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3. TEZ ÇALIŞMASININ AMAÇLARI

1.2. Hüzünlü Müziğin Duygusal Etkileri

1.2.4. Bulgular

Para a realização das reuniões ordinárias, entre outras atividades institucionais realizadas pelos membros que compõem a Diretoria do Conselho – e que durante meu trabalho de campo foi composta por Ibama, SOS Amazônia e Sema/Imac – é necessário que esses atores invistam esforços políticos, estratégicos e financeiros para sua realização, contando com etapas de produção do planejamento e execução do evento. Tais etapas são conduzidas por meio de práticas e rotinas orientadas por saberes oriundos do conhecimento oral ou escrito produzido pelos distintos agentes do aparelho do Estado executor da política ambiental, o Ibama, e de sua estrutura orgânica e administrativa: o PNSD, cuja jurisdição bifurca-se na autoridade e hierarquia da Gerência Executiva do estado do Acre/Gerex-AC e Direc (Edifício Sede/Ibama/BsB).

Junto às instituições estatais (Ibama e SEMA/IMAC, federal e estadual) situam-se a SOS Amazônia e o IEB. Ambas orbitam nos campos de atuação dos aparelhos estatais responsáveis pela administração ou gestão dos recursos ambientais. Entidades auto- identificadas como organizações não-governamentais ambientalistas ou socioambientalistas.

Entre esse atores políticos, apenas SEMA/IMAC não participativa ativamente do processo de produção dos eventos, atuando, basicamente, na ordem das reuniões, tendo em vista sua titularidade de vice-presidente.

Assim, Ibama, SOS Amazônia e IEB são basicamente os atores e personagens sociais que se identificam e são identificados pelos demais conselheiros ou instituições desse contexto socioambiental como pessoas sociais que capitalizam poder e potencial de interferência, produção e reprodução nos dramas estabelecidos no Conselho.

Nos eventos, encontros, reuniões, telefonemas, fax e e-mail circulam textos e

fofocas produzidos pelos membros da Diretoria (especialmente a presidência e secretaria

executiva)134

. Nessas conversas são definidas, em meio a processos de diálogo, os temas,

convidados, conteúdos, discussões e pactos a serem perseguidos para a execução bem sucedida do ritual. Além da seleção dos locais para a celebração dos ritos: salões paroquiais, auditórios de escolas, centros de formação, salões de festas. Define-se ainda a utilização orçamentária e financeira quanto às despesas com ajuda de custo e gastos em infra-estrutura (custeio), decidindo-se por exemplo que fonte deverá arcar com deslocamento, alojamento e refeições das pessoas que representam as instituições das comunidades ou povos indígenas; além de quem serão os consultores, seus honorários, que irão trabalhar na moderação, condução e conteúdo das oficinas ou reuniões. Somado a isso, há a definição de quem, entre Ibama, SOS Amazônia e IEB, irá participar dos eventos, também atreladas a condições de pagamento de diárias, transporte, alojamento e alimentação.

Em meio a essas articulações, esses atores também definem as pautas, ou seja: os roteiros das discussões. Estas são forjadas (no sentido de manufaturadas; muitas vezes a

ferro e fogo). Durante meu trabalho de campo, as pautas foram produzidas pelos analistas

ambientais vinculados ao PNSD e Ibama, servidores da Gerex-Ibama-Ac e Direc- Ibama/BsB, com a participação do chefe do PNSD (Francisco Lima, Francisco Missias, Marcelo Peçanha, Camila Gomes, Pablo Saldo, Alberto Keflaz, Rosana D’Arrigo). Outras pessoas institucionais também trabalharam nesses eventos, como a secretária executiva do Conselho e das ONGs ambientalistas ou socioambientalistas de apoio (Miguel Scarcello e Marco Aurélio, pela SOS Amazônia). Nessa roda também se inseriu o IEB e o ISA, com a participação de Leila Menezes, eu, André Lima, Raul Telles do Vale Júnior, Maristela Bernardo e outras pessoas, entre 2001 a 2004, para a execução do “Projeto Gestão Participativa de Unidades de Conservação e Projetos”.

Os temas que circulam nas pautas e plenos possuem constância: sobreposição das terras indígenas com o PNSD, Projetos de Assentamentos Rurais para a migração de comunidades tradicionais, regularização fundiária (indenização dos proprietários de títulos de terras), ocupação do Estado135

, legislação e normas, representação, estrutura e funcionamento do Conselho. Basicamente a pauta reporta os conflitos sociais e ambientais e as formas de territorialidades em jogo na região da margem esquerda do rio Juruá, ou seja: num espaço que conta com a presença de mais de 9.082 pessoas cadastradas (Ibama,

Comunidade Bom Sossego, na pessoa da titular Dona Iranir.

1998) entre 3.115 pessoas (organizadas em 522 famílias), de dentro dos limites desenhados para o Parque, e 5.967 pessoas (equivalente a 996 famílias) que usam os recursos ambientais dessa área, mas são lindeiros ao Parque, vivem nas proximidades do mesmo.

As histórias de vida pessoal, familiar ou institucional desses conselheiros se misturam aos atos, textos, conversas e fofocas presentes nas audiências, seja no palco ou nos bastidores. Personagens desse complexo sistema ecológico e cosmologias incluem militares, agentes de administrações públicas (de todos os níveis – municipal, estadual, federal, supranacionalde poder), militantes de movimentos sociais, sociedade civil, comunidades extrativistas, indígenas ou agropastoris, comerciantes, patrões e missionários católicos.

Como a de Chico Ginú, que veste a camisa136

do CNS, literalmente. Filho de seringueiro do Seringal Restauração, a partir de sua inserção no movimento político local, quando se tornou delegado sindical pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais do Alto Juruá – STR, fundou e ocupou a presidência da Associação dos Seringueiros e Agricultores da Bacia do Alto Juruá137, assim como a vice-presidência, em 1989, do Conselho Nacional dos

Seringueiros – CNS. Liderou ainda o movimento pelo fim do pagamento da renda das

estradas de seringa, pela liberdade de comércio (fim da escravidão e das dívidas) e pela

criação da Resex Alto Juruá, como um novo projeto de reforma agrária, esse calçado no extrativismo e conservação ambiental (manutenção da floresta)138

.

136 Quando dos eventos do conselho, Chico se apresenta vestido com a camiseta portadora das insígnias do CNS. A expressão vestir a camisa é utilizada no Brasil para se reportar àquele que incorpora os valores e diretrizes da instituição a que é vinculado. É uma metáfora vinda do campo semântico esportista, relacionando a idéia de vestir o uniforme da equipe, na condição de pertencimento a um grupo ou ordem. Mais adiante retomarei essa questão.

137 Fundada com o nome de Rio Tejo, pois o processo de mobilização dos seringueiros abrangia somente as comunidades dessa bacia do Alto rio Juruá. Posteriormente, para a criação da Resex Alto Juruá, foram incluídas outras regiões e comunidades do rio Bagé.

138 A floresta é um importante símbolo dos sistemas simbólicos e sociais do Estado do Acre. Evidente na letra do Decreto n.º 8.843, de 26 de julho de 1911, que demarca, como fóssil sociológico, a importância dada pelo poder do Estado à criação de áreas de reserva florestal no Acre. Contemporaneamente, o Governo do estado do Acre, encabeçado por Jorge Vianna, adotou o ícone de uma árvore e o slogan florestania, trabalhado por integrantes dos movimentos sociais acreanos em luta pela conquista da cidadania para os povos da floresta. Mais importante ainda é a crença na mãe e rainha da floresta, presente nos mitos dos povos indígenas e seringueiros vividos nos ritos com a planta Aiuasca.

Chico Ginú, entre outros conselheiros, apresenta-se como pessoa139

e instituição. É, simultaneamente, o representante do CNS no Vale do alto Juruá, mas é também portador de insígnias, histórias e relações políticas como um filho de seringueiro que se escolarizou na ação de delegado sindical dos trabalhadores rurais do Alto Juruá. E que trabalhou na mobilização social para a participação de famílias tradicionalmente seringueiras, atualmente agricultores e criadores, com o rompimento dos laços de escravidão em relação às mercadorias fornecidas pelos patrões, comerciantes de Cruzeiro do Sul, e na constituição de uma Associação para administrar a área da Reserva Extrativista do Alto Juruá. Encarna papéis institucionais (sindicato dos trabalhadores rurais, associação, conselho, Unicamp) e interpreta personagens sociais como o CNS, STR, Asareaj.

Assim também acontece com as demais pessoas investidas em papéis sociais, conselheiros (titulares ou suplentes) oriundos das diferentes posições hierárquicas no sistema de relações e fricção inter e intraétnicos. Esses são atores sociais que representam seus “eus” (Goffman, 1985), identidades, de pessoa física ou jurídica140 (privada ou

coletiva), em performances, discursos e narrativas, inseridos na teia de jogos e redes de relações sociais.

Encilhado na noção de pessoa, categoria de pensamento e classificação social (Durkheim, 1989; Mauss, 1981), e abusando dela, chamo atenção para a percepção da presença de duas categorias de pessoas que circulam, freqüentam, apresentam ou representam nos eventos do Conselho. As pessoas jurídicas: Associações Indígenas, Associações Agrícolas, Sindicatos de Trabalhadores ou de Seringueiros, Associação Comercial, e demais aparelhos governamentais (da esfera municipal, estadual ou nacional/federal)141

. Ou as pessoas físicas, ícones da pessoa biológica ou jurídica, de

interesse privado, público, sem fins lucrativos, pessoas identificadas com determinadas

tradições culturais, membros de seções, segmentos e grupos corporados. Corpos simbólicos decodificados por uma linguagem, com operadores gramaticais, sintáticos e semânticos próprios.

139 Na acepção de que pessoa é uma categoria sociologicamente constituída, superando a fronteira do indivíduo, enquanto ente biológico, mas, outrossim, enquanto entidade sociocultural. Nesse sentido as pessoas se aproximam de personagens sociais e culturais, integrando papéis sociais, com inscrição em campos simbólicos (Bourdieu, 2000)

140 Os documentos CNPJ e CPF, produzidos e controlados pelos aparelhos de Estado, são índices epara a construção da identidade e cidadania no Brasil (conf. Peirano, 2002).

141 Do governo federal, nível da administração pública do Estado brasileiro, em conjunto com os representantes de igual hierarquia do Poder Judiciário e Parlamentar.

Aliás, esse pertencimento a uma categoria ou outra de pessoa (física ou jurídica) se estabelece pelo documento enquanto ícone produtor de efeitos ilocucionários, dentre eles a constituição de identidades e valores sobre a noção de pessoa e cidadão no Brasil (Peirano; 1982; 1986; 2002). Desde a carteira de identidade, passando pelo Cadastro de Pessoa Física – CPF, Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica – CNPJ, entre outros papéis e documentos exigidos e produzidos pelas burocracias que os administram, revelando as condições subjetivas e coletivas do reconhecimento da noção de cidadão, pertencente ao domínio do Estado. Mais do que a frase nativa segundo a qual o cidadão seria reconhecido como o sujeito detentor de direitos e deveres políticos e civis. Assim, o documento é visto como insígnia, artefato portador de poder ilocucionário, no qual dizer, inscrever e fotografar é fazer. O dito é feito por meio da escrita ou imagem, um indexador de cidadania, portador de direitos e obrigações civis, quando da guarda e posse de identidade.

Para além das pessoas físicas ou jurídicas registradas em livros, cadastros e documentos de nacionalidade, identificadas pelo CPF ou CNPJ, estão as pessoas reconhecidas enquanto entes e personagens sociais, categorias de classificação e identidade nos sistemas interétnicos. Os atores das frentes de expansão ou integração econômica nacional e da diversidade étnica dos povos envolvidos no terreno e comunicação do espaço ambiental e político, como os povos indígenas (com grande diversidade de povos, situações de contato142

e projetos etnopolíticos – Pimenta, 2002), seringueiros/camponeses (migrantes nordestinos das colocações de seringa; pequenos e médios agricultores rurais, e barranqueiros – Pantoja, 1993 e 2002); seringalistas/fazendeiros e comerciantes; agentes das Administrações dos Estados143

.

Assim, esses breves retratos dos atores do Conselho são uma prévia necessária a observação e análise de suas atuações como conselheiros, representantes das distintas categorias sociais e grupos étnicos em situação de conflito socioambiental, nos rituais desse conselho: reuniões ordinárias, intercâmbios, seminários, oficinas e outros.

142 Sendo que os tipos e graus de contato são variáveis conforme a maior atividade de expansão da fronteira econômica.

143 Nesse momento falo de Estado no plural por dois motivos: O Estado é uma entidade complexa e múltipla. E porque faço menção aos diferentes níveis e esferas (municipal, estadual e federal).

5.7 NAVEGANDO NOS RITOS