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1. GİRİŞ

1.8 Alanyazın Taraması

A noção de Eu-pele instala a metáfora da pele psíquica e permite que Anzieu analise sua estrutura potencial e suas distorções. Sobre ela falaremos a seguir. Entretanto, em seu desenvolvimento teórico, Anzieu vai se distanciar desse substrato biológico – a pele – e propor uma abordagem mais abstrata dos continentes psíquicos. Isto é: suas características estruturais e funcionais, desmetaforizadas, é que serão valorizadas sob o conceito de envoltórios psíquicos. A esse respeito, esclarece Kaës:

Propondo alguns anos mais tarde o conceito de envoltório psíquico Anzieu generaliza uma estrutura e as funções que tornam possível pensar uma maior diversidade de formações intrapsíquicas e interpsíquicas: envoltório do sonho, sonoro, grupais, etc. A idéia de envoltório se aplica ao próprio Eu, em uma reversão da proposição inicial: a função dos envoltórios psíquicos é necessária à formação do pré-Eu corporal. (Kaës, in Anzieu, 1986a/2009: 361).

Se lembramos que para Bion só podemos falar em espaço psíquico quando referido a um espaço continente, são as características estruturais e funcionais desse espaço que Anzieu releva sob o conceito de envoltório psíquico. É nesse sentido que ele vai falar das configurações dos envoltórios

psíquicos: envoltórios sonoros, olfativos, de sofrimento, dentre outros que exemplifica em seu livro O Eu-pele (Anzieu, 1985/2000). Anzieu põe em destaque uma diversidade de recursos que podem cumprir as funções que conferem ao espaço psíquico as características estruturais suficientes para que ele se configure como espaço psíquico. O Eu-pele é um envoltório psíquico, mas não o único possível.

Vale notar a qualidade sensorial que Anzieu atribui aos envoltórios psíquicos. Essa característica, ao nosso olhar, deixa mais evidente que a constituição do continente psíquico acontece ao nível do Eu–corporal e confere relevância às experiências sensoriais primárias, ambientadas nas relações de cuidado, como elemento constitutivo da estrutura do continente psíquico.

O que, em acréscimo, em seu esclarecimento, Kaës chama atenção, é que a própria constituição do Eu-pele requer uma organização do espaço psíquico como estrutura continente, e veremos que o conceito de Eu-pele traz implícita a noção de envoltório psíquico “como envoltório psíquico cutâneo, limite e interface do Eu” (Kaës, in Anzieu, 1986a/2009).

Além disso, ainda segundo Kaës, nesse movimento de passagem entre a noção de Eu-pele e o conceito de envoltório psíquico, ao buscar visualizar de modo mais abstrato o continente psíquico, Anzieu descobre que o espaço psíquico não possui um envoltório, mas vários, que se entrelaçam, se diferenciam, se interiorizam, o que faz dele, e do Eu, uma estrutura complexa, porém rica. Essa concepção potencializa a compreensão de Green (2007/2008) a respeito da abordagem de Anzieu. Vale repetir:

É uma causalidade que exige da gente uma ginástica nova, a que não estamos habituados, isto quer dizer que é uma tópica de interseções, de entrelaçamentos, de interiorização e de diferenciação que operam sob o modo de uma espiral interativa. (Green, 2007/2008: 151).

Na constituição do Eu-pele como envoltório psíquico, Anzieu descreve sua estrutura de fronteira em dupla camada, camadas de envoltórios que tendem a se diferenciar e a se separar no processo do desenvolvimento, mantendo, entretanto, entre elas, um jogo interativo, um encaixe.

Nesse sentido, as referências de Anzieu são o folheto de para-excitação e o sensorial que Freud (1925) já havia reconhecido como estrutura de fronteira do Eu: o folheto mais externo, de para-excitação, se oferece em sacrifício aos

excessos intensivos preservando a capacidade sensível do folheto mais interno.

Anzieu (Anzieu, 1986b/2009) enriquece a descrição freudiana e a complementa à medida que valoriza as diferenças funcionais e a relação estrutural que existe entre esses folhetos no processo de constituição do Eu: eles respondem a estímulos diferentes e se orientam por princípios diferentes. A camada de para-excitação é regida pelo princípio de constância e é sensível ao prazer e à dor. A segunda camada é uma membrana sensível no sentido da percepção de estímulos, e não do prazer e da dor; é uma tela de impressão regida por um princípio de diferenciação, tal como necessário a qualquer produção de sentido. Diz ele:

... ela [essa tela de impressão] classifica as sensações de mesma natureza em pares de opostos; enfim, ela atribui a um mesmo objeto externo a fonte de sensações fornecidas por diferentes órgãos dos sentido e motricidade (consensualidade). (Anzieu, 1986b/2009: 382).

Freud havia valorizado a função de para-excitação na constituição da estrutura continente do aparelho psíquico. Anzieu vai conferir igual valor à tela sensorial por sua função de significação e de comunicação primária, corporal. “A massagem se faz mensagem”, diz Anzieu (1985/2000: 61).

Tela protetora e tela projetiva; filtro quantitativo e filtro qualitativo, envoltório sensível à excitação e envoltório sensível à comunicação: Anzieu (1986b/2009) os visualiza como envoltórios sensoriais que vão se entrelaçar na estrutura do envoltório tátil.

Esse complemento que Anzieu faz à concepção freudiana tem grandes desdobramentos clínicos, em termos tanto da concepção do aparelho psíquico, como da compreensão das patologias, e também da técnica.

Segundo Anzieu (1994/1995: 153), o conceito de envoltório psíquico engloba várias noções: a de saco continente, a de borda que delimita, a de interface que põe em contato as realidades que separa, a de fronteira que filtra, a de esfera, autossuficiente, que implica volume.

Houzel, talvez não tão à vontade com a abordagem analógica que Anzieu confere à constituição do Eu – diz que: “...o vínculo psicanalítico ao corpo é metafórico e não analógico” (Houzel, 1987/2003: 62) – busca desenvolver o conceito de envoltório psíquico “de uma maneira tão formal

quanto possível” (Houzel, 1987/2003: 62), o que expande as elaborações de Anzieu e nos ajuda a concebê-lo em sua generalidade.

A noção de estabilidade estrutural dinâmica é por ele evocada nesse contexto. Um envoltório psíquico configuraria um campo de força estável que definiria “a pertinência dos elementos psíquicos a um espaço psíquico dado” (Houzel, 1987/2003: 62). O envoltório psíquico teria conexidade, isto é, “poderíamos ligar qualquer dois de seus pontos por um trajeto inteiramente incluído nele mesmo”; e compacidade, nos termos de Houzel: “A idéia essencial é a possibilidade de recobrir o espaço considerado “compacto” por um número finito do que a gente poderia representar como peças da constituição do dito espaço.” (Houzel, 1987/2003: 62)

Por compacidade, Houzel quer distinguir o conceito de envoltório psíquico da noção de rede de significantes infinita descrita por Lacan (Houzel, 1987/2003). Ele, no entanto, se mantém fiel às configurações estruturais apontadas por Anzieu a partir da noção de Eu-pele: essa estrutura contínua deve possuir, em sua fronteira, qualidades de interface; separar e comunicar espaços diferentes, e ser permeável. Lembramos que sua estabilidade estrutural é dinâmica.

A nosso ver, a contribuição de Houzel, põe em evidência que a questão da síntese do Eu, da manutenção estável de sua integração, permeia o tema dos envoltórios psíquicos. O conceito de envoltório psíquico como estrutura narcísica de estabilidade dinâmica permite, segundo Houzel,

...fazer a síntese dos pontos de vista dinâmico e tópico, isto é, dos conceitos de força e de forma. Não há uma força psíquica que não espose uma forma dada; não existe forma que não seja sustentada por uma dinâmica. (Houzel, 1987/2003: 63).

O espaço psíquico se configura como um campo de forças e o envoltório representa seu limite mas também aquilo que o organiza; ele permite descrever os estados de estabilidade dinâmica e os movimentos de transformação do espaço psíquico; mas também os estados instáveis que ameaçam a síntese narcísica. Em sua abstração entendemos que o conceito de envoltório psíquico faz evidente a plasticidade do Eu à medida que, em suas configurações, se inscreve a pessoalidade do ambiente cuidador e do jogo interativo dos processos constitutivos do Eu.