9. GEREÇ VE YÖNTEM
9.5 Hastalar
9.5.1 Çalışmaya Dahil Edilememe Kriterleri
Conversa com a mãe.
Agradeci à Neuza pela participação na pesquisa que me respondeu: “Foi muito bom, Pedro gostou bastante”. Pedi para ela me contar como foi o processo de adoecimento de Pedro. Neuza disse que ele estava dormindo muito; ela percebeu então a febre no garoto, em seguida levou-o até o pronto socorro da sua cidade. O médico receitou medicamento para febre e mandou-o de volta para casa. Mesmo medicado Pedro não melhorou, ao contrário foi piorando, chegou até a desmaiar. Diante disso, Neuza retornou ao pronto socorro e o mesmo médico lhe disse: “Mãe, já que a senhora tem tanto dinheiro pra ficar vindo aqui, por que não leva seu filho pra passear? Isso ai é dengo, é falta de passeio”. Ela voltou para casa e de madrugada o garoto começou a ficar mal outra vez, com febre, “molinho”.
Nesse momento da narrativa eu perguntei para Neuza sobre o pai do menino. Ela disse que ele trabalhava em outro Estado. “Eu até pensei no começo que era saudade do pai” – disse Neuza, pois este havia viajado naquele final de semana. “Mas depois eu vi que a coisa era séria! – concluiu. Foi pela terceira vez ao mesmo hospital. Pedro, dessa vez foi atendido por outro médico, cuja atitude foi pedir sua internação imediata para tirar chapa do pulmão; “Pedro fez várias lavagens. Foi um horror!” – disse Neuza. Através desse atendimento foi comprovado o quadro de pneumonia e por falta de recursos no hospital, o garoto foi transferido para o Hospital em Presidente Prudente. Ao chegar lá foi diretamente encaminhado para a UTI.
Perguntei como tinha sido os dias em Presidente Prudente. “Bem melhor”, respondeu-me, visto que conversava com os médicos e “nesse tempão fez até amigos no hospital”. Ela disse que não sabia como seria estar em casa outra vez. Pedro trouxe no brincar sua expectativa de voltar para casa, assim como Neuza verbalizou sua volta ao lar.
Ela disse que o pai do garoto ia fazer uma festa de aniversário atrasada, pois Pedro passou seu aniversário no hospital. Ainda comentou: “Criança não entende, pra ele vai ser festa de aniversário”. Perguntei sobre as visitas do pai ao hospital, ao que me respondeu dizendo que ele quase não vinha por conta da distância do seu trabalho. Disse que em casa eles dois (pai e filho) saem juntos e ela fica sozinha. Neuza sintetizou a experiência de internação de Pedro dizendo:
“Foi a primeira vez que eu passei por isso. Sabe aquela mãe que é cuidadosa até demais: tá frio - põe agasalho, não bebe gelado, não toma sorvete. Eu não sei como isso foi acontecer! Mas, Pedro me surpreendeu. Às vezes quando eu não estou agüentando mais ele tá lá feliz. Ele que me dá força. Não chora, não pede pra ir embora. Às vezes ele dá um ataque e joga tudo, mas logo passa. No geralzão é um amor, tranqüilo. Daí fica mais fácil estar aqui”.
Conforme Hisada (2004), “É a doença de cada um”. Pedro adoeceu após a partida do pai para trabalhar em outro Estado. Não possuo dados suficientes para relacionar esses fenômenos, mas em vários momentos Neuza sinalizou seu temor de abandono, o que pode ter se refletido em seu filho.
No texto intitulado O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil, Winnicott afirma que o bebê, ao olhar a mãe, deve encontrar-se e, conseqüentemente sair do seu narcisismo primário. Mas, se a criança olha para mãe e vê seu estado de afeto, então pode através do seu falso self adaptar-se aos desejos da mãe para não perder o seu amor. Possivelmente a fantasia de abandono tenha sido insuportável para Neuza e isso foi detectado por Pedro. No seu discurso Neuza afirmou: “Às vezes, quando eu não estou agüentando mais ele tá lá feliz. Ele que me dá força”. Em outros momentos ela disse; “parece que ele adivinha”, referindo-se as atitudes de Pedro; esses relatos indicam que, também na
hospitalização, ele tentava adaptar-se a sua mãe o que provavelmente explica o seu recorrente “Tô bem”.
A conversa com a mãe é uma chance para a exposição de seus desejos e medos, algo comumente não incentivado no contexto hospitalar.
Notas
Escolhi o tema Pedro: seu brincar, sua voz; pela capacidade de brincar demonstrada por ele. Pedro falava pouco, mas possuía grande energia para brincar, momento em que podia ir além do seu repetitivo “Tô bem”. O término dos encontros com Pedro foi regido pela expectativa da alta. A duração de cada encontro variou conforme a intensidade da atividade do dia, não ultrapassando uma hora e meia.
Os temas das brincadeiras variaram: no primeiro encontro, o jogo repetitivo com a seringa; no segundo, apenas manuseio de brinquedos; no terceiro, o brincar com a cola; no quarto e quinto encontros, predomínio do brincar com a boneca; no sexto, a temática da febre e no último, referência à volta ao lar ao despedir-se.
Pedro compreendeu e usou o seu horário destinado ao brincar distinguindo esse espaço de outros, por exemplo, ao interromper, no terceiro encontro, a interação com os estagiários.
O aumento no número de brinquedo exposto no quarto após o terceiro encontro indicou maior incentivo do brincar durante a hospitalização. O brincar é autocurativo; remete a um fragmento da carta da mãe de Gabrielle: “Mas ela também brinca agora com mais criatividade e com maior freqüência do que antes”. (WINNICOTT, 1987, p. 111).
Minha postura pautou-se numa atenção flutuante e os sentidos para o brincar aconteciam no fluxo de idéias. Só pude compreender a temática do brincar de Pedro no sexto encontro, após conversar com Neuza.
Oliveira afirma: “para conhecer um fenômeno é preciso interpretá-lo, rompendo a lógica da ordem e de sentido em que os dados nos são oferecidos, buscando seus sentidos onde aparentemente não estão”. (OLIVEIRA, 1984, p. 51).
Manejo do setting, especialmente no primeiro e no terceiro encontros; o segundo foi usado por Pedro para testar minha disponibilidade. Relatei as interrupções decorrentes das intervenções da equipe de saúde para trazer a especificidade da dinâmica hospitalar, não raro a falta de diálogo e de olhar o conceito de privacidade torna-se comprometido, mas é possível a configuração de um espaço destinado ao brincar nessa dinâmica.
5.2 - Sílvio e Guilherme: dois meninos, duas histórias. Sílvio: de um menino
adaptado à revelação de uma pecinha quebrada. Guilherme: no desenho a sua
forma de expressão.
Sílvio, garoto de doze anos e cinco meses de idade, estava internado há seis dias no hospital quando iniciou sua participação na pesquisa. Tivemos quatro encontros os quais ocorreram no período de um a quatro de dezembro de 2003. A hospitalização de Sílvio se deu em virtude de uma infecção urinária. Ele aguardava transplante renal e, durante a internação, era acompanhado por Solange, sua mãe. Filho caçula e único menino do casal que tinha quatro filhos e residiam em outra cidade.
No hospital, Sílvio dividia o quarto com Guilherme, um garoto de quatro anos e dez meses de idade, internado há quatro dias, quando se iniciou sua participação na pesquisa. Sua internação ocorreu por causa de asma e de tosses freqüentes; também aguardava cirurgia, porém para extração de ‘carne esponjosa do nariz’. Guilherme tinha três irmãos mais velhos e, durante a internação, o menino esteve em companhia de Joana, sua mãe e de Antônio, seu pai. Os encontros aconteceram no refeitório, uma sala onde eram servidas as refeições tanto para as crianças que podiam sair do leito como para os seus acompanhantes. Esse local também era usado para recreação; havia dois armários com brinquedos, porém ficavam a maior parte do tempo fechados, havia cadeiras e mesas semelhantes a uma sala de educação infantil e tinha uma pia e um banheiro, com chuveiro em anexo.
O primeiro encontro com os garotos aconteceu de maneira inusitada e surpreendente, pois ambos foram atendidos simultaneamente. O segundo aconteceu individualmente e de forma que os meninos tivessem, respectivamente, seu horário de exclusividade garantido. No terceiro encontro, eles voltaram a brincar juntos, mas Guilherme ficou menos tempo na sala onde aconteciam os encontros. Já no último, uma quinta-feira, os garotos tinham previsão de alta hospitalar para os próximos dias.
Optei por escrever os registros de cada encontro e procurei contextualizá-los de modo a tecer breves comentários sobre a repercussão desses na instituição. Ao final dos registros, trago os desenhos feitos pelas crianças, entretanto, eles foram digitalizados sem elementos que os identificasse.
Chegada à instituição:
Passado um mês e meio dos encontros com Pedro, retornei ao hospital por volta das cinco horas da tarde. Com base na experiência anterior percebi que comumente, nesse horário, o hospital estava com menor circulação de pessoas, pois era o final do horário de visitas, era o intervalo no turno de estagiários e raramente solicitava-se exame aos pacientes. Por essa razão, considerei esse horário oportuno para a retomada da pesquisa.
Dirigi-me à portaria, o porteiro responsável pelo turno me cumprimentou de forma saudosa. Notei que ele possuía uma lista com as informações dos pacientes da pediatria, por isso perguntei-lhe se havia crianças maiores de três anos de idade internadas. Num dado momento, ele autorizou minha entrada dizendo: “Pode subir na pediatria, fique à vontade”. Sua atitude me deixou intrigada porque, até então, era exigido crachá de identificação como norma do hospital demonstrando que existia um rígido controle para o acesso das pessoas à pediatria. Em seguida, subi até a pediatria.
Chegando ao posto de enfermagem encontrei uma enfermeira para a qual perguntei sobre as crianças internadas, ela me disse: “tenho que fazer dois curativos”, porém antes de sair, disse que eu poderia ver os prontuários. Enquanto eu consultava os prontuários chegou um fisioterapeuta que, ao me reconhecer, espontaneamente fez uma listagem verbal das crianças que estavam internadas e, antes dele terminar, chegou um menino.
A recepção amistosa, a atitude desburocratizada do porteiro, a aparente cordialidade da enfermeira e a espontânea listagem verbal das crianças feita pelo
fisioterapeuta demonstraram a repercussão que os encontros causaram na instituição, confirmada nessas diferentes relações estabelecidas.
Segundo Bleger, “Por responder às mesmas estruturas sociais, as instituições tendem a adotar a mesma estrutura dos problemas que têm de enfrentar. Assim, no hospital geral, a dissociação corpo-mente que rege os pacientes rege a própria instituição”. (BLEGER, 1992, p. 62). Essa citação de Bleger sustenta a ambivalência de emoções notada por mim nas diferentes atitudes demonstradas. A atitude da enfermeira exemplifica a cisão característica dessa instituição, ou seja, eu converso/brinco com as crianças, ela faz os curativos.
Com a chegada do menino, o fisioterapeuta disse: “Sílvio pode te mostrar o hospital, ele conhece tudo aqui”. Apesar de considerar a situação demasiadamente inusitada, aceitei a sugestão e fui passear com Sílvio. Durante o passeio notei que ele realmente conhecia a pediatria. Ele me levou a todos os quartos, pediu licença às pessoas para entrar no quarto e as chamou pelo nome, em alguns casos dizia para mim quando a pessoa havia chegado ao hospital. Sílvio pareceu ter introjetado a dinâmica hospitalar. Mello Filho (2002) descreve e faz um oportuno comentário a respeito da comum interação entre pessoas no hospital, segundo ele:
Assim, apesar dos seus reconhecidos malefícios, o hábito de discutir o caso na presença do próprio doente – de tratá-lo como se fazia antigamente com as crianças, discutindo-se coisas que lhes diziam respeito na suposição-negação de que eram ‘inocentes’e não entendiam – é, infelizmente, ainda uma prática em voga, apesar de muito menos vigente que há poucos anos. Do mesmo modo, a prática de examiná- lo, perguntar-lhe coisas, usá-lo, sem dar satisfações ou pedir permissão, sabemos, persiste em uso. Como também a clássica visita, leito a leito, o round da medicina americana em que muito se aprende nesta discussão coletiva, mas... os doentes também aprendem coisas sobre si e sobre os outros que não lhe são necessárias. E, mais que isto, são mobilizadas, inevitavelmente, conjeturas, fantasias, ansiedades, dúvidas, sofrimentos, enfim. (MELLO FILHO, 2002, p. 129).
Sílvio, na sua atitude, mostrou-me o funcionamento do hospital, algo que ele parecia conhecer muito bem. Minha atitude ao entrar nos quartos foi a de apresentar-me e dizer às pessoas que Sílvio queria me mostrar a pediatria. Após esse passeio, veio o jantar. Disse ao menino que ficaria esperando por ele na Sala de Espera, um prolongamento do
corredor na pediatria. Neste local havia uma televisão, algumas cadeiras, paredes com desenhos de bichos, alguns cartazes informativos sobre aleitamento materno e data de vacinas. Por ser um prolongamento do corredor não é um local fechado, assim quem passa pelo corredor vê quem está na sala de espera e vice-versa.
Sílvio, mediante sua liberdade de locomoção em âmbitos mais restritos do hospital e pela sua repetição de padrões de rotinas hospitalares em consonância com o material criado nos demais encontros, pareceu revelar faces de um falso self, um self adaptativo. Demonstrou também a utilização de defesas maníacas para evitar ou fugir da realidade.
As defesas são recursos psíquicos importantes para suportar uma realidade muito dolorosa, entretanto, há o ônus de ocultar ou distorcer o verdadeiro self. Se para um adulto o uso recorrente de defesas interfere na sua continuidade de existência, para a criança isso é ampliado; pois, ao usar as defesas como padrão de existência, pode constituir o seu próprio ser, baseado, portanto, num falso self.
Winnicott, em seu texto A defesa maníaca (1935), afirmou:
É apenas quando estamos deprimidos que nos sentimos deprimidos. É justamente quando estamos utilizando a defesa maníaca que há menos probabilidade de sentirmos que estamos nos defendendo contra a depressão. Nestas horas, é mais provável que nos sintamos alegres, exultantes, ocupados, excitados, bem humorados, oniscientes, “cheios de vida”, ao mesmo tempo em que mostramos um interesse menor que o normal por coisas sérias e pelo horror ao ódio, à destruição e à morte. (WINNICOTT, 1988, p.251).
Por meio das observações realizadas presumo que para a equipe de saúde torna-se mais fácil se relacionar com o falso self do paciente. Ter uma criança internada adaptada ao hospital é mais tolerável do que ver o seu sofrimento e sua insatisfação revelados. Assim, as relações humanas no hospital podem ser uma relação de falsos selves.
Após o jantar, Sílvio me procurou na Sala de Espera e ficou feliz ao perceber que eu o havia esperado. Perguntei há quanto tempo ele estava internado e obtive como resposta: “dessa vez, desde terça-feira”. Perguntei o porquê de sua internação, e ele respondeu: “Por causa de uma infecção urinária”. Contei a Sílvio que eu também tive e que doía muito. Ele
disse: “Você foi uma vez, imagina eu desde os nove anos...” “Desde os nove anos?” – perguntei espantada.
Paulatinamente ele começou a detalhar a sua história e contar-me “que não era só uma vez que estava internado”. Disse-me que desde os nove anos ficava hospitalizado por causa de infecção urinária, mas ao passear pelo hospital, reforçava a idéia de que estava bem. Sua história de internação era de anos e a expectativa de transplante renal o acompanhava. Eu soube no dia seguinte, por intermédio da enfermeira, a respeito da necessidade de transplante de Sílvio.
Resolvi perguntar sobre a escola para saber como ele se organizava no cenário de internações recorrentes. Disse-me apenas que estava operado há oito meses e que por isso não freqüentava a escola. Ele me perguntou onde eu morava, respondi que em Assis; ele disse que morava numa cidade perto. Foi quando me elogiou dizendo que eu era bonita, ao que agradeci. Assim ele demonstrava sua transferência positiva em relação a mim e também o seu desejo de ser aceito.
A forma como fui recebida por Sílvio revelava sua idealização sexual. Ele me perguntou: “Como você consegue conversar olhando pras pessoas?”. Voltei a pergunta a ele: “você não consegue conversar olhando para as pessoas?; a resposta foi não. Possivelmente Sílvio percebeu algo diferente no meu olhar, na minha forma de conversar com ele. Ele demonstrou a sua dificuldade de vinculação e de expressão do seu ser.
Nesse momento, chegou um auxiliar de enfermagem para colocar medicamento. Sílvio estava com a tala no braço para medicação, então disse ao auxiliar que preferia continuar na Sala de Espera comigo ao invés de ir para seu quarto. O auxiliar trouxe até onde estávamos o aparato para colocar o medicamento. O desejo de Sílvio de permanecer na sala foi compreendido pelo profissional, demonstrando não ter considerado uma transgressão às
normas. Mas as interferências durante os encontros devem ser entendidas na perspectiva de que há uma intencionalidade, consciente ou inconsciente, nas ações humanas.
Continuei a conversa com Sílvio durante o procedimento. Sobre sua família ele me disse que tinha mais três irmãs mais velhas. Sílvio falou “que o soro não doía, mas que tinha que ficar com as mãos paradas para não perder a veia. Por que perder a veia dói demais“. Mais uma vez ele demonstrava sua adaptação ao hospital, pois descobriu que era mais prudente ficar com as mãos paradas, apesar do incômodo, do que recomeçar o procedimento.
Eu lhe perguntei: ”Você prefere ver as coisas da pasta aqui, ou no refeitório? Respondeu-me que preferia no refeitório, assim podia mexer a mão sem medo. “Daí eu faço tudo de uma vez”, disse ele. “Tudo de uma vez”? – perguntei. “É, ver a pasta, brincar, escrever... ah, que bom que foi essa mão, com essa eu não escrevo“ – disse ele. Novamente Sílvio quis me dizer que sua situação não era tão ruim quanto aparentava, pois apesar de ter uma mão imobilizada não era a que ele mais usava.
Perguntei a Sílvio se ele sabia o que eu fazia ali no hospital. Ele sorriu, me olhou e disse: “Não sei não!”. Expliquei a ele que eu era pesquisadora, estudava na Unesp de Assis e o meu estudo era conversar com as pessoas da pediatria (não quis dizer crianças) para saber o que elas pensavam e sentiam por estarem no hospital. Perguntei se ele gostaria de participar desse estudo e que para isso precisaríamos conversar com sua mãe para explicar-lhe tudo. Animadamente ele respondeu que gostaria muito e em seguida chamou sua mãe, Solange.
Apresentei-me a mãe, falei sobre a natureza do trabalho e dei-lhe o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para ser lido, salientando que para a efetivação do estudo, eu precisava de sua assinatura, demonstrando assim seu consentimento formal para a realização da pesquisa. Ela perguntou se isso ia prejudicar o seu filho, respondi que desde 1999 eu conversava e brincava com as crianças internadas e que elas gostavam e aproveitavam esse espaço. Reafirmei que eu não era contratada do hospital e que a
participação nesse estudo era voluntária. Ela teve medo de assinar e justificou esse medo contando-me sobre uma vez em que caiu na conversa mole de um vendedor e comprou uma enciclopédia sem estar trabalhando. Demonstrou sua transferência negativa e sua resistência ao contato, pois ao falar não olhava para mim.
Disse a ela: ”Você pode ficar com o papel para ler melhor, com mais calma, mas hoje eu vou conversar com Sílvio”, fui enfática naquele instante ao dizer que iria conversar com Sílvio, pois havia prometido e combinado isso com ele. Solange disse que não se importava. Ela me perguntou: “Posso fica com o papel mesmo?”. Reafirmei o que já havia dito, pois assim ela poderia lê-lo melhor e pensar. Solange expressou, nesse campo transferencial, sua falta de confiança. Penso que ela revelava sua dificuldade em acreditar nos médicos e no tratamento do filho. Provavelmente sentia-se enganada, facilmente “enrolada” pela conversa mole; afinal, eram anos de recorrentes hospitalizações do filho e ele não ‘melhorava’.
Aproveitei sua indagação para continuarmos numa conversa informal. Ela perguntou minha idade e assustou-se quando eu disse que tinha 24, dizendo que eu tinha ‘cara de muito mais nova’. Após a minha permissão de deixá-la ficar com o papel e tomar a decisão com mais calma participando ou não do estudo, ela se mostrou mais amistosa, mais disponível