• Sonuç bulunamadı

Dentre os estudos que refletem a questão da atividade, destaca-se a proposta da utilização da teoria da complexidade (MORIN, 1990, 1998), cujos trabalhos de Mascia (2001) e Montedo (2001) Dudiziak et al. (2005) são representantes. Nessa abordagem, a empresa é descrita como um sistema complexo, sujeita aos efeitos de uma pluralidade de lógicas, composta por subsistemas, que por sua vez estão em relação de interdependência com outros subsistemas. A atividade do sujeito é

entendida como de natureza complexa, onde ele gere um “sistema aberto”, comportando múltiplas interações que dizem respeito simultaneamente ao seu espaço de trabalho, à empresa e ao ambiente externo. Sua atividade se realiza pela busca da compatibilidade entre as condições internas do seu espaço de trabalho e os objetivos de diferentes subsistemas com os quais suas atividades estão inter- relacionadas.

Daniellou (2000, 2004) propõe a idéia de atividade de trabalho como uma construção constante de compromissos multidimensionais que integram o conjunto de tais dimensões. O ser humano é co-autor, em conjunto com seus pares, do próprio futuro, graças a um conjunto de deliberações no espaço multidimensional desenhado por essas estruturas, que são na verdade reconstruídas no dia a dia pela atividade dos atores, o que garante à atividade seu caráter social. As intervenções ergonômicas têm como base, por conseqüência, a hipótese implícita de que as atividades são “negociação de constrangimentos” ou “gestão de compromissos” .

O conceito de atividade proposto por Ives Clot (2000, 2003a, 2003b, 2004) resgata o sentido de atividade enquanto construção social, de forma que a própria atividade se estrutura no seu desenvolver de acordo com os sujeitos envolvidos nas relações. A presença do outro é parte constituinte da atividade, e esta, enquanto constituída socialmente, é dinâmica, sendo transformada, adaptada, reconstituída pelos sujeitos. A atividade não termina ao ser realizada; ela se auto-alimenta no decorrer de seu desenvolvimento. Essas “facetas” constituintes da atividade serão apresentadas a seguir.

4.1.1. A atividade de trabalho é uma construção social.

Segundo Clot (2004), não existe outra forma de análise do trabalho que não passe pela formulação de Leontiev: “O homem nunca está sozinho diante do mundo dos

objetos que o cerca. O traço de união de suas relações com as coisas, são as relações com os homens” (1956).

Um operador mesmo aparentemente isolado (o que é observável) não está jamais sozinho. Ele está isolado dos outros com quem trabalha e cuja presença invisível não cessa, entretanto, de se manifestar. Sua atividade real é sulcada pelas ressonâncias longínquas ou próximas da atividade do outro: aqueles com quem ele colabora, com quem ele se confronta, ou com quem ele entra em oposição latente ou manifesta. (CLOT, 2003a, p. 40 )

Por meio do seu trabalho o sujeito busca, extraindo dos seus recursos pessoais e os de seu grupo profissional, dar eficácia às suas múltiplas atividades onde ele é o ponto de intersecção e nas quais a sua se refrate. As atividades dos outros “infiltram” a atividade do sujeito, preenchem-na de injunções às quais ele, o sujeito, deve poder delimitar a inserção permanentemente, ao mesmo tempo em que as faz eco. Essa é uma forma de o sujeito se posicionar na atividade de trabalho, que, de acordo com Clot (op.cit.), é um meio “saturado pelas intenções do outro”. O sujeito em um primeiro momento as transforma em recurso para sua própria ação. Ou seja, ele delimita a ação do outro em sua atividade e, simultaneamente, a partir dessa delimitação coloca os parâmetros para a atividade do outro; o sujeito tem, portanto, o poder de mudar e transformar a atividade dos outros, que por sua vez têm o poder de mudar e transformar a atividade do sujeito.

A recursividade está presente na forma do que denomina Clot (op.cit.) de “diálogos sem frases” com os destinatários de sua atividade e de suas respostas presumidas - experiências vivenciadas na sua formação e ao longo de sua vida profissional, é que o sujeito seleciona os meios técnicos que estão à sua disposição na situação. Incontestavelmente, agir, nessas circunstâncias, é opor à atividade do outro uma contra-atividade e assim inversamente. Esse processo que se origina nas relações anteriores e que se prolonga nas relações futuras auto-organiza o processo, ao mesmo tempo que transforma e lhe dá dinamicidade.

A relação com o outro no trabalho não é somente um contexto. Ela é constitutiva da atividade, a qual, mesmo solitária, é sempre, de alguma forma, conjunta, endereçada (BRASSAC, 2003; BRES; NOWAKOWSKA, 2005). Privada de destinatário – seja em suas outras atividades e quaisquer que sejam as razões – uma atividade de trabalho perde seu senso (Clot se coloca em partilha da crítica da

psicologia “intoxicada pelo princípio egocêntrico” (p:323), centrada no indivíduo e fechada sobre ele mesmo). Este pensamento diz, Clot, é compartilhado com psicólogos sociais.

4.1.1.1. A atividade é intencional

Não intencional no sentido da intenção presente do operador, uma intenção do interior para o exterior. Mas uma intenção que é escolhida entre outras tantas, suas mesmas e dos outros. A intencionalidade observável é, portanto, aquela selecionada entre várias ações possíveis ou impossíveis, mas de toda forma rivais. As intenções se formam, se deformam e se reformam nas intersecções, onde o sujeito se depara com as intenções do outro e as dele, que, mesmo abandonadas ou afastadas, não são abolidas e continuam a agir. Esse é um conflito real que a atividade realizada não resolve jamais completamente.

4.1.1.2. A atividade é dirigida e limitada

A atividade é uma atividade dirigida (CLOT, 2002b), simultaneamente voltada ao seu objeto e à atividade dos outros relativas a esse objeto. A atividade é, portanto, simultaneamente dirigida para o objeto imediato da ação e em direção à atividade dos outros sobre este objeto. Assim, sua atividade é sempre dirigida a vários interlocutores simultaneamente e, ela mesma, destinatária da atividade dos outros. Ela é sempre, de alguma forma, a réplica de uma ou de várias outras atividades, mesmo se o agente se encontra sozinho.

É necessário olhar a atividade sobre um mesmo objeto sob ângulos diferentes: o da atividade dos outros e o das outras atividades do sujeito. Este último é “pré-

ocupado” por suas outras atividades. Esse olhar permite que se veja as limitações postas à atividade tanto pelo sujeito quanto pelos outros; permite também olhar o trabalho como a história realizada e não-realizada da atividade. Realizada no que de fato foi possível, e não-realizada na medida em que se escolhe em detrimento de outras possibilidades, desejos e intenções. O desenvolvimento da atividade é, portanto, “policêntrico” e delimitados pelos seus impedimentos.

4.1.1.3. Sobre a distinção tarefa e atividade

A atividade é:

Uma prova subjetiva onde medimos a nós mesmos e aos outros, se medindo ao mesmo tempo ao real, para ter uma chance de conseguir realizar o que está por fazer. As atividades suspensas, contrariadas ou impedidas, ver as contra-atividades, devem ser admitidas na análise. A atividade retirada, ocultada ou repicada não está, apesar disto, ausente. Ela pesa com todo seu peso na atividade presente. (CLOT, 2003a, p. 40)

Para Clot (op.cit.), essa distinção, para além da discussão entre o prescrito e do realizado de fato, a atividade realizada, ela mesma, necessita ser compreendida como resultante também dos constrangimentos impostos pelo trabalho prescrito e pelos conflitos de ação que estes geram no indivíduo. Argumenta Clot (2004), o que se faz, o que se pode considerar como a atividade realizada, nunca é apenas a atualização de uma das atividades realizáveis na situação; o desenvolvimento da atividade ganhadora é governada pelos conflitos entre elas, concorrentes, que teriam podido realizar a mesma tarefa a outros custos.

O que importa não é necessariamente e somente a distância entre o que se prescreve o que se realiza, mas buscar compreender o real da atividade em sua totalidade, que, conforme ensina Clot (op.cit.), é o que se faz, é igualmente o que não se faz, o que se busca fazer sem o conseguir – o drama dos fracassos – o que se teria querido ou podido fazer, o que se pensa poder fazer em outro lugar e, ainda,

o que se faz para não fazer o que está por fazer. Fazer é, portanto, diz Clot (op.cit.) frequentemente refazer ou desfazer.

Benzer Belgeler