Além dessa fecunda leitura do que então havia de mais sofisticado em termos de historiografia nacional (e da proximidade com seus autores), é de extrema importância que seja considerada a imersão de Luís Saia numa rede intelectual mais ampla. Se considerarmos que esta rede gravitava principalmente em torno da figura de Mário de Andrade, deveremos notar o quão privilegiada foi a posição deste arquiteto, que, ao lado de Oneyda Alvarenga, foi um de seus amigos e interlocutores mais próximos. Na seção que tratou da biografia de Saia, tive a oportunidade de mencionar como esta rede intelectual se estruturou em torno do Departamento de Cultura e, mais especificamente, da Sociedade de Etnologia e Folclore. Seria interessante mostrar agora, de forma sintética, que tipo de trabalho foi produzido por
Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos 30. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.
199 Dentre as obras de Bastide encontráveis na Biblioteca Luís Saia, duas delas contam com o seu autógrafo para
Luís Saia: Imagens do Nordeste místico em branco e preto e Arte e sociedade. Sobre os problemas tocados pela obra de Bastide, dentre eles o da miscigenação, há a interessante introdução de QUEIROZ, Maria Isaura Pereira de [org.]. Roger Bastide: Sociologia. São Paulo: Ática, 1983.
este grupo.
Passada a ruptura inicial com a estética parnasiana, rompimento representado emblematicamente pelo Movimento Modernista de 1922, cujo principal instrumento foi uma apropriação das propostas vanguardistas europeias, essa nova geração de intelectuais passou a adotar, em seguida, de forma geral, uma postura mais nacionalista (a exemplo das posteriores movimentos “antropofágico”, “verde-amarelo”, “pau-brasil” etc.). Tal fato se prende certamente a um desejo de cristalização do movimento modernista, que corria o risco de ser considerado um novo “modismo” tão logo fosse acusado de tratar-se apenas de mais uma imitação europeia. Surge assim a necessidade de demonstrar a autenticidade do modernismo nacional. Para tanto, bastaria mostrar que essa estética sempre esteve presente aqui, diante de nossos olhos, ou seja, que existiria uma cultura nacional autêntica como que por debaixo de um “velho e empoeirado tapete europeu” lançado por uma já ultrapassada elite. Esse movimento se deu não só em termos literários, mas também arquitetônicos, pictóricos, historiográficos, musicais etc.
Esta postura é sem dúvida melhor representada no Estado de São Paulo pela figura de Mário de Andrade. Já em 1919, interessado em arte religiosa brasileira, este polígrafo200 viaja
a Minas Gerais, oportunidade em que recolhe o material que servirá para a escrita da conferência “A arte religiosa no Brasil”. Cinco anos depois, retorna ao Estado, ao lado de Blaise de Cendrars, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Já em 1928, viaja ainda para o Nordeste, recolhendo de forma algo diletante um extenso material sobre cultura popular. Se, inicialmente, estas pesquisas visavam “documentar material popular para servir de inspiração aos compositores eruditos”,201 Mário de Andrade logo perceberá a necessidade de se trabalhar
cientificamente todos estes dados dispersos, de modo a fixar uma identidade artística nacional. Além disso, tratar-se-ia de uma tarefa urgente, pois, segundo acreditavam, com a rápida expansão urbana e industrial que passava a ser testemunhada por sua geração, todo esse documentário estaria em vias de se perder. Essa será a tônica do trabalho desenvolvido junto
200 Um exemplo da complexidade com a qual se depara o estudioso ao tentar definir o campo de atuação de
Mário de Andrade na área da cultura é o multifacetado número da Revista do IPHAN (instituição que ultimamente tem se interessado muito pela figura mítica deste intelectual). Especialistas em artes plásticas, literatura, folclore, música, direito, museologia, história intelectual etc. “disputam”, como representantes de seus respectivos campos, o caráter precursor do intelectual, sendo todos os trabalhos igualmente relevantes e bem fundamentados. Assim, talvez até mesmo a qualificação “polígrafo” seja insuficiente, vez que a atuação política e artística são igualmente relevantes em todos estes âmbitos. (Cf. Revista do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional. Brasília: IPHAN, n. 30, 2002).
201
BATISTA, Marta Rosseti. Introdução. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Brasília: IPHAN, n. 30, p. 06-24, 2002, p. 12.
ao Departamento de Cultura, para o qual foi fundamental a amizade com os políticos e intelectuais paulistas Fábio Prado e Paulo Duarte (além do contexto político criado pelo interventor Armando Salles).
Aproveitando-se da política de apoio intelectual estrangeiro adotada nos primeiros anos de construção da USP, Mário de Andrade convida então Dina Lévi-Strauss (companheira de Claude Lévi-Strauss) para conduzir o já mencionado Curso de Etnografia. Esse curso espelharia o desejo de Mário de Andrade em formar pesquisadores de campo com forte embasamento científico. Eslizabeth Travassos menciona os textos arrolados por Dina Lévi- Strauss nas “Instruções folclóricas” do Boletim da Sociedade de Etnografia e Folclore: “Mélanges d’histoire des religions, de Hubert e Mauss, textos metodológicos do folclorista finlandês Kaarle Krohn e os do francês Saintyves”.202 Marta Amoroso se recorda ainda das
notas das aulas do Curso de Etnografia elaboradas pela etnógrafa,
que dialogavam com os paradigmas da moderna investigação antropológica desenvolvidos nos centros de investigação da época. Dina utilizava tratados clássicos de antropologia (Tylor, Fraezer, Rivers) associados à produção norte- americana de Franz Boas e do grupo de pesquisadores ligados a ele (A. L. Kroeber, R. Lowie), além de monografias fundamentais de antropologia social (C. Wissler, P. Radin, A. Metroux, B. Malinowski, C. G. Seligman, Junot, W. H. Rivers), que ofereciam um panorama amplo da disciplina desenvolvida naquele momento nas academias europeias e norte-americanas, a partir da pesquisa realizada na América do Norte, América do Sul, Melanésia, África do Sul e Índia.203
Este caldo de conhecimento não pode ser tomado como acessório para a compreensão da atuação de Luís Saia no “Patrimônio”. Aluno do Curso de Etnografia, participou ativamente, como mostrei no início deste capítulo, da Sociedade de Etnografia e Folclore, o que se depreende pela apresentação de várias comunicações (que não se restringiram à arquitetura), amparadas em pesquisas de campo metodicamente guiadas de acordo com as aulas ministradas por Dina Lévi-Strauss. A Missão de Pesquisas Folclóricas chefiada em campo por Luís Saia também “levou à risca” essas recomendações metodológicas de pesquisa etnográfica,204 o que não foi abandonado no SPHAN, tanto no que diz respeito ao método de
realização de inventários dos bens a serem tombados como no caso específico do tombamento da Aldeia de Carapicuíba, para o qual foi utilizado todo esse conhecimento etnográfico.
Além disso, esse saber antropológico e folclorístico forneceu claramente ferramentas
202 TRAVASSOS, Elizabeth. Mário e o Folclore. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Brasília:
IPHAN, n. 30, p. 90-109, 2002, p. 93.
203
AMOROSO. Op. cit., p. 67-68.
metodológicas essenciais à narrativa histórica produzida pelo arquiteto. Em primeiro lugar, fica claro um interesse pela produção cultural popular, esboçada, como mostrei, logo no início de Morada paulista. Mesmo que não seja possível, pela ausência de fontes, analisar as técnicas construtivas populares, são as práticas cotidianas, organização social e cultural e as características psicológicas gerais de um povo que fornecem os elementos para a compreensão da evolução arquitetônica (e geral) paulista. O relacionamento de múltiplos aspectos da realidade social num recorte sincrônico (economia, cultura, política, ecologia etc.) fazem lembrar o conceito de “fato social total” de Marcel Mauss, presentes nas aulas de Dina Lévi-Strauss, desde que não nos esqueçamos da solução diacrônica oferecida pela dialética marxista. Da mesma forma, percebe-se que Saia teve contato com a obra de Franz Boas através do Curso de Etnografia, o que reforça a constatação da apropriação de um conceito de “raça” mais relacionado à cultura que à biologia, tão importante nas interpretações do arquiteto.205