3. BULGULAR
3.3 BKKT Bölüm-3'e Ait Bulgular
3.3.1 Buharlaşma Kavramına İlişkin BKKT Bölüm-3 Soru-1'e Ait Bulgular
Todo esse trabalho de análise que estamos fazendo a partir do texto de Laplanche muito nos ajuda no estudo de das Ich, e prepara o terreno para o que nele mais nos interessa: das Ich possui um caráter duplamente derivativo e,tal como na linguagem o apagamento de um de seus eixos constitutivos leva a um quadro de afasia, também no campo psicanalítico se uma das vias constitutivas de seus conceitos e entidades não for considerada, haverá mutilação do pensamento psicanalítico. Isto é, ter que optar por uma das linhas derivativas de das Ich por uma de suas acepções, seria mutilá-lo. Considerar como sendo verdadeiramente psicanalítico apenas o seu aspecto funcional, reduzindo-o a uma simples função – como, por exemplo, função de realidade ou função de adaptação – ou então aprisioná-lo em um nível puramente imaginário, subestimando “a eficácia de peso de realidade que essa imagem adquiriu” (Laplanche, 1985a: 140), seria reduzi-lo a uma parcialidade.
Em seus seminários Laplanche (1980a/1987, 1980b/1989) desenvolve essa dupla derivação partindo das formulações no texto “Além do Princípio de Prazer” (Freud, 1920/2010), onde Freud parte da referência ao processo genético de um organismo vivo protoplasmático, para incluir em um único contexto dos “organismos vivos”, em seus diversos níveis de organização, da vesícula protoplasmática, ao aparelho psíquico e deste a das Ich, uma mesma a constituição do ser a partir de uma massa indiferenciada, em decorrência de sua imersão em um meio “carregado de fortes energias com as mais poderosas energias” (Freud, 1920/2010: 188), o que a leva à diferenciação de uma superfície protetora formada de várias camadas que, constituindo-se, funciona como envoltório continente, diferenciando um dentro e um fora.
No contexto dos organismos vivos, corpo biológico, corpo psíquico e das Ich como um corpo intrapsíquico se revezam sob a pena de Freud na elaboração de algo que estaria, digamos assim, para além da palavra: “Corpo, sistema psíquico e das Ich estão numa relação complexa que não poderia ser destrinçada por um ‘ou isso, ou aquilo’”, diz Laplanche (1980a/1987: 210). O que ele nos indica é que por um lado, podemos reconhecer uma derivação metafórica entre os diferentes níveis de organismo, em que há transposição da relação entre este e as forças que o afetam, de uma mesma estrutura e de um mesmo modo de funcionamento, ou seja, níveis diferentes de semelhantes. No que diz respeito a das Ich, essa mesma relação é descrita entre ele e as forças pulsionais. Mas, por outro lado, há também um deslizamento lateral, por contiguidade, metonímico, em que o corpo e o psíquico estão inseridos em uma mesma estrutura genética – é o que Freud parece “especular” ao recorrer à origem embriológica ectodérmica do sistema nervoso central para situar aí, na superfície tanto do sistema nervoso como do aparelho psíquico, a sede do sistema Pcpt-Cs. É nesse sentido que queremos supor que a pele, órgão biológico de superfície, pode se apresentar, segundo terminologia proposta por Laplanche, como “zona de tangência” em que o psíquico não só se apoia no biológico para dele se diferenciar, mas em vez disso também o metaforiza.
Metáfora e metonímia estão aqui entrelaçadas e é nesse nó que o conceito de das Ich está inscrito, pois das Ich é concebido por Freud não
apenas como metáfora do aparelho psíquico ou do corpo, mas também como uma parte dele. É o que Laplanche destaca no texto, onde Freud, sem nenhuma preocupação de contradição, faz coexistir duas gêneses e duas essências de das Ich: “O eu é sobretudo corporal, não apenas uma entidade superficial, mas ele mesmo a projeção de uma superfície.” (Freud, 1923/2010: 32)
Esta frase é comentada, com a aprovação de Freud, da seguinte maneira:
Ou seja, o eu deriva, em última instância, das sensações corporais, principalmente daquelas oriundas da superfície do corpo. Pode ser visto, assim, como projeção mental de uma superfície, além de representar, como vimos acima, as superfícies do aparelho psíquico. (Freud, 1923/2012: 32)
Como superfície diferenciada do corpo, Laplanche reconhece o processo de derivação metonímica; por projeção da superfície do corpo, o processo de derivação é metafórico. Metonímia e metáfora, contiguidade e identificação, sendo movimentos concomitantemente constitutivos de das Ich asseguram, por um lado, o “compromisso” (Laplanche, 1985a) da metáfora com a realidade e, por outro, (somos nós quem acrescenta), o colorido pulsional da funcionalidade.
Se lembrarmos aqui das discordâncias entre Hartmann e Lacan, concebendo o primeiro como o que teria considerado apenas o processo de constituição metonímica de das Ich, e consequentemente sua essência de representante do todo que (com eficácia que não podemos subestimar) deve defender, como que por procuração, e o segundo como quem reconhece unicamente como psicanalítico o processo de constituição metafórica de das Ich, pondo em relevo sua essência imaginária, talvez tivéssemos que concluir com Pontalis (1977/2005) que não há comunicação possível entre as duas acepções de das Ich. Seria então um paradoxo a concepção de uma entidade psicanalítica que fosse concomitantemente uma estrutura funcional e como tal possuísse ‘compromisso' com a realidade, e um ser psíquico imaginário, pura ficção; como pode das Ich ser uma ficção e ao mesmo tempo ter peso de realidade?
Figueiredo (2009a:14), em seu livro As Diversas Faces do Cuidar aborda com mestria o tema da “dispersão dos discursos e das práticas psicanalíticas”, desde sua fragmentação na “era das escolas” até o esforço feito por alguns para estabelecer “um terreno comum” que oferecesse “uma base comum que contemplasse de forma equânime todas as correntes (Figueiredo 2009a:17) para propor como alternativa o “atravessamento dos paradigmas”. Diz ele:
Ao falarmos de atravessamento de paradigmas, estamos assinalando que algumas velhas separações e oposições, vigentes no plano das teorias, são vigorosamente desfeitas e transpostas nas novas perspectivas. Por exemplo, criam-se pensamentos e estilos clínicos que fazem justiça às pulsões, e às relações de objeto; que levam em conta, de um lado, desamparo e dependência original, e, de outro, desejo; que pensam em termos de conflito, e de déficit; que investigam as dimensões da fantasia, e do
trauma, vale dizer, dão atenção ao intrapsíquico e ao intersubjetivo. A partícula e no
lugar do ou aponta para o caráter complexo e paradoxal assumido pelas teorizações e estilos que então se forjam, desconstruindo as velhas oposições paradigmáticas. (Figueiredo, 2009a: 18).
Concluindo logo a seguir:
Trata-se de acolher o desproporcional, o atemporal, o irredutível, o trágico e o
paradoxal como aspectos decisivos dos nossos ‘objetos’, para assim pensá-los e elaborá-los. Deste modo, o caráter paradoxal dos objetos se transfere para nossas teorias e para nossas práticas (Figueiredo, 2009a: 18).
Tomaremos esta lógica de empréstimo de Figueiredo como ampliação da proposta de Laplanche: concebemos das Ich como ser psíquico paradoxal em sua essência. Parafraseando Figueiredo, não só metáfora, como também, em vez disso, metonímia; não só imaginário, como também, em vez disso, um ser de ação; não só sujeito, como também, em vez disso, objeto. Entendemos ainda que, se por um lado das Ich se desenvolve numa tendência à independência, por outro ele é originária e duplamente dependente: do funcionamento do organismo vivo, do corpo que lhe serve de suporte, e das estimulações, representações, crenças e investimentos que emanam do ambiente familiar e cultural (isto é, do corpo social). Uma relação de sustentação que é, paradoxalmente, mútua, visto que se das Ich tem sua matriz no corpo biológico e social, estes, por sua vez, também encontram seu apoio no psíquico (Anzieu,1985/2000).
Falar de ego, self e sujeito seriam aspectos de uma mesma entidade psíquica. Talvez devêssemos falar de Eu-self, Eu-ego e Eu-sujeito. É como gostaríamos de pensar as propostas dos autores quanto, confrontados com
questões nascidas no divã, foram levados a abordar determinados aspectos de das Ich em detrimento de outros. Supomos que a radicalidade que congelou sua fragmentação transcende a clínica, talvez encontrando sua sustentação nos narcisismos das pequenas diferenças, ou na política beligerante que animou a cena psicanalítica no século passado (Roudinesco, 1986/1988).
Em nossa epígrafe citamos Freud: em psicanálise, como explicar algum aspecto do presente sem se referir ao passado? Retornando ao passado do conceito de das Ich, o encontramos com um duplo processo de constituição – metáforo-metonímico – e talvez, por isso mesmo, complexo e paradoxal em sua essência. É neste sentido que adotamos o termo Eu como tradução do termo freudiano das Ich.