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Toda pesquisa da própria prática é, obviamente, participante, no sentido de que o pesquisador participa do ambiente pesquisado. Rocha e Aguiar (2003, p. 66) alertam, porém, que “na literatura brasileira, as diversas tendências metodológicas que envolvem o conceito de participação apresentam maior polêmica, gerando

49 Porém, é necessário salientar que estes autores trabalham a partir da perspectiva de publicações estrangeiras. No Brasil, considero que autoestudos conduzidos em nível superior ainda são escassos.

muitas vezes dificuldades quanto à sua compreensão50”. Para Paulon (2005), a pesquisa pode ser considerada como participante quando o pesquisador está inserido no campo de suas observações, mas sem problematizar esse campo.

Caso haja tanto a inserção do pesquisador como a problematização desse campo, então a pesquisa pode ser considerada como pesquisa-ação. De forma similar, Thiollent (1987) entende que a pesquisa-ação é uma forma de pesquisa- participante. Na presente pesquisa, trabalhei a partir dessa compreensão de Thiollent (1987): de que a pesquisa-ação é um tipo de pesquisa-participante. A partir disso, como mostrarei a seguir, a pesquisa-intervenção, bastante utilizada na Psicologia Social, também será considerada como uma modalidade de pesquisa- participante que possui algumas similaridades e também algumas diferenças em relação à pesquisa-ação.

Para Rocha e Aguiar (2003) e Zeichner e Noffke (2002), a gênese das pesquisas participantes tem início com os trabalhos de Kurt Lewin. Este autor, ao buscar maneiras de aumentar a produtividade de operárias em fábricas dos EUA, inaugura a ideia de pesquisa-ação e causa uma reviravolta epistemológica ao negar três características tidas como pilares da ciência até então: o mito da objetividade na produção do conhecimento; a ideia de neutralidade do pesquisador, entendendo que ele sempre intervém no objeto pesquisado; e a concepção de “verdade” e totalidade do saber (ROCHA e AGUIAR, 2003).

Muitos autores de diversas áreas já assumem, atualmente, a impossibilidade de manutenção desses três pilares da ciência positivista, que possuem sua gênese no texto Discurso do Método, de Descartes (1973). Fourez (1995), por exemplo, entende que a ciência, embora fundamental no desenvolvimento humano, não produz verdades absolutas, apesar do número cada vez maior de sociedades (ocidentais e orientais) que pensam o contrário. Para desenvolver essa ideia, o autor afirma, amparado pelas ideias do paradigma qualitativo expostas anteriormente, que as descobertas da ciência são transitórias e, mais do que isso, dependentes da maneira como se vê o mundo, da cultura em que a ciência produzida está inserida.

Portanto, Fourez (1995), ao dizer que toda a ciência é mediada pela cultura em que está inserida, reconhece seu relativismo. É relativa em termos de “verdade eterna”, posto que novas descobertas sempre podem mudar a verdade assumida

50 As autoras afirmam também que, na literatura estrangeira, as discussões acerca do assunto não focam as diferenças entre estes métodos, mas sim entre métodos participativos e não-participativos.

hoje, e também em termos de “verdade absoluta”, única, pois necessariamente é inserida em uma cultura específica em meio a outras culturas, que podem olhar para essa verdade a partir de outro “sistema de significações”, determinando outro “modo de vida global” (WILLIAMS, 1992, p. 10-13).

Além dessa quebra de paradigma em relação às pesquisas positivistas / quantitativas, a pesquisa-ação Lewiniana possui uma característica comum à pesquisa-intervenção, e que pode ser a responsável pela confusão entre elas. Essa característica diz respeito ao fato de que “Lewin (1969) criava a pesquisa-ação e a dinâmica de grupo, fundamentando uma psicossociologia ativa frente às questões sociais, em que a gênese social precedia a gênese teórico-metodológica” (ROCHA e AGUIAR, 2003, p. 65). Em outras palavras, os dois tipos de pesquisa consideram que o campo também é locus de construção teórica.

Portanto, a pesquisa-intervenção pode ser considerada como um tipo de pesquisa-participante e compartilha de algumas características da pesquisa-ação citadas anteriormente, porém apresentando algumas diferenças fundamentais que justificam sua existência como método de pesquisa. De acordo com Rocha e Aguiar (2005, p. 66):

Podemos considerar que a pesquisa participante se constitui em uma metodologia com pressupostos gerais de pesquisa, envolvendo diferenciados modos de ações investigativas e de priorização de objetivos. A pesquisa-intervenção consiste em uma tendência das pesquisas participativas que busca investigar a vida de coletividades na sua diversidade qualitativa, assumindo uma intervenção de caráter socioanalítico.

Uma das diferenças entre a pesquisa-ação e a pesquisa-intervenção diz respeito ao fato de que, além de uma ação transformadora, os sujeitos envolvidos realizam uma ação para produção de acontecimentos. Dessa forma, os dados de uma pesquisa-intervenção não são apenas criados a partir de pressupostos teóricos pré-definidos, mas construídos num processo onde teoria e prática se confundem e se criam mutuamente (PAULON, 2005; ROCHA e AGUIAR, 2003). Em outras palavras, embora tanto na pesquisa-ação como na pesquisa-intervenção o pesquisador esteja inserido e problematize sua inserção no campo de suas observações, apenas na segunda ele problematiza também suas concepções de subjetividade e ciência com que a investigação se orienta (PAULON, 2005). Essa ideia fica mais clara a partir do excerto a seguir:

O processo de formulação da pesquisa-intervenção aprofunda a ruptura com os enfoques tradicionais de pesquisa e amplia as bases teórico- metodológicas das pesquisas participativas, enquanto proposta de atuação transformadora da realidade sócio-política, já que propõe uma intervenção de ordem micropolítica na experiência social. O que se coloca em questão é a construção de uma “atitude de pesquisa” que irá radicalizar a idéia de interferência na relação sujeito/objeto pesquisado, considerando que essa interferência não se constitui em uma dificuldade própria às pesquisas sociais, em uma subjetividade a ser superada ou justificada no tratamento dos dados, configurando-se, antes, como condição ao próprio conhecimento (ROCHA e AGUIAR, 2003, p. 67)51.

O resultado final deste processo de intervenção é desconhecido por todos os sujeitos envolvidos no estudo, ampliando-se assim a ideia de transitoriedade da “verdade” produzida pela pesquisa.

É ao afirmar esta escolha ética que aquele “sentido da ação” antes visto como um planejamento conjunto de uma ação transformadora assume mais a conotação de uma intervenção voltada para a produção de acontecimentos. Intervenção que carrega em sua etimologia não só o sentido de uma intromissão violenta, como se naturalizou compreendê-la, mas no resgate de um Interventio que contempla a idéia de um “vir entre”, “interpor-se” (Ardoíno, 1987) [...] Abre-se aí a possibilidade de pensar a intervenção como um caminhar mútuo por processos mutantes que, justo por não poder ser resumida ao encontro de unidades distintas (sujeitos da investigação X objetos a serem investigados), não pode ser pensada como uma mudança antecipável. Ao operar no plano dos acontecimentos, a intervenção deve guardar sempre a possibilidade do ineditismo da experiência humana, e o pesquisador a disposição para acompanhá-la e surpreender-se com ela (PAULON, 2005, p. 21).

Alguns autores da área de educação, como Silva e Oliveira (2000, s/p), por exemplo, não entendem a intervenção, necessariamente, como pesquisa científica. Em suas palavras, “embora exijam rigor nos registros e interpretações não apressadas, [intervenções] não configuram necessariamente uma pesquisa científica”. Para estas autoras, intervenções são “ações deliberadas no sentido de ou criar novas, ou conformar, ou acomodar relações entre grupos sociais, culturais, entre as pessoas e o ambiente em que vivem”.

No presente estudo, porém, compreendo que a pesquisa-intervenção se caracteriza como um método de pesquisa científica no qual, por meio da intervenção

51 Szymanski e Cury (2004) trabalham a partir do pressuposto de que toda pesquisa na área de Humanas, independentemente do método ser ou não participativo, realiza uma intervenção no objeto pesquisado, por menor que seja. Nesse sentido, as autoras negam a ideia de neutralidade nessas pesquisas, conforme já exposto. Porém, para além dessa discussão, nessa pesquisa se entenderá que a não neutralidade do pesquisador é condição ao próprio conhecimento, como afirmam Rocha e Aguiar (2003) neste excerto.

realizada, dados foram construídos e analisados de modo que possibilitem construção de conhecimento. Nas próprias palavras de Silva e Oliveira (2000, s/p),

As metodologias [de pesquisa científica] empregadas por pesquisadores decorrem do entendimento que tem: - do que seja ciência, de seus objetivos; - de sua visão de mundo; - da teoria, ou das referências teóricas, ou do referencial teórico, ou do marco teórico que orientam seu trabalho científico [...]

Assim, assumindo que “as diversas tendências metodológicas que envolvem o conceito de participação apresentam maior polêmica” (ROCHA e AGUIAR, 2003, p. 66), como já dito, entendo que o método da pesquisa-intervenção, tal como descrito aqui, coaduna-se aos objetivos, à visão de mundo e de ciência e ao referencial teórico utilizado nesse estudo. Exposto, portanto, o método de pesquisa empregado, tratarei a seguir da técnica de construção de dados empregada.

Benzer Belgeler