2. İKİNCİ ÇALIŞMA: HÜZÜNLÜ MÜZİĞİN BİLİŞSEL GÖREV PERFORMANSINA
2.2. Materyaller
2.2.4. Bilişsel görevler
Depois de uma semana navegando na baleeira do 61 BIS com o grupo do 3o
Intercâmbio, quando realizamos visitas e reuniões com seringueiros da Resex Alto Juruá e os Ashaninka da TI Kampa do Rio Amônia, chegamos, 15 pessoas, entre conselheiros, AA e representantes do IEB, chegamos a Marechal Thaumaturgo, 27 de maio de 2004. De maneira inédita, essa é a primeira RO que sai da capital do Vale do Juruá, Cruzeiro do Sul. E o eixo desloca-se do norte para o sul. O evento ocorre na boite Caboré, uma construção tipo chapéu de Palha que foi contratada pela Prefeitura, na pessoa do Secretário de Obras, Árlem, abriga a realização da 5a RO do Conselho. Detalhe, os dois banheiros dessa boite não possuíam privada
ou fossa. O cheiro fétido de urina aumentava a cada urinada. A noite, na festa de confraternização, único momento que a população de Marechal Thaumaturgo, em maior número meninas adolescentes, dançam forró e brega no salão. O odor de uréia se mistura ao transpirar dos corpos, dança e da embriaguez. (Barnes, diários
de campo, 2004)
A 5ª RO aconteceu, portanto, em Marechal Thaumaturgo155
. Após um grande aporte de recursos do Padis/IEB, com um megaempreendimento logístico e operacional para
155 Fato inédito posto ter havido o deslocamento do evento de Cruzeiro do Sul, tida como principal cidade do alto Juruá.
colocar 24 conselheiros nesse município. Aproveitou-se, estrategicamente, o deslocamento dos conselheiros para a realização do 3o
intercâmbio.
Para se ter uma idéia da complexidade das atividades para a realização dessa reunião em Marechal Thaumaturgo: os únicos meios de transporte para lá são feitos por meio do rio Juruá, ou por via aérea, em aeronave de pequeno porte, que transportam no máximo 8 pessoas e bagagem. No entanto, não existem vôos comerciais, e os aviões fretados para esse serviço só podem levar em média 6 pessoas por viagem num avião bimotor. O aeroporto de Marechal Thaumaturgo é uma pequena pista de asfalto, construído pelo Exército na margem direita do rio Amônia, nas terras da Resex Alto Juruá, e na outra margem está sede do município. Não há acesso terrestre para o núcleo urbano. Faz-se necessário utilizar uma canoa e bastante energia para carregar as malas. Para esses eventos, foi construído um alojamento na cidade para abrigar os conselheiros. Apesar das dificuldades de translado, foi possível realizar a 5a
RO, tendo-se registrado quorum, ao início do evento, de 22 conselheiros. Tendo em vista a Portaria de Criação do CC-PNSD falar em 35 instituições e que no regimento interno é exigida maioria simples, isto é, metade mais um, a informação foi atestada verbalmente por Marcelo Peçanha, condutor da contagem dos conselheiros participantes. Mas, ao todo, dentro do Chapéu de Palha, estavam presentes 28 pessoas, entre conselheiros e convidados. E apesar de a reunião ser aberta ao público, a RO foi vista de longe pelos moradores do núcleo central de Marechal Thaumaturgo. Percebi que, ao redor do local da RO, formaram-se grupos de conversa. Mas as pessoas da cidade só vieram para participar da festa de encerramento, realizada no próprio Caboré.
A mesa de abertura foi composta pelo presidente do Conselho, Francisco Lima, que convidou Miguel Scarcello (conselheiro titular da SOS Amazônia156
), e Sebastião Santos da Silva, da CEUC-Gerex-AC157
; e Arlém José de Lima Alves158
, que substituía o prefeito de
156 É o Secretário Executivo da SOS Amazônia. Também é conselheiro em outros espaços ou instâncias, como o Conama, órgão regulamentador do Sistema Nacional de Meio Ambiente – Sisnama.
157 Essa vaga para a Gerex-Ibama-AC foi produto de convencimento do analista ambiental Marcelo Peçanha, que argumentou, na 2ª RO, que o Ibama necessitava de um substituto para o chefe da Unidade. De fato, essa vaga ficou descrita na Ata da 3ª RO como vaga de suplência do chefe do PNSD.
158 O primeiro representante titular da prefeitura de Marechal Thaumaturgo foi Francisco Pianko, que ocupava o cargo de Secretário de Agricultura e Meio Ambiente. Com sua ida para um nível maior, a Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas do Acre – SEPI-AC, sua vaga foi ocupada por Arlém José de Lima Alves, Secretário de Obras e Infra-estrutura de Marechal Thaumaturgo. Dada sua participação na 5ª RO, Arlém foi descrito na lista de presença desse ritual como conselheiro titular do seu município.
Marechal Thaumaturgo, que não pôde prestigiar o evento159
em decorrência de compromissos políticos em Brasília.
O chefe do Parque faz a fala de abertura e a condução dos trabalhos da mesa. Inicialmente Chiquinho enfatiza que irá tratar dos temas do PNSD:
1. Índios – sou amigo de todos. Com relação aos Naua, participei da audiência na Justiça Federal do Acre onde foi oficializada a TI Naua, localizada entre o igarapé Jordão ao Jesumira. Os Nukini reivindicam a ampliação de sua TI para dentro do Parque por uma liderança que já fez ocupação lá dentro. Mas sou contra!
2. Ribeirinhos – em 1989 foi criado o PARNA e as famílias nunca mais
tiveram tranqüilidade. Incertezas passaram a fazer parte do amanhã. O Incra já disponibilizou a Gleba Havaí. Fica em Rodrigues Alves, mas o acesso é por Mâncio Lima. Foi prometida visita dos representantes da área norte para ver essa área para mudança.
3. Parceiros – espero respeito entre os parceiros para a gestão do PNSD.
Essa fala de abertura reflete os principais temas discutidos no evento: índios, ribeirinhos, parceiros na gestão territorial do Parque. No caso Naua, coloca a decisão judicial que estabeleceu o direito dos Naua a terem uma terra demarcada e reconhecida pelo Estado. Mesmo que esteja sobreposta ao PNSD. Já com relação aos Nukini, que desejam demarcar a Serra do Moa como terra indígena, não têm seu apoio.
Após essas posições inicias, faz-se a leitura da Ata da 4a
RO. E justamente na leitura
dessa ata surgem dúvidas quanto aos limites propostos pelo Grupo de Trabalho de reconhecimento das necessidades fundiárias dos Nukini, trabalho realizado pelo antropólogo Cloude Correia e pelo sertanista, líder seringueiro, delegado sindical, Antonio Macedo. Trabalho que também incluiu os estudos de identificação e delimitação da TI Naua.
Neste ponto, Miguel Scarcello, na condição de secretario executivo, apresenta o relatório de atividades da SOS Amazônia junto ao PNSD, no Vale do Juruá, com o trabalho de etnomapeamento tanto na Resex como na TI Kampa do Rio Envira, e também sobre as alianças com o setor governamental e não-governamental do Peru visando à criação de um Parque do lado peruano da Serra do Divisor. Num tom de prestação de contas, Miguel chama atenção para a necessidade da renovação da Cooperação Técnica com o Ibama, ou melhor, do contrato de gestão compartilhada do PNSD.
Da questão indígena passa-se para o tema da Gleba Havaí, que consiste na transferência de famílias do Parque para assentamentos monitorados e acompanhados pelo Incra. A partir dessa RO, passa a ser utilizado o termo PAF Havaí, projeto inovador de assentamento de famílias de trabalhadores rurais nas regiões amazônicas instituídas no Governo Lula, em 2004. Projeto de assentamento de trabalhadores rurais amazônicos para produção madeireira sustentável, isto é, baseada na idéia de corte seletivo e manejo de florestas. Ponto em que se discutem ainda temas relativos à realização do Diagnóstico Socioambiental e do Termo de Compromisso. Ainda há espaço para a apresentação dos trabalhos de 2 Grupos de Trabalho criados na última RO: Reestruturação das representações do Conselho; e a questão das terras indígenas do Nukini e Naua. No primeiro GT, quem fez o relatório dos trabalhos foi Pablo Saldo, AA. Posteriormente, Francisco Pianko relata sua experiência junto aos Nukini, com o intuito de dialogar quanto à construção de estratégias de ocupação e demandas fundiárias que não tivessem incidência sobre as terras do Parque.
Em seguida fez-se o rito de entrega dos certificados de conselheiro, entregues tanto aos titulares como aos suplentes, que foi feita por meio da escolha de uma pessoa, conselheiro ou não, incumbida de receber o material e repassar o documento para o neófito. Após a entrega do certificado, uma salva de palmas eclode da plenária. Dona Iranir, da comunidade Bom Sossego, entregou o diploma para Miguel Scarcello; Rosana, AA, para José Mauro/UFAC; Tenente César Augusto, 61 BIS, para Camila Gomes, substituta do presidente do Parque; Dona Vânia, da Associação Comercial do Alto Juruá, para Francisco Ashaninka, Secretário da SEPI-AC.
Essa reunião foi concluída com a apresentação dos resultados dos intercâmbios. Momento em que solicitei que os conselheiros que participaram das viagens dos
intercâmbios apresentassem suas impressões. Após suas falas, houve questionamentos sobre os resultados concretos dos intercâmbios, e Cazuza, do Pesacre160
, fez uma defesa veemente afirmando que:
A possibilidade de diálogo foi iniciada antes do intercâmbio, mas o intercâmbio propiciou a ampliação do diálogo. Compareceu com a experiência do São Salvador, houve qualificação das pessoas sobre o que é o Parque. O que eu testemunho é que para a discussão do Conselho, esse processo de visita e de trocas tem enriquecido as nossas discussões. Estamos sendo mais propositivos no conjunto. Principalmente os moradores. Mais do que era no passado. No passado era: não aceitamos e pronto. Agora a coisa tem um pouco mais de perspectiva/diálogo.
Já na conclusão do evento, Miguel Scarcello apresentou o Plano de Negócios do Parque, explicando que se trata de um estudo que irá ser apresentado ao Conselho para a busca de alternativas que gerem renda para o PNSD. E essa alternativa, permitida por lei, é o turismo. Para haver a capacitação em Plano de Negócios, Arpa, Proecotur. E contando com a participação do empresariado local e das comunidades do Parque.
A RO é encerrada com os discursos de reivindicação de demandas das famílias que vivem dentro do Parque e seus impactos para os municípios. Seja a fala do representante do CNS, Chico Ginú, seja a do STR Alto Juruá ou do Secretário de Obras de Marechal Thaumaturgo, Arlém, que conclui: Sou a favor do Parque, porque nós do município já
somos acostumados à Resex, aos indígenas e mais uma vai ser formada: o Parque. Então nós já estamos acostumados a não ter verdura e ovos na cidade. Essa conclusão faz uma
alusão ao percentual de terras de uso especial no seu município: mais de 85% das áreas estão sujeitas a restrição para uso agropastoril, posto serem estoques de terras destinadas à conservação. Aparentando ser um tom irônico, é o discurso dos agentes governamentais diante das instituições ambientalistas, ou pelo menos nessa arena, que é eminentemente o espaço do exercício político por meio do discurso e de práticas comunicativas.
160 No seu depoimento, no livro de Bernardo e Melo (2005), Cazuza reafirma esse posicionamento de reconhecimento do impacto do intercâmbio junto aos conselheiros das comunidades e associações rurais.
CAPÍTULO 6 – MUNDUS E FUNDUS: COMUNIDADES DE COMUNICAÇÃO