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Comentário: algumas pessoas entraram no refeitório no momento em que eu conversava com as crianças. Um auxiliar de enfermagem foi medir a temperatura delas e ficou assustado com a interação existente ali: "Nossa, eu não sabia que eles falavam tanto". As crianças têm respostas diferentes à determinada forma de vinculação. Penso que o espaço potencial criado entre as pessoas é singular.

Solange também apareceu no refeitório para ver o que estava acontecendo. Saiu dizendo: "quero brincar também", demonstrando sua fragilidade. Antônio, pai de Guilherme, ficou um tempo na porta nos observando. Eu não havia explicado para ele sobre a minha presença no hospital, porque meu contato com Guilherme foi inusitado, visto que o menino chegou ao refeitório enquanto eu conversava com Sílvio; portanto, Antônio não compreendia aquela interação. Diante disso, chamei-o para sentar-se e falei em linhas gerais sobre o trabalho, entreguei-lhe o Termo de Consentimento para ser lido e permitir a participação do seu filho na pesquisa.

Em outro momento, entra subitamente no refeitório uma mãe com sua filha Milena, de dois anos e meio. Ofereci brinquedos à menina. Ela sentou numa cadeira, afastada das mesas dos garotos, olhou para as bonecas e, em seguida pegou uma delas. Segundo Guilherme, são mãe e filha, referindo-se à Milena e à boneca. Repete-se a preocupação com grande e pequeno, trazida em outras formas de expressão.

Quando a mãe de Milena saiu do refeitório, ela pegou outra boneca e saiu correndo. Antes de ir embora do hospital, eu passei pelo quarto da menina, conversei brevemente com sua mãe, que me devolveu as bonecas. Milena teria alta no dia seguinte, por isso não a convidei para participar dessa pesquisa.

Segundo Winnicott, o estado de quase alheamento define que o brincar tem um tempo e um espaço. Por essa razão, apesar das diversas interferências, havíamos construído

um setting próprio para o brincar e dessa forma uma conquista de privacidade e meio de expressão.

Segundo encontro

Cheguei ao hospital, fui ao quarto de Guilherme e Sílvio. Ao entrar, tanto Solange, mãe de Sílvio, como Antônio, pai de Guilherme ficaram eufóricos. Solange disse: "Ainda bem que você chegou, Márcia! Esses meninos ficaram o dia inteiro brigando... é 5h, não, é 5h30 que ela vem...". “Hum, quer dizer que eles andaram brigando?” – disse eu. Antônio prosseguiu: "Eu nunca vi meu moleque assim!”. Solange acrescentou: "Eles adoraram você".

Sílvio disse que iria ler a minha mão, ao pegá-la eu perguntei o que estava vendo, mas ele falou: “Não consigo ver! Tenho que bater na sua mão". Eu retruquei dizendo: "Tá loco, se acha que eu vou deixar você bater na minha mão... magina”. Ele deu risada e disse: "Deixa eu ver de novo. Nossa!"; demonstrando curiosidade eu perguntei: "O que foi? O que está vendo?". Ele respondeu: "Você terá dois filhos”... "Dois filhos!", disse admirada. "Dois meninos", disse ele, depois se corrigiu: "não, não um casal!” Esse jogo, logo após a recepção amistosa, demonstrou o seu cuidado internalizado. Em seguida ele demonstrou o seu desejo de que fôssemos um casal. O seu comportamento está de acordo com seu desenvolvimento psicosexual. Ele expressou a idéia de fixar o futuro, essa idéia persistiu até o último encontro.

Guilherme estava tomando inalação, mas queria deixar o que estava fazendo para brincar. Diante do estado agitado dele, disse que eu esperaria para a gente combinar como seria a brincadeira de hoje. Enquanto Guilherme continuava com a inalação, fui assinar os papéis com Solange e Antônio. Ela, menos receosa, disse: "Agora não tenho dúvida, faz bem para ele". No dia anterior, Solange havia feito a seguinte pergunta para mim: "Isso vai ser bom pra ele ou pra você". Acreditei que essa questão foi sendo resolvida à medida que Sílvio

mudou de atitude; expressava uma euforia notória, isso sem dúvida contribuiu positivamente para a cordialidade da mãe, demonstrando domínio da ansiedade inicial e da persecutoriedade.

Os pais disseram que seus filhos estavam com ciúmes de mim, por isso perguntei aos garotos: "Como é que a gente vai resolver essa briga, hein? Eles deram risadas. Continuei: "Então, acho que a gente pode dividir o tempo, das 18h às 19h, um; e das 19h às 20h, outro. O que vocês acham?". Sílvio foi espontâneo e disse: “Eu prefiro”. Na seqüência, Guilherme: “É mais legal, daí o cabeção não pega meus brinquedos”. Na verdade, quem pegava os brinquedos do outro era ele próprio; finalizei perguntando: "Então, quem será o primeiro?”. Sílvio respondeu que seria melhor o outro garoto ser o primeiro, por isso perguntei: “Mas você vai agüentar esperar a sua vez?”. Ele disse que passaria rápido e, na seqüência, falei: “Então, vamos combinar o seguinte, a gente faz um teste hoje, cada um tem a sua vez de brincar, só que um não pode interromper a vez do outro, pra não ter briga, será que a gente consegue?”; ao que ambos concordaram.

18h às 19h - Guilherme:

No percurso do quarto até o refeitório, Guilherme listou em voz alta suas atividades: "Primeiro eu vou brincar com os bichinhos, depois eu desenho, depois eu brinco mais um pouco com os bichinhos". Ao chegar no refeitório, ele disse: "agora são 6 horas, o Guilherme tem até às sete horas para brincar do que quiser, o que não der pra brincar hoje, você pode deixar para brincar amanhã". O enquadre, garantia de espaço, de limite.

Guilherme repetiu verbalmente a seqüência de brincadeiras, mas aparentemente menos ansioso. Juntamos duas mesinhas. Primeiro ele abriu a pasta e tirou os brinquedos mais os lápis. Ao ver as seringas, disse: "Hum, vou te dar injeção grandona" – com a maior seringa nas mãos. Ele veio até mim e 'aplicou a injeção'. Disse a ele: "Acabei de lembrar que ontem

no finalzinho da brincadeira você me disse que queria brincar de médico...!"; mas ele disse que não se lembrava disto.

Guilherme manuseou vários brinquedos em cima da mesa e escolheu brincar com os boizinhos. Ele quis construir uma fazenda, mas não conseguiu montar as cercas. Vendo a sua dificuldade, me dispus a ajudá-lo. "Você quer que eu te ajude a montar as cerquinhas?". Guilherme sorriu e disse: "que bom!". Montei uma cerca e logo após encorajei-o a montar as outras, ele conseguiu e pareceu muito contente com o resultado; desta forma expressava sua dependência, sua necessidade de ser protegido.

Em seguida, ele colocou os boizinhos para beber água e disse: “Tem um que bebe muito, que é perigoso beber tudo de uma vez". Demonstração de sua voracidade oral. Perguntei porque era perigoso e a resposta foi: "Fica com falta de ar!". Após dizer isso, pegou os dálmatas da pasta e colocou para proteger os boizinhos, depois pegou os dinossauros, o maior deles comeu o boizinho. Guilherme colocou o boizinho na boca do dinossauro de tal modo que não havia espaço para mexer com a boca, devido à proporção entre eles. Diante disso falei: "Nossa, será que o dinossauro vai conseguir engolir o boizinho?". Guilherme olhou atentamente o dinossauro e disse: "Vai ficar entalado".

Ele começou a tossir, eu perguntei: “e agora?”. "Tranca a garganta", disse ele. "Vou dar uma injeção" – dirigiu-se à pasta, pegou a seringa e deu no dinossauro. Disse para mim que ele não conseguiu comer direito; perguntei o porquê e ele respondeu: "Por causa das bolinhas da garganta" e finalizou dizendo: "Agora já é hora de desenhar".

Winnicott, em seu texto intitulado O brincar e a realidade, afirma: “Como observadores, notamos que na brincadeira tudo já foi feito antes, sentido antes, cheirado antes (...)”. (WINNICOTT, 1975, p. 140). Guilherme repetiu no jogo a sua frustração advinda da dificuldade real e imaginária de alimentar-se.

Em outro texto, Notas sobre normalidade e ansiedade (1931), Winnicott afirma que a ansiedade freqüentemente produz ou se faz acompanhar de certos sintomas físicos. Ao se aproximar dessas idéias Guilherme trouxe para o corpo essa vivência, tossindo.

Guilherme pegou uma folha sulfite e disse: "Vou desenhar uma cara" (ver Figura 5). Ele desenhou a cara com canetinha da cor vermelha. Pegou o lápis, pôs perto de si e disse: "Quero pertinho de mim". Enquanto desenhava, contou-me que sua mãe estava cuidando do cascão. Perguntei: “Quem é o cascão?”. Ele respondeu: “Meu avô, oras!” Falou que seu avô não tomava banho e era chamado de cascão, também comentou que tinha três irmãos mais velhos.

Nesse período da conversa, o pai de Guilherme sentou-se no refeitório, sua presença, porém, não interferiu em nossa conversa e brincadeira. Guilherme estava tão envolvido com o desenhar, a ponto de não se afetar com a presença do pai. Noutro momento, Sílvio apareceu na porta e disse: "Olha!" – com duas seringas nas mãos. Disse a ele: “Você veio me dar mais uma parte da sua coleção?” Ele acenou afirmativamente com a cabeça, então sugeri: “Não seria melhor você me entregar no seu horário?” Os olhos dele brilharam ao responder: "É sim!". Garantia de que teria espaço para cada um deles. Possivelmente Sílvio interferiu com medo de ser interferido.

Guilherme disse que ia desenhar uma casa, ele desenhou a casa e as janelas. Segundo Aberastury (1971), há desenhos-padrão que surgem conforme determinada enfermidade. Desenhar muitas janelas simboliza as dificuldades respiratórias e aparece comumente em crianças com asma.

O menino desenhou três janelas e uma porta e disse: “A porta precisa disso pra fechar” – referindo-se a fechadura. Então, Guilherme resolveu pintar as janelas dizendo: "Elas estão fechadas! As portas também". O que significa que a comunicação não estava aberta e, apesar de ter desenhado apenas uma porta, referiu-se no plural.

A seguir disse: "Vou desenhar uma chuva, uma chuva bem forte. (Ver Figura 6). O palhaço...". Eu falei: “Ah, você vai desenhar um palhaço igual o de ontem". Ao fazer o desenho disse que desenhou o pulmãozinho do palhaço. Voltou a desenhar a chuva e disse: “Mais chuva forte!”, acrescentando: "A chuva vai acabar com a casa e com as pessoas". Parece que Guilherme considerava a chuva uma ameaça externa de destruição e de morte.

Em seguida, ele desenhou um caixão, na parte superior da folha; assim de maneira explícita, Guilherme expressou a idéia de morte e demonstrou suas fantasias de destruição. Enquanto Guilherme desenhava o palhaço, começou a tossir muito, perguntei a ele: "quer tomar uma água, descansar um pouco?”. Ele disse que não precisava, mas expressou seu medo de morrer.

"Quero fazer outro desenho" - disse Guilherme (ver Figura 7). Perguntei se ele queria uma nova folha, ele respondeu: "Não precisa, tem outro lado". Ele fez menção de desenhar uma coruja, mas começou a desenhar uma pessoa. Disse que essa pessoa tinha as mãos de sapo e os pés também. Novamente a repetição de uma pessoa com algo de errado. Ele explicou que a pessoa era uma menina e que tinha cabelo feio dizendo: "Parece uma bruxa!”. Eu representava a mãe bruxa que não estava com ele. Projeção das suas emoções hostis. Esse desenho foi feito com canetinha de cor roxa.

Hisada (2003), em pesquisas realizadas com pacientes psicossomáticos, afirmou que o significado da palavra asma, em grego, é peito comprimido. Ao contrário do senso comum que associa a asma à falta de ar, ocorre justamente o oposto, segundo Hisada a criança com asma está cheia de ar e não consegue soltá-lo. Provavelmente, isso ocorre devido à presença materna asfixiante. Então, a criança tem que lidar com a oposição entre a autonomia e a dificuldade de liberar-se do objeto. Há o sobreinvestimento referente à fantasia de retorno ao útero, inviabilizando projetos para o futuro, resultando numa dependência, ou no aumento de insegurança e um bloqueio no processo de separação-individuação.

Segundo a autora, a rejeição materna é uma característica na vida da pessoa asmática, já a dependência reprimida da mãe é uma característica constante; assim “as crises de asma da criança estão na dependência direta do desejo inconsciente da mãe em controlá-la. A criança então a gratifica, ficando doente e demonstrando o quanto é dependente. Simultaneamente, sente-se frustrada e ressentida contra a mãe”. (HISADA, 2003, p. 52). Hisada frisou o ganho secundário à doença como facilitador para a cronicidade, a “opção” pelo adoecer reafirma a dependência.

Winnicott (1931)16 afirmou que crianças propensas à asma geralmente desenvolvem, até certo ponto, ataques relacionados à ansiedade, devido ao excesso de excitação que fica acima da capacidade de descarga. No primeiro encontro, Guilherme não conseguiu brincar de imediato, ele apenas oprimia Sílvio.

Mello Filho (2002), em seu livro intitulado Concepção psicossomática: visão atual, o autor relatou que ao atender crianças asmáticas no ambulatório de Pneumologia, observou a má relação entre mãe e filho. Segundo ele, eram mães com pouca capacidade interna de dar amor e que por isso cercavam a criança de superproteção; assim, esse tipo de mãe bloqueia as tentativas de crescimento do filho.

Os desenhos e jogos de Guilherme apontavam para o cuidado – os maiores protegendo os menores – e expressou sua voracidade oral e raiva contra mim e sua mãe associando à figura da bruxa.

Depois de dizer isso, começou a me contar que não podia operar “porquê a gargantinha não tava boa”. Perguntei qual era o problema, ele explicou: “Têm tosse, têm carninha no nariz e bolinha na garganta, aí eu sufoco”. Guilherme parou de falar e voltou a desenhar uma figura humana, chamada por ele, de menina. Esse lado do desenho foi feito com

16 WINNICOTT, D.

Notas sobre normalidade e ansiedade (1931). In: WINNICOTT, D. Textos

canetinha roxa, a mesma cor do desenho das janelas fechadas. Ele se organiza e consegue falar da sua dor.

Ele me perguntou quanto tempo tínhamos ainda e eu respondi que tínhamos mais dez minutos. Ele planejou em voz alta suas brincadeiras: "agora eu vou cortar, depois brincar mais um pouquinho com os brinquedinhos!". Ele disse que queria me dar o desenho. Pegou outra folha sulfite e disse que ia desenhar monstros. Pegou uma canetinha roxa e fez um monstro com muitos olhos e do outro lado da folha, outro monstro com uma cabeça muito grande, demonstrando sua ansiedade paranóide.

Depois de desenhar, ele pediu para recortar: "Não quero mais esses monstros!". Recortou o papel em pedaços pequenos, em seguida jogou-os no lixo; novamente ele pôde se livrar de coisas ruins.

Voltou-se para os brinquedos e guardou aqueles com os quais não queria mais brincar. Separou as bonecas, disse que era de menina e ele não podia brincar. Eu falei a ele que se quisesse poderia brincar com aquelas bonecas. Na última brincadeira, Guilherme levou um carrinho e um helicóptero, um de cada vez, para passear, dizendo: "Já acabou, Márcia?". Respondi que sim, que seria a vez do Sílvio e que amanhã eu voltaria. Ele saiu sem maiores protestos, ao contrário do encontro anterior.

Desenhos feitos por Guilherme durante o segundo encontro:

Benzer Belgeler