• Sonuç bulunamadı

3. KAZIKLI TEMELLER

3.9 Kazıkların Yanal Yükler Altında DavranıĢları

3.9.1 TaĢıma gücünün hesaplanmasına dayalı kazık tasarımı

3.9.1.1 Brinch-Hansen yöntemi

Os estudos, na sua grande maioria de mulheres, têm em Saparolli (1997) o pioneiro, seguido por outros autores e autoras, tais como: Carvalho (1996, 1998); Bueno, Catani e Sousa (1998); Vianna (2002); Sayão (2005), Ferreira (2008), Lima (2008), que discutem a presença de homens não somente na Educação Infantil, mas também de docentes – homens e mulheres – dos primeiros anos do Ensino Fundamental, com o recorte de gênero, contribuindo com importantes reflexões sobre a docência com crianças, a questão das masculinidades e feminilidades e da identidade docente.

Os estudos destes/as autores/autoras, citados/as acima, corroboram com muitos dos dados da presente dissertação, principalmente no que se refere à atuação do professor homem, nesse tempo de vida, que acontece meio que ao acaso e/ou por falta de opção de outro trabalho.

Cabe ressaltar que iniciamos a busca desta revisão, no Banco de Teses e Dissertações da CAPES a partir do descritor: profissão docente. Foram encontradas 918 teses. Dentre estas, somente três referiam-se ao professor homem na Educação Infantil com o recorte de gênero. Abaixo destacamos alguns aspectos dessas teses e dissertações:

SAYÃO, Deborah Thomé (2005): Relações de gênero e trabalho docente na Educação Infantil: um estudo de professores na creche.

O estudo relaciona gênero e trabalho docente de cinco professores atuantes e dois desistentes da docência na Educação Infantil. Problematiza o cuidado/educação, considerado como princípio indissociável na Educação Infantil e a docência neste tempo de vida, tendo como centralidade o corpo, a sexualidade, a brincadeira e o movimento de crianças de creche da rede pública da cidade de Florianópolis/ SC. Dentre outras conclusões que a autora destaca, apontamos uma que diz respeito à participação masculina, que para ser aceito e ter reconhecido a sua competência profissional, na Educação Infantil, todos os professores homens pesquisados estudavam e demonstravam de alguma forma seus conhecimentos, nas ações e/ou discursos em alguma atividade na escola, numa clara demonstração de poder, devido às disputas diárias nas creches entre os/as profissionais.

CARVALHO, Eronilda Maria Góis de (2007): Cuidado, relações de gênero e trabalho docente na Educação Infantil: um estudo de professoras e professores da pré-escola pública.

O estudo aborda relações de gênero e trabalho docente de cinco professoras e dois professores de uma pré-escola pública de Itabuna/ Bahia, com crianças de três anos e meio a cinco anos. Tem como foco o cuidado/educação e a presença marcante do cuidado infantil nos ideais e nas práticas pedagógicas dos sujeitos. Articula as atividades de cuidado com a identidade docente e as dimensões do processo de ensino e aprendizagem. O estudo evidenciou, entre outros aspectos, que o controle dos corpos de professores/as e meninos/as é intenso, revelando modelos pré-determinados do que é esperado para cada um dos gêneros, privando-os/as de outras experiências que lhes possibilitariam ampliar a visão de mundo.

FERREIRA, José Luiz (2008): Homens ensinando crianças: continuidade- descontinuidade das relações de gênero na escola rural.

O estudo teve como temática as relações de gênero e as masculinidades, a partir das experiências de cinco professores homens que ensinam crianças nas escolas rurais do município de Coxixola, no Estado da Paraíba. O autor concluiu, dentre outros aspectos, que em muitas escolas rurais, multisseriadas ou não, a presença do homem na tarefa docente é mais comum do que nos grandes centros urbanos, e há grandes chances de crianças começarem o processo de escolaridade com um professor homem.

Outras buscas foram realizadas com o intuito de conhecer mais estudos:

Na base de dados da SCIELO, em artigos, os seguintes descritores foram usados: professor-homem, educação infantil e docência, depois identidade profissional, gênero e educação infantil, posteriormente relações de gênero, magistério e educação infantil e finalmente, masculino, magistério e educação infantil.

Destacamos que não foi encontrado nenhum artigo.

No sítio eletrônico DOMÍNIO PÚBLICO, com o descritor: educação infantil, no link teses e dissertações foram encontradas um total de 307, selecionadas cinco, entretanto só uma delas trata diretamente do professor homem na Educação Infantil e as questões de gênero:

LIMA, Carmem Lúcia de Sousa (2008). Fazeres de Gênero e Fazeres Pedagógicos: como se entrecruzam na Educação Infantil.

A autora aborda gênero, maternagem e docência, a partir de estudo empírico que contou com a participação de três professoras e dois professores de Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) da cidade de Teresina, Estado do Piauí. Destacamos uma das

conclusões que diz respeito à articulação entre os saberes domésticos e de experiência de vida e os saberes docentes, sendo que as turmas de Berçário e Maternal, via de regra, são destinadas às professoras, portanto, mais próximas da “maternagem” das crianças pequenininhas, enquanto aos professores as crianças maiores – de quatro e cinco anos de idade.

Ressaltamos que o estudo de Eliana Saparolli nos foi cedido pessoal e gentilmente por ela própria.

SAPAROLLI, Eliana Campos Leite (1997): Educação Infantil: uma ocupação de gênero feminino.

A autora relaciona gênero e a atividade profissional. Segundo Saparolli, a desigualdade de gênero se manifesta nas atividades ditas “femininas” e “masculinas”. Portanto, a função de “educador infantil” é uma atividade de gênero feminino devido ao cuidado com crianças pequenas. Uma das conclusões que evidencia em seu estudo, é que a falta de formação profissional é que desqualifica e desprestigia a profissão de professor/a de Educação Infantil, independente de quem a realiza, aproximando-a de uma atividade de gênero feminino, ou seja, a maternidade.

As teses selecionadas, considerando-se a base de dados CAPES, SCIELO E DOMÍNIO PÚBLICO, são em sua maioria recentes, em torno de 10 anos, e foi mais um em meio a tantos outros desafios enfrentados ao longo desta dissertação, dado a pouca familiaridade da pesquisadora com a internet e, principalmente, com estes sites de busca, evidenciando, sem dúvida nenhuma, as questões geracionais neste caso.

Este estudo busca compreender os professores homens na Educação Infantil, na rede de ensino do município de Guarulhos/ SP, a partir das relações de gênero. Assim, seguimos para o segundo capítulo que aborda esse conceito.

2 GÊNERO – QUE CONCEITO É ESTE?

É um conceito atual e para muitos/as de nós ainda estranho, assim optamos em conceituá-lo e contextualizá-lo historicamente através de alguns/mas dos/as principais estudiosos/as desses estudos, possibilitando favorecer uma maior compreensão sobre este conceito. Além do que, como já dito anteriormente gênero, enquanto categoria de análise nos possibilita buscar compreender o trabalho desenvolvido pelos professores homens na Educação Infantil da rede de ensino municipal da cidade de Guarulhos/ SP.

Os Estudos de Gênero que se consolidaram nos últimos 40 anos, na produção acadêmica ocidental, especialmente no campo das Ciências Humanas e Sociais, foram produzidos, na sua maioria, por pesquisadoras mulheres, que discutiam as relações sociais desiguais entre homens e mulheres, com foco na subordinação destas últimas (MEDRADO, 2008).

Nessa perspectiva, as historiadoras Soihet e Pedro (2007, p. 288), afirmam que gênero,

[...] nas ciências sociais, tomou outra conotação, e significa a distinção entre atributos culturais alocados a cada um dos sexos e a dimensão biológica dos seres humanos. O grande impacto que vem produzindo nas análises sociais funda-se em ter chamado a atenção para o fato de que uma parte da humanidade estava na invisibilidade – as mulheres –, e seu uso assinala que, tanto elas quanto os homens são produto do meio social, e, portanto, sua condição é variável.

Carvalho (2011, p. 99), professora na Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, em seu artigo O conceito de Gênero: uma leitura com base nos trabalhos do GT de Sociologia da Educação da ANPED (1999-2009), acerca do debate teórico sobre o conceito de gênero e dos/as autores/as que mais são utilizados/as nos trabalhos do referido grupo, no subtítulo Gênero: uma história, relata que o termo gênero foi apropriado inicialmente por autores e autoras da língua inglesa, a partir da palavra gender, tal como em português, e era utilizado no âmbito da gramática para designar palavras femininas e masculinas (ou neutras). Faz referência a Donna Haraway (2004), para quem todos os significados modernos de gênero se enraízam na observação de Simone de Beauvoir, escritora francesa e feminista, de que ‘não se nasce mulher, torna-se mulher’6. Este “paradigma de gênero”, de acordo com Haraway (2004), foi consolidado nos anos 1950/ 1960 por meio de

6Frase do livro “O segundo sexo” de Simone de Beauvoir, publicado em 1949, na França. Marco da questão

uma versão funcionalista e essencializante da percepção de Simone de Beauvoir, utilizada por psicólogos norte-americanos como Money (1974), Ehrhardt (1974) e Stoller (1968), baseado na distinção binária entre natureza (sexo enquanto base natural, biológica, invariável) e cultura (gênero), apropriada inclusive por feministas7 dos anos 1970 e seguintes.

Com relação a essa apropriação Scott (1995), na década de 1980, afirma que o termo “gênero” aparece como uma rejeição ao determinismo biológico implícito em termos como ‘sexo’ ou ‘diferença sexual’, introduzindo uma noção relacional, ou seja, uma organização social da relação entre os sexos, numa crítica explicita a essa visão funcionalista e essencializante, anteriormente utilizada, buscando desnaturalizar o conceito de papéis sexuais.

Retornando ao texto de Carvalho (2011), esta destaca que ao longo dos anos 80, a já citada Scott, e outra estudiosa feminista Nicholson, buscavam compreender o sexo como uma “categoria teórica” determinada pela história e pela cultura, ou seja, “[...] são as formas sociais de compreensão da diferença e da semelhança entre homens e mulheres que determinam as maneiras como o corpo é apreendido, abandonando completamente a ideia de uma base natural fixa sobre a qual agiria a cultura” (CARVALHO, 2011, p. 102).

Ainda Nicholson: “a população humana difere, dentro de si mesma, não só em termos das expectativas sociais sobre como pensamos, sentimos e agimos; há também diferenças nos modos como entendemos o corpo” (2000 apud SOIHET e PEDRO, 2007, p. 294).

Nessa mesma direção, ainda segundo Carvalho (2011), o pensamento da antropologia feminista tem um papel central ao revelar que em diferentes culturas as noções de corpo, identidade, sujeito, maternidade, masculinidade, feminilidade, entre outras podem ser totalmente diferentes da “ocidental”, ou ainda, não existir enquanto noções fixas ou separadas. O mesmo se dá com relação à reflexão sobre as linguagens, onde os discursos, a historicidade dos conceitos e das palavras, denominado “virada linguística”, produz significados e sentidos que podem e devem ser problematizados. Essa “virada” foi possível verificar ao longo dos anos de 1980 e 1900, não só no pensamento feminista, mas também no conjunto das ciências sociais.

No contexto desta “virada linguística”, Carvalho (2011) faz referência ao texto de Scott – Gênero, uma categoria útil de análise histórica, como o mais citado no Brasil, que foi produzido originalmente em artigo em 1986 e, posteriormente, como capítulo no livro Gender

7

Feminismo é um movimento social, filosófico e político de reivindicação de direitos igualitários que nasceu no século XIX no Reino Unido e Estados Unidos e ocupou lugar de destaque, no decorrer do século XX, nos Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra e se espalhou para outras partes do mundo.

and politics of History, de 1988, traduzido por Louro, em 1990, tendo grande repercussão no campo de estudos de gênero no país, sendo republicado em 1995 no mesmo periódico. Esse texto, ao colocar o gênero como uma categoria de análise, possibilita problematizar não só o que diz respeito às mulheres especificamente, “mas também às esferas econômica e política e as vidas dos homens tanto quanto das mulheres” (CARVALHO, 2011, p. 103), destacando, portanto, a necessidade de estudar igualmente homens e mulheres.

Outra contribuição importante para o entendimento das relações de gênero, citada no estudo de Carvalho (2011) tem em Bourdieu, intelectual francês, uma referência. Em seu livro a Dominação Masculina (1999), o autor “destaca a dimensão simbólica de toda relação de dominação, [...] inscrito no habitus e nos corpos, uma vez que ‘o essencial da dominação masculina’, é a sua dimensão simbólica, o que o remete a uma ideia de ‘habitus sexuado e sexuante’, o qual produz construções socialmente sexuadas do mundo e do próprio corpo”, enfatizando a partir dessa categoria teórica, que “[...] toda percepção do corpo, da diferença sexual e da sexualidade é socialmente construída. [...] O habitus é produto de ‘um formidável trabalho coletivo de socialização’, por meio do qual cada um incorpora posturas, gestos e maneiras sexuadas, assim como a visão dominante e a divisão sexual do mundo, da sociedade e das coisas” (1999 apud CARVALHO, 2011, p. 107).

Para Carvalho (2011), Robert Connell ou atualmente Raewyn Connell8, professora da universidade de Sydney, Austrália, sua principal contribuição teórica são os debates sobre as masculinidades, tendo em seu livro Masculinities (1995) sua obra de maior influência, onde aborda a construção social das masculinidades a partir do desenvolvimento do conceito de “masculinidade hegemônica”, recusando-se a toda definição essencialista do que seja masculinidade, posto que em cada sociedade, época e entre diferentes grupos sociais, há formas, excluindo-se o raciocínio binário, de “ser homem” e “ser mulher”, dada as situações contingentes e históricas. Como descreve Carvalho, Connell (1997)

[...] partindo de uma definição de gênero como ‘uma forma de ordenamento da prática social’ (1997, p. 35, tradução Carvalho), afirma que masculinidades e feminilidades são ‘configurações de práticas de gênero’ (idem), que se transformam ao longo do tempo, seja em razão de mudanças externas (econômicas, tecnológicas etc.), seja em razão da dinâmica mesma dessas relações. Além disso, as configurações de gênero podem ser encontradas tanto na vida individual como em instituições como o Estado, o mercado de trabalho ou a escola. Por isso, o gênero está ‘inevitavelmente envolvido com outras estruturas sociais’ (idem, p. 38, tradução Carvalho), ele interage com outras relações de poder tais como as relações de classe e de raça. ‘Para entender o gênero, devemos então ir constantemente mais além do próprio gênero’ (idem, ibidem) (1997 apud CARVALHO, 2011, p. 113).

8

Há alguns anos Raewyn vivenciou uma transição de gênero, com total apoio de sua família e colegas de trabalho” (Carvalho, 2011, p. 111).É uma figura de destaque no campo da produção sociológica.

Joan Scott (1995, p. 21-23), em seu texto Gênero, uma categoria útil para análise histórica, afirma que sua definição de gênero baseia-se em duas proposições interligadas, mas analiticamente distintas: “(a) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos; e (b) o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder”. Além disso, para a autora, há ainda quatro elementos relacionados na construção de gênero e que operam entre si:

1) “[...] Símbolos culturais que evocam representações simbólicas (frequentemente contraditórias)” e que variam em diferentes culturas. Cita como exemplos: Eva e Maria, como símbolo da mulher, na tradição cristã do Ocidente; como também mitos de luz e escuridão, inocência e corrupção, dentre outros;

2) Conceitos normativos que estão presentes nas doutrinas religiosas, educativas, científicas, políticas ou jurídicas, e se configuram em uma oposição binária, que afirma o sentido do masculino e do feminino de forma categórica e a posição dominante como a única possível;

3) Noção de fixidez presente na representação binária dos gêneros, cuja origem precisa ser buscada historicamente, incluindo uma noção política, relativo às instituições e às organizações sociais.

4) Identidade subjetiva, demanda uma interrogação histórica da construção e da atualização concreta das identidades de gênero relacionada com uma série de atividades, organizações sociais e representações culturais.

O argumento de Scott (1995, p. 22) nos possibilita perceber que “[...] o gênero é um campo primeiro no seio do qual ou por meio do qual o poder é articulado [...]”, não é o único, como afirma, mas é um meio persistente e recorrente de tornar eficaz a significação do poder, na medida em que ele se torna um conjunto de referências que organiza simbólica e concretamente a vida social, como pudemos depreender dos elementos citados acima. Ainda segundo a autora: “O gênero é, portanto, um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana” (SCOTT, 1995, p. 23).

Medrado (2008, p. 821-2), afirma que as ideias de Scott sobre poder, estão baseadas na perspectiva foucaltiana, para quem as relações de poder são entendidas “como jogos desiguais inscritos em práticas discursivas que constituem ‘campos de forças sociais’” presentes em quaisquer relações humanas. Assim sendo, os dispositivos de poder são um conjunto heterogêneo de mecanismos que englobam instituições, leis, discursos, enunciados científicos etc., ou seja, micropoderes, por meio dos quais se obtém a sujeição e o “controle dos corpos”.

Para Rosemberg (2001, p. 515), o conceito e a teoria de gênero pautam-se numa sociedade estruturada em torno de relações de dominação e que considera “as atividades associadas ao masculino como superiores às atividades associadas ao feminino, independentemente do sexo das pessoas que as executam”. Segundo a autora, é a definição desse conceito que sustenta suas pesquisas sobre a construção social da infância e adolescência, tendo como foco a educação.

Ainda Rosemberg (1999), em seu texto Expansão da Educação Infantil e Processos de Exclusão cita Izquierdo, estudiosa catalã, como representante de uma das correntes feministas contemporâneas, e com quem diz ter afinidades no campo político e teórico, para quem nas relações de gênero há uma concepção hierárquica de dominação do gênero masculino sobre o feminino. Segundo Izquierdo,

As capacidades específicas das fêmeas têm a ver com atividades de gênero consideradas de segunda ordem para o funcionamento e desenvolvimento da sociedade precisamente às relativas à produção da vida humana. As atividades específicas dos machos, relativas à produção e administração das coisas, consideram-se fundamentais, de primeira ordem. A partir dessa valorização distinta do masculino e do feminino constrói-se uma hierarquia dos gêneros. A hierarquia dos gêneros conduz ao estabelecimento de relações de dominação/ subordinação entre o gênero masculino e o feminino, independentemente de qual seja o sexo das pessoas que ocupam os espaços sociais de gênero, nas relações de gênero. A título de exemplo, a prática da enfermagem é uma atividade de gênero feminino e a da medicina de gênero masculino. Do ponto de vista das hierarquias, a medicina ocupa um posto superior da enfermagem inclusive quando é uma mulher quem exerce a medicina e um homem quem exerce a enfermagem, porque, acima de tudo, as relações de gênero são relações de caráter hierárquico. (grifos da autora apud ROSEMBERG, 1999, p. 11).

No Brasil, a questão de gênero para Ferreira e Carvalho (2006):

[...] os estudos sobre mulher, sexualidade e relações sociais de sexo, ganharam impulso na década de 1980, motivados pelo estabelecimento da Década da Mulher (1975-1985) pela ONU. Desde então, a academia brasileira vem participando dos diversos eventos dedicados à mulher patrocinados pela ONU, a exemplo da Conferência de Beijing 3, em 1995, e avançando na produção científica sobre essa temática. Já se evidencia uma crescente produção de trabalhos acadêmicos sobre gênero em revistas especializadas (com destaque para Estudos Feministas), dissertações de mestrado e teses de doutorado, núcleos de estudos em universidades, e grupos de trabalho (GTs) em reuniões científicas, a exemplo das Associações Nacionais de Pós-Graduação (ANPED, ANPOLL, ANPOCS, ANPUH) e da SBPC. Porém, essa produção ainda é concentrada no viés feminino (FERREIRA e CARVALHO, 2006, p. 147).

Louro (2003), estudiosa feminista, é uma referência na discussão das relações de gênero e educação, e muito citada nos diversos trabalhos que abordam essa temática, e para quem gênero não é apenas uma ferramenta analítica, mas também política. No sentido de que para além da biologia do corpo, há uma construção social sobre este corpo e, sobretudo como

este é compreendido e representado no campo social, posto que é nele que se constroem as relações (desiguais) entre os sujeitos.

Nesta perspectiva afirma,

As justificativas para as desigualdades precisariam ser buscadas não nas diferenças biológicas (se é que mesmo essas podem ser compreendidas fora de sua constituição social), mas sim nos arranjos sociais, na história, nas condições de acesso aos recursos da sociedade, nas formas de representação (LOURO, 2003, p. 22).

Para Jardim e Abramovicz (2005), gênero, enquanto categoria surgiu para estudar as relações entre mulheres e homens, e também um instrumento importante na produção do conhecimento da pesquisa na área. “Ela produziu lideranças, conduziu ações e atravessou a classe social, que chegou a ser entendida como uma categoria universal, enquanto que a questão do gênero permanecia no plano da ideologia” (JARDIM e ABRAMOVICZ, 2005, p. 112).

Embora possa haver diferentes perspectivas analíticas, com relação ao conceito de gênero: umas que defendem as igualdades e outras que enfatizam as diferenças, todas

Benzer Belgeler