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2. BULANIK AHP VE BULANIK TOPSIS

2.4 BULANIK AHP VE BULANIK TOPSIS İLE İLGİLİ LİTERATÜRDEKİ

A praça, pública por excelência, era o espaço ideal para a manifestação de um dos ritos mais importantes da cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o carnaval. Os estudos que Mikhail Bakhtin empreendeu sobre essa manifestação festiva contribuíram para o entendimento dos principais aspectos que se dão naqueles momentos em que a vida social é regida pelo poder transformador do riso em um mundo às avessas e, consequentemente, para uma melhor compreensão da consciência medieval e renascentista, além de uma contextualização mais acurada do fenômeno grotesco neste período histórico.

Conforme sublinha Bakhtin, o carnaval, com seus festejos e obras cômicas representadas em praças públicas, com seus gigantes, anões, bufões, tolos e palhaços de toda sorte, seria responsável pela difusão das forças dúbias e criadoras relacionadas ao destronamento de esferas do poder, de tudo o que se apresentava como oficial e que dava margem à manifestação do realismo grotesco93, cuja presença na obra de Rabelais

92BAKHTIN. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, p.

22.

93Bakhtin define o realismo grotesco como o “sistema de imagens da cultura cômica popular”, cujo

é minuciosamente descrita. O teórico russo argumenta que, durante o Renascimento, o riso destronador foi uma “arma filosófica” com uma significação positiva e regeneradora, o que o diferenciaria das teorias e filosofias do riso posteriores.

Para esse teórico, o riso carnavalesco é antes de mais nada universal, pois atinge tudo e todos, inclusive quem ri; através dele, o mundo inteiro se torna cômico, é visto e considerado no seu aspecto jocoso, num alegre relativismo, jamais consistindo numa reação individual e isolada – é, por essência, coletivo. Neste momento da história, o riso teria um profundo valor de concepção do mundo, sendo crucial para a expressão da verdade sobre esse mesmo mundo em sua totalidade, sobre a história e sobre o ser humano. Neste sentido, o riso é um ponto de vista ao mesmo tempo particular e abrangente sobre a vida, não menos importante (talvez o seja até mais) que o sério, e em função disto encontra-se presente em toda literatura que se queira universal. Para Bakhtin, somente a partir do riso é que realmente se pode ter acesso a certos aspectos extremamente importantes do mundo.94

A noção de totalidade, alcançada através do riso, é ambígua. Dúbio, o riso é “alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente”.95 Ele conjuga então duas forças aparentemente antagônicas, a vida e a morte, em uma síntese que guarda os potenciais de cada um destes fenômenos mediante o surgimento de uma nova força, sempre inacabada. A cômica encenação da morte nas festas de carnaval, o diálogo dos mortos na literatura, a recorrência do destronamento e morte nas burlescas peças de teatro de rua etc., ilustram isso: a travessia, o trânsito de limiares e o acesso à plenitude.

Reafirmando o que foi descrito acima, Caryl Emerson sustenta que, durante o carnaval, o riso e a morte aparecem entrelaçados. A morte e a dor estão em todo lugar e são implacavelmente reais, mas a morte nunca tem a última palavra. Segundo a autora, Bakhtin, em sua defesa de dissertação, teria afirmado:

O riso nos libera do medo, e essa função sua [...] é um pré-requisito indispensável da consciência renascentista. Para olhar o mundo com altivez, devo deixar de ter medo. Nisso, o riso desempenhou um papel da mais alta relevância. Não, o realismo de Rabelais não é degradante, baixo nem insultuoso à consciência; ao contrário, é precursor de toda cósmico, o social e o corporal estão ligados indissoluvelmente numa totalidade viva e indivisível. É um conjunto alegre e benfazejo” (BAKHTIN. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais, p. 17).

94Ibidem, p. 57. 95Ibidem, p. 10.

consciência crítica objetiva. É claro que as pessoas comuns não só riem; elas têm muitas vidas. Mas é essa vida que me interessava, e ela é profundamente progressiva e revolucionária [...].96

Na tentativa de detalhar um pouco mais o valor desse riso, tomarei as considerações de Verena Alberti sobre o assunto. Ao traçar um panorama sobre as teorias do riso e do risível desde a Antiguidade até os dias atuais, a autora discute as relações que se estabelecem entre o riso e o pensamento ao longo da história ocidental, destacando que seu objeto crítico situa-se numa região interdisciplinar, já que o riso pode ser pensado tanto pela perspectiva da literatura (poética, retórica, estética) quanto pela da linguagem, filosofia, história e antropologia.

Alberti destaca que existem recorrências interessantes no que diz respeito ao estudo do riso no pensamento do século XX e que a principal delas seria uma espécie de leitmotiv que aparece em textos com objetivos bastante variados e proveniências bem distintas:

[...] o riso partilha, com entidades como o jogo, a arte, o inconsciente etc., o espaço do indizível, do impensado, necessário para que o pensamento sério se desprenda de seus limites. Em alguns casos, mais do que participar desse espaço, o riso torna-se o carro-chefe de um movimento de redenção do pensamento, como se a filosofia não pudesse mais se estabelecer fora dele.97

A autora afirma que diversos estudos contemporâneos analisam o riso sob a perspectiva de uma oposição entre a ordem e o desvio, com a consequente valorização do não-oficial e do não-sério que englobariam “uma realidade mais essencial do que a limitada pelo sério”.98

Alberti também considera a relação existente entre o riso e a razão partindo de um conjunto de reflexões atuais que vinculam o riso a um “não-lugar” do pensamento, necessário para que este extrapole suas próprias limitações. No que se refere ao estatuto desse “não-lugar”, desse “nada” que encerra a essência do riso, pode- se distinguir dois movimentos. O primeiro se contrapõe ao que é austero: “o riso e o risível remetem então ao não-sentido (nonsense), ao inconsciente, ao não-sério, que existem apesar do sentido, do consciente e do sério”. Já o segundo permite uma

96EMERSON. Os 100 primeiros anos de Mikhail Bakhtin, p. 125.

97ALBERTI. O riso e o risível na história do pensamento, p. 11. Entre os vários períodos analisados por

Alberti em sua obra, destaco o capítulo que trata do riso no século XX e o que faz referência ao riso na Renascença.

transcendência de tudo isso, pois o riso seria um instrumento, uma condição e uma atitude que nos lançam muito além do próprio existir. 99

A tentativa de tomar o riso enquanto um fenômeno tipicamente humano instigou e continua a instigar a capacidade reflexiva de autores os mais variados, nos mais distintos tempos. Mesmo assim, o riso ainda hoje é concebido como algo não totalmente apreensível e, por isso mesmo, sujeito a gradações ou nuances que o transformam em um objeto de estudo sempre passível de suscitar novas significações, novas abordagens.

Ao analisar a ironia enquanto aspecto particular da categoria humor, Beth Brait recorre a autores que se utilizaram de recursos da linguagem para desencadear o desnudamento de determinados aspectos culturais, sociais ou mesmo estéticos, ocultos pelos discursos mais sóbrios e, muitas vezes, bem menos críticos.100

Para ela, a obra de Rabelais se constitui como ponto culminante de uma época em que acontece uma expressiva alteração na história do riso.

Considerando-se que Rabelais é um homem do Renascimento, época em que ocorre uma significativa mudança na história do riso, e que o século XVI marca o apogeu dessa história, é necessário compreender não apenas a atitude geral, mas também o papel que o criador de

Gargantua e Pantagruel desempenhou nesse contexto: sua obra

constitui o ponto culminante dessa nova concepção do riso.101

Em resumo, pode-se afirmar que, ao longo da história, o riso desempenhou um papel fundamental em várias áreas do conhecimento, inclusive na literatura, mas sobretudo se entranhou em visões de mundo, em modos de vida. Especificamente neste trabalho, a tentativa é demonstrar, ainda que brevemente, como o riso está ligado às formas do realismo grotesco, no âmbito da cultura cômica popular. Neste contexto, é o próprio Bakhtin que defende que o riso popular que estrutura todas as formas do realismo grotesco foi sempre relacionado ao baixo material e corporal. O riso degrada e materializa. Tal asserção remarca: assim como o riso, o corpo tem um lugar garantido em toda a temática do grotesco. Como se verá a seguir, ele é o início (e o fim) de tudo.

Benzer Belgeler