De acordo com Soares (2006), o aprendizado da leitura e da escrita traz conseqüências sociais, culturais, políticas, econômicas, cognitivas e lingüísticas para o indivíduo ou para o grupo do qual ele faz parte. Fazer uso social da leitura e da escrita, praticá-las conforme a demanda social é característico do indivíduo letrado.
Para definir letramento, Soares (2006) utiliza como referência um poema de Kate M. Chong6 que apresenta a história pessoal da autora sobre o letramento:
O que é letramento?
Letramento não é um gancho em que se pendura cada som enunciado,
não é treinamento repetitivo de uma habilidade
nem um martelo quebrando blocos de gramática.
Letramento é diversão é leitura à luz de vela ou lá fora, à luz do sol.
São notícias sobre o presidente, o tempo, os artistas da TV e mesmo Mônica e Cebolinha
nos jornais de domingo.
6 McLAUGHLIN, M.; VOGT, M. E. Portfolios in teacher education. Newark, De: International Reading Association, 1996.
75 É uma receita de biscoito,
uma lista de compras, recados colados na geladeira, um bilhete de amor, telegramas de parabéns e cartas
de velhos amigos.
É viajar para países desconhecidos, sem deixar sua cama,
é rir e chorar
com personagens, heróis e grandes amigos.
É um atlas do mundo, sinais de trânsito, caças ao tesouro,
manuais, instruções, guias, e orientações em bulas de remédios,
para que você não fique perdido.
Letramento é, sobretudo, um mapa do coração do homem,
um mapa de quem você é, e de tudo que você pode ser.
(CHONG, Kate M.)
A partir da leitura do poema, compreendo a amplitude do conceito de Letramento. Interpretando a primeira estrofe, percebo que letramento não é alfabetização, ou seja, a decodificação mecânica de se transformar sinais gráficos em fonemas, não é a repetição do “ba, be, bi, bo, bu” nem tampouco a fragmentação do texto em blocos para se decorarem regras gramaticais.
Acredito que, assim como o sentido vem do leitor para o texto, o Letramento vem da sociedade para a escola. Percebemos a função social da leitura e da escrita fora da escola, é na utilização no dia-a-dia que atribuímos significado a elas.
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Percebo também que Letramento é dar sentido à leitura e à escrita por meio de objetivos pré-estabelecidos, é ler o mundo real, seja para diversão, informação, instrução etc. É viajar pelo mundo e ter contato com outras culturas sem a necessidade de sair de casa, é viver emoções por meio da leitura. É também se orientar no mundo percebendo o sentido nas placas, letreiros de ônibus, nomes de ruas, interpretando mapas. É descobrir quem se é e onde se pode chegar...
Kleiman (2007) afirma que o letramento tem como objeto de reflexão, de ensino ou de aprendizagem os aspectos sociais da língua escrita. Assumir o letramento no contexto escolar, mais especificamente nas aulas de leitura, equivale a questionar: “quais os textos significativos para o aluno e para sua comunidade?” Determinar que texto é esse implica, de acordo com a autora, partir da bagagem cultural diversificada dos alunos, que, antes mesmo de entrarem na escola, já são participantes de atividades corriqueiras de grupos sociais, ou seja, já pertencem a uma cultura letrada.
Pensar o trabalho pedagógico com base nessa concepção, conforme Kleiman (2007), significa aceitar o caráter heterogêneo das pessoas e dos grupos sociais, portanto, as diversas atividades entre as pessoas acontecem de modos muito variados e podem gerar resultados imprevisíveis. É fundamental valorizar o singular na hora em que o aluno formula uma hipótese, dá uma resposta, questiona uma informação, demonstra seus conhecimentos, enfim, também, na hora da avaliação.
Kleiman (2007) afirma que para trabalhar na perspectiva do Letramento, além de considerar o impacto social da escrita, é importante também considerar as mudanças e transformações sociais decorrentes das novas tecnologias e novos usos da escrita, bem como os seus reflexos no homem. Conseqüentemente, extrapolamos os limites dos textos literários, aqueles extraordinários que pouquíssimos conseguem escrever, e passamos a incluir os textos do cotidiano, os textos comuns do dia-a-dia, mesmo que o objetivo com a inclusão deles seja construir a segurança do aluno em relação à sua própria capacidade de ler e escrever: listas, bilhetes, receitas, avisos, letreiros, “outdoors”, placas de rua, crachás, camisetas, enfim, a escrita ambiental em sua enorme variedade passa a ser assim reconhecida e utilizada. Essa ampliação estende-se também às instituições em que os textos circulam. Também são incluídos os textos que circulam em outras esferas, como a da intimidade doméstica: bilhetes, recados e cartas pessoais; contas, extratos e cheques; exames, laudos e carteiras de vacinação, boletim escolar e diplomas, entre outros (KLEIMAN, 2007, p. 7).
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A autora ainda acrescenta que, na prática social, o oral e o escrito não se opõem, mas complementam-se com a finalidade de construir os sentidos e refletir sobre eles.
Finalmente, trabalhar na perspectiva do letramento pode envolver o professor em uma prática pedagógica reflexiva, que vê a linguagem não como um elemento neutro, mas relacionada a questões éticas, sociais, políticas e ideológicas; no sentido de contribuir para instrumentalizar o aluno para a transformação do cenário de desigualdade e exclusão.
É importante destacar que uma pessoa pode ser analfabeta e ser letrada, ou seja, se a pessoa tem interesse em ouvir a leitura de um jornal realizada por alfabetizado, se solicita que outros leiam cartas que recebeu ou avisos afixados em algum lugar, ou ainda dita cartas para que alguém as escreva, essa pessoa é, de certa forma, letrada, porque envolve-se em práticas sociais de leitura e de escrita (SOARES, 2006, p.24).
Passo, agora, a apresentar reflexões sobre a natureza social do processo de aprendizagem.