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2.3 BÖBREK TAŞLARINDA SEMPTOMLAR

2.3.5 Bulantı Kusma

Desde seus primórdios, as universidades federais brasileiras enfrentam sérios problemas no que diz respeito ao poder sobre decisões que envolvem financiamento, políticas de gestão de pessoal e projeto pedagógico dentre outras. O desenvolvimento sem restrições do sistema público federal de ensino superior no Brasil tem como uma de suas exigências imediatas o estabelecimento de um regime de plena autonomia universitária – condição primeira para a superação definitiva da herança autoritária.

No Decreto no. 19.851, de 11 de abril de 1931, que criou o Estatuto das Universidades Brasileiras, há uma referência, em seu artigo 9º, à autonomia universitária, nas dimensões administrativa, didática e disciplinar, ressaltando que, nas universidades federais, quaisquer modificações que interessem fundamentalmente à organização administrativa ou didática dos institutos universitários só poderiam ser efetivadas mediante sanção do governo, ouvido o Conselho Nacional de Educação. No texto do documento legal, não há referência ao financiamento, mencionando que compete ao Conselho Universitário aprovar despesas da Reitoria e outras não previstas no orçamento. Verifica-se que a referência à autonomia é

truncada pela função regulatória do governo que detinha o poder de veto em relação às ações propostas pelas universidades (BRASIL, 1931).

Posteriormente, a Lei no. 4.024, de 20 de Dezembro de 1961, que fixou as Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), determinou, em seu artigo 80, que as universidades gozarão de autonomia didática, administrativa, financeira e disciplinar, determinando que os orçamentos fossem organizados em dotações globais, a serem detalhadas por cada instituição. Essa perspectiva trouxe a mais próxima possibilidade de uma autonomia real, pois o financiamento é condição que garante as outras dimensões da autonomia, uma vez que viabiliza a implementação de um projeto político pedagógico institucional (BRASIL, 1961).

Em 28 de Novembro de 1968, a Lei no. 5.540, fixou normas de organização e funcionamento do ensino superior, determinando que as universidades gozem de autonomia didático-científica, disciplinar, administrativa e financeira, a ser exercida na forma da lei e dos seus estatutos. Entretanto, essa autonomia é restringida quando o texto legal abre a possibilidade de o Conselho Federal de Educação, após inquérito administrativo, suspender a autonomia de qualquer universidade, por motivo de infringência da legislação do ensino ou de preceito estatutário ou regimental, designando-se Diretor ou Reitor pró-tempore (BRASIL, 1968).

A relação de dependência entre as universidades federais e o governo federal, cada vez mais forte, resultou de disciplinamentos legais que determinaram, ao longo dos anos, alguns fatores vitais para a instituição, tais como: a nomeação do Reitor – dirigente máximo da instituição – como prerrogativa do Presidente da República; a admissão e demissão de pessoal, vinculada ao Ministério da Educação; e o seu orçamento, como integrante do Orçamento Geral da União, detalhado em nível de elemento de despesa3.

A autonomia das universidades, obedecendo ao princípio da indissociabilidade do ensino, pesquisa e extensão no plano institucional, foi consagrada pela Constituição Federal de 1988, que, em seu art. 207, afirma que “as universidades gozam de autonomia didático- científica, administrativa, e de gestão financeira e patrimonial”. Posteriormente regulamentado pela Lei no. 9.394, de 20 de Dezembro de 1996, que reformulou as Diretrizes e Bases da Educação (LDB), a qual, no que concerne à autonomia didático-científica, determinou, em seu art. 53:

No exercício de sua autonomia, são asseguradas às universidades, sem prejuízo de outras, as seguintes atribuições:

3

I - criar, organizar e extinguir, em sua sede, cursos e programas de educação superior previstos nesta Lei, obedecendo às normas gerais da União e, quando for o caso, do respectivo sistema de ensino;

II - fixar os currículos dos seus cursos e programas, observadas as diretrizes gerais pertinentes;

III - estabelecer planos, programas e projetos e pesquisa científica, produção artística e atividades de extensão;

IV - fixar o número de vagas de acordo com a capacidade institucional e as exigências do seu meio;

...

VI - conferir graus, diplomas e outros títulos; ... (BRASIL, 1996).

Além desses requisitos, no que concerne à pesquisa e às qualificações do professorado, a LDB, baseada na tradição acadêmica universal – pelo menos na civilização ocidental – estipula exigências de gestão colegiada autônoma para as universidades. Nessa tradição, a autonomia didático-científica da instituição reside em seus colegiados de ensino e pesquisa. O parágrafo único do art. 53 da referida Lei afirma que:

Parágrafo único. Para garantir a autonomia didático-científica das universidades, caberá aos seus colegiados de ensino e pesquisa decidir, dentro dos recursos orçamentários disponíveis, sobre:

I - criação, expansão, modificação e extinção de cursos; II - ampliação e diminuição de vagas;

III - elaboração da programação dos cursos;

IV - programação das pesquisas e das atividades de extensão; V - contratação e dispensa de professores;

VI - plano de carreira docente (BRASIL, 1996).

A citada Lei atribui aos colegiados de ensino e pesquisa das universidades – sempre dentro dos recursos orçamentários disponíveis - a competência para deliberar a respeito de cada uma e do conjunto de matérias que são essenciais para a vida acadêmica da instituição. Entretanto, como essas instituições não têm poder decisório sobre seus orçamentos, fica a autonomia apenas na letra da Lei, no caso das universidades públicas federais.

O Conselho Nacional de Educação, por meio do Parecer no. 600/97, afirma que a autonomia de uma universidade não está nas mãos do Estado, que instituiu e credenciou uma universidade pública, mas é outorgada pela sociedade à instituição e exercida por órgãos colegiados de ensino e pesquisa. A tais colegiados, compostos, majoritariamente, por representantes do corpo docente qualificado, a sociedade delegou a direção acadêmica das instituições, com seu acompanhamento e avaliação pelo Poder Público (CONSELHO NACIONAL DE EDUCAÇÃO, 1997).

Apesar de todas as determinações constitucionais e legais, as universidades federais, na realidade, não têm ainda podido exercer efetivamente sua autonomia, uma vez que necessitam de aprovação do poder competente e disponibilidade de recursos, o que praticamente inviabiliza a concretização desse exercício.

Na visão de Schwartzman (1989, p.1), existem duas formas de se entender a autonomia. A primeira, clássica e tradicional, entende a universidade como uma corporação altamente especializada, detentora de um conhecimento que nenhum outro setor da sociedade possui, e que, portanto, não pode estar sujeita a nenhuma forma de controle externo. A segunda consiste na extensão do conceito de democracia majoritária e participativa no âmbito dessas instituições.

Essas duas concepções prestam-se a interpretações políticas e ideológicas totalmente contraditórias. A defesa da autonomia pode ser lida tanto como um esforço para manter a universidade como guardiã do futuro na defesa contra o capitalismo avassalador, quanto como um movimento defensivo e retrógrado em favor de uma corporação ultrapassada e elitista, a serviço das classes dominantes. A autonomia torna-se mais consistente quando apoiada por uma reivindicação pela natureza especial das instituições de ensino superior, tendo como elemento principal a questão da pesquisa científica, indissociável de um ensino de qualidade.

É preciso que se compreenda que autonomia não significa liberdade absoluta, uma vez que as instituições são criadas para cumprirem uma missão social, devendo, portanto, ser relativa ao cumprimento dessa missão. A autonomia também está sujeita a restrições de natureza material, cultural e política, advindas da sociedade onde a universidade se insere. Durham (1989, p.13) afirma que

uma autonomia democrática não se exerce simplesmente através da auto- gestão, mas pelo estabelecimento de canais de comunicação com a sociedade de forma a assumir plenamente o caráter de uma instituição pública, que serve ao público e que é controlada por poderes públicos. É essa responsabilidade e essa oportunidade com as quais agora nos deparamos.

Segundo Durham (1989, p. 4), a autonomia universitária possui diferentes dimensões, e apresentam-se limites para cada uma delas: a autonomia científica, didática, administrativa e de gestão financeira.

A autonomia científica, como garantia do desenvolvimento da ciência básica, sem a qual a pesquisa aplicada não encontra suportes científicos adequados, implica autonomia de organização interna e de gestão financeira, para garantir a existência de áreas de pesquisa que

não possuam relevância política ou econômica imediata. A liberdade de pesquisa encontra limites em função de pressões da sociedade às quais a universidade deve responder, buscando desenvolver o conhecimento voltado para a solução de problemas sociais.

A autonomia didática significa capacidade de selecionar alunos, definir os cursos que devem ser ministrados, avaliar o desempenho desses alunos e conceder os títulos correspondentes ao grau de domínio do conhecimento atingido por eles. Implica a responsabilidade de oferecer ensino de qualidade que permita a formação de profissionais e pesquisadores competentes. A regulação é a própria competição profissional e a pressão dos órgãos de classe, bem como de mecanismos de avaliação que se tornem públicos.

A autonomia administrativa, ou seja, a liberdade de organizar-se internamente é condição para o exercício pleno das dimensões didática e científica. A contrapartida é a responsabilidade pela eficiência na utilização de recursos humanos e materiais para cumprimento de sua missão. Sem isso, a universidade tende a ser apenas mais uma repartição pública, cheia de entraves burocráticos que não condizem com o fim para o qual foi criada.

A autonomia de gestão financeira é imprescindível para que as universidades possam estabelecer suas próprias prioridades, compreendendo a iniciativa de elaborar e executar seu orçamento, assegurado um fluxo regular de recursos que possibilite um planejamento racional das suas atividades e garanta pelo menos a sua sobrevivência. A universidade pública constitui uma conquista da sociedade democrática e uma expressão do direito constitucional à educação.

A autonomia universitária é principio fundamental para o crescimento e desenvolvimento da educação superior brasileira, não só pela liberdade de crítica, mas também pelo aspecto da racionalidade do uso dos recursos, instrumento básico da liberdade acadêmica. “Autonomia é conceito que há de estar ligado a um processo novo de racionalização” (DURHAM, 1997, p.10).

Compreendido como um princípio auto-aplicável pela grande maioria da comunidade acadêmica, bem como por seus dirigentes, mas não por parte do Poder Público, o assunto tem sido exaustivamente debatido por diversos segmentos da sociedade, e coloca-se como fator intrinsecamente ligado ao projeto pedagógico, notadamente nas universidades federais.

Embora no sentido restrito, o termo autonomia possa ser definido, de acordo com Ferreira (1982, v.1, p.36,), como a faculdade de se governar por si mesmo, de se reger por leis próprias, significando, ainda, emancipação ou independência. A autonomia, para Neves (2003, p.113)

é a possibilidade e a capacidade da instituição de elaborar e implementar um Projeto Político Pedagógico que seja relevante à comunidade e à sociedade a que serve. É ao mesmo tempo outorga e conquista. Outorga, pois depende de leis e conquista porque é necessário ter a capacidade de exercitá-la.

Tendo em vista que a autonomia está ligada de forma intrínseca ao projeto pedagógico de uma universidade federal, há que se considerar que implica também uma vinculação ao processo de planejamento dessas instituições.

Benzer Belgeler