos semânticos relacionados ao termo ethos, na ótica de Aristóteles. O primeiro, de sentido moral, engloba atitudes e virtudes como honestidade e benevolência. O segundo, de sentido neutro, objetivo ou estratégico, relaciona-se aos hábitos, modos e costumes, comportando, assim, uma dimensão social, tendo em vista que o orador convence os ouvintes ao expressar-se de modo apropriado. Na percepção de Eggs (2005, p. 39), “essas duas faces do ethos constituem dois aspectos essenciais do mesmo procedimento: convencer pelo discurso”.
Ducrot (1987) faz uma releitura do ethos aristotélico na teoria polifônica da enunciação. O autor diferencia locutor de enunciador, estabelecendo que o E (enunciador) está para o locutor assim como a personagem está para o autor. Ducrot desdobra a figura do locutor em um (L), aquele ser, no discurso, que tem unicamente a propriedade de ser responsável pela enunciação; e em (λ), o locutor enquanto ser do mundo, uma pessoa completa, que possui a propriedade de ser a origem do enunciado. Amossy (2005, p.15) afirma que “analisar o locutor L no discurso consiste não em ver o que ele diz de si mesmo, mas em conhecer a aparência que lhe conferem as modalidades de sua fala”. Segundo a autora, é nesse ponto que Ducrot recorre à noção de ethos:
Não se trata de afirmações autoelogiosas que o orador pode fazer sobre sua pessoa no conteúdo de seu discurso, afirmações que, ao contrário, podem chocar o ouvinte, mas da aparência que lhe confere à fluência, a entonação, calorosa ou severa, a escolha das palavras, dos argumentos... Em minha terminologia, diria que o ethos é ligado a L, o locutor enquanto tal: é como fonte de enunciação que ele se vê dotada de certos caracteres que, em conseqüência, tornam essa enunciação aceitável ou recusável.” (DUCROT, 1987, p. 201)
Na Análise do Discurso, Maingueneau (1989, 2005, 2006, 2008) expande o conceito de ethos. Se para a retórica a imagem é construída pelo enunciador em um discurso oral, o conceito desse autor francês aponta, também, para o texto escrito. Maingueneau considera que ao discurso – oral ou escrito - é vinculado um “tom” que, por sua vez, associa- se a um caráter46 e a uma corporalidade. O caráter refere-se aos traços psicológicos que o leitor-ouvinte atribui ao enunciador, em função do seu modo de dizer, e a corporalidade, a uma compleição física e a uma maneira de vestir-se e de mover-se no espaço social, ou seja, à imagem representativa do enunciador. O caráter e a corporalidade, na abordagem de Maingueneau (2005, p. 72), são inseparáveis e apoiam-se “sobre um conjunto difuso de
46 Em Cenas da Enunciação, Maingueneau (2006, p. 62) chama a atenção para que o termo caráter, por ele
representações sociais valorizadas ou desvalorizadas, de estereótipos sobre os quais a enunciação se apoia e, por sua vez, contribui para reforçar ou transformar”.
Para Maingueneau (2006), ainda que o ethos seja crucialmente ligado ao ato de enunciação, a imagem do enunciador é construída pelo público antes mesmo que ele fale: “mesmo que o destinatário não saiba nada antecipadamente sobre o ethos do locutor, o simples fato de que um texto pertence a um gênero de discurso ou a um certo posicionamento ideológico induz expectativas em matéria de ethos. (MAINGUENEAU, 2006, p. 57). A partir desse princípio, o autor estabelece uma distinção entre o ethos pré-discursivo47 e o ethos
discursivo. O primeiro relaciona-se a representações anteriores ao discurso ou aos estereótipos, ou seja, a um conjunto de crenças eopiniões partilhadas socialmente, construídas sobre experiências ou conhecimento de mundo. O ethos discursivo corresponde à definição do
ethos aristotélico e é engendrado no discurso.